quinta-feira, 30 de maio de 2013

O Padre e o Rabino


Um
rabino e um padre almoçam juntos, o padre comendo porco pergunta,


-
Não sentes falta de um sabor tão bom?


-
Não. O senhor já fez sexo?


-
Sim, antes de me ordenar, antes dos sagrados votos de castidade.


- Um sabor  bem melhor que o do porco não?


O
padre insiste,


-
Se deus fez o porco não pode ser pecado comê-lo. Por que não experimenta?


-
Vou experimentar no dia do seu casamento.


O
rabino pergunta,


-
Como você faz para dividir o dinheiro das ofertas?


-
Simples. Faço um círculo no chão, jogo o dinheiro para cima, o que cair dentro
é meu, o que cair fora é de deus.


-
Meu método é mais simples. Jogo o dinheiro para cima, o que deus quiser
ele pega, o que ele não quiser é meu.


O
padre provoca,


-
Ontem sonhei com o paraíso judaico. Parecia um gueto, muito comércio, muita
gente, muito barulho, uma confusão enorme. O barulho era tanto que acordei.


-
Também sonhei com o paraíso cristão. Muito tranquilo, muito bonito, casas limpas, lindos
gramados, casas bem alinhadas, gramados certinhos.


-
E como as pessoas se comportavam?


-
Que pessoas?





Na mesa ao lado dois homens falam de
seus rabinos.


- O meu é poderoso, ele encontrou um
lago em seu caminho, levantou a mão e então havia lago à sua direita, lago à
sua esquerda, mas não havia lago no meio.


- O meu é mais poderoso ainda. Ele estava
passeando num sábado quando viu um maço de dinheiro em seu caminho. Ele
levantou o braço e então havia sábado à sua direita, sábado à sua esquerda, mas não
havia sábado no meio.





Neste momento chega alguém querendo se confessar, o padre não vê problema que o rabino ouça.


- Padre perdoe-me, pequei. Cometi adultério 3 vezes.


- Reze 100 ave-marias e coloque 10 reais na caixa de ofertas para os pobres. Pode ir.


O padre vai ao toalete e pede ao rabino que tome conta de seu lugar. Chega mais alguém querendo se confessar.


- Preciso de perdão cometi adultério 2 vezes.


- Não se preocupe, cometa mais um. Aproveite a promoção de 3 por 10 reais.


O padre volta para a mesa, o rabino pergunta,


- Mas diga-me, a carreira na igreja católica é fácil?


- Chegar a padre é fácil. Depois com esforço se chega a bispo.


- E depois?


- Com muito mais esforço se chega a cardeal.


- E depois?


- Depois só papa. É extremamente difícil.


- E depois?


- Acima do papa não há mais nada, só deus. É impossível.


- Um dos nossos rapazes conseguiu.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Gracias a la Vida. Deo Gratias. Dei Gratia.



Tive uma amante no sentido correto da palavra. Aquela a quem se ama. Como nenhuma outra. Como nenhuma antes. Como talvez nenhuma que possa a vir.










Fui apresentado a ela, e assim a conheci, numa cerimônia numa universidade. Um sorriso enorme, umas pernas magníficas chamaram imediatamente minha atenção. Mas ficou por aí.




Uma semana depois uma prima me diz que,




- Tenho uma amiga que quer lhe conhecer.




- Como assim? Acho que não conheço nenhuma amiga sua.




- Ela foi apresentada a você na Universidade, ela está sem namorado, quer lhe conhecer melhor , pediu para lhe dar o telefone dela.

Mais direto impossível.










Sábado à noite liguei para ela.




- Oi, sou o Ivan, minha prima me deu seu telefone. Também queria te conhecer.




- Estou com uns amigos em um bar. Venha para cá.




Fui. Cheguei no bar, encontrei-a numa mesa com uma turma enorme de amigos. Algumas pessoas eu já conhecia. Falei com todos, fiquei ao lado dela. Sentei na mesa, começamos a conversar. 




Durante nossa conversa ela se levantou muitas vezes para ir ao toilette. Cada vez que se levantava eu podia observa-la de corpo inteiro. Afinal essa era claramente a intenção dela ao se levantar tantas vezes.







Pele branca, um sorriso enorme, uns dentes perfeitos, tinha o corpo com as curvas generosas e provocantes de uma negra. Olhos amendoados como uma malaia, pernas longas como uma alemã. Uma mistura que só a miscigenação brasileira é capaz de produzir.




Tudo isso na mais absoluta harmonia que só muitas horas de academia e dieta rigorosa podem produzir. Elegante e altiva. Uma mulher magnífica.










Também era uma pessoa culta e instigante.


Psicanalista respeitada, reconhecida, líder da associação lacaniana local. Empresária, sócia de uma cadeia de lojas premium nos shoppings da cidade. Administradora competente de um importante hospital ela tinha sanado as finanças da instituição e imposto uma administração eficiente. Mestrada em Bioquímica na Inglaterra, formada em Nutrição no Brasil.




Excelente cozinheira, talvez a melhor que já conheci, vaidosa na cozinha. O ego enorme e impossível de conviver dos grandes Chefs. Uma pessoa fascinante.










Aos poucos descobri que ela também tinha uma família maravilhosa e um enorme círculo de amizades em que me integrei facilmente. Através dela conheci algumas das pessoas mais sérias, cultas e interessantes que já tive contato. 




Mas isso não era tudo, muito menos o mais importante. Uma enorme surpresa me esperava.




Naquela primeira noite conversamos muito no bar, nos entendemos perfeitamente. Havia um interesse mútuo, genuíno. Com o passar da noite os amigos da mesa foram indo embora, por fim ficamos só nós dois.




Quase ao fim da noite depois de muito conversar encerramos a conta, nos despedimos. Uma chama havia sido acesa.










Dia seguinte lhe telefonei, marcamos para nos vermos novamente. Nos encontramos à noite, conversamos muito. Depois com a intimidade que estávamos construindo nos beijamos. 


Inesperadamente. Ávidamente, com a urgência de amantes que se reconhecem. Os dois nos surpreendemos com o desejo que estava nos envolvendo.




Fim da noite nos despedimos com beijos e carinhos incendiários. Dia seguinte, próximo ao meio dia ela me telefona,




- Vamos almoçar?




- Sim, claro, excelente ideia.




- Então passo aí, te pego no trabalho, daqui a meia hora.




Meia hora depois ela me esperava embaixo do prédio onde eu trabalhava. Nos beijamos e fomos à procura de um restaurante para almoçar.








Ao meio do caminho ela lembra que,




- Preciso passar na minha casa para pegar uns documentos.




Fomos até lá, fiquei conhecendo a casa dela. Uma gracia, clean, cool, cute. Enquanto ela providenciava o que precisava fiquei discretamente na varanda da sala que tinha uma vista para um verde enorme.




De repente ela volta e me beija. Depois me diz que,




- Aqui na varanda os vizinhos podem nos ver.


Me levou para o quarto. Nos amamos como eu nunca antes tinha sido amado.










Ficamos juntos pelos quatro anos seguintes.




Exatamente como Shakespeare descreveu Cleópatra sua imensa diversidade no amor nunca se extinguia. O tempo passava mas não lhe fanava a beleza ao contrário lhe deixava mais desejável.




Seu corpo tinha dois graus a mais de temperatura e a qualquer momento estava pronta para o Amor.

E quanto mais alimentava meu desejo mais me despertava o apetite.

Pois como sabe Camões, pode um desejo imenso arder no peito tanto que à branda e a viva alma o fogo intenso lhe gaste as nódoas do terreno manto.


Origem do Eita!


Minha
prima Virgínia que ultimamente anda meio nostálgica de suas raízes nordestinas
chama atenção para expressões regionais que estão se espalhando pelo resto do
Brasil como o Vixe e o Eita, ambas expressões de espanto.





O
Vixe, e o Ixe, são o fascinante fenômeno de sucessivas contrações ao longo do
tempo da expressão Valei-me Minha Nossa Senhora Mãe Virgem Santíssima. A frase
original se contraiu não apenas para as expressões Nossa Senhora! , Nossa Mãe! e Nossa! mas para a ainda menor Nosss...


Da
contração de Virgem Santíssima! saíram o Virgem! , o Vixe e o Ixe.





Já
a expressão Eita! é de origem mais complicada.


Entre
a maior parte dos estudos etimológicos já conduzidos na garimpagem do Eita! há
uma versão mais aceita tanto pelas academias de Portugal quanto do Brasil.


Torredeita
é um
pequeno povoado no norte de Portugal em uma das mais importantes freguesias do concelho de
Viseu, de onde fica a cerca de 10 quilômetros. A região remonta ao século XIII apesar
de alguns historiadores acreditarem que o povoado é ainda mais antigo.





Para o Professor
Moreira de Figueiredo e para o Dr. José Coelho, um dos maiores arqueólogos
viseenses a origem etimológica do 
topônimo Torredeita esta ligada a “existência
do ribeiro que costumamos designar por “Rio Eita” e portanto de Torre d’Eita como
aliás durante muito tempo se escreveu o nome da frequesia”.





A expressão Eita está ligada a uma grande seca ocorrida há alguns séculos na
região que fez o ribeiro Eita secar. Dizia-se com espanto que a seca era tanta
que “secou até o rio Eita”. Com o passar do tempo a frase se consolidou como expressão
de grande espanto. Ao passar pelo natural processo de contração a expressão virou
“secou o Eita!”.





Muitos
anos depois junto com as sucessivas levas de imigrantes do norte de Portugal pra
o Nordeste do Brasil a expressão chegou até aqui. Semelhantemente ela foi usada
nas mesmas situações das secas que afligem a região. No processo de assimilação
cultural a expressão de espanto “secou o Eita!” acabou se contraindo para “secou,
Eita!” e finalmente “Eita!”





Well,
well. A freguesia de Torredeita, o rio Eita, o Professor Moreira de Figueiredo e o Dr. José Coelho são
reais. Já o que vem depois é pura sacanagem.


O tipo de besteirol que nossos
impostos financiam em centenas de pesquisas inúteis que enchem as prateleiras
de nossas universidades.

domingo, 26 de maio de 2013

Dia das Vadias






O dia 25 de Maio deve se consolidar no
Brasil como o Dia das Vadias. Várias Marchas das Vadias estão acontecendo pelo
país contra a violência sexual contra as mulheres.





A primeira SlutWalk aconteceu em Toronto em Abril de 2011 como protesto, em meio a uma onda de estupros, ao comentário de um policial canadense: Se a mulher não se vestir como uma
vadia reduz-se o risco de sofrer um estupro.


Depois da primeira marcha no Canadá elas pipocaram pelo mundo contra a
cultura do estupro, pela liberdade de comportamento e de se vestir. Por aqui a
primeira marcha das vadias aconteceu em São Paulo dois meses depois de Toronto.




Por aqui as marchas já se espalharam por mais de vinte cidades, mais focadas na
violência em geral contra as mulheres. 
O Nordeste é campeão brasileiro no assunto sendo que um de seus
estados bate, desta vez indesejados, recordes mundiais. Apesar de um grande
dramaturgo local achar que toda mulher gosta de apanhar foi lá que se criou uma
técnica criativa e eficiente.


Uma Ong distribuiu apitos entres as mulheres de um bairro.
Quando uma delas sofre violência toca o apito, as vizinhas ouvem e tocam os
seus. Rapidamente a comunidade, e a policia, está ouvindo o barulho estridente dos apitos que acabam por constranger e apontar o agressor.


As marchas alertam para outro aspecto sério do problema, este ano
o tema na Avenida Paulista foi Quebre o Silêncio.





Não seja boba desperte a vadia que existe em você. Não seja bobo estimule a sua.

Pena que as marchas das vadias estejam tornado tão pública uma
palavra carinhosa que deve ser reservada para a intimidade, no
diminutivo, acompanhada do pronome possessivo. Nos casos mais intensos
adjetivada pela poetiza grega de Mitilene ou pelas qualidades de
Brillat-Savarin.


Nestes momentos deve-se seguir o conselho da Danuza Leão sempre ótima em
etiqueta,


- Apanhar? Só a pedidos.



sábado, 25 de maio de 2013

Drones. Você ainda vai ter um.



Barack Obama em discurso nesta quinta-feira 25.05.13 na Universidade Nacional de Defesa em Washington fez sua mais extensa defesa do uso dos Drones os aviões não-tripulados.


Só no Paquistão foram mais de 360 ataques, no Iêmen mais de 50 missões. Quarenta por cento das vítimas são civis, mulheres e crianças. 





A milhares de quilômetros, na Base Área Hancock, o coronel D. Scott Brenton pilota remotamente um drone, dispara e atinge seu alvo a milhares de quilômetros no Afeganistão ou no Paquistão. Depois do trabalho ele sai da sala escura e volta casa a tempo de ajudar na lição de casa dos filhos.


Ele diz - Havia boas razões para matar as pessoas que matei.





O conceito de Contrato Social que Hobbes tratou é simples. Os homens para se proteger mutuamente abrem mão de parte de seu poder e de sua liberdade e a entregam ao Estado que passa a deter entre outras coisas a prerrogativa da Violência.



O barateamento e amplo acesso à tecnologia está trazendo de volta para os indivíduos a violência que até pouco tempo era prerrogativa exclusiva do Estado.




Há cerca de cinqüenta países, Brasil inclusive, produzindo drones militares. Aviões e helicópteros não tripulados desde os mais simples aos mais sofisticados. Desde os mini com 20 cm que os britânicos usam para reconhecimento no Afeganistão, aos que cabem no porta-malas de um carro até aos maiores do tamanho de aviões de caça.

Há laboratórios desenvolvendo drones super-micros como o carro-elétrico da Toyota que precisa de lente de aumento para ser visto.


Para bombardear países, caçar terroristas à distância, para fazer vigilância nas ruas ou monitorar favelas há um drone específico.

A má notícia é que você vai estar cada vez mais sendo vigiado.

A boa notícia é que um deles cabe, ou vai caber, em seu orçamento.




Se você está pensado em eliminar um rival, explodir a casa de alguém, bombardear um partido, um templo ou um estádio seus problemas acabaram.


Se um destes drones letais estiver acima de sua conta bancária, não se preocupe. Faça um em casa.


Você não sabe como fazer?


Isso também isso não é problema para seus impulsos terroristas. Visite o site Do It Yourself Drones – Faça Você Mesmo seu Drone  –  www.diydrones.com .

Você vai encontrar um drone para chamar de seu, vai poder escolher o modelo que mais se adéqua a seus objetivos. Você vai descobrir que explodir a casa de alguém, sem deixar rastros, pode ser tão fácil quanto montar um aeromodelo. Você já pode dormir tranquilo.




Você pode começar com um modelo mais simples e barato como o ArduCopter, que tem telemetria de solo, GPS, controle de câmeras, software embarcado, decola e pousa automaticamente e faz missões de ida e volta com dois cliques. Dê uma olhada nesta gracinha em

www.youtube.com/watch?v=AD3KVra6RrA&feature=player_embedded



Levante dessa poltrona, deixe de lado a preguiça e acorde o Bin Laden que existe em seu coração.

Em casa, no shopping, na pizzaria, na praia, no parque, anonimamente, a partir de seu laptop, tablet ou iphone, como se estivesse jogando um game, você já pode espalhar uma devastação antes reservada a equipes militares organizadas.

Faça como Obama, não espere mais, seus problemas acabaram.





Mais sobre a violação dos direitos internacionais na Guerra Limpa dos Drones em:

www.camaracorrea.com/2012/08/a-guerra-limpa-dos-drones.html

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Shakespeare. Soneto no.17


O Soneto no.17 de Shakespeare é uma das mais belas composições de amor já escritas.


Para degusta-lo melhor me exercitei sobre eles. Aí está o texto no inglês original, em inglês moderno, numa tradução mais literal e em outra mais livre, para serem lidas, comparadas, relidas, retocadas. Like a gourmet.






Tradução Livre.


Posso te comparar a um dia de verão?




És mais bela e mais suave


O vento espalha as flores pelo chão


E o Verão passa depressa


Às vezes o sol brilha demais


Outras vezes escurece e esfria


O que é belo não dura para sempre


Na eterna mudança da natureza


Mas em ti o verão será eterno


A beleza que tens não a perderás


Nem mesmo a morte te esconderá


Viverás nestas linhas eternas


Por que enquanto houver vida nesta terra


Meus versos viverão e te farão viver


  


Tradução.


Poderia te comparar a um dia de Verão?




És mais linda e mais serena


Os ventos ásperos espalham os botões floridos de Maio


E o Verão dura por pouco tempo


Às vezes o sol brilha quente demais


Às vezes as nuvens escurecem seu rosto dourado


E tudo que é belo perde sua beleza


Ou por acidente ou pelo passar do tempo


Mas o teu eterno verão nunca vai passar


Nem vais perder a beleza que é tão tua


Nem mesmo a morte irá te encobrir em suas sombras


Por que estarás viva em meus versos eternos


Tanto tempo quanto os homens possam respirar e os olhos possam ver


Tanto tempo viverão meus versos e neles permanecerás viva




Inglês moderno. 


Shall I compare you to a summer day?


You’re lovelier and milder.


Rough winds shake the pretty buds of May,


And summer doesn’t last nearly long enough.


Sometimes the sun shines too hot,


And often its golden face is darkened by clouds.


And everything beautiful stops being beautiful,


Either by accident or simply in the course of nature.


But your eternal summer will never fade,


Nor will you lose possession of your beauty,


Nor shall death brag that you are wandering in the underworld,


Once you’re captured in my eternal verses.


As long as men are alive and have eyes with which to see,


This poem will live and keep you alive.




Original.


Shall I compare thee to a summer’s day?


Thou art more lovely and more temperate.


Rough winds do shake the darling buds of May,


And summer’s lease hath all too short a date.


Sometime too hot the eye of heaven shines,


And often is his gold complexion dimmed;


And every fair from fair sometime declines,


By chance or nature’s changing course untrimmed.


But thy eternal summer shall not fade,


Nor lose possession of that fair thou ow’st,


Nor shall death brag thou wand’rest in his shade,


When in eternal lines to time thou grow’st.


So long as men can breathe or eyes can see,  


So long lives this, and this gives life to thee.




quinta-feira, 23 de maio de 2013

Take Me to Your Leader


Faz exatamente sessenta anos que esta catchphrase foi dita e imortalizada.

Leve-me a Seu Líder, a frase padrão do extraterrestre ao desembarcar do disco voador e encontrar o primeiro ser humano. Ela foi usada pela primeira vez por Alex Graham em um cartoon na revista New Yorker em 1953.





De lá para cá Take Me to Your Leader foi usada muitas e muitas vezes em filmes de ficção científica, e em situações cômicas, para mostrar a importância do contato.


A expectativa de como será feito contato com extraterrestres é constante tanto na ficção científica quanto na realidade científica. Quando a NASA lançou a primeira Voyager em 1977 ela carregava discos de ouro gravados com sons e imagens da Terra. O conteúdo dos Voyager Golden Records foram selecionados por um comitê da NASA chefiado por Carl Sagan e colegas da Universidade de Cornell.





Os discos contêm cento e quinze imagens, sons naturais, saudações em várias línguas, obras de Bach, Beethoven, Stravinsky, Mozart e o rock Johnny B. Goode de Chuck Berry. Carl Sagan queria incluir Here Comes The Sun dos Beatles, eles toparam mas a gravadora EMI não autorizou sabe-se lá por que.

Dificil imaginar a reação do extraterrestre que ouvir Chuck Berry contando que em Louisiana perto de New Orleans há um garoto que não sabe nem ler nem escrever mas que toca guitarra muito bem, sentado na sombra debaixo das árvores, olhando o trem passar. Pior, saber que a mãe do Johnny B. Goode ao invés de manda-lo pra escola fica sonhando quando ele terá um grande banda.

Vamos causar uma péssima impressão. Ainda bem que Sagan não mandou Before You Accuse Me.




Mas relaxe. O Steve Martin, no programa Saturday Night Live, disse que os extraterrestres depois de ouvir o disco responderam: Mandem mais Chuck Berry.


Na verdade esses não foram os primeiros sons e imagens que escaparam da atmosfera terrestre para o espaço. As primeiras imagens já transmitidas pelo homem, e que continuam se propagando pelo universo, foram as dos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936.





Portanto na eventualidade de se concretizar a cena Leve-me a Seu Líder, imaginada por Alex Graham, os extraterrestres vão notar que o Líder além de não usar mais bigodinho está consideravelmente bronzeado. Além de muito bem acompanhado.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Imperador na Lavagem do Bomfim. Quem tem Fé vai a Pé.




O imperador da Áustria Maximilian I, arquiduque Ferdinand Maximilian Joseph da casa de Habsburg, futuro imperador do México, visitou a Bahia em 1860 e participou da Lavagem do Bomfim.

Ele ficou impressionado com a ginga sensual das mulatas, definiu a festa como louca bacanal.





Anos antes Ferdinand havia se apaixonado por D. Maria Amélia, prima distante, filha de D. Pedro I. Segundo o historiador H. Montgomery Hyde a loura Maria Amélia era "uma garota de beleza impressionante e inteligência cultivada". Fluente em português, francês e alemão era a princesa mais bonita da época, desenhava, pintava e tocava bem piano.


Perdido de amores Maximilian planejou se casar com a priminha, ficaram noivos, mas infelizmente a princesinha morreu antes. De luto o pobre Joseph passou a usar um anel com um cacho de cabelo da princesa.






Como se sabe a Lavagem do Bomfim começa com uma procissão.

Como se sabe quem tem fé vai a pé. Caminha-se alegremente os oito quilômetros de procissão entre a Igreja da Conceição da Praia e a Igreja do Bomfim.


Por não ter fé, o príncipe Maximilian seguiu para o Bomfim numa carruagem puxada por quatro cavalos brancos, conduzida por dois escravos vestidos com sobrecasacas verdes, calções de veludo, gravatas e luvas. Todos ornamentados de prata para acompanhar devidamente um imperador estrangeiro. Talvez daí venha a expressão baiana “mais enfeitado que jegue de lavagem”.





O príncipe impressionou-se com as batucadas, com as meninas.

Escreveu no diário: "moças negras alegres, envoltas em gazes transparentes e lenços de cores berrantes, em meio a um falatório estridente, nas posições mais confortáveis, sensuais e desleixadas, resquícios do paganismo na romaria".


O interior da igreja ele descreveu como uma “sala de dança, grande, alegre e animada” e impressionou-se com “as saias das mulheres, as roupas finas, os decotes, as danças de corpo, a festa pagã”. Por não ter fé ele achou a Lavagem uma “louca bacanal, o sabá negro das feiticeiras, um ato de mulheres munidas de vassouras”.





Maximilian I da Áustria tinha 28 anos quando visitou a Bahia, antes de sua nomeação como Imperador do México. Infelizmente ele não pôde voltar novamente.


Por não ter fé ele não pôde rever as “moças negras alegres, envoltas em gazes transparentes e lenços de cores berrantes”. A revolução mexicana comandada por Benito Juarez prendeu o imperador e mandou fuzila-lo.


Tenha fé, vá a pé.

Humor Judaico


A contribuição dos judeus para a história da Humanidade é um patrimônio inestimável. Nas artes, na ciência, nas finanças, na economia, na filosofia, na psiquiatria e na religião pouquíssimos povos contribuíram tanto. Mas há algo mais, há algo monumental do cotidiano. O impagável humor ferozmente auto-depreciativo.





Freud analisou a natureza do humor, e do humor judaico, em Chistes e sua Relação com o Inconsciente, um trabalho de 1905 relativamente pouco valorizado.


Ele próprio um judeu, Freud precisou deixar a Áustria durante o nazismo depois da prisão de Anna sua filha. Após o interrogatório, e antes de se exilar na a Inglaterra, ele foi obrigado a assinar para a Gestapo um documento onde dizia que não havia sofrido maus-tratos. Após assina-lo Freud acrescentou de próprio punho: Posso recomendar altamente a Gestapo a todos.





Nesta época em Berlin dizia-se que um judeu estava lendo o Der Stürmer o jornal oficial do partido nazista. A mulher dele vê,


- Está louco? Isso é masoquismo!


- Muito pelo contrário. Nos jornais judeus só há notícias sobre pogroms, perseguições e injustiças. Mas estou lendo aqui no Der Stürmer que nós judeus controlamos todos os bancos, dominamos as artes e que pretendemos dominar o mundo. Isso me deixa muito feliz.




Einstein, também um judeu disse à respeito de sua Teoria da Relatividade: - Se ela estiver certa os suíços dirão que sou um um homem sábio, os franceses dirão que sou um cidadão do mundo e os alemães dirão que sou um alemão; mas se a teoria estiver errada os suíços dirão que sou idiota, os franceses dirão que sou um alemão e os alemães dirão que sou um judeu.




Pérolas judaicas:


- Qual a diferença entre uma esposa cristã e uma esposa judia? A cristã tem orgasmos verdadeiros e joias falsas.


- Qual a diferença entre um judeu e o papai-noel? Papai-noel desce pela chaminé.


- Qual a diferença entre garotos judeus e os escoteiros? Os escoteiros voltam dos campos.


- Pedi a uma mulher qual seu número. Ela levantou a manga da camisa.


- Sabes por que Hitler se matou? Nós lhe mandamos a conta do gás.





Kvetch em iídiche significa aproximadamente reclamar, choramingar, se queixar. Uma palavra com forte influencia cultural e religiosa que reflete o período milenar da Diáspora, o exílio do povo de Israel entre povos e culturas hostis que marcou a língua e o comportamento judaico. William Grimes diz que o Judaísmo é definido pelo exílio e exílio sem queixa é turismo.


Um senhor que está em um trem se queixa,


- Tenho sede, tenho sede. Todos ouvem o kvetch, um passageiro se levanta e dá-lhe um copo d’água. O homem agradece, toma o copo inteiro. O passageiro volta a seu lugar e ouve novamente o kvetch do senhor,


- Eu tinha sede, eu tinha sede.





Um paciente hospitalizado pede ao medico para ser transferido de hospital.


- O que há de errado? A comida não está boa?


- A comida é boa, não posso kvetch, não posso me queixar.


- O problema é o quarto?


- O quarto é bom, não posso me queixar.


- Então é a equipe?


- De forma nenhuma, a equipe é ótima, não posso me queixar.


- Então por que ser transferido?


- Não posso me queixar.




No filme austríaco Die Fälscher - Os Falsários - de Stefan Ruzowitzky há uma cena antológica. Os prisioneiros judeus estão todos reunidos numa sala do campo de Sachsenhausen. Um deles conta a mais feroz piada que conheço do já ferocíssimo humor judaico.


- Vocês sabem por deus não está presente nos campos de concentração? Por que ele não consegue passar na seleção.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Mulheres Lindas e suas Línguas Ferinas


Há mulheres que têm a língua mais mortal que suas belezas. 


Tive uma bela amiga a quem contei que “não há mulher que nunca tenha comido uma alface por vaidade, uma caixa de Bis por ansiedade ou um cafajeste por saudade”. Ela riu do alto de sua experiência, 


- É bom deitar com cafajestes, eles fazem tudo que você quer. 





Marylin Monroe, Mae West e Arletty além de belas tinham línguas ágeis e afiadas. Perguntaram a Marylin o que ela usava para dormir, 


- Duas gotinhas de Chanel no. 5. 


Sabiamente aconselhou, 


- Se você vai der duas-caras, pelo menos faça uma delas bonita. 


- Homens enxergam as mulheres como livros. Se a capa não seduzir eles não olham para o interior. 


- Uma mulher esperta conhece seus limites, uma mulher inteligente sabe que não tem nenhum. 


- Homens de verdade enlouquecem pelas mulheres que sabem dizer não. 


- Uma garota esperta beija mas não ama, ouve mas não acredita, e deixa antes de ser deixada. 





Mae West era ainda mais mortal. 


- Quando sou boa sou ótima mas quando sou má sou maravilhosa. 


- Entre dois pecados sempre escolho o que nunca experimentei antes. 


- Tenha de reserva um namorado para os dias chuvosos e outro para o caso de não chover. 


- Todos os homens que abandono merecem uma segunda chance. Mas com outra. 


- Eu evito as tentações, a menos que eu não consiga resistir. 


Ao deixar o casaco de peles na chapelaria de um teatro a funcionária ao ver seu colar se espantou, 


- Meu deus, que diamantes! 


- Meu bem, deus não tem nada a ver com isso. 





Arletty foi uma atriz francesa do começo do século, belíssima, a primeira a ter as pernas colocadas no seguro. 


Durante a invasão alemã da França na Segunda Guerra ela se apaixonou em Paris por Hans Jürgen Soering um jovem oficial alemão da Luftwaffe. Depois da guerra ela foi presa por traição e colaboracionismo com o inimigo. Presa em Drancy uma freira tentou aproxima-la de deus, 


- Já nos conhecemos, mas a relação não deu certo. 


Levada a julgamento lhe perguntaram por que tinha sido amante de um oficial alemão, 


- Ninguém usa uniforme na minha cama. 


E completou magnífica, 


- Meu coração é francês, mas minha bunda é internacional.

Os franceses entenderam, perdoaram e anos depois ela estava sentada, desta vez no júri, do Festival Internacional de Cinema de Cannes.

A Maior Falsificação de Dinheiro da História


O filme austríaco Die Fälscher - Os Falsários - é uma obra-prima de Stefan Ruzowitzky, Oscar de melhor filme estrangeiro de 2008. Conta a história real de Salomon Sorowitsch e da Operação Bernhard.





A operação, conduzida pelos nazistas, a maior falsificação de dinheiro da história, produziu cerca de 9 milhões de notas, na época um valor de 132 milhões de libras esterlinas. Hoje seriam cerca de 7,8 bilhões de dólares, cash em notas, uma por uma.


A ideia de Bernhard Krüger era simples e brilhante. Produzir recursos financeiros para a economia alemã e inundar o mercado com libras para arruinar, por inflação, a economia inglesa.





Friedrich Herzog, um Sturmbannführer da SS, liderou a operação Bernhard dentro do campo de concentração de Sachsenhausen. Herzog colocou Salomon, um falsário genial, à frente de uma equipe de 142 prisioneiros. A equipe de gráficos, desenhistas, fotógrafos, banqueiros e outros especialistas, utilizando a melhor tecnologia disponível, produziu no campo de concentração notas absolutamente perfeitas, do tecido à impressão.


Algumas dessas notas foram enviadas para um teste de autenticação na Inglaterra. O Banco da Inglaterra foi taxativo: as notas de Salomon eram verdadeiras.





À partir daí a derrama foi imensa. Cerca de um terço das libras esterlinas em circulação na época foram produzidas pela equipe de Salomon e Herzog em Sachsenhausen.


O volume era maior que as libras que o próprio Banco da Inglaterra tinha em seus cofres. Quatro vezes maior que todas as reservas cambiais inglesas. Posteriormente o Banco da Inglaterra levou quarenta anos para recolher completamente tanto as notas de Salomon quanto as verdadeiras, absolutamente indistinguíveis, emitindo substituições completamente diferentes.





O filme tem uma fotografia belíssima, praticamente sem cores, em tons de cinza, acentuando o ambiente sombrio. Benedict Neuenfels usou de forma muito mais intensa o recurso de cores esmaecidas usado por Ghislain Cloquet e Geoffrey Unsworth em Tess de Polanski. Aliás outra obra-prima imperdível.


Além da excelente fotografia Die Fälscher tem uma trilha sonora que ao longo do filme, de forma emocionalmente intensa e irresistível, vai se transformando num personagem essencial da história. O filme que já tem uma trama fascinante usa recursos de fotografia, iluminação e trilha musical para criar Cinema em seu estado mais puro.





Salomon o judeu e Herzog o nazista sobreviveram à guerra.


Herzog conseguiu escapar junto com a família, levando uma pequena parte de sua obra, usando os passaportes suíços que Solly preparou para eles.


Salomon depois de uma temporada na Itália e no Uruguai terminou seus dias, aos oitenta anos, em Porto Alegre. Aqui ele criou uma fábrica de brinquedos já que não conseguia mais usar suas habilidades manuais devido a outro alemão, menos amigável, o Alzheimer.

sábado, 18 de maio de 2013

O General Dançou


‎O bailarino americano David Hallberg ocupa desde 2011 o papel principal e a direção do corpo de baile do tradicionalíssimo teatro russo Bolshoi. Alguém ousaria pensar nisso há alguns anos atrás?





David entrou para o Bolshoi exatamente quando se completaram 50 anos da gravíssima crise do Checkpoint Charlie em Berlin. Em 27 de outubro de 1961 tanques soviéticos e americanos apontaram seus canhões uns para os outros. O Muro de Berlim havia sido construído semanas antes dividindo a cidade em um lado oriental e um lado ocidental. A crise começou quando forças do bloco soviético impediram a entrada no setor oriental de um oficial americano. Ele queria entrar para ir ao teatro.





O general Lucius Clay assessor pessoal de Kennedy ordenou que os tanques americanos se posicionassem na fronteira e apontassem os canhões. O bloco soviético reagiu e posicionou os seus. Trinta tanques em Berlin ficaram frente à frente no meio da cidade. Soldados dos dois lados da fronteira apontaram suas metralhadoras. União Soviética e Estados Unidos ficaram com armas apontadas diretamente um para o outro, com o dedo no gatilho.






Krushov o premier soviético e o presidente Kennedy usaram pela primeira vez o telefone vermelho direto entre o Kremlin e a Casa Branca. Num balé orquestrado pelos dois os tanques foram recuando. Recuaram dez metros. A crise se dissolveu. 


Alguns anos depois, exatamente no aniversário da crise, os russos convidam um americano para entrar e assumir o primeiro lugar no Bolshoi. A Arte é e será sempre a redenção humana definitiva.


Boa Forma em Boa Viagem


Tenho um grande amigo Beto Faria, atual Secretário da Fazenda de Olinda. Beto é um dos homens mais calmos e conciliadores que conheço. Já o vi lidar com greves de funcionários públicos, negociar demandas trabalhistas delirantes e sanar finanças impossíveis. O cara tem um jogo de cintura de fazer inveja a dançarina de dança do ventre.






Beto tem a calma e o autocontrole típicos do mergulhador que é. Mas apesar do bom humor ele quase perdeu a paciência. Beto foi ao super-mercado prosaicamente fazer umas pequenas compras num desses walmarts da vida. Em Boa Viagem, Recife. Até aí nada de mais.


Como estava comprando poucos produtos ele naturalmente foi para fila das pequenas compras. Apenas para descobrir que na fila das pequenas compras havia carrinhos gigantescos com compras para meses. Com sua calma natural ele muda de fila e vai para uma das filas normais. Sem problema, sem stress.



Ele fica logo atrás de uma senhora com um carrinho nem tão volumoso assim. Em cima do carrinho, sentado sobre as compras estava perigosamente equilibrado um menino, provavelmente filho da tal senhora. O moleque fazia todos os malabarismos necessários para se despencar no chão, mas nem com toda sua esperteza ele conseguia se deixar atrair pela Gravidade. A Lei não se aplicava àquela criatura. A fila não andava, o moleque aprontando.

A essa altura Beto já estava intimamente torcendo que o diabinho se esborrachasse no chão. Para apressar a desgraça do moleque ele chegou até a dar umas pequenas ajudas, uns toques leves no carrinho. Mas nada, o moleque era protegido por alguma entidade maléfica.






A fila não andava direito, o menino barbarizava, a mulher nem se abalava. A mulher era gorda. Muito gorda, imensa. Dessas que o barateamento dos carbohidratos está produzindo aos milhares.


Gorda e tranqüila. Tão tranqüila que nem o barulho do supermercado, nem o atraso da fila nem muito menos as loucuras que o menino aprontava movimentavam sua enorme massa adiposa. Ela estava extremamente absorta em sua leitura. Com muita atenção ela lia, muito apropriadamente, o último exemplar da revista Boa Forma.






Quem já estava quase perdendo a boa forma era Beto. Mas eis que o menino apronta uma ótima, consegue realizar uma tremenda façanha. Lá do alto da montanha de compras, se equilibrando entre biscoitos e macarrões, pesquisando entre sabonetes e manteigas o pestinha descobre no fundo do carrinho um brinquedo. Ou pelo menos o que lhe parecia ser um brinquedo.


A demoníaca figura estava agora empunhando um destes detergentes que têm coronha, gatilho e bico disparador. O moleque agora estava armado! E toca a disparar.

Beto pacientemente se desviava dos disparos. E a lipo-criatura nada, não se abalava concentrada em sua boa forma. Finalmente acabou acontecendo. O moleque disparou um jato de detergente no próprio olho. O inferno agora estava completo.



Além da tortura das filas, das ansiedades da espera, do empurra-empurra, do sofrimento em meio ao caos, agora também havia os gritos horrendos do infame.


A mulher não teve outro jeito senão deixar de lado a Boa Forma, perder a própria e tentar domar o moleque estrebuchante. E Beto atrás, esperando, ouvindo, suportando. Mas como não há mal que sempre dure a macro-adiposidade acabou sendo atendida pelo caixa. Quando ela finalmente já se preparava para desaparecer, nota que na sua conta havia a substancial, a inaceitável diferença de um real e vinte e cinco centavos.


Para tudo. Chama o gerente, chama o fiscal, refaz a conta quilométrica.



Neste momento Beto reviu mentalmente toda sua vida. Corajosamente revisou cada detalhe desde a infância. Analisou a adolescência, honestamente lembrou de tudo e concluiu que com certeza não havia batido na própria mãe. Beto respirou fundo. Respirou com aquele fôlego enorme de mergulhador e encarou o desafio. Esperou pacientemente que finalmente a contenda se resolvesse. Tudo terminado, a dupla insana se foi, se perdendo nas ondas da multidão.

Finalmente chegara sua vez. Beto começa a tirar suas duas ou três compras do carrinho e a coloca-las no balcão. Sorri para a moça do caixa, aliviado. Ela olha para ele com um ar grave de veredito final.


- O caixa quebrou, está encerrado.






Neste momento Beto teve uma revelação.

Ele começou a ter uma verdadeira experiencia religiosa. Ele que já tivera algumas dúvidas na existência de deus agora tinha certeza da existência do diabo. Ou pelo menos, para ficar no regional, na do Curupira, na do Saci que se divertem fazendo confusão na vida dos outros.

Anos de luta política não podiam ter sido em vão. Neste momento, paciência e determinação lhe foram mais úteis que na época do regime militar. Beto esperou que tudo voltasse à normalidade. O caixa voltou a funcionar, as compras foram passando, a moça ia registrando.



Mas eis que quando ele olha aliviado para o empacotamento de suas compras descobre que o supermercado tem uma orientação politicamente correta.


O empacotador era deficiente físico. Só tinha um braço.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O Fado, brasileiro.




O Fado assim como o Samba têem uma história interessante. O Samba que é tão brasileiro nasceu do Chorinho que teve origens em Portugal. E por uma curiosidade histórica, o Fado nasceu no Brasil. Como? Já estás aos copos pá?



O chorinho nasceu do Lundu uma música portuguesa que ao chegar ao Brasil virou Chorinho que ao se misturar com o Samba Duro dos negros da Bahia virou samba. Depois pela mão de um grupo de bahianos que se mudou para o Rio nasceu o samba carioca que é o que hoje conhecemos por Samba. Ok, mas e o Fado?







Quando D. João VI e a corte vieram para o Brasil em 1808 trouxeram suas características culturais e naturalmente sua música. Aqui esta música se misturou à música local e nasceu uma outra com a característica do lamento e da tristeza de quem estava fora da terra natal. Uma musica carregada de saudade e de reflexão sobre o Destino, daí o nome. Fado é destino. 



Quando finalmente a corte voltou para Portugal levou esta música. Chegando em Portugal o Fado se misturou ao que estava sendo feito no país em termos de renovação musical com influências árabes e francesas e então se consolidou como o Fado tal como o conhecemos hoje.






Historicamente o Samba tem origens em Portugal e o Fado no Brasil. Mais um dos aspectos em que os dois países estão tão intimamente ligados. Falar de Fado sem falar em Amália não dá. “Ó Gente Da Minha Terra” um dos mais lindos que ela compôs, tem uma poesia cristalina com um conhecimento psicológico surpreendente. Note este trecho:


Esta tristeza que trago




Foi de vós que a recebi


E pareceria ternura


Se eu me deixasse embalar


Era maior a amargura


Menos triste o meu cantar





Amália diz que a tristeza pareceria ternura se nela se deixasse embalar. Realmente você pode deixar que uma tristeza te embale ao se entregar a ela. Neste caso, este embalar da tristeza cria um sentimento confortável de ternura. E esta ternura, este conforto, tornaria menos triste o teu falar, o teu cantar. 




Aqui que ela mostra a armadilha. Se você deixa a tristeza te embalar há uma sensação de ternura, há uma substituição. A tristeza diminui mas a amargura aumenta. Amália mostra a inter-relação destes sentimentos e a diferença sutil que só um poeta ou um psicólogo percebem .



Amália vai fundo nesta análise e mostra que a escolha correta é não se embalar pela tristeza. Ela mostra que é melhor deixar o canto ficar triste, como no Fado, e impedir que a amargura se instale na alma.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Shopgrift


O delírio consumista e a vaidade criaram um costume e um neologismo. Shopgrift é uma prática que muitas mulheres estão usando. Compra-se a roupa, usa-se uma vez, brilha-se na festa e depois devolve-se à loja. Money back, please.


Algumas mulheres se dizem viciadas na manobra e dão algumas dicas importantes.





Compre sempre em lojas menores e mais baratas onde é mais fácil conseguir a devolução do dinheiro do que em grandes magazines ou lojas mais caras.


Não esqueça de guardar a nota de compra.


Cuidado com as etiquetas, se precisar retira-las guarde-as.

Depois de usar a roupa coloque-a para ventilar por uns dias.


Dependendo da peça usada, passe-a antes de devolve-la.

Faça shopgrift sempre com peças mais básicas.

Evite os modelos muito exclusivos que poderão lhe marcar.


Evite perfumes.


Evite ir a restaurantes ou tomar drinques elaborados; não corra o risco de manchar a roupa.


Devolva numa loja diferente da que comprou



Mesmo com tantos sacrifícios uma em cada três mulheres esta fazendo shopgrifit. Uma prática parecida com o "usar e devolver" que sempre esteve mais associado a atrizes, celebridades e colunistas sociais. E por ultimo o mais realista dos conselhos: Evite namorar com a roupa.

Ou então tire-a toda de uma vez.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Terremotos Pessoais e o Marquês de Alorna



O Terremoto de Lisboa em 1775 destruiu o porto da cidade, 85% das casas e construções e bloqueou de destroços dois terços de todas as ruas.  Imediatamente depois seguiu-se um maremoto. 













Em seguida ao maremoto dois tsunamis imensos arrasaram o que sobrou do porto, afundou e arrastou navios e construções Lisboa adentro. A imensa massa de água invadiu a cidade e cobriu parte de suas colinas. Depois que as águas baixaram começou um incêndio que durou seis dias. Ao final do incêndio a Peste devastou a população.












Depois de tamanho apocalipse o rei D. José I perguntou ao Marquês de Alorna o que se devia fazer. 




- Sepultar os mortos, cuidar dos vivos, fechar os portos.




Simples assim.




Sepultar os mortos pois não adianta ficar reclamando e chorando o passado.




Cuidar dos vivos, do que sobrou, cuidar do presente. 




Fechar os portos, não deixar portas abertas a novos problemas.











O Marquês de Pombal entendeu, aproveitou a grande oportunidade e reconstruiu Lisboa com avenidas largas, passeios calçados, saneamento básico e planejamento urbano. Na época Lisboa se tornou a mais moderna cidade européia.




Dá pra fazer o mesmo com nossos terremotos pessoais.


Hunsrückisch


Há coisas muito especiais nesta Terra Brasilis.


Ulrich, um alemão amigo de trabalho, tinha chegado da Alemanha, tínhamos trabalhado a semana inteira e já estava quase no dia dele voltar para Frankfurt. Como era fim de semana, o dia estava lindo, quente e ensolarado, resolvemos aproveitar para ir à praia em Piatã, Salvador.






Ficamos em uma daquelas barracas de praia onde se vai mais para beber e comer do que para tomar banho de mar.

Tanto quanto eu gosto da Alemanha o Ulrich gosta do Brasil, fator importante em nossa amizade. Ele vinha frequentemente aqui. Sempre que chegava, brincando fingia que se espantava,


- Cada vez que venho ao Brasil há mais louras. Já existem mais louras em São Paulo do que em Munique.


Ulrich era muito bem humorado, o tipo de alemão alegre e falastrão que associamos com as cervejarias da Baviera.






Estávamos em Piatã tomando esta coisa que aqui chamamos de cerveja e que Ulrich educadamente fingia acreditar que fosse. Geladíssima acompanhada por peixes, caranguejos, camarões, acarajés e abarás. Fazendo aquela farra gastronômica bahiana que o diabo criou e que Nosso Senhor do Bomfim abençoou.


Conversa vai conversa vem, noto que havia na areia um grupo de meninas bonitas perto de nós. Eram pelo menos umas dez e pela "branquelice" seguramente eram turistas. O que mais chamou minha atenção foi que elas estavam falando alemão. Alternavam alemão e português com sotaque gaúcho.






Como já tínhamos conversado muito sobre imigração e influência alemã no Brasil aquilo era perfeito para ilustrar nossas conversas. Chamei sua atenção,


- Ulrich, estás vendo aquelas meninas bonitas aqui à nossa esquerda? São brasileiras mas estão falando em alemão.


Ele olhou para elas prestando atenção no que conversavam,


- Isso não é Alemão.


- Claro que é preste atenção.


- Você não vai querer me ensinar o que é Alemão, vai?


- Claro que não, mas se esforce e ouça melhor.


Subitamente seu rosto se iluminou,


- Ja, fantastisch, wunderbar! Parece um dialeto antigo.




Ulrich se levantou, foi direto para o grupo das meninas, puxou conversa em alemão. Fui atrás, eram turistas gaúchas de férias em Salvador. Agora estavam todos conversando alegremente, ele em alemão, elas num dialeto alemão. Na areia, entre acarajés, cocadas e bikinis, na Bahia.




Ulrich estava encantado de encontrar brasileiros, meninas bonitas brasileiras, falando um dialeto alemão raro. Elas contaram que o dialeto era o Hunsrückisch, que elas tinham aprendido em casa, mas que só falavam entre si. Contaram que se esforçavam para continuar a fala-lo para não deixar morrer uma herança dos avós que tinham vindo da Alemanha.


Ulrich voltou feliz para Frankfurt conhecendo melhor a língua Alemã. O Brasil, como diz meu amigo Paulo Cunha é um país especial.

terça-feira, 14 de maio de 2013

O Gôzo do Perverso


De todos os perversos históricos que tenho conhecimento aquele lituano anônimo, mas real, do post www.camaracorrea.com/2012/07/um-lituano_07.html é o que mais me assusta pela espontaneidade de suas
ações. Não menos ainda pela interação e cumplicidade da massa disforme, o
monstro de mil cabeças de Horacio, que o incentivava.


Blokhin, o carrasco de Katyn chega perto, mas este era um
burocrata da morte, tinha tarefas a cumprir. Morreu alcoólatra acossado por
seus demônios.





O perverso tem o gozo do Mal se fascina pela ideia de
se livrar do tempo e da morte e nos incomoda por mostrar o lado sombrio que todos carregamos. 
Certamente o mais sofisticado dos perversos foi o Divino
Marquês, o de Sade.


Donatien Alphonse estruturava brilhantemente a inversão de
valores, trocando os sinais, provando com uma lógica aparentemente correta os
maiores absurdos. 
Ele sustenta que a pessoa que pratica o Bem o
faz para mostrar ao outro o quanto lhe é superior. Não o faz por amor,
solidariedade ou compaixão, muito pelo contrário o faz para
humilha-lo com sua superioridade. 
O Bom na verdade é o pior dos maus. Assim sendo a gratidão
é uma bobagem. Não se deve pratica-la pois quem lhe fez o bem já recebeu no gozo
de exercer o poder, no gozo da humilhação, a paga de seu ato.




Certamente que há um gozo, levemente perverso em certas circunstâncias, em
fazer o bem quando ele envolve o exercício do poder
sobre o mais fraco. Há quem jure e diga
horrores sobre Madre Tereza de Calcutá. 
Mas levar este raciocínio aos limites de Sade é mesmo do Perverso.


O perverso em Sade é semelhante ao dos carrascos nazistas que
atribuíam às vítimas a responsabilidade última de sua própria eliminação. 
Emblemático do humor perverso é a frase
inscrita na entrada do campo de Dachau, que tecnicamente seria um campo de
trabalhos forçados. Na entrada se lia Arbeit Macht Frei, O Trabalho Liberta. A
frase é mais dantesca do que a que o próprio Dante escreveu na entrada do
Inferno, Lasciate ogni speranza voi che entrate, Deixem Toda a Esperança Ó Vós que Entrais.





A História está cheia deles.

Calígula ao fim de um
jantar servido em seus jardins a um novo embaixador lhe perguntou o que tinha
achado. Ele respondeu que a comida estava ótima, apenas o cheiro dos
empalados no jardim o tinha incomodado. Prontamente o imperador mandou
empala-lo num tronco mais alto para que o cheiro dos outros não o incomodasse.


Você riu, perverso. Há dois perversos aqui neste momento, você e eu. Somos
irmãos carregando nosso lado obscuro, tentando contê-lo. Ou não.





Lógico que há níveis diversos em cada um de nós. O que não
se pode negar para si mesmo são as muitas vezes em que desejamos matar, fazer sofrer,
dominar ou nos exibir. Somos todos perversos, assim como somos todos
neuróticos.


Essa consciência sadia nos ajuda a distinguir entre o Bem e
o Mal. 
E quanto mais conscientes melhor, mesmo que isso custe anos
de divã. Pelo menos se o psicanalista não resolver seu problema você estará resolvendo o dele.


Mae West dizia que quando ela era boa ela era ótima, mas
quando era má era ma-ra-vi-lho-sa. Todos carregamos a marca da perversidade,
todos carregamos o gozo da maldade. Nem que seja aquela maldadezinha
que você anda louco para aprontar com alguém.





Hannah Arendt vendo no
nazismo a institucionalização do perverso cunhou atônita esta definição
monumental: A Banalização do Mal. Ali aconteceu
uma inversão moral do Estado, a instituição da qual se espera proteção, justiça e
imparcialidade. 
O Nazismo é a fascinante disfunção de uma sociedade culta e moderna
que unanimemente se entregou à barbárie, arrastando com ela outras sociedades, criando condições ideais para o livre e extremado exercício daquele lituano.





Onde está, onde se esconde nos desvãos de sua alma o
seu lituano?


O meu? Adorei descrever as maldades dele.