sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Antonico, Passárgada e Getúlio




Há pistas interessantes da alma brasileira em diferentes partes da sociedade, mas curiosamente idênticas na ideologia. Vindas de Antonico de Ismael Silva, de Passárgada de Manuel Bandeira e de uma frase de Getúlio Vargas.


No samba Antonico um amigo fala ao outro:





Ô Antonico vou lhe pedir um favor


(note a intimidade do diminutivo)


Que só depende da sua boa vontade


(não há competências, a boa vontade é o fator decisivo)


É necessário uma viração para o Nestor


Que está vivendo em grande dificuldade


(não se fala de trabalho, mas de uma "viração")


Ele é aquele que na escola de samba toca pandeiro, toca surdo e tamborim


(este é o curriculum do Nestor)


Faça por ele como se fosse por mim


(sono tutti buona gente, mafiosamente)





O amigo pede a Antonico, baseado apenas na sua boa vontade, que se utilize de sua influencia para resolver o problema financeiro do Nestor que tem apenas o mérito participar das mesmas diversões, de freqüentar o mesmo grupo.


E se pede para ele uma viração, uma benesse, não um trabalho para que ele possa resolver seus problemas.


Uma viração não um trabalho, talvez por que trabalhar ainda carregue pelo menos no imaginário popular, a vergonha da escravidão. Dinheiro se deve conseguir da forma mais fácil, através de uma benesse, de amigos no poder, de uma viração.





Em Passárgada, Bandeira sonha com o melhor dos mundos pois "lá sou amigo do rei, lá terei a mulher que quero na cama que escolherei", aqui a ideologia se revela por trás do sonho.


Além das benesses materiais trazidas pela proximidade do poder, a la Getúlio, lá ele terá a suprema felicidade. Além e acima do amor, em Passárgada ele terá o privilégio de escolher quem, quando e onde.





Mas a pérola definitiva vem de Getúlio:


- Para os amigos tudo, para os inimigos o pesado braço da lei.


A Lei aqui não esta a serviço da Justiça, mas para punir inimigos. Já os amigos merecem tudo e estão acima dela. Uma sociedade talhada para os amigos, sem Justiça e portanto sem crimes.





Um país feito de impunidades, benesses e privilégios onde tudo se arranja desde que haja boa vontade. Boa vontade reservada aos amigos do rei, seja lá qual for o rei em vigor.


Mais interessante é que esta ideologia está presente tanto no povo quanto na elite.


Por isso não é de estranhar que o sentido do Direito Natural tenha aflorado e sido tomado nas próprias mãos pelos deserdados da sociedade. Literalmente à margem do sistema, estes "marginais" utilizam o paradoxo da Justiça fora da Lei para fazer sua própria justiça.





Através de seus crimes estes marginais acabam devolvendo à sociedade sua própria desagregação.


Para desatar esse nó seria preciso esquecer dos antonicos, dos reis e dos sonhos de passárgadas, nesta nação que desde a Descoberta foi tragicamente colonizada, repartida e concedida aos amigos do rei de Portugal.


Estruturando esta relação entre Ismael, Bandeira, Vargas e D. Manuel se percebe uma marca atroz.


A marca da Terrae Brasilis.













terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sam Ba . Encontro de culturas


Tive uma gripe fortíssima que me gerou uma infecção urinária
com dores abdominais de crise renal. Um terror. Pedi a um amigo médico que me indicasse um
profissional,


 – Nada disso vá agora
para o Hospital das Clínicas da USP.





Fui atendido em 10 minutos. Da recepção à triagem, da médica - por sinal
uma gata - à enfermagem fui atendido com muita gentileza e competência.


A médica, bonita, discretamente maquiada, sem perfumes, bem vestida e sorridente me passou uns exames e uma medicação de urgência que
foi administrada lá mesmo. Prescreveu uma medicação de suporte e pediu que
retornasse em uma semana para avaliação. A medicação poderia ser retirada no próprio hospital ou em qualquer estação do Metrô. 
Em menos de uma hora estava tudo resolvido.

Pode até ter sido um acaso estatístico, mas aconteceu. Um
atendimento melhor que Portugal, Inglaterra ou Alemanha, onde já morei. 
Sampa faz muita diferença da balada ao hospital.





Já avisei a vários amigos que se eu precisar ser atropelado
quero ser em São Paulo.


Estava na Av. Vergueiro em Vila Mariana quando vi um
rapaz ser atropelado ao atravessar a avenida fora da faixa. Em menos de dois minutos
já haviam chegado duas motocicletas da polícia.


A primeira estacionou ao lado do rapaz protegendo-o. A
segunda parou bem antes dele, virou-se em posição de contramão voltada de
frente para o tráfego com os faróis, piscas e sirenes ligados. Um policial
protegia o rapaz, o outro desviava o fluxo do trânsito. Ambos de rádio na mão
fazendo comunicações.





Cinco minutos depois chegou uma primeira ambulância de resgate.
Logo depois chegou uma outra de algum serviço médico, provavelmente chamada por
alguém que assistiu ao acidente. Em seguida chegaram os bombeiros. Mais uns dois
minutos chegou um helicóptero da polícia que ficou sobrevoando parado bem em cima do
local do acidente. Logo depois chegou um segundo helicóptero de alguma estação
de televisão que ficou girando acima do local transmitindo ao vivo.


Um atropelo, duas motos, duas ambulâncias, dois helicópteros.





Voltando ao Hospital das Clínicas da USP para onde
certamente o rapaz aí de cima foi levado, afinal na entrada do Pronto Socorro
há uma placa de aviso: Prioridade para resgate, ambulância e helicópteros.


Uma semana depois daquela minha crise, como pediu a médica, eis-me lá de volta. Desta vez não fui atendido por ela, mas por um médico. O rapaz
era igualmente paulista, tipicamente gentil, com aquela formalidade educada dos
paulistanos.


– Bom dia senhor, sente-se por favor. O que se passa?


– Obrigado doutor, bom dia.


– Bom dia obrigado, fique à vontade.





Passei a contar-lhe rapidamente minha estória. Ouvindo-me
com atenção ele disse,


– Por favor, continue, e não se importe se enquanto lhe ouço que
eu procure seus dados no sistema. E voltou-se para a tela do PC em cima de sua
mesa.


– Obrigado doutor.


Enquanto ele localizava meus dados e resultados dos exames no
computador eu lhe disse que já havia passado por algo semelhante há muitos
anos atrás quando morava em Salvador.


Ele se volta de repente para mim. O rosto do rapaz se
iluminou. Sorriu, largou o teclado.




– Você é baiano?


– Não doutor. Sou carioca mas morei muito tempo em Salvador.
O senhor é baiano?


– Também não. Sou paulista, mas morei estes últimos dez anos
em Salvador.


Subitamente a postura do médico, seus modos e principalmente
seu jeito de falar mudaram completamente.


– Sinto uma saudade da porra de Salvador! 'Cê morava onde?


– Na Graça e você?


– No Costa Azul. Mas conheço a Graça, é um bairro da porra,
disse ele.


Já adotando um jeito meio cúmplice, meio relaxado ele
perguntou,


– E aê? Essa porra tá doendo muito?


– Pra caralho.


– Deixa comigo porra. Vou mudar a porra da medicação, pedir
mais umas porras duns exames e quero ver se a gente não acaba com essa sacana
dessa bactéria.





Para quem não tem intimidade com o baianês, “porra” na
Bahia é usada indiferentemente como sujeito, substantivo, adjetivo, predicado
de várias ordens, interjeições de vários tipos. Expressões de raiva, alegria,
espanto, prazer, admiração.


A palavrinha mágica é usada para substituir outras palavras,
nomes, situações, conceitos e lugares que você não se lembra, ou não quer nomear, no momento em que fala.


É usada tanto para iniciar como para terminar as frases. Como
indicativo de mudança de parágrafo, pausa, ponto final, dois pontos, ponto e vírgula, três
pontinhos, ponto de interrogação e principalmente vírgula. Sem essas vírgulas verbais
as frases ficam sem pontuação, ninguém vai entender.

Serve para tudo porra menos o sentido original. Até em Sampa.



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Sua Música. Your Song do Billy Paul.


Billy Paul reescreveu lindamente a música original do Elton John.


Mudou frases, mudou muitos versos. Introduziu estrofes inteiras. A música mudou inteiramente. Quando ouvidas as duas versões são quase irreconhecíveis, principalmente por que ele introduziu um soul e um swing extraordinários, arranjo do Lenny Pakula.

A música ficou literalmente a your song do Billy Paul. Sorry Elton. It's a litlle bit funny.





Como quase todo mundo já ouvi e dancei a Your Song do Billy Paul vezes incontáveis.


Se você lembrar há duas pausas na música. Cada uma delas leva a um reinício, cada uma leva a um leve “crescendo” até chegar naquela alegria final de todos os “crescendo”.


Meu irmão Sérgio gravou-a para mim fazendo uma montagem onde ele transformou as duas pausas em várias. Ficou perfeito não se percebe a colagem, a música passou dos originais seis minutos e meio para mais de trinta. Puro deleite.


On the road: sem capota, céu azul, brisa no rosto, babe next seat, não tem preço.


On the dance floor: anestesia, é puro high, three sheets in the wind.





Billy diz: perdoe-me se esqueci se são verdes ou azuis, o que realmente importa é que você tem os olhos mais doces que já vi. Parece Jobim dizendo que este seu olhar quando encontra o meu fala de umas coisas que eu não posso acreditar. Billy chega muito perto de Amália quando ela diz que estes teus olhos de encantos tamanhos são pecados meus, estrelas fulgentes, brilhantes, luzentes, caídas dos céus, teus olhos risonhos, são mundos, são sonhos.





Billy completa dizendo: conte a todo mundo que Billy Paul fez uma canção, que ela é sua. Ela é bem simples mas é como ela foi feita, espero que não te importes como escrevi estas palavras. E diz estar tão inspirado que poderia escrever, escrever, escrever e escrever. Tanto um Gospel, um Blues, um Jazz ou um Rock'n'Roll. Mas ele fez um Soul delicioso. I'll write a few verses and then I get the blues.




Voltando a Jobim e Amália convenhamos que  falando de olhares entre a doçura da Bossa Nova ou a precisão do Fado bom mesmo é dançar o soul do Billy Paul. Dançar e dançar muito. Keep turnin' on.

Tenho uma amiga que diz que quando dança Your Song vê estrelinhas brilhando. O que é quase como dizer que sente borboletinhas na barriga ou algo ainda mais gostoso.





Há alguns anos assisti Billy Paul ao vivo.


Claro que ele deixou His Song para o final, a casa lotada, todo mundo esperando por Your Song. Na mais perfeita companhia dancei Her Song olhando nuns olhos que sempre lembrarei a cor.

Os mais doces que já vi, falando de coisas que eu não podia acreditar, teus olhos risonhos foram mundos, são sonhos.












O Humor de Freud e Lacan


Uma coisa que não entendo é por que parte dos meus amigos e amigas psicanalistas são meio sem humor ou se chocam com o humor politicamente incorreto.

Humor politicamente correto é a coisa mais sem graça que conheço. Não acredito em humor a favor todo humor é corrosivo. Isso me surpreende ainda mais por que foram justamente Freud e Lacan quem mais e melhor estudaram o Humor. 






Vale lembrar uma gravação de chamada em espera do telefone de um consultório: 


Obrigado por ter ligado. 


Se você é obsessivo compulsivo tecle 1 repetidamente. 


Se você é dependente e sem iniciativa peça para alguém teclar 2. 


Se você tem múltipla personalidade tecle 3, 4, 5 e 6. 


Se você é maníaco paranoico  nós sabemos quem é você e o que quer, fique na linha enquanto rastreamos sua chamada. 


Se você é esquizofrênico, ouça cuidadosamente que as vozes dirão qual número você deve ligar. 


Se você é maníaco depressivo, não importa o número que você teclar. Ninguém vai atender mesmo.






Mais corrosivo do que Lacan é impossível,

 - O Amor é dar o que não se tem a alguém que não quer.


O próprio Freud diz que o humor não é resignado mas rebelde. Há tiradas dele que são antológicas. 


Ao comentar uma decepção de um colega ele disse,


- Rebecca tire o vestido você não está mais noiva. 


Quando para escapar para a Inglaterra das mãos dos nazistas ele foi obrigado a escrever uma declaração de que havia sido bem tratado ele escreveu,


- Posso recomendar cordialmente a Gestapo a todos.


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Shakespeare: Igualdade Racial, Clemência e Piedade


O Bardo é definitivo na delicadeza dos versos, na sofisticação do raciocínio, na precisão da palavra. No discurso de Antônio ao lado do cadáver de César, no de Lady Macbeth antes do assassinato de Duncan, na descrição da sexualidade de Cleópatra. No poema em que canta o sorriso da mulher amada. No incendiário discurso de Henry V antes da batalha de Agincourt.




E em “O Mercador de Veneza” quando Shylock,
se referindo a Antonio, fala de igualdade racial:







– Ele me humilhou. E tudo, por quê? Por eu ser judeu.

Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos?


Se nos espetardes, não sangramos?


Se nos fizerdes cócegas, não rimos?


Se nos derdes veneno, não morremos?


E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos?


Se em tudo isso somos iguais a vós, então somos iguais em tudo o mais.






Esta fala foi usada por Lázaro Ramos, num contexto bem diferente de Veneza, no filme Ó Paí Ó, em pleno Pelourinho em Salvador, quando "Você é negro, negro, negro!" foi usado de forma ofensiva pelo personagem de Wagner Moura.


– Sim eu sou negro sim, mas por acaso negro não tem olhos? Negro não
tem mão, não tem pau, não tem sentido? Não come da mesma comida, não sofre das
mesmas doenças? Não precisa dos mesmos remédios? Quando a gente sua não sua o
corpo tal qual um branco? Quando vocês dão porrada na gente, a gente não sangra
igual? Quando você fazem graça a gente não ri? Quando vocês dão tiro na gente,
a gente não morre também? Pois se a gente é igual em tudo também nisso vamos
ser.







A vingança de Shylock está próxima de se realizar quando Antonio fica sem condições de lhe pagar uma dívida de três mil ducados. Antonio tinha dado uma libra da carne do próprio corpo como garantia contratual.


Shylock vai ao tribunal de Veneza exigir a execução do contrato que lhe dá direito a retirar, à sua escolha, uma libra da carne de qualquer parte do corpo de Antônio.


O fim de Antonio se aproxima já que não seria possível lhe retirar uma libra de carne, de onde Shylock escolhesse, e ele escolheu o coração, sem mata-lo. 




Frente a frente com Antonio no tribunal, Shylock com o contrato numa mão e uma faca na outra exige a execução da dívida.


Apesar dos amigos de Antônio se oferecerem para pagar em dobro ou mesmo triplicar o pagamento, Shylock continua irredutível. Exige a libra de carne do inimigo e brada:


– Eu exijo a Lei, eu exijo o cumprimento da Lei!


Todos lhe pedem clemência, os juízes, os advogados, os amigos, até o povo que assiste ao julgamento. Todos clamam por piedade. Mas Shylock insiste no cumprimento do contrato, ele exige a Lei.


Neste momento de alta tensão o Bardo coloca um jovem advogado no tribunal que começa a falar sobre Lei, Perdão e Compaixão. Ele termina o discurso com essas palavras definitivas:


– Quando oras ao teu Deus tu Lhe pedes Justiça ou Clemência?




A Lei organiza os homens em sociedade mas é a Compaixão quem os une e humaniza.