quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Um bruxo. Uma princesa.


Vinte e seis de Dezembro.

Depois do Natal em Sampa, destino Angra dos Reis. Saída de São Paulo tranquila estrada livre. São José, Taubaté e descida da Serra.


Que serra!


No trecho preservado de mata atlântica uma delícia de curvas de fazer inveja ao rally de Monte Carlo. Uma descida mais radical que a dos Alpes-Maritimes ao principado. Quem já se divertiu por ali ou se lembra da abertura de GoldenEye com Pierce Brosnan na DB-5  brincando com a Famke Janssen numa Spider 355 sabe do que se trata. Pena que o tráfego não deixava nos divertir.





Fazia o dia mais quente na região desde 1917.


Quarenta e nove, sensação térmica de cinqüenta e dois graus. Um recorde de quase cem anos. No resort dezenove pessoas desmaiariam de calor.


Um calor infernal antes de chegar ao paraíso. Duas mil praias, mais de trezentas e sessenta ilhas, uma baía perfeita, cercada de montanhas e cachoeiras. Um dos três melhores lugares do mundo para se navegar.





Um resort deslumbrante, exclusivo, imenso. Campo de golf, cachoeiras, vários canais com piers exclusivos nas casas, trilhas, praias, vilas, bares, lojinhas, restaurantes, iates atracados nos jardins das casas.

Muita gente chegando. Apesar dos dois heliportos houve engarrafamento e vez por outra um helicóptero precisava dar umas voltas antes de encontrar espaço para pousar.





Dez dias de pecados, também gastronômicos, nos esperavam. Entrada, frutos do mar, aves, carnes e sobremesas no almoço. No jantar idem, mais o creme ou sopa. Irresistível, depois a malhação compensaria.


Ao fim de todas as delícias dos muitos dias de dolce far niente - ou quase - dois fatos deliciosos. Um prato e uma frase.





O prato.


Na praia em frente ao resort, sentado próximo ao restaurante, começo a sentir o delicado aroma de cebola sendo preparada. Certamente era um roux que estava sendo feito para a confecção de algum prato. O perfume era refinado, exalava boa manteiga e a doçura das cebolas dourando. Sentia-se que o roux não chegava ao ponto de queima, que escurecia até o ponto certo. Algo maravilhoso estava sendo preparado por um mago em seus caldeirões.


No jantar a sublime revelação. A sopa creme de cebola que tornou o chef  Léo famoso no hotel Maksoud Plaza de São Paulo. Léo atiçava o paraíso com o pecado da gula.


Um bruxo.





A frase.


Ainda em São Paulo um casal se preparava para voar para Angra. Sabendo do enorme calor que fazia na praia ela pede a ele,


- Meu amor, manda o helicóptero na frente com os empregados para ligar o ar condicionado e fazer meu suco de laranja. Bem geladinho.


Uma princesa.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Sampa City


Vim passar o Natal com Patrícia, minha filhota, em Sampa. Sampa capital, pois em São Paulo eu já estou numa chácara a 60 km do centro. Um dos lugares menos poluídos, mais agradáveis e silenciosos em que já estive.


Pat mandou um motorista me buscar na chácara. “Seu” Carlos me trouxe em cerca de 50 minutos até o Brooklin, trânsito tranquilo, sem stress. Em menos de uma hora, saímos de um refúgio quase monástico para o centro de uma das maiores cidades do planeta.


À medida que chegávamos, a cidade se impunha no horizonte, o tráfego aumentava, as pistas da auto-estrada se enchiam. O transito se condensava.





Sampa surgia ao longe quase irreal. Estávamos penetrando na metrópole. A cidade chegava, crescia, nos rodeava, surgia assustadora nas dimensões. O tempo que estava ótimo no campo, na cidade estava péssimo.


Avistava-se a cidade dentro de uma bolha esfumaçada de nuvens escuras. A cidade surgia dentro de uma redoma cinza nas extremidades, completamente negra no centro, com raios cortando o céu interior.


A bolha que crescia à nossa frente, ficou enorme nos encobrindo. O tempo piorava, os raios explodiam em todas as direções. A bolha nos envolveu completamente. Estávamos na cidade. 





Ao nosso lado transito intenso, carros rápidos, mais e mais pistas, viadutos se sucedendo. O céu cinzento repleto de raios. Sampa é a cidade com a maior incidência de raios do planeta.


Os prédios altos e espelhados refletiam os raios, a cidade como um todo explodia em luzes faiscantes. Alguns carros esporte passavam em velocidades muito acima do permitido cortando o transito insanamente.


Muitos helicópteros cruzavando o céu, aviões à jato com turbinas zunindo alto, voando muito baixo, descendo enfileirados no centro da cidade, pousando entre os prédios. Os carros em muitas pistas zuniam em muitas direções. Tudo acontecia freneticamente.



Uma Gotham City apocalíptica, esfumaçada, fechada em si própria, desenhada em preto e branco num cartoon alucinado. Uma obra de Lang. Linda.


Definitivamente São Paulo é hyper-realista.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Toda esposa honesta precisa de um amante.

Toda esposa honesta precisa de um amante.



Um amante mantém a esposa tranqüila, descontraída, satisfeita. Ela pode se dedicar melhor ao lar, aos filhos e ao marido. Se sente mais desejada mais completa.


Tendo um amante ela pode ter pelo marido uma paciência e uma tolerância que de outra forma não poderia. Pode ter por ele o carinho que uma leve culpa lhe traz. Isso pode encher um lar de ternura. Um amante é essencial para o equilíbrio de uma família ajustada.





A esposa honesta que tem um amante pode ser para o marido quem ele desejar, pois ela pode ser com o outro quem ela deseja ser. Assim o marido terá sempre ao seu lado a esposa de seus sonhos.


A esposa que tem um amante é mais discreta que as amigas. Torce sempre o nariz horrorizada com as inevitáveis aventuras de suas colegas e as repreende, sendo assim um exemplo de moralidade para seus filhos. A esposa honesta só irá revelar seus segredos bem mais tarde para suas filhas e apenas quando elas se casarem, para ajudá-las em sua felicidade conjugal. - Filha já tens um marido, agora falta um amante.





O amante ideal para uma esposa honesta deverá ser sempre um homem muito mais jovem que lhe traga as alegrias do vigor da juventude. Um jovem amante faz muito bem para a pele e dispensa os trabalhos sem fim numa academia de ginástica.


Mas o amante perfeito é um sacerdote.


Uma vantagem dos amantes sacerdotes é que eles são necessariamente discretos. Os melhores são os padres católicos, pois além de todas as vantagens carregam o fascínio dos ardores da batina.


A vantagem suprema de um amante sacerdote é que ele além de proporcionar as alegrias do pecado também lhe trará o conforto da absolvição.





Um amante é a melhor maneira de afastar das esposas as tentações da infidelidade.

Se os maridos soubessem o bem que um amante trás para seus casamentos eles mesmo providenciariam um amante para suas mulheres.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Pobre Diabo


Quase não assisto televisão. Mas estava agora trocando um DVD e sem querer acessei um canal para mim completamente desconhecido.


A coisa aconteceu no exato momento em que um senhor de paletó e gravata dizia esta pérola impensável, inacreditável:


- Assine agora a Nossa Rede (acho que foi isso). Pegue seu cartão de crédito e ligue agora. Não perca nossa programação. Tem gente que já teve curas, outras conseguiram milagres depois de assinar a Nossa Rede. Este é o melhor conselho que este missionário pode lhes dar: assine já, não deixe que o demônio lhe impeça. Pegue seu cartão de crédito e afaste o demônio!





Não acreditei.


Não sabia que dava para expulsar o demônio com um simples cartão de crédito!


De qual bandeira? Acho que todas. Credicard, Visa, Mastercard, sei lá. Em quantas prestações? Bem, acredito é um detalhe para se tratar com a atendente, tipo assim:


- Senhorita dá para expulsar o demônio em quantas prestações?


- Depende. O senhor (senhor minúsculo, please) pode escolher em seis vezes sem juros ou em duas vezes com desconto.





Isso não é mais uma simples desmoralização da religião. Isso é o ridículo final.

É a decadência definitiva de um dos mais poderosos e significativos símbolos, ícones, figuras, arquétipos que acompanham a História, as angústias, os medos, os pesadelos do Homem.


Sinceramente senti pena. Pobre diabo.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Humor alemão


Sempre perco o amigo, mas não perco a piada.


Humor é necessariamente, psicanaliticamente, desrepressor. Não existe humor a favor, todo humor é contra. Todo humor é politicamente incorreto, se não, não tem graça. Isso é de uma obviedade que só não é ululante por que o Nelson não anda mais por aqui.





Claro que o supra-sumo do humor, seu melhor e mais perfeito destilado não é sequer o humor-negro inglês, é sem dúvida o auto-depreciativo judaico e o sarcástico alemão.


Melhor ainda a sublime mistura dos dois. Destas duas raças tão próximas. Não brinco, pense se existe algo mais próximo de um alemão que um judeu. Estão sempre juntos para o bem e para o mal, inventando desde uma língua até processos industriais especiais.





Bem, tudo isso para dizer que nunca me diverti tanto quanto morei na Alemanha. Depois de ganhar intimidade com amigos e colegas ouvi as mais terríveis e impensáveis piadas de judeu, polonês, nazistas, comunistas e naturalmente as auto-depreciativas de alemães.


Algumas delas dói só de pensar e não sou nem louco de publicá-las aqui. Mas há uma delas que é real, essa posso contar, já que é pessoal.





Minha mãe morreu em minha casa na Alemanha. Sem conhecer bem os procedimentos legais e práticos pedi ajuda a um amigo e colega de trabalho.


- Horst minha mãe morreu e preciso tomar as providências.


- Você prefere cremar ou enterrar? Cremar é mais simples e mais barato.


- Vou preferir cremar, afinal vocês tem uma larga experiência.


- Somos ótimos nisso. A propósito Ivan, você faz questão de guardar as cinzas?


- Por quê?


- Por se não quiser guardá-las, você poderá economizar bastante. A cidade tem um excelente sistema waste-to-energy. 


- É verdade. Basta comprar um saco marrom.





Nos abraçamos de tanto rir, quase caímos no chão. Nossa secretaria apareceu para ver o que estava acontecendo na sala.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Projeto Novo Recife


Eu comentava com o Léo Falcão o absurdo do Projeto Novo Recife que pretende fazer uma intervenção urbana no Cais José Estelita.


O projeto prevê a construção de cerca de 12 torres habitacionais, de quase 40 andares cada, numa área enorme de mais de 100 mil metros quadrados à beira do rio Capibaribe.


O PNR é por qualquer ótica irracional, ideologias à parte.





Fazendo um raciocínio absolutamente amoral, sem ética alguma, apenas econômico: todo dinheiro gerado, seja da droga, da corrupção, de qualquer crime movimenta a Economia, cria riqueza, emprego e renda, pois idealmente continua circulando dentro de um sistema fechado.


Há variações mínimas do dinheiro do crime aplicado no mercado interno devido a remessas para o exterior. Elas são muito menores que as remetidas pelas transnacionais e mesmo a parcela que é remetida ilegalmente para o exterior acaba retornando devidamente washed.


Em termos estritamente econômicos o crime não apenas compensa como também é saudável para a economia por sua agilidade e informalidade financeira. O livre mercado se exerce magnificamente no crime organizado, mas isso já é outra história.





No caso do PNR analisando o único argumento razoável que justificaria o empreendimento - por gerar riqueza, emprego e renda - ele se sustenta apenas no modelo acima.


Mas mesmo e ainda assim o PNR não se justifica.


Os custos ambientais no longo prazo, os custos distribuídos de aumento de consumo de combustível per capita, as horas produtivas dispendidas em engarrafamentos, o aumento do consumo de eletricidade na cidade para manter a refrigeração necessária pelo aumento da temperatura criada pela barreira de concreto, todos estes custos ultrapassam em muito a riqueza, a renda e o emprego gerados pelo empreendimento.


Não deve ser difícil fazer esta conta.





Detalhe: esta conta será rateada democraticamente pelos contribuintes.


Pior: a situação leva, a longo prazo, a um aumento das despesas do município sem uma receita comparável o que significará uma piora nos serviços prestados a todos os contribuintes.


Resumo: é ele o contribuinte quem vai pagar a conta no longo prazo. Tanto financeiramente quanto em qualidade de vida.


Novamente: a riqueza gerada no curto prazo pelo empreendimento não justifica os prejuízos no médio e longo prazo. Nem mesmo para os empreendedores que se tornarão passíveis de processos legais.




OK, o terreno tem dono. Foi comprado legalmente. O dono faz o que quiser.



Será?

Nem tudo que é legal é legítimo. O leilão levou em consideração o futuro uso de um bem destas proporções?

O dono faz o que quiser com o que é seu.

Você faz o que quer com o controle remoto de sua televisão?





Às vezes as soluções mais simples e óbvias estão tão perto do nariz que não as vemos.


O Tube por exemplo. O Underground, o metrô de Londres.


Ele tem mais de um século, quando começou era movido por trens à vapor queimando lenha!


A grande importância histórica do tube é que ele foi usado como elemento fundamental na expansão de Londres. Quando se detectava uma necessidade habitacional as linhas do tube eram estendidas numa determinada direção.


Isso é hoje divulgado com orgulho pela London Underground que se sente parte do planejamento sustentado de Londres. Há mais de cem anos.


Os estate developers e building contractors naturalmente participavam do planejamento e novos bairros eram planejados, construídos e ocupados.


Todo mundo ganhava dinheiro, muito dinheiro, sem criar um caos urbano.





Recife tem uma saída óbvia e fácil que é a rodovia 232.

Ela poderia ser ocupada nas duas margens por condomínios horizontais com ótima qualidade de vida, e servidos por um trem metropolitano rápido de superfície. As construtoras ganhariam muito mais do que com apenas uma dezena de prédios. Há soluções capitalistas, sustentáveis e racionais.





Recife está perigosamente atingindo um ponto de não retorno urbanístico que não pode nem deve ser tolerado por quem ama (*) a cidade e por quem quer continuar gerando riqueza nela.


Dentro do livre mercado, mas com um mínimo de racionalidade e visão de longo prazo.

Hello Adam, cadê a mão invisível para dar umas palmadas nestes aprendizes?



(*) ou gosta, ou curte, ou convive, ou suporta, ou tem tesão, sei lá, relacionamentos são complicados.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Boris


Quem me conhece sabe que não sou muito chegado a animais. Cães e gatos em especial. Seres orgânicos em geral.

Tive um cão quando era garoto. Adorava-o.

Um dia mudamos de cidade, o cão ficou, chorei muito. Minha primeira grande perda, meu primeiro luto.

Trauma ou não o fato é que depois daí nunca mais quis saber nada com pets. O hábito tornou-se natureza e me percebo, e sou percebido, como alguém que não gosta de cães.



Eis que vou passar uns dias na chácara de um amigo. Chegamos lá num fim de semana. Na chácara há quatro cães. Um deles, um rottweiler, negro, imenso, assustador. Boris.

Como ficarei sozinho na chácara durante a semana, o meu amigo prudentemente me “treinou” para ter proximidade com todos os cães.

Principalmente com Boris, o imenso rottweiler.



Superei minha desconfiança, meu medo e principalmente meu nojo. Aprendi a alimentar, brincar, dar carinho e comida diretamente na boca de Boris.

Boris tem dois anos, um adolescente em termos humanos. Enorme, pesado, um pelo negro luzidio belíssimo. Uma boca enorme com dentes perfeitos para uma execução penal.



Aprendi a gostar dele. Foi recíproco.

Boris tem olhos meigos. Imenso, uma força da natureza, belo e assustador como um trovão.

Descobri um afeto novo, dando comida em sua boca, alisando seu corpo enorme, seu pelo macio, falando com ele, brincando com ele. Boris conquistou, reacendeu um ponto qualquer de minha afetividade.

Todas as noites, eu lhe dava aqueles nugets que os cães adoram, alisava seu pelo, me despedia e ia dormir tranquilo.



No dia seguinte Boris era o primeiro a me saudar correndo em minha direção, querendo brincar. A boca imensa, assustadora, uma postura brincalhona, imponente.

Eu descobria algo novo ao me afeiçoar ao Boris. Os dias se passavam, eu me sentia cada vez mais familiarizado com ele. Quem me conhece jamais acreditaria se me visse brincar tão alegremente, tão intimamente e próximo com um cão.

Principalmente meus filhos que adoram cães e nunca aceitaram muito bem que eu não gostasse. Boris um imenso e assustador rottweiler negro quebrara com sua alegria uma barreira enorme.



Um dia acordo e sinto falta de Boris. Ele não estava na chácara.

Nem ele nem nenhum dos outros cães. Eles haviam saído todos pela cerca durante a noite. O caseiro estava a procurá-los pela região.

Fiquei preocupado, Boris era um adolescente desfrutando de uma liberdade nova para ele. Era preciso encontrá-lo. Passei também a procurá-lo.

Não foi preciso procurá-lo por muito tempo. Encontrei o caseiro voltando para a casa. Boris tinha entrado em outra chácara. Uma chácara onde havia outros rottweilers.



Boris, enorme, negro, viu os outros cães, viu o dono da chácara.

Boris é brincalhão, correu para eles.

O homem viu Boris.

O homem estava armado.

O homem puxou o gatilho.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mensalão


Afora a enorme importância histórica e jurídica no julgamento do “Mensalão” há nele um detalhe técnico da maior importância. 


Os ministros do Supremo, tanto o relator quanto o revisor, concordaram que as provas exigidas para a comprovação de crime de corrupção passiva se concentram no núcleo principal do crime.





Para condenação basta que exista uma expectativa da prática do “ato de ofício” isto é da vantagem solicitada.


Traduzindo: o crime é praticado pelo recebimento de dinheiro – ou de qualquer valor material - em troca de vantagem indevida.  Mesmo que ela não aconteça.





Isso significa que quando um político ou qualquer outro funcionário público recebe um valor indevido ele poderá ser condenado por corrupção passiva. Não interessa para quê ele recebeu. Se foi para campanha eleitoral ou para uso pessoal.





Com esta decisão do Supremo forma-se jurisprudência, clara e de última instância, para entre outras coisas se conhecer todos os doadores das campanhas eleitorais.


Políticos que recebem valores e não declaram poderão ser condenados por corrupção passiva.





Por mais óbvio que pareça isso não estava suficientemente claro na jurisprudência brasileira.


É um enorme passo em direção à normalidade republicana.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A Mão da Limpeza


Toda esta história do Mensalão e sua estrela o juiz negro Joaquim Barbosa fazem lembrar os versos de Gil em A Mão da Limpeza.





O branco inventou que o negro, quando não suja na entrada, vai sujar na saída.


Na verdade a mão escrava passava a vida limpando o que o branco sujava.


Negra é a mão de quem faz a limpeza, lavando a roupa encardida, esfregando o chão. Negra é a mão da pureza, negra é a vida consumida ao pé do fogão, negra é a mão nos preparando a mesa, limpando as manchas do mundo com água e sabão.


Na verdade a mão escrava passava a vida limpando o que o branco sujava.


Mesmo depois de abolida a escravidão negra é a mão de quem faz a limpeza.


Êta branco sujão.





Valeu Negão!

sábado, 13 de outubro de 2012

Jazz


Estava agora fazendo o que mais gosto de fazer na vida. Não, não é sexo.


Sexo vem em terceiro lugar depois de surfar uma onda perfeita e ouvir um grande solo de jazz.


Era o que eu estava fazendo. Ouvindo um solo de jazz, inspirado, divino. Divino por ser perfeito, por ser absoluto, por ser fruto da prerrogativa divina de Criar.





Ao mesmo tempo em que fico extasiado lamento não ter semelhante talento. E por ter apenas a capacidade de apreciar, mas não a de criar me vem à cabeça quatro frases que definem minha alegria e minha frustração.


Uma de Castro Alves em Navio Negreiro, uma de Salieri em Amadeus, outra de Judas em Jesus Cristo Super Star e mais um conceito de Lutero. As quatro se superpõe e exprimem exatamente o que sinto,


- Ó Senhor Deus dos desgraçados, por que não me deste este talento? Se sabias por quer o permitistes?


Esta será a primeira pergunta que eu farei a Ele.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A Classe Média Vai À Farra


Que o Brasil é um país de festas não é novidade para ninguém, mas há um fenômeno social relativamente recente, que se intensificou na última década. A indústria de festas é hoje um dos setores mais dinâmicos da economia nacional. Festas de todos os tipos. Batizados, festas infantis, de quinze anos, de formatura, todas cada vez maiores e mais caras. Não faz muito tempo que festas de formatura eram só as universitárias. Agora há festas monumentais do segundo e até do primeiro grau.





Formaturas do segundo grau se transformaram em verdadeiros ritos de passagem. Eventos em centros de convenções com centenas de convidados, shows caros com apresentações artísticas comandadas por celebridades. Prêmios, presentes e viagens ao exterior geralmente fazem parte do pacote. Os pais levam anos pagando. Antes e depois.

Mas é nas festas de casamento que a classe média está competindo, gastando como nunca, desvairadamente, muitas vezes sem poder. Não há limites para a imaginação na disputa de quem faz mais, melhor, maior ou simplesmente diferente. Um noivo chegou no pátio em frente à igreja caindo dos céus de pára-quedas.


Muitas festas custam o preço de um ou mais imóveis, e imóveis caros. Recentemente uma família, neste caso realmente rica, construiu uma réplica em todos os detalhes internos e externos do Palácio de Versalhes para uma única noite de festa suntuosa de casamento. A construção foi demolida imediatamente depois.





Voltando à classe média.


Um casal de jovens universitários recém formados planejou pacientemente seu casamento em todos os detalhes. Ele não queria se casar antes de ter o apartamento novo de cobertura completamente adaptado e decorado. Ela não abria mão de antes da cerimônia passar pelo cirurgião plástico. O casamento incluía portanto uma construtora e um hospital. Antes da igreja.


A escolhida, no alto de uma colina à beira de um lago, foi ricamente decorada para receber os convidados e os mais de quarenta padrinhos e madrinhas. Um luxo.



Além dos detalhes óbvios, caros e já corriqueiros havia na igreja três conjuntos musicais que se revezaram cada um em seu momento da cerimônia. Uma orquestra de câmara para os momentos tradicionais, um conjunto de musica popular para os momentos menos litúrgicos e uma cantora de ópera para os momentos solenes.


O próprio casal cantou suas músicas preferidas. Uma cantada por ele durante a entrada da noiva na igreja. E uma outra no momento dos dois dizerem, cantando, o Sim. A orquestra de câmara preencheu os outros momentos e a cantora de ópera deu o toque apoteótico ao final. Ao fim da cerimônia na saída dos noivos pipocaram fogos de artifício. Um deslumbre.





Depois veio a festa numa das melhores casas de cerimonial da cidade. Há muitas casas especializadas em fazer festas e as mais caras se rivalizam no luxo e na ostentação. São festas que pela alta complexidade de produtos e serviços envolvidos exigem uma organização operacional e uma base logística que a maioria das pequenas empresas comerciais não dispõe.


A decoração de muito bom gosto foi assinada por um famoso arquiteto. O serviço de garçons, maîtres e auxiares, impecável. A variedade de bebidas tornava virtualmente impossível não atender qualquer desejo. Discretamente distribuídos havia paramédicos para os excessos. Nos toaletes femininos profissionais ajudavam em possíveis retoques no cabelo e na maquiagem. O buffet imenso, com incontáveis opções,  variaram permanentemente do começo da noite ao jantar, da ceia ao café da manhã no dia seguinte.


Tudo isso pago por duas famílias de classe média em valores equivalentes ao dos imóveis que elas habitavam.





A festa começou com uma orquestra big-band completa no palco tocando standards românticos e de época. Os casais rodopiavam no salão. A festa repleta de muita gente bonita, bem vestida e feliz. Depois a big-band foi substituída por uma banda de rock. Ao meio da apresentação de rock o próprio casal, ambos já vestidos com outro figurino, subiu ao palco, cantaram e apresentaram seu próprio show. Um sucesso.


Em meio aos aplausos eles agradeceram a todos, nominalmente a muitos e fizeram homenagens a alguns presentes. Numa delas o noivo se dirigiu a uma pessoa especial.


- Eu queria agradecer do fundo de meu coração a Maria Luiza que além de ter sido minha babá é uma pessoa querida de nossa família há muitos anos. Todos aplaudem e se voltam para uma mulher bonita de cerca de quarenta anos, acompanhada do marido e filhos. O noivo continua:


- Minha homenagem é ainda mais especial por que agora vou lhes contar um segredo. Foi com ela que aos 13 anos eu perdi minha virgindade!


Aplausos demorados, hurras e assovios. Gritam para ela elogios indecentes. Um frenesi.





Depois do show de rock o palco foi ocupado por um DJ que manteve, com música eletrônica, o ritmo frenético da festa até ao amanhecer quando o café da manhã começou a ser servido junto com as primeiras luzes do dia. O ritmo da festa não desanimava. Ao fim do café da manhã, já com uma música ambiente mais suave os convidados fomos todos surpreendidos com um som inconfundível que invadiu o local. Surgindo de todos os lados o ambiente foi tomado por uma bateria de escola de samba carioca. Completamente fantasiados eles encheram o lugar e fizeram todos se levantar para um carnaval.


Que Gran Finale!





Depois de muita música e animação e com o sol já alto a bateria da escola de samba foi saindo do local levando atrás de si os convidados em direção à rua. Formou-se um bloco de carnaval. A bateria ia na frente tocando alto. Os convidados iam atrás desfilando pelas ruas para surpresa da população. Um delírio. Um casamento inesquecível.

Que não durou seis meses. Nas colunas sociais da cidade apareceram fotos da noiva de biquíni na lancha de um senhor quarenta anos mais velho que ela. Ele estivera no casamento e se apaixonara pela estrela do show.

domingo, 26 de agosto de 2012

Beta e Jorge


Beta e Jorge. As pessoas do nordeste do Brasil são conhecidas por sua hospitalidade e solidariedade. São duas características com raízes sociológicas interessantes.


Mas aqui há uma história privada que tem mais a ver com o caráter pessoal do que com qualquer característica regional. É de longe a maior manifestação de solidariedade que conheço, principalmente por conta da relação entre os envolvidos.





Beta e Jorge. Ela é uma executiva e sócia de uma empresa que já foi considerada algumas vezes como a melhor do país. Ele apesar de engenheiro é funcionário do banco central brasileiro, culto, inteligente, excelente humor. Ambos de famílias tradicionais, ambos simpaticíssimos, ambos dos mais agradáveis anfitriões que conheço.





Os dois viajam ao máximo, têm filhos morando no exterior, adoram fazer turismo.


Um dia ele recebe um telefonema. Era um homem que ele tinha conhecido rapidamente em Londres numa de suas viagens, há mais de quinze anos. Coisa rápida, ocasional, eventual.


No telefonema eles trocam palavras simpáticas, falam de assuntos genéricos, como não podia mesmo deixar de ser para quem tinha se conhecido rapidamente numas férias há tanto tempo atrás. Mas o homem tinha uma história surpreendente e um pedido inusitado.


Ele estava na fila de espera para fazer um transplante. Por morar no Rio a fila era longa, as doações eram raras, a espera prevista para alguns anos, mais tempo do que seu organismo poderia suportar. Ele estava no limite.





O homem tinha um detalhe para contar e um pedido a fazer.


O detalhe é que ele havia descoberto que a espera para transplantes em Recife era muito menor do que no Rio e já havia se inscrito na fila de espera. Ele acreditava que faltava pouco tempo para ser chamado. Mas pela própria natureza das cirurgias de transplante ele precisava se mudar de cidade para esperar pelo momento exato e urgente entre a retirada do órgão do doador e a cirurgia do transplante. 


O problema era que ele não tinha onde ficar em Recife para esperar pelo momento de ser chamado. Momento incerto, naturalmente sem previsão, que poderia demorar bastante. Mas ele precisava estar próximo do hospital onde seria feita o transplante.


Jorge não esperou pelo pedido, antes do homem completar ele concordou imediatamente.





O homem veio. O homem se mudou para a casa de Beta e Jorge.


As semanas se passavam lentamente. O humor de Jorge foi fundamental na situação angustiante e bizarra de esperar que alguém morresse, fosse doador e compatível. Durante esta longa espera a namorada do homem veio visitá-lo e naturalmente se hospedou na casa de Beta e Jorge.


Como o homem não podia sair de casa, à espera de um amigável defunto, o casal não apenas o mantinha em excelentes condições físicas, mas naturalmente entretinha aquela figura permanente, onipresente na casa. Um desconhecido, um hóspede sem tempo previsível de permanência, à espera de um defunto solidário.


Imagino que esta convivência permanente, os diálogos, esta espera, o bizarro e o non-sense de toda essa situação dariam um filme excelente. Mas não era um filme, estava acontecendo em Casa Forte.





Um belo dia chega a alegre notícia da morte de um doador. Como tudo estava preparado foi rápido chegar ao hospital. Começava a segunda etapa. A vida do homem dependia dos médicos. Correu tudo bem, o transplante foi um sucesso.


Agora começava a terceira etapa: torcer pela não rejeição do órgão transplantado. Os amigos de Beta e Jorge visitavam o homem no hospital. Os dias se passaram, não houve rejeição.


Faltava a quarta e última etapa. A convalescência.


O homem voltou naturalmente para a casa de Beta e Jorge. O casal fez algumas reuniões com amigos para comemorar o sucesso do transplante. Algumas semanas se passaram, mais alguns parentes do homem vieram se hospedar na casa do casal.


A convalescência terminou, muitos exames foram feitos, a vida do homem estava salva.





Neste ponto a história que já ficou divertida acabou tirando o foco da questão principal. Solidariedade.


Um casal hospeda um desconhecido por meses em sua intimidade, cuida dele, lhe insere em seu círculo de amizades, luta por ele e salva sua vida.


Uma honra ter Beta e Jorge como amigos.

sábado, 18 de agosto de 2012

Uma terra, um pássaro, uma menina


Três fados, três destinos. Uma terra, um pássaro, uma menina.


Portugal.


Uma terra no limite das terras, uma terra no fim das terras. Para além, nada mais. Só o horizonte, a imensidão do mar, os azuis. O desconhecido, o medo, a esperança. Na razão desta terra, deste povo, um destino. O fado de seguir adiante, de se aventurar, de descobrir, de talvez nunca voltar. Subir aos barcos, se lançar ao mar, se levar ao vento. Sentir saudade.


Uma Gaivota.


Não há pássaro que melhor represente esta terra. Vivendo nos limites da terra e do mar, ora ao mar, ora à terra. Branca como as velas dos barcos, velejando nas brisas, se levando ao vento, ora só, ora acompanhada. Tirando do mar e dos ventos seu viver.


Vahine.


Uma menina de mar e de vento. No sangue a rebeldia do avô Zarco, primeiro navegador de Sagres, descobridor da Madeira. Na identidade o nome de um barco. Na alma a poesia dos ventos, no sangue o gosto pela liberdade. Na vida uma saudade. Uma menina feita no além-mar de uma terra, nascida no além-mar da outra. Ligando nas duas o sonho do Infante.


Três fados, três destinos. Todos iguais. No mar, nos ventos, nas saudades.





Quinta-feira, 10 de Março de 2011.


A menina estuda Animação, cinema de animação. São 13:00hs, ela sai da escola próxima ao Mercado da Ribeira em Lisboa. Caminha em direção ao Cais do Sodré. Quando atravessa a avenida 24 de Julho ela nota um bando de gaivotas voando baixo, em círculos, logo acima da rua. Abaixo no chão, uma gaivota agonizante. Atropelada por um carro.


O sangue lhe regela. A menina corre para a gaivota, o trânsito para. Ela vê a gaivota caída. Um grupo de jovens ao redor grita:


- Está viva.


A menina se lembra de ter visto próximo à sua escola uma casa com uma placa: Associação Protetora dos Animais. Corre desabalada para lá. Parte do grupo a segue. Quando lá chegam já encontram um senhor que tinha se antecipado, chegado antes. Vendo os jovens a chegar o senhor olha espantado para o grupo.


- Estamos juntos pela mesma causa, diz a menina.





A menina explica a situação para a funcionária que estava a atender na clínica. Que fossem até lá, que socorressem a gaivota caída na rua. Mas ela nota que algo de mal se passa. O senhor esta nervoso. A funcionária diz,


- Não há cá nenhum veterinário.


- Como não? diz a menina, estamos numa clínica, numa Associação Protetora dos Animais, pois não? Faça alguma coisa, a gaivota está lá na rua a morrer.


A funcionária responde,


- Estou só, não posso lá ir. Não há cá veterinários e daqui não posso sair, chamem os bombeiros. O senhor se irrita. O grupo grita.


- Faça alguma coisa ela está a morrer, diz a menina.


- E não a tragam para cá, é a resposta da mulher.


O grupo se exalta, xingam a funcionária. O senhor exige o livro de reclamações.


- Quero seu nome, diga lá seu nome.


- Não há livro de reclamações, nem direi meu nome.


O senhor se irrita ainda mais, o grupo se exalta, a gritaria aumenta.





Imediatamente a menina sai da clínica e corre para o local onde estava a gaivota. Parte do grupo a acompanha, todos correm pelas ruas. Chegam ao local.


- Vamos leva-la para lá, já!


A menina olha em volta, descobre uma caixa de cartão vazia.


- Cuidado, a asa parece partida.


Com a gaivota na caixa correm e voltam todos para a clínica. No trajeto enquanto correm a levar a gaivota, a menina saca do telemóvel, liga para os bombeiros, fala com eles, explica a situação. Eles dizem que,


- Não podemos ir busca-la, tragam-na para cá.


- Não podemos, somos jovens, não temos carros.





Chegam de volta à clínica, o tumulto havia aumentado. O grupo de jovens, o senhor e a funcionária discutem. A menina coloca a caixa com a gaivota na frente da funcionária


- Já cá estamos. A gaivota está aqui, pelo amor de deus cuidem dela.


- Saiam todos que vou fechar a clínica, está na hora do meu almoço.


A confusão aumenta ainda mais, os xingamentos pioram,


- Peixeira.


No meio da confusão um amigo gay da menina em bico de pés grita seu mais pesado calão:


- Ordinária. Sua ordinária!


Os colegas riem da ferocidade do garoto. A funcionária já está histérica, gritando com todos. Neste momento o senhor passa-se dos carretes, grita com ela,


- És mesmo uma varina, não passas de uma varina. Vai-te à Madragoa.


Um dos rapazes se exalta,


- A gaivota está a deitar sangue, não me ponhas panos mansos. Não fazem um corno!


Outro passa dos limites,


- Cabrona, granda cabrona é mesmo o que és.


Ainda a falar ao telemóvel a menina pede aos bombeiros,


- Nos ajudem, por favor.


- Não podemos, vocês têm de levá-la para tratar à Monsanto.


- Não temos como lá ir. Passem-me para a Guarda Nacional!




Transferências de ligações são feitas entre departamentos. A menina sempre, sempre, sempre, sempre repetindo as mesmas explicações. A ansiedade aumenta. Finalmente a ligação é transferida para a Guarda Nacional Republicana, equivalente à Policia Federal brasileira. O tempo passava, a menina suava, a gaivota sangrava. Já muito ansiosa ela mais uma vez explica a situação, agora para a GNR,


- Por favor venham já.


- Mas você terá de se responsabilizar, precisamos de seu nome, seus detalhes.


- Não me importa, mas venham logo, ela está a morrer.


- Estamos a caminho.


A menina relaxa um pouco, afinal acima da GNR só mesmo apelando para as Forças Armadas.





Atraída pelo tumulto chega a polícia. Um policia da PSP, a policia de segurança pública, entra na clínica. O tumulto diminui um pouco. O policia entra, olha tudo ao redor, se aproxima da caixa onde está a gaivota. Abaixa-se até ela e tenta fazer uma festinha na cabecinha da ave. Ao tocá-la ele se assusta e se afasta. Todos correm para ele, lhe cercam e exigem que faça alguma coisa. Atordoado com tamanho tumulto ele diz alto a todos.


- Não posso fazer nada, não é meu departamento. E além de tudo ainda não estou a serviço, estou a caminho da esquadra.


E vai-se embora.





A indignação aumenta. A funcionária aproveita a confusão em torno do policia e enquanto o grupo estava distraído ela entra em uma outra sala. A menina nota o movimento e a segue. Quando a porta da outra sala se abre, a menina vê lá dentro uma outra mulher.


- Ó pá, mas quem é a senhora?


- Sou a doutora veterinária.


A menina não acredita.


- A senhora se esconde! Que absurdo. A senhora precisa atender a gaivota já, ela está a morrer.


- Não percebo nada de pássaros exóticos.


- Exóticos? Como exóticos? Lisboa está cheia delas.


- Não posso fazer nada, não sei o que fazer.


- Mas afinal cá não estamos numa Sociedade Protetora dos Animais?


- Isto aqui é uma clínica particular. Este nome, que tem mais de cem anos, é apenas uma tradição antiga. Sabias que é muito difícil mudar o nome de um estabelecimento comercial? Mas cobramos preços mais baratos.





A menina vai direto ao ponto.


- Não importa, faça alguma coisa, a senhora precisa atender a gaivota, ela está a morrer.


- Não sou obrigada a atende-la.


A menina se revolta, aumenta o tom de voz,


- Cá temos um absurdo, pois não? A senhora não respeita a vida? É inacreditável, a senhora não fez sequer um juramento ao se formar?


- Não fiz juramento algum.


- Como não? Minha mãe é dentista e fez. Coloque-a ao menos ao soro, pelo amor de deus.


- Saiam vocês todos daqui senão ligo para a esquadra, vou chamar a polícia.


- Não se preocupe minha boa senhora que cá já chamei a Guarda Nacional.





Intimidada a veterinária vai para o salão de entrada. O grupo se surpreende com a chegada dela.


- Quem é esta? Perguntam-se todos.


- É a veterinária!


Gritos, balbúrdia.


- Escondias-tes ó minha granda estúpida?


A veterinária se aproxima da caixa onde estava a gaivota, olha para ela e resolve levá-la para sua sala.


Se dirige para a gaivota, mas ao tomar a caixa nas mãos deixa-a cair ao chão. Silêncio mortal, todos olham pasmos. A caixa cai, a gaivota rola ao assoalho. A ave caída começa a sangrar pelo bico. Hemorragia interna. O grupo enlouquece. Gritam, avançam para a veterinária. Querem esganá-la. Entre xingamentos pesados, entre imensas palavras de calão se ouvem os gritos daquele garoto:


- Assassina! Ordinária. Sua ordinária. Não vales um cú!


A menina mais preocupada com a gaivota do que em agredir a veterinária tenta acalmar os colegas,


- Calma, calma, nosso problema não é a doutora. É a gaivota. Deixem-na fazer alguma coisa.


- Depois matamos esta assassina, responde o grupo.





A menina toma a gaivota e a leva cuidadosamente para a sala de atendimento seguindo a veterinária. Com a gaivota nas mãos ela sente entre seus dedos o coraçãozinho da ave já aos pulos. A veterinária deita a ave numa mesa e coloca-lhe um tubo de soro no bico. O sangue já se escorre pelos cantos.


- Por que então não lhe dás um calmante? Ela já tem o coração aos pulos, deve de estar muito nervosa.


- Já lhe disse que não percebo nada de aves exóticas.


- Exótica é a senhora que nunca olhou para os céus de Lisboa.





Ouvem-se batidas fortes na porta da clínica. O grupo silencia, correm para as janelas. A GNR chegara.


A menina corre para atender. Ela mesma abre a porta.

- Quem é a senhora Vahine? Pergunta um oficial.


- Sou eu mesma.


- Viemos buscar a gaivota. Vamos leva-la para o Centro de Recuperação de Animais Silvestres em Monsanto.


- Ótimo aviem-se, despachem-se por favor!


Os homens da GNR colocam a gaivota numa caixa transportadora e saem com a ave. O oficial diz à menina,


- Tenho pena, mas pelo estado da gaivota talvez ela não tenha sobrevida. Mas ela lá ficará e depois poderemos acompanhar o tratamento.

E saem rapidamente. A clínica aos poucos se acalma, se esvazia, as pessoas se dispersam. O senhor se aproxima da menina.


- Trabalho na Câmara de Lisboa, vou processar esta veterinária, vou mover-lhe um processo para lhe cassar a licença. A menina ouve calada, o pensamento distante, quase chorando. O que será da gaivota? O homem continua:


- Olhe minha menina, o que acabamos de ver é o espelho deste país, de nossos políticos, de nossos governantes. Um descaso total, uma irresponsabilidade total. Uma calamidade.





Triste, tensa, sentindo uma solidão amarga, a segurar o choro, a menina se afasta lentamente da clínica, deixando aos poucos para trás o lugar daquele pesadelo. Caminha para o Cais do Sodré para tomar o comboio para o Estoril, para voltar a casa. No caminho ela passa pelo local da avenida onde começara aquele dia. A pequena mancha de sangue já está escura, outros carros passam por cima. Umas penas brancas e pequeninas estão grudadas ao chão.


A menina entra na estação, procura a plataforma de embarque. Parada na plataforma, o olhar se perde nos trilhos do comboio que esta para chegar. Enquanto espera ela sente raiva. Uma tristeza salgada a tingir a alma, o céu a escurecer, a saudade de alguma coisa a acalmar o peito. Fado.


O comboio chega, ela entra, senta numa cadeira ao lado de uma janela para estar ao mar no trajecto. O comboio arranca, barulho de rodas nos trilhos, paisagem a passar, mar ao lado, horizonte ao longe. No céu não há mais gaivotas, só umas poucas velas de barcos.

Ela encosta o nariz no vidro da janela, o vidro embaça com sua respiração ainda tensa, ela esconde o rosto e soluça baixinho. De pena, de raiva. Muita raiva. Como estará a gaivota?



O comboio chega ao Estoril, a menina salta, caminha para casa, a alma vazia, os passos a lhe levar, o choro seco. Entra em casa, vai direto ao quarto. Uma noite imensa lhe espera. Imagens, tumulto, sangue de vida tão fugaz, tudo a lhe preencher as horas lentas até um novo dia. Sono entrecortado aos pesadelos. Um novo dia mudará tudo? E se meu pai que esta lá do outro lado deste oceano estivesse cá, teria sido diferente?  Não sei, mas pelo menos eu teria seu colo para voltar.

O dia clareia, leva a insônia. Chega vazio, indiferente, já cansado.





A menina decide procurar uma antiga professora de Integração Social. Uma ativista, especialista em direitos dos animais. Telefona-lhe, marcam e se encontram. Conta-lhe tudo, cada detalhe, cada absurdo, cada dor. Esvazia a revolta, divide a indignação. A professora ouve emocionada, calada. Compartilha a mesma dor, a mesma indignação. Mas no fundo sorri consolada. Ao fim da história, com um brilho nos olhos ela olha para a menina. Com esperança, com um carinho imenso lhe diz,


- Esta juventude ainda não esta perdida.


E se abraçam.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Uma aposta no Bóson de Higgs


Janet Conrad, física do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT),
apostou 10 moedas de chocolate Nobel com seu colega Frank Wilczek, prêmio Nobel
de Física em 2004, alegando que o Modelo Padrão do bóson de Higgs não existe.
Em 4 de julho, ela percebeu que teria que pagar pela aposta.





A recompensa, no entanto, acabou por se mostrar quase tão complicada
quanto as que alguns dos físicos que estudam os chamados diagramas de Feynman
usam para descrever as interações nas quais partículas como o bóson de Higgs
são criados e destruídos. Ou tão complicada quanto uma transação clandestina de
drogas. As moedas, estampadas com o selo Nobel, são vendidas apenas no Museu
Nobel.


Então, logo após o anúncio de 4 de julho, ela pediu que Chad Finley,
amigo e físico da Universidade de Estocolmo, fosse ao museu, onde ele comprou
os chocolates por cerca de 15 dólares. Finley, por sua vez, poderia ter enviado
a encomenda para os Estados Unidos, mas ficou preocupado com a possibilidade de
os chocolates derreterem e, em vez disso, passou-os para Szabolcs Marka, físico
da Universidade Columbia que estava na Suécia na época.





Marka os levou até Nova York e os passou para Matt Toups, pesquisador
de pós-doutorado que trabalha com Conrad e estava indo para o Fermilab, em
Illinois, onde Conrad estava trabalhando. Os dois embrulharam os bombons em
espuma de plástico para que não derretessem durante o trajeto de ônibus até o
Aeroporto La Guardia.


Conrad recebeu os chocolates logo antes de uma falha elétrica fazer a
temperatura dos escritórios do Fermilab subirem até o ponto de fusão do
chocolate. Por isso, levou o pacote para casa, em Cambridge, Massachusetts,
deixando-os com sua irmã enquanto participava de uma conferência de Física na
Virgínia e, em seguida, voltava para o Fermilab. "Eu não tenho visto os
chocolates, já que eles estão cuidadosamente embalados em espuma de plástico,
mas tenho certeza de que eles estão em excelente forma!", contou por
e-mail.





Wilczek, que está em New Hampshire, não viu os chocolates também, mas
contou que eles foram entregues em seu escritório.


Se as medições subsequentes determinarem que a partícula tem a rotação
errada e não é o bóson de Higgs, Wilczek concordou em pagar mil moedas a
Conrad, mas acha isso pouco provável.


"Vamos fazer algum tipo de
festa quando chegarmos ao ponto culminante da aposta; estamos arrumando os
detalhes", escreveu ele, acrescentando: "Vou comer um chocolate e
distribuir o resto".







The New York Times em IG.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Santa Inquisição


No período da Inquisição a humanidade, mais especificamente o Santo Ofício da Igreja Católica, produziu algumas das mais delirantes situações da história. Algumas delas do mais puro e refinado humor negro.










Havia uma grande cachoeira que a Santa Inquisição utilizava em suas operações contra as bruxas. Identificada uma mulher suspeita de bruxaria ela era amarrada e, seguida por uma grande multidão, era levada por um grupo de padres para o alto da cachoeira. Atirada lá do alto a suspeita despencava por dezenas de metros em meio às águas e às pedras.




Lá em baixo uma parte da multidão e alguns padres esperavam. Se a suspeita morresse da queda era uma evidência de que ela não tinha poderes, portanto não era bruxa. Era então absolvida, lamentada e lhe davam um piedoso enterro cristão. Se ela resistisse à queda e não morresse estavam comprovados seus poderes. Era mesmo uma bruxa. Era condenada e queimada na fogueira.










Outra prática repleta da mais sincera caridade era exercida por alguns padres que acompanhavam os hereges à fogueira. Eles insistiam até o último momento para que o condenado, antes de ser queimado, admitisse suas culpas. Que se arrependesse para alcançar a Salvação.




Este último ritual era realizado pelos padres com o herege já próximo à fogueira, ao lado do carrasco. Eles insistiam em dar uma última chance ao herege de salvar a pobre alma.




- Arrepende-te, arrepende-te!


Depois de muita insistência, se o condenado não admitisse a culpa atiravam-no ferozmente à fogueira. Mas se ele finalmente se arrependesse, os padres piedosamente ordenavam ao carrasco:




- Estrangulem-no! Rápido, antes que ele se arrependa de ter se arrependido.


Decapitavam e jogavam a cabeça com o restante do herege na fogueira.



terça-feira, 14 de agosto de 2012

Eric


Dia dos Pais. Eric meu filho mais velho me liga no sábado marcando para almoçarmos no domingo. Algumas horas mais tarde ele liga de novo, dizendo que em 10 minutos estará chegando em minha casa para me mostrar algo. Ele chega, diz que veio entregar meu presente. Fico muito feliz, ele me dá uma caixa que não consigo adivinhar o que possa conter. Abro e vejo um destes micro equipamentos de som high-tech super portáteis. Agradeço e ele começa a me explicar o funcionamento. O som é fantástico.





Mas esse ainda não era, pelo menos para mim, o verdadeiro presente.


Havia algo mais, e muitas vezes menor. Num minúsculo cartão de memória ele tinha escolhido e gravado mais de 300 músicas. Um trabalho carinhoso que deve ter lhe tomado muito tempo, paciência e dedicação. Era exatamente tudo quanto eu mais gosto de ouvir. Pop dos 60: Credence Clearwater Revival, Bo Didley, Wilson Picket, The Animals, The Human Beinz, Richie Havens, Otis Reading, Cream, Peter, Paul and Mary. Jazz: Art Blakey, Miles Davis, Wes Montgomery, Herbie Hancock, Dave Brubeck, Ella Fitzgerald, Oscar Peterson, Billie Holiday. E mais George Benson, Eric Clapton, Nina Simone, Ray Charles, Frank Sinatra, Jimmy Smith e Simon & Garfunkel.


Literalmente impossível ser mais preciso. Abracei-o longamente, pelo carinho, pelo enorme trabalho e por me conhecer tão bem.





Nunca consegui ter uma relação de pai e filho com o Eric. Para desespero da mãe dele e de suas namoradas fomos sempre muito amigos, essencialmente amigos. Desde o divórcio ele viveu comigo. Nos dez anos entre a separação e meu segundo casamento levei uma vida mais que alegre, namorando non-stop, passeando, viajando, velejando. Eric me acompanhava em quase tudo.

Minhas namoradas adoravam o garoto que era realmente muito bonito. Eric chamava a atenção, com seus cabelos loiros escorridos, uns olhos grandes e lânguidos e um jeito muito carinhoso. Uma mais atrevida me pediu para fazer um igualzinho nela.





Eric morou comigo não apenas no Brasil, mas em Portugal, Inglaterra e Alemanha.

Quando casei pela segunda vez e me mudei para Portugal ao fim de dois meses minha mulher diz que já não aguentava mais me ver chorar de saudade, que trouxesse o Eric logo para morar conosco. Ele veio e passamos grandes momentos em Lisboa e Sintra. Na verdade Eric sempre esteve por perto nos meus piores e melhores momentos.





Eu estava iniciando um pouso de asa delta, sobrevoando a areia, Eric correndo ao lado. Subitamente uma tesoura de vento atinge a asa, ela toma altitude, sobe, estola e cai de ponta. Eric assistindo tudo a metros de distancia. Quebrei duas costelas, esmigalhou-se o osso Radio do braço esquerdo, o braço direito desencaixou-se do ombro, fraturam-se a primeira vértebra lombar na base da coluna e a segunda cervical no pescoço. Eric correndo ao lado da asa assistiu a tudo. Tive de pedir para ele parar de chorar e me ajudar. Naquele dia São Pedro já tinha encerrado os trabalhos e eu fui para um pronto-socorro e para duas cirurgias.





Eric é louco por motos, aviões e carros esporte.

Estávamos na Alemanha e ele chegando do Brasil. Fui buscá-lo no aeroporto que ficava a uns 300 quilômetros de nossa casa com uma surpresa para ele. Eric aparece no desembarque muito excitado contando que por uma incrível coincidência tinha feito a viagem num MD-11 pilotado pelo tio dele, Marco Cerdeira. Voara na cabine com o tio comandante lhe explicando tudo sobre o avião e o voo.


Fomos para o estacionamento, ele me perguntando onde estava o Jaguar. Disse-lhe que tinha vindo em outro carro que estava mais adiante. Fomos andando entre os carros, ele a todo o momento se surpreendendo com as “maquinas” estacionadas. Nisso ele para absolutamente encantado diante de um Porsche Carrera S, ajuste da suspensão e rodas do Turbo. O garoto babava na maquina. Eu sorri e lhe entreguei a chave – Tome, dirija você. Ele não conseguia acreditar e prudentemente me pediu que eu próprio levasse o carro. – Ok, mas na Autobahn você pilota.





Não tive nenhuma prudência: 240 km/h. Nevava uma das maiores nevascas daquele inverno. Tudo absolutamente branco no céu e na estrada. Eric coitado estava tenso, acabara de chegar de uma longa viagem intercontinental e estava agora voando baixo num inferno branco. Semanas depois descobrimos juntos, na prática, a resposta a uma das questões do Porsche. Algumas pessoas dizem que ele sai excessivamente de traseira, outras dizem que ele também solta a dianteira. Alegremente descobrimos que ambas têm razão, é só provocá-lo. E nós o provocamos, e como.





Eric fez uma grande amizade com nosso vizinho Jochen Nevries.

Nevries é caçador esportivo e detêm a concessão legal da demarcação de caça na região da Alemanha onde vivíamos. Ele é a pessoa que libera a compra de armas e munições, emite as autorizações de caça e determina as cotas de animais que os caçadores podem a abater.


Não é minha praia. Eric aprendeu a gostar. Ele e Jochen se dedicavam não apenas às caçadas, mas também à construção dos postos de espera que são pequenos abrigos-observatórios de madeira no alto de um poste onde o caçador fica à espera da presa. Um deles foi batizado com uma placa: Eric.





Eric depois me contava os detalhes fascinantes de uma caçada noturna no inverno. O planalto central europeu imenso, completamente nevado, branco e sem rastros, o frio congelante de 26 graus negativos, uma bebida quente e forte, o silencio profundo de um campo nevado, o céu de um azul escuro quase negro, a claridade da lua cheia se refletindo na neve imensa, plana, prateada. Súbito aparece um javali na pradaria enorme. Segue-se o ruído seco do tiro. O javali é atingido. O javali corre, deixando um rastro vermelho intenso, riscando a imensidão branca. Após algum tempo ele cai. Tudo silencioso, frio, prateado. Uma longa linha vermelha risca o branco.





Hoje Eric é pai de uma linda menina e deu-lhe o nome de Erika.

Fiquei feliz que ele tivesse escolhido para a filha o mesmo nome que escolhi para ele. Mas apesar dele demonstrar que gostou da minha escolha ao mesmo tempo parece insinuar que eu não soube grafar o nome corretamente.


Obrigado Fofão pelo maravilhoso Dia dos Pais.