segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Pérfida Albion


Depois de se isolar e ser o único país da UE a se recusar a participar das decisões da ultima reunião de cúpula da Comunidade que tratou da crise, a Grã Bretanha reaparece nas manchetes.

Ela estaria se preparando para retirar os cidadãos britânicos de Portugal e da Espanha em caso de colapso dos bancos da região. Uma operação de resgate para retirar mais de um milhão de residentes britânicos com aviões, barcos, ônibus e carros.

A notícia vazou de uma fonte não idenficada do Foreign Office, o ministério das relações exteriores e foi manchete hoje, 19.12.11, no Daily Telegraph.

O Sunday Times deu a mesma notícia.



Oficialmente o Foreign Office admitiu ter planos de contigência para situações de motins e agitação social nos países da zona do Euro na sequência de um colapso financeiro dos bancos e da moeda.

Notícia, vazamento, confirmação.

Trata-se do mais puro terrorismo político. Táticas de contra-inteligência usadas largamente no terceiro-mundo para desestabilizar regimes.

Uma irresponsabilidade criminosa capaz de precipitar uma corrida aos bancos com o conseqüente efeito dominó que poderia levar a um crash bancário em Portugal e na Espanha e a uma crise destrutiva para o Euro.

Um ato requintado vindo do país que a diplomacia internacional conhece como Perfidious Albion.

A Pérfida Albion.



Registros da frase remontam ao longínquo século treze. Oitocentos anos atrás.

No século dezessete foi usada pelo teólogo francês Jacques-Bénigne Bossuet. L'Angleterre, ah, la perfide Angleterre. Ele se referia ao fato de que protegida por seus mares era infiel à fé recebida.

O uso atual da frase é atribuído a um poema de Augustin de 1793 sobre a traição inglesa ao Tratado de Limerick de 1691 que encerrou uma guerra religiosa.

O tratado consentia liberdade de culto, de propriedade e porte de arma, mas os termos foram repudiados pelas Leis Penais de 1695.



O curriculum histórico é grande e inclui a captura, sem declaração de guerra, de centenas de navios franceses em 1755, fazendo milhares de prisioneiros durante a Guerra dos Sete Anos entre a França e a Áustria.

O ataque de surpresa de Nelson contra a frota dinamarquesa em Abril de 1801.

A interferência da marinha britânica, apesar da declaração de neutralidade, na Guerra Russo-Turca de 1877-1878 para evitar a queda de Istambul para os russos.

Há muito, muito mais.



A frase Pérfida Albion é um lugar comum na diplomacia mundial.

Ela foi usada publicamente pelo vice-presidente americano Dick Cheney reagindo à reunião de Novembro de 2008 do ministro do exterior britânico David Miliband com o presidente sírio Bashar al-Assad.

Os portugueses têm um fascínio doentio pelos ingleses.

Ainda em 1990 a elite portuguesa, ia ao dentista e até ao cabeleireiro em Londres.

Eles entregaram aos ingleses e por nada, no máximo um casamentosinho, a Índia, o chá, o ouro do Brasil e o vinho do Porto.

D. João VI e sua corte, fugindo de Napoleão, deixou o próprio país nas mãos do ingleses e do futuro duque de Wellington. É dessa época a frase Tudo como Dantes no Quartel de Abrantes.

A própria independência do Brasil foi comprada quando D. Pedro I assumiu uma imensa e mal explicada dívida portuguesa com bancos ingleses.

Há mais, muito mais nessa relação anglo-lusa.



Mas agora a Pérfida Albion talvez tenha ido longe demais manipulando e “vazando” uma noticia como essa para a imprensa.

Se não houver equilíbrio uma corrida aos bancos será fatal para a já combalida terrinha de Camões.

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