sábado, 11 de dezembro de 2010

Manhã de Sábado


Ontem, sexta-feira à noite, conversei muito com a Astha durante quase uma hora sobre literatura, Europa e muitas outras coisas nossas.


Depois "velejei" com o Klaus por quase duas horas.


Olhamos e analisamos 37 fotos da escola de vela dele. As fotos estão ótimas e foram todas tiradas numa mesma velejada de 3 Lasers na baía de Cascais. Deu para analisarmos os barcos em si, o aparelhamento, os bordos, as cambadas, as regulagens de vela, as montagens de bóia, as situações de vento, o uso da bolina, a posição de sentar e outras cositas más. Fizemos uma excelente velejada virtual e deu para rir, aprender e curtir muita coisa juntos.





Como hoje é sábado acordei mais tarde e lá pelas 10hs saí para dar uma caminhada. Calor agradável, céu azul, brisa constante. Na volta passei no supermercado comprei algumas coisas, cheguei em casa, preparei a iogurteira, coloquei duas heinies na geladeira e saí para almoçar.


Mais tarde vou ligar para a Taanit para saber como foi a aula prática de hoje na faculdade, o que ela aprendeu, o que criou, o que cozinhou, etc...


Tanto lá na terrinha como cá no além-mar ficamos todos à espera que ela volte das aulas. Por lá para provar o que ela trouxer, por cá para saber, imaginar e ficar de água na boca.





Em frente daqui de casa há uma feijoada ótima aos sábados. 


Fui lá, comi e voltei para casa suando de tanta pimenta. Tomei um banho e peguei uma heinie gelada. 


E agora acabei de colocar um filme-dvd para assistir. Escolhi Julius Caesar de Shakespeare. Acho que isso não vai dar certo...

domingo, 5 de dezembro de 2010

What A Difference A Day Makes


Esther Phillips, Jamie Cullum e Dinah Washington são inesquecíveis cantando What A Difference A Day Makes. É dificil você não ter dançado com a Esther.







Mais dificil é você não se lembrar de um dia que fez toda a diferença na sua vida. Cada um tem o seu.




Que diferença faz um dia? Muitas vezes não faz alguma. Tudo pode esperar e mais um dia não vai mudar muita coisa, se a vida puder esperar. Esperar por mais um dia pode até ser bom, ajudar a amadurecer, preparar melhor o amanhã. Pode até prolongar o hoje.










Mas deixar passar um único dia pode fazer toda a diferença se aquele for o dia D. Diferença entre vida e morte, felicidade e tristeza. Nem sempre dá para saber que diferença faz um dia. Amar pode ser a resposta, e quase sempre é. Que diferença faz um dia se ele for o dia que você não esperava? Um que amanheceu despretensioso, para ser só mais um.








Mas não este. Que trouxe a surpresa de ver Sandra surgindo do nada sem avisar. Preenchendo o dia.

Te vejo chegando, surgindo numa escada. Subindo pouco a pouco, passo a passo, degrau a degrau. Primeiro um rosto, depois um sorriso. Ontem foram dias tristes, dias de solidão, hoje você apareceu. O dia se ilumina e floresce. Que diferença faz um dia? 




Toda. E a diferença é você, mudando o dia, o presente, o  futuro.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Carioca


Rio, 27 de Novembro de 2010.


A ocupação militar das zonas em poder do crime organizado eletrizaram a atenção do mundo. As cenas das ações tanto dos traficantes quanto dos militares são impressionantes. Combates de rua. A reação da população emocionante.


Estes têm sido dias históricos para todos, principalmente para cariocas que como eu viram de longe o Rio sucumbir ao longo dos anos em um caos quase que inabitável.





As cenas ao vivo na televisão são impressionantes e dão a dimensão trágica da realidade. Todos se envolveram do presidente da república aos moradores. A televisão mostra combates, reunião enormes de ministérios, generais, soldados, policiais e políticos, planos sendo traçados, reuniões de comandantes e tropas.Helicópteros sobrevoando as áreas de intervenção, tanques de guerra avançando pelas ruas, tropas federais de todos os tipos se engajando numa ação enorme.


Tanques passando pelas ruas, esmagando e passando por cima de carros, paraquedistas camuflados, criminosos sendo baleados, incêndios por todo lado, tropas militares pouco a pouco ocupando território, criminosos recuando, bandidos fugindo mata à dentro, população desesperada, pessoas escondidas nas janelas, pais e mães fugindo com filhos no colo, escolas fechadas, bombeiros chegando, sons de fuzis e metralhadoras, mulheres colocando lençóis brancos nas janelas pedindo paz, paredes desmoronando, carros e ônibus incendiados.





Dias e noites de vida ou morte, de inferno e sangue. Tudo ao vivo, tudo real. Não é cinema.


Bem todo viu, todo mundo sabe do que estou falando. Mas do que eu quero realmente falar é do espírito carioca que faz o Rio sorrir de tudo, da alegria e da beleza que caracteriza esta cidade que ensinou o resto do país e do mundo a ser um pouco carioca. 


Alegre, displicente, brincalhão, indiferente, bem-humorado. Carioca.





A cena é a seguinte:


A televisão estava mostrando ao vivo um tiroteio entre tropas do exército e criminosos. O cinegrafista está muito perto da ação e a transmissão de imagens é arrepiante. Vê-se de muito perto uma esquina onde alguns soldados com roupas de combate estão deitados no chão disparando fuzis modernos com miras telescópicas. Os tiros são disparados contra uma casa de dois andares de onde criminosos revidam e disparam mais tiros. É uma cena real de combate. Ao vivo.


Muitos destes tiros passam tão perto da câmera que vê-se o rastilho. A cena é de tirar o fôlego por ser real. Você teme pela vidas daqueles soldados e pela do cinegrafista.


O tiroteio continua e a câmera continua mostrando a rua e a esquina de onde os soldados deitados estão atirando e a casa de onde os criminosos revidam os tiros.





De repente cessa o tiroteio. Passam alguns segundos. Os soldados continuam deitados. Passam mais alguns segundos de tensão e o tiroteio não recomeça. A câmera continua mostrando a cena. Os soldados continuam deitados se protegendo de possível ataque, de um recomeço do tiroteio.


De repente surge na rua um homem de chinelo, bermudas e camisa folgada. Ele aparece no campo de imagem da câmera, bem no meio da batalha. Uma imagem absurdamente contrária àquela realidade de combate. Alguém passeando num sábado tranquilo.


O homem começa a atravessar a rua normalmente. Ele está desprotegido, completamente exposto na linha dos tiros, bem no meio do tiroteio entre o exército e os criminosos.





Mas ele atravessa a rua tranquilamente, como se estivesse esperado o tiroteio terminar para atravessar a rua e seguir seu caminho em frente. Como se espera em uma passagem de pedestres que o sinal fique verde e os carros parem para você passar.


Simples assim. Bem carioca.

sábado, 27 de novembro de 2010

Klaus Velejador




Minhas crianças.




Well, crianças é que já não são. Vahine 20, Taanit 18, Klaus 15, Astha 14. 





Por causa da distância, Brasil-Portugal, uso todos os métodos possíveis para me manter em contato com meus filhos. Há anos quando só existiam os chats já passávamos tardes de sábado inteiras conversando, discutindo textos, ouvindo músicas. Em dial-up, imagine.










Bem as coisas mudaram e hoje usamos para nos comunicar um sistema próprio, avançadíssimo, chamado FOL.  O FOL é uma OSWS baseada em HSCR com recursos VTIR trafegando em HSCR.




Gostou, se interessou? Brincadeirinha: OSWS (open source web structure), HSCR (high-speed connection rate) , VTIR (voice, text and image resources) é tudo conversa fiada de analista de sistemas, hehe.  Ah sim o tal sistema FOL. É o Father On-Line...










Pois é passamos horas no Skype, fazemos tarefas de escola juntos e on-line, pesquisamos, montamos, criamos textos e apresentações. E-mails, Facebook, Orkut, GoogleTalk, MSN, HI5, YouTube, SMSs e Voips, downloads e uploads, usamos tudo.




Chegamos até ao absurdo de apelar para os correios, telefone e celular convencionais.




Ouvimos música, assistimos vídeos, almoçamos juntos, planejamos roteiros, férias e atividades. 




Comentamos livros, notícias, filmes e DVDs. Trocamos receitas e uma vez até cozinhamos on-line. 


Já estive presente - webcam, caixas de som e microfones lá e cá - em uma festa de aniversário que para mim foi virtual.




Às vezes brinco: 




- Vou ao banheiro agora, levo o laptop ou vocês esperam? 




- Ô Paaiiiiêê... 





A parte chata é que eles controlam a quantidade de cigarros e cervejas. Não dá pra esconder. Em compensação comemoramos as passagens de ano duas vezes. No fuso horário de lá e no de cá.











Eventualmente a coisa fica engraçada. Às vezes ouço uma voz mais alta da mãe a repreendê-los e acabo me metendo. Coitadinhos, pois aí eles têm que enfrentar a crítica de nós dois, pois ela quase sempre tem razão. O resultado de tudo isso é que acabo sendo mais presente que muitos papais por aí. E com a grande diferença que há mais qualidade e consistência nos contatos.




Como eles são excelentes alunos ganham prêmios em dinheiro das escolas e financiam as próprias viagens. Espanha, Italia, França, Noruega, eles conheceram com os próprios recursos. With a litlle help from mom & pop, mas a iniciativa é deles.










A Taanit, superdotada, me surpreendeu escolhendo Gastronomia ao invés de fisica nuclear, astronáutica ou algo exótico. Excelente, ela vai se dedicar ao que gosta.




A Vahine está no meio do curso de Cinema e já está para fazer estágio profissionalizante nos próximos meses. Ela está em dúvida entre Brazil, França ou Alemanha.




A Astha que já tinha me dado um susto enorme ao aparecer com um romance com mais de 200 páginas, quando ainda tinha 12 anos, continua a surpreender. Já lhe encomendaram uma peça de teatro ligeira para servir de teste vocacional a candidatos à uma escola de teatro. E depois disso escreveu um conto policial. Todos de muita qualidade. 






Mas o que me deixou ainda mais pasmo foi o que ela disse há cerca de dois meses. 




- Decidi estudar e viver num país civilizado, mas não em um país aparentemente civilizado. Vou para Cambridge cursar Linguas Modernas e Medievais.  




Simples assim.  E ela já tinha tudo em mãos: duração e matérias do curso, forma de financiar os estudos, de como paga-los e de como morar na universidade. 




E mais recentemente ela estreitou o foco. 




- Para ter certeza de entrar em Cambridge o ideal é terminar o secundário lá mesmo na Inglaterra.




Claro que ela está certa, na primeira decisão a segunda já estava quase implícita, mas mesmo assim ela me deixou surpreso. Agora ela está planejando como realizar, já entrou em contato com escolas secundárias inglesas e já sabe como tudo deverá funcionar.











Nestas três opções de vida eu me reconheço mais que em mim próprio: Cinema, Gastronomia e Literatura. As coisas de que mais gosto mas que nunca tive a coragem de segui-las profissionalmente. 





O impacto emocional é enorme, a satisfação indescritível. Poderia de tão longe te-los influenciado? Ou é apenas coincidência? Sandra, a mãe, assume, coitada, que:




- Eles todos têm nos gostos, personalidade e escolhas uma parcela muito grande do Ivan. 




Pobre mulher, que mesmo divorciada tem que conviver com quatro lindos fantasminhas. 










Mas até agora a grande incógnita era o Klaus. O que ele decidiria? Que escolha faria? Como ele é muito caseiro e vive grudado no laptop estava difícil adivinhar. Informática? Provavelmente não, por que ficar na frente de um computador hoje em dia não significa necessariamente uma vocação. E não seria pelo DNA por que apesar dessa ser minha profissão ela é apenas isso.










Mas eis que de repente surge uma grande novidade que nos surpreendeu a todos. 




Klaus saiu da frente do computador. 




Klaus escolheu um esporte para praticar. 




Klaus se matriculou numa escola para praticá-lo.




Klaus está VE-LE-JAN-DO.


Juro que chorei.






Velejar.




Não há nada que me dê mais prazer. Participei de uma equipe de vela, tive barco, participei de um monte de regatas, velejei em solitário por dias e por muitas vezes. Sobrevivi sozinho a uma tempestade onde outros barcos afundaram. Minhas filhas Taanit e Vahine devem seus nomes à veleiros! 




Uma cineasta, uma chef, uma escritora e agora um velejador. Meus filhos queridos, estes quatro pedaços enormes de mim.




Fico a pensar se os deuses decidiram me  abençoar com tantas e enormes alegrias ou se preferiram, abusando da Onipotência e na melhor tradição grega se divertir me mantendo apartado delas.


sábado, 20 de novembro de 2010

Dia da Consciência Negra

Hoje é dia 20.11 da Consciência Negra em quase todas as cidade do Brasil.



Pra começo de conversa acho que quase tudo que o que o Brasil tem de melhor devemos aos Negros.


A musicalidade, a alegria, esta religiosidade marota, o corpo cheio de curvas, o humor, uma certa mansidão, a sensualidade. 


E principalmente esta língua portuguesa falada tão docemente.






Mas é bom não esquecer de que tivemos e desfrutamos muito da Escravidão. E dessa vergonha carregamos as consequencias.


O historiador João José Reis diz não achar "que todos os problemas brasileiros, inclusive de relações entre as classes, tenham a ver com a escravidão. Mas o fato é que tivemos quase 400 anos de História em que os mais afortunados se acostumaram à noção de que os outros podem ser torturados. Isso pesa".






Manolo Garcia Florentino, outro historiador, acrescenta que "a escravidão foi a base a partir da qual se fundou uma civilização, para retomar a Sérgio Buarque de Holanda para quem o Brasil por sua complexidade e diversidade era uma civilização.


Ela, a escravidão, fundou a civilização brasileira. E ao fazê-lo viabilizou um projeto excludente, em que o objetivo das elites é manter a diferença com relação ao restante da população".






E para finalizar o historiador Luiz Felipe Alencastro mostra que "a escravidão legou-nos uma insensibilidade, um descompromisso com a sorte da maioria que está na raiz da estratégia das classes mais favorecidas, hoje, de se isolar, criar um mundo só para elas, onde a segurança está privatizada, a escola está privatizada, a saúde privatizada".






Somos uma civilização fundada na tortura, no estupro, no assassinato e no trabalho forçado.


Fruto de um projeto excludente que nos legou esta insensibilidade com a sorte da maioria, esta tendência a criar um mundo próprio e isolado por muros e cercas elétricas. Prisioneiros do próprio povo.


Por tudo isso não nos sentimos uma nação, por isso temos vergonha do outro e não nos sentimos iguais a ele. Talvez um dia esta Negritude maravilhosa e tolerante que viabilizou este país possa se espalhar tanto que nos una em uma só alegria. Aí e só então poderemos nos chamar de Nação Brasileira.




quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Fettuccine Taanit


Minha filhota Taanit aos 17 já está na Faculdade de Hotelaria do Estoril em Portugal.


Foi uma surpresa "esperada". 


Surpresa por que sendo ela tão excelente aluna poderia escolher qualquer curso que quisesse frequentar.


Esperada por que sendo ela tão excelente pessoa e tão determinada, era óbvio que ela escolheria uma profissão que fosse lhe dar prazer.


E entre tantas ela escolheu Gastronomia o que me deixou hyper-feliz pois adoro esta arte. Para ela fiz uma receita bem simples de um fettuccine. 






Fettuccine Taanit.


Ingredientes: massa de fettuccine, creme de leite, mozzarella, provolone, presunto (fiambre em Portugal), alho, azeite extra-virgem, manteiga (marca Aviação ou alguma dos Açores).


Preparo: ao mesmo tempo em que coloque a massa para cozinhar ao dente prepare o molho. 


Molho: pique o alho e frite-os no azeite, quando estiverem dourados coloque a manteiga. 


Baixe o fogo e deite o creme de leite. 


Coloque a mozzarella ralada e depois o provolone ralado, sempre mexendo. 


Quando o molho estiver uniforme coloque as fatias de presunto (fiambre) cortados em tirinhas.


Deite o molho à massa e sirva imediatamente.


Decore com salsinha. Acompanhe com um Dão.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Discursos




Enormes transformações e abalos sociais foram executados por palavras.

Moisés ao falar das dez leis que organizaram sua sociedade e que até hoje são a base jurídica e das sociedades estruturadas.

O discurso de Antônio diante do cadáver de Cesar que reverteu uma revolução política no maior império da História.

O discurso de Henrique V antes da batalha de Augincourt motivando um exercito maltrapilho - we band of brothers - em inferioridade numérica de 5 para 1 que derrotou a poderosa França e com pouquíssimas baixas.

Enobardo falando da beleza e da sexualidade de Cleópatra que sem essa descrição talvez não passasse de mais uma rainha.

Hitler levando um dos povos mais cultos da história para uma catástrofe moral e material sem precedentes e a cometer atrocidades inimagináveis que até hoje parecem incompreensíveis.

Churchill mal armado, com poucos recursos prometendo uma vitória improvável, liderando corações e mentes e triunfando no final.



E para ficarmos nos dias de hoje o eletrizante discurso de Martin Luther King na grande passeata dos direitos civis. Ao falar de seu sonho de uma tarde de verão, ao descrever seu sonho de igualdade racial ele não poderia imaginar que a nação que lhe segregava nas escolas, que reservava bancos separados nos parques e em transportes públicos, terminaria por eleger um presidente negro.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Roteiro Gastronômico do Recife


Ontem eu estava com minha amiga Gaby Serejo num papo ping-pong meio engraçado no Facebook, ela reclamava:



- Será virose? A cabeça dói há 2 dias, o estômago não sossega se num se entope de chá e a porra da reforma do vizinho de cima num acaba nunca!! ai ai ai...




Como ela tinha acabado de chegar de uma semana em Salvador, que ela passou lá pros lados de Itapoã, eu disse:




- Virose nada Gaby, chama-se SATI - síndrome de abstinência de tardes em itapoã



- Você ama essa cidade, né?? Acho bonito isso...



- Londres é a segunda melhor cidade do mundo




- Tenho q discordar da primeira. :P




- Hehe, com certeza Gaby! Deixei em Recife alguns dos mais sérios, inteligentes, cultos e interessantes amigos que já fiz na vida, sniff, sniff...




- Eles estarão sempre aqui ou pelo menos em contato, se são realmente seus amigos. :) Chola não :P




- ...além do melhor escondidinho do nordeste, sarapatel do oitão, caldinho do neno, carne-de-sol do komida kaseira, agulha frita anyplace, bolinho de bacalhau do empório, coxinha de casaforte, charque com fava do bar da fava, costela do boi no bafo, chopp do buteco, tapioca de olinda, etc, etc...ai que fome caraca!!!


- tb com esse cardápio... deu fome mesmo.










Well well Gaby, para não ser injusto vou te fazer o roteiro gastro-etílico que me mata de saudades de Recife:










Saladas do La Plage, Arroz de Polvo em Tamandaré, Almoços e jantares chez Beta L.C., Crepes do Montmartre, Pastel de forno Padaria dos Quatro Cantos, Sanduiche 45 do Fiteiro, Acarajé da Guararapes, Filé ao molho Madeira do Leite, Hamburguer de picanha do Laçador, Caldinho de camarão do Bar da Praia, Grelhados do Ponte Nova, Bacalhau à moda do chef do Skillus, Cabrito ao vinho da Oficina do Sabor, Escondidinho de camarão da Teka, Tender com molho de manga e castanhas de Tereza CR, Ostras do Guaiamum Gigante, Caldinho de polvo do Só Caldinho Guaiamum, Peixada do Casa de Banhos, Bolo-de-rôlo da Casa dos Frios, Spaguetti al mare do Famiglia Giuliano, Charque da Edineide no Mercado da Madalena, Arrumadinho de charque do Largura, Iscas de filé do Casa da Moeda, Bolinho de bacalhau do Engenho Casa Forte, Carne de Sol do Cunha, tomar café da manhã no Parraxaxá, quase tudo no Restaurante da Mira, Salgadinhos da Nutella, Pizza do Armazém Guimarães, Filé Chateaubriand do Mingus, Sinfonia Marítima do Ilha da Kosta, Frango ao Molho Brie do Maison Bonfim, Aniversários temáticos do Paulo Cunha, Sushi da Quina do Futuro, Camarão Aglio e Olio do Palácio dos Camarões, Casquinho de Siri do Biruta, Cozido da D. Jelma, Cassoulet do Nez Bistrô, Tya Ja Myón do Burgoguí, Caipirinhas da Cachaçaria Carvalheira, Beijupirás malucos do Beijupirá, Carpaccio do Othelo, Bolinho de peixe do Recanto Lusitano, Surubim do Kweto, Sorvetes da Free-Sabor, Saladinhas do Giardino, Paella do Alphaiate, Bacalhau ao Murro da Tasca, Tepan do Zen, Feijoada do Vavá, Tripa de bode do Buraco da Otília, Nhoque do La Gondola, Lambretas do Tepan, o que tiver saindo no Bragantino no Mercado da Encruzilhada, Coisinhas do Empório Marítimo, Queijo Coalho marca Independencia, Salsichas, lombinho e chucrute daqueles alemães do Açude de Apipucos que aliás já se mudaram pro Rosarinho, Rodízio do Spettus, Sirigado do Porto Ferreiro, todos os bistrôs da Galeria Joana D’Arc, Bode Guisado com farofa de cuzcuz do Bode da Hora, Linguiça de bode do Entre Amigos, Mexilhões gratinados com gorgonzola do Seu Cafofa, Sarapatel do Oitão, Caldinho de feijão do Bar do Neno, Costela de porco assada do Komida Kaseira, os petiscos do Bar da Geralda lá no alto do Morro da Conceição, Carne-do-sol do Gordo, Agulha Frita do Gauiamum Treloso, Coxinha catupiry e Empada de queijo do reino do Bar Real, Charque com fava do Bar da Fava, Costela do Boi no Bafo, as empadas do Buteco e as Tapiocas do Alto da Sé de Olinda.










E last but not least o inesquecível Risotto de Camarão de D. Gracia sempre insuperável nestes assuntos de cama e mesa. 




Aliás hoje é o aniversário dela.




quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Klaus: nosso almoço tá fugindo



Nas férias de sonho que passamos em Tamandaré-Carneiros, Astha , Klaus e eu devemos ter engordado um bocado, apesar de todo o exercício que fazíamos andando, correndo na praia ou surfando sem prancha.



Além de curtir toda aquela paisagem, o clima e a praia nós só fazíamos dormir, comer e conversar muito. Mas de toda a nossa rotina a que mais me agradava era cozinhar.

E como tínhamos feito contato com um pescador local ele sempre passava na nossa casa com o que tinha para vender naquele dia.

Sempre frescas e recém-pescadas as surpresas eram deliciosas.

Por isso nosso almoço dependia do que esse nosso pescador tivesse trazido para aquele dia: polvo, marisco, camarão, peixe ou lagosta. Ele mesmo os limpava e quando havia polvo já o trazia amaciado.



Num desses dias compramos uns camarões coloquei-os num balde e fui lava-los na torneira do jardim.

Como enchi com água demais o balde transbordou e os camarões foram parar na grama. Ainda vivos eles se mexiam e pulavam.

Klaus ria muito e gritava:

- Pai nosso almoço está fugindo!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Conversa com a Vahine




Depois dos últimos textos sobre as crianças eu e a Vahine trocamos e-mails.




Vahine:


- Adorei ler todos os textos e foram todos nostálgicos!! E deixaste-me cheia de saudades.




Ivan:


Imagino o que sentistes, pois sei o que senti ao escrever.


Mas foi como se estivesse a vê-los e pudesse toca-los, assim tão longe dos olhos e tão perto do coração.







A saudade é em grande medida a medida do amor e mesmo as lágrimas que nos faz derramar não amargam, mas semeiam o coração.


E se a elas não nos rendemos por medo do chorar, então seca nosso pranto e se entristece nosso cantar.






Vahine:


É mesmo essa a essência meu Pai!


Uma das coisas bonitas da Vida, que às vezes nos dá força para construir outros objectivos.


As minhas memórias da infância são doces e as de Inglaterra são Mágica!


E adoro revive-las e conta-las todos os dias para mim mesma.


Aliás como sabes sempre tive muita dificuldade em adormecer, mesmo morrendo de sono. E uma coisa que eu costumava fazer quando era pequena era contar a mim mesma tudo aquilo que lembrava desde a minha primeira memória ate ao momento.


E claro que a cada dia essa história ficava maior...


Às vezes contava-a para as estrelas, outras vezes para a lua...e assim adorava conversar com elas antes de dormir até adormecer.


E é graças a isso que lembro-me de muitas coisas!!


Mas tenho penas de às vezes não poder revive-las com os manos, afinal também eles fizeram parte; ter estes momentos de troca de experiências e poder perceber a perspectiva de cada um.




Ivan:


This is my girl!!


Kisssssssssssss


Love u, Love u




Quem foi que fez?


Fizemos em casa o parto de Klaus e Astha.



O primeiro por necessidade, por urgência, o segundo por opção mesmo.




Na verdade tenho cá minhas dúvidas se mesmo o primeiro não terá sido uma "emergência" escolhida. Eu tinha experiência como parteiro dos anos em que estudei Medicina e das dezenas de partos que fiz nos plantões na maternidade do hospital Manoel Vitorino Vitorino, em Salvador na Bahia.









Sandra tinha se assustado, durante o nascimento da Taanit, com a incompetência da obstetra que continuou delivrando o bebê mesmo após ter ficado claro que ele estava laçado pelo cordão umbilical.




Eu estava assistindo o parto, vi o que estava ocorrendo, interferi imediatamente e fiz rapidamente a manobra para desfazer o laço. Consegui.




A médica se surpreendeu com minha atitude,




- Obrigado, eu não tinha percebido.




Depois disso os dois partos seguintes aconteceram em casa, foram perfeitos, bem sucedidos, sem complicações e acima de tudo muito divertidos. Tudo isso é uma longa introdução para uma história curta. Daquelas coisa que as crianças dizem coisas e que nos surpreendem.









Estávamos em Tamandaré, um paraíso do litoral sul de Pernambuco. Entre amigos estávamos fazendo um churrasco gaúcho enorme, daqueles que têm o dobro da carne que as pessoas em sã consciência são capazes de comer. Portanto daqueles que se estendem do meio da manhã ao fim da noite. O grupo se dividia entre os que estavam no jardim em volta da churrasqueira e os que estavam na varanda da nossa casa.




Eu estava no grupo da sombra. Astha, que na altura tinha quatro anos, também estava na varanda sentada no colo de um de meus amigos que gostava muito dela. Ele estava sempre procurando conversar com ela no que, aliás, não tinha nenhuma dificuldade, pois Astha além de muito alegre e carinhosa era muito divertida e gostava de conversar.









Ele começou a brincar com ela:




- Que olhos tão lindos, quem foi que fez?




Ela responde apontando o dedinho para cima,




- Foi o papai do céu.




- E esse nariz tão bonitinho, quem fez?




- Foi papai do céu.




- E este umbiguinho lindo, quem fez?




- Foi aquele papai ali, disse ela me apontando.


terça-feira, 31 de agosto de 2010

Vahine




Quase todos os dias eu assistia a um musical com a Vahine, a minha filhota que herdou o nome de um veleiro.


Ainda pequena ela adorava as danças, as músicas. Gostava muito do Mágico De Oz, Um Americano Em Paris, Cinderela, West Side Story e principalmente Dançando Na Chuva.


Louquinha pelo Gene Kelly.




Um dia voltando da escola em Tylers Green, caminhávamos pela calçada ela na frente e eu atrás tomando conta. Minha fofinha tinha então sete aninhos.




Eis que de repente começa a chover, não muito forte mas chovia. Uma gentle rain inglesa. Antes que eu fizesse alguma coisa, ela abriu o guarda-chuva colorido e começou a fazer os movimentos do balé do Gene, a andar com um passo na calçada e outro na rua, chutando a água.


Exatamente como na cena clássica quando depois do beijo da Debbie Reynolds começa a chover e o Gene a dançar.




Ela seguia na minha frente cantarolando I'm singing in the rain... num inglês perfeito.


Eu atrás não sabia se corria e lhe abraçava ou se deixava continuar aquele momento mágico. Preferi deixa-la viver e fiquei a assistir aquela poesia acontecendo na minha frente.




Hoje ela estuda Cinema.



Raining? From where I stand, the sun is shining all over the place. What a glorious feeling.










terça-feira, 27 de julho de 2010

Memorial do Retirante




Recife tem o privilégio que poucas cidades têm no mundo de ter uma grande obra de Oscar Niemeyer. Cidades se transformaram em cartões postais por conta disso. 


O grande mestre da arquitetura moderna, que levou adiante os conceitos de Le Corbusier, é indiscutivelmente o gênio das curvas impossíveis e sensuais. Pela idade avançada de Niemeyer ter hoje um projeto dele mais que um privilégio é uma oportunidade imperdível, é ter um patrimônio inestimável.





Sendo o centro geográfico e quase sempre cultural e intelectual do Nordeste, Recife sofreu ao longo de décadas as conseqüências desta localização e de suas misérias, principalmente as da Seca.


Para a cidade convergiram os miseráveis e desamparados de toda a região ao seu redor à procura de refúgio. Famílias de retirantes dos estados vizinhos chegaram aos milhares, expulsas pela seca. 


Recife foi quem pagou, sem poder, o alto preço de recebe-las.





Famílias inteiras aqui chegaram e aqui se desagregaram.


Os homens que estavam em condições de trabalhar terminavam por emigrar para o sul do país. Eles quase nunca retornavam deixando definitivamente para trás suas mulheres, velhos e crianças que estressaram a infraestrutura da cidade. 


Recife se enchia de crianças abandonadas, miseráveis, mendigos e prostitutas. A cidade acabou inevitavelmente por herdar todas as conseqüências sociais, políticas e urbanas desta situação indesejada. A cidade até hoje guarda em seu caráter e em sua estrutura a marca forte e a lembrança de tudo isso. Nenhum lugar portanto seria mais merecedor de sediar um Memorial do Retirante.





E assim foi feito.


Um grande centro de exposições começou a ser construído pela prefeitura da cidade no bairro de Boa Viagem. O Parque D. Lindú tem o nome da mãe do presidente do país, ele próprio um retirante, o mais famoso deles, projetado por ninguém menos que Niemeyer.


Para quem o vê pela primeira vez o conjunto arquitetônico além de belíssimo é avassalador pois o mestre criou uma obra-prima que instantaneamente transmite pela formas limpas e simples toda a solidão, o desamparo e o vazio da condição de um Retirante. 


De quem é obrigado pela miséria a abandonar sua terra em direção ao desconhecido.


É muito difícil não se emocionar e sentir imediatamente todo o contexto humano dos retirantes da seca que aquelas formas transmitem. A arquitetura trás um sentimento, uma história. O conjunto tem a expressão de um poema.





Mas a cidade envergonhada de seu passado rejeitou a obra.


Chegou a pensar em transformar o parque em uma área verde. Um contrasenso brutal querer povoar de verde um memorial ao retirante da seca. Hoje o parque se transformou num grande imbróglio. Esta semi-abandonado há anos e não se sabe se será um dia concluído e como será. 


A situação é ainda mais absurda por uma obra-prima desta importância estar semi-abandonada. Um parque que a população não desfruta com equipamentos que não funcionam. 


Além de um desrespeito ao bolso de contribuinte é mais um esqueleto inacabado numa cidade que já convive com tantas feiúras e mazelas.





Conviver com o passado, resolver suas questões e suas pendências é essencial para a saúde mental de qualquer indivíduo, quanto mais para a história de uma cidade. Negar suas heranças, mascarar sua história, fugir dessa realidade é doentio e impede que se resolvam os traumas do passado, para que se possa olhar com dignidade para o presente e construir o futuro.




PS.: Este post foi escrito em 2010. Hoje felizmente a obra foi terminada e se integrou na vida cultural da cidade.





terça-feira, 13 de julho de 2010

Srebrenika na Copa


Esquecemos neste domingo da Copa de 2010 de relembrar o massacre de 8.000 refugiados bósnios pelo exercito sérvio em Srebrenika.



Há exatos 15 anos no dia do jogo Holanda x Espanha.






Radovan Karadzic, o presidente sérvio na época é lembrado por ser psiquiatra e poeta. Poeta?




Pois é, o coleguinha do genocida executor Ratko Mladic, era poeta.




Qual o problema? Cada um escreve com a tinta que prefere, uns preferem as balas, outros o sangue, outros os dois.






O que acho mais emocionante nesta historia não é o genocidio sem paralelo na historia pois a area do massacre estava sob a proteção das tropas holandesas da ONU que assistiram passivamente à carnificina.






Tocante mesmo é saber que os pobres holandeses que assistiram ao espetaculo, tão tristinhos ficaram que depois se tornaram doentes, assassinos ou suicidas.




Tadinhos.






Vai ver que foram os urros das crianças, velhos, mulheres chacinadas e os milhares de mortos insepultos que gritaram mais alto que as vuvuzelas em Soccer City.


sexta-feira, 25 de junho de 2010

Rua Nascimento Silva 107


...Você ensinando para Elizete, as canções da canção do amor demais,



...E além disso se via da janela um cantinho do céu e o Redentor.., diz Vinicius na Carta ao Tom 74.






Sou carioca criado na Republica Independente de Ipanema com todas as consequências, boas e às vezes nem tão boas, que isso trás.




Durante o dia colégio, praia, surf e namoro, nem sempre nesta ordem de importância. De noite cinema, teatro, festinhas e namoro. Todo ano Reveillon à fantasia na praia e depois Banda de Ipanema no carnaval. Por ali sempre por perto ou no Veloso (hoje Bar Garota de Ipanema) os caras mais velhos que estavam fazendo história na música, nas artes e na politica.






Morávamos na Nascimento Silva 130.

Nossa casa ficava no lado par da rua na calçada oposta ao 107 da casa do Jobim. Depois da esquina lá de casa, ficava a casa da Helô, a garota da música.


Como meu quarto ficava nos fundos do nosso apartamento, da minha janela eu tinha exatamente a mesma visão da janela que o Poetinha canta.


Depois que saí de lá, morei pelo Brasil e pelo mundo e não mais voltei. Mas sempre lembro que de lá eu via um cantinho de céu e o Redentor. Que tempo feliz, ah! que saudade, Ipanema era só felicidade.


Fettuccine do Klaus


Meu Filho Klaus hoje com quatorze anos e 1,80m cozinha desde os nove anos no mínimo.



Talvez de tanto ver todos em casa cozinharem ele se sentiu levado a fazer alguma coisa. Ou talvez mais prosaicamente levado por alguma fome urgente que tenha lhe acontecido, o fato é que ele nos surpreendeu cozinhando esta receita simples e facilima de se fazer nas horas de pressa.







Ingredientes


Fettuccine


Molho de tomate


Uma lata de atum


Oreganos


Queijo parmesão ralado






Preparo


Coloque a agua para ferver com sal e um pouco de oleo em uma panela, quando ferver coloque o fettuccine por sete minutos, retire e lave com agua fria para interromper o cozimento.


Enquanto isso em uma outra coloque o molho de tomate, um pouco de agua para compensar a redução do cozimento e vá misturando e desfazendo o atum.


Quando ferver, salgue este molho, tempere com o orégano e despeje o fettuccine.


Sirva imediatamente com queijo parmesão ralado por cima.



quarta-feira, 12 de maio de 2010

Zeitgeist




Estive comentando o filme Zeitgeist com minha filha Vahine. Zeitgeist é uma daquelas palavras alemães geniais, fruto daquela maneira alemã de criar um conceito inteiro, um Das Koncept, em uma única palavra. É como Weltzchmert que é a dor do mundo aquela dor total de todos os seres humanos. Ou como Zukunfsfreud que é o otimismo, a esperança em relação ao futuro ou Schadenfreude, que é a alegria pela desgraça alheia, o inverso da compaixão.





Nesta forma de criar palavras conceituais Zeitgeist é um conceito dependente do tempo e do espaço. Representa o ambiente cultural, científico e intelectual do mundo em um determinado momento, época e lugar. Cada época, cada lugar portanto tem seu Zeitgeist específico. Mas antes de voltar a “Zeitgeist” o filme, vamos ver outra palavra alemã: Angst.





Angst não é apenas uma angústia pessoal e passageira, é algo maior que faz parte intrínseca do ser, do viver humano. É a dúvida, a dor, a alegria de viver cada novo dia. A dor de existir, de não saber como começa nem quando termina, não saber o sentido da vida, de onde viemos para onde vamos. Se viemos e se vamos para algum lugar. Este Angst é condição essencial do ser humano.





E é esta incerteza, este tormento às vezes leve, às vezes insuportável que é o Leitmotif (mais uma em alemão) na origem de todas as religiões e filosofias. 


Diante da Existência ficamos perplexos, sem explicações e nos falta principalmente um significado para o existir. Falta-nos também uma ideia que una todos os fatos e os torne compreensíveis, que os torne parte de um todo racional. Precisamos de algo ou de um script que explique os movimentos históricos, que dê uma sequência lógica e aceitável à jornada do Homem.


Algo que torne fácil visualizar que a História do Homem não é um caos de fatos sem propósito. Enfim algo que dê sentido e relevância a tudo que nos cerca, que vemos, que participamos.





Surgem então ao longo da História, as mais diversas religiões, crenças, filosofias, sistemas políticos. 


Sistemas que procuram explicações e principalmente enxergar uma ordem no que parece ser um caos de acontecimentos e de total falta de propósito. Toda esta procura por explicações, esta luta contra o caótico e em busca do previsível, do planeável, do controlável é em resumo a história do Homem.





É a luta contra o maior dos medos, o medo da Morte, o medo do Desconhecido. O Desconhecido e o Caos são a Morte e o Controle e o Conhecimento seriam a Vida. Note que todo progresso científico se resume em melhorar e prolongar as condições de vida, e que toda religião promete a vida eterna.


Mesmo assim Ciência e Religião não têm sido suficientes para aplacar ou anular o Angst. Ainda falta algo mais. Algo que junte as pontas da História. Que dê um começo, um meio e um fim, que estabeleça um sequência e um propósito. Que enfim explique todos os fatos dentro de um mesmo raciocínio.





Agora junte esta necessidade de explicações simples para a História com o Weltratlosigkeit (a perplexidade diante do mundo) e o Angst e você acaba chegando então nas Teorias Conspiratórias.


As TC’s surgem de tempos em tempos para dar uma explicação aceitável a fatos que não temos capacidade de processar, de entender ou de reuni-los todos juntos e chegar a uma conclusão satisfatória.





Mais ainda: o medo do desconhecido, a dificuldade de elaborar um raciocínio sintético global leva o Homem a desconfiar de que há algo por trás de tudo servindo a interesses que não são seus. 


Daria para chamar isso de paranóia colectiva latente. Outro ingrediente neste caldeirão cultural que constrói o Zeitgeist de cada época é a necessidade de identificar um culpado para o que de mal nos acontece e para tudo que não encontramos explicação razoável.


Grandes líderes carismáticos têm se aproveitado destes medos, inseguranças e angústias para conduzir povos e nações inteiras nas mais insanas aventuras sociais e políticas. 


São os Ditadores, os Profetas, os Messias, os Iluminados.





A História está cheia deles, a Alemã inclusive.


Por tudo isso me reservo algumas cautelas em relação a Zeiltgeist, o filme. Note que ele tenta ligar as pontas de séculos de História dentro de uma mesma linha de propósito, naturalmente ameaçadora.


Por isso minha filha querida tenha muita precaução com qualquer teoria conspiratória. Seja de que tipo for, pois quase sempre elas são a procura de uma explicação fácil para problemas de dimensão grandiosa que assustam nossa condição humana.


Prefira sempre o caminho do Ceticismo pois mesmo que você erre, sempre errará muito menos e não ficará a mercê de falsos profetas.





Se o filme trás denúncias concretas, ótimo. Vamos nos informar e combater com seriedade, mas sem nos deixar enganar pelos moinhos de Dom Quixote. E para concluir tudo isso, em relação ao Angst te deixo com Gilberto Gil que sabiamente nos diz que ela só termina quando depois de viver,


Correr, perder peso, curar, ficar são


Solta


Com a alma no espaço


Vagarás, vagarás, te tornarás bagaço


Pedaço de tábua no mar


Dia, após dia boiando


Acabarás perdendo a ansiedade, a saudade


A vontade de ser e de estar


Livre


Das dentadas do mundo


Já não terás, no fundo, desejo profundo


Por nada que não seja Bom


Não mais


Que um pedaço de tábua


A boiar sobre as águas


Sem destino nenhum

sábado, 20 de março de 2010

Nova York é Aqui


A policia de Nova York prendeu esta semana um total de 22 pessoas, incluindo membros importantes dos clãs mafiosos dos Luchese e dos Gambino por crimes que vão de agiotagem e jogo ilegal a suborno de funcionários públicos.









O procurador-geral Andrew Cuomo centrou as investigações nas operações desses clãs no bairro de Staten Island, um dos cinco da cidade.



Um dos detidos é o chefe adjunto do Departamento de Limpeza de Nova York, Frederick Grimaldi, suspeito de manipular licitações mediante suborno, em colaboração com seu sogro Michael Murdocco, suposto membro do clã Gambino.










Lixo lá como cá é sempre barra-pesada.





Livros Imperdíveis


Mesmo vinte anos após a Queda do Muro e do Império Soviético, ainda há muita coisa para se compreender deste século XX tão intenso e rico em experiencias socias. 


Há três livros que ajudam muito a compreende-lo e a entender nosso tempo e nosso espaço contemporâneo e as consequencias históricas de um passado muito recente e que aconteceu muito mais rápido do que todas as mudanças anteriores a História. Vamos lá:





Pós-Guerra - Uma História Da Europa Desde 1945, de Tony Judt.


Este é um dos 10 livros que eu levaria para uma ilha deserta. São pouco mais de 800 paginas de puro deleite, informação, humor e insigths fantásticos. Judt chega a ser enciclopédico mas tem um texto leve e fala desde a política interna dos partidos de cada país, de cada ator/atriz e diretor de filme importante, passeia por tecnologia, música, economia e transformações sociais. Se fossem 1.600 eu leria ainda com mais prazer. Sabe aquele livro que você começa a ler mais devagar para durar mais? O livro é sexy de tão bom.





Era dos Extremos - O Breve Século XX - 1914-1991, de Eric Hobsbawm.


Essencial para quem quer entender esta zorra toda de que somos crias, algozes e vítimas. Este é menorzinho, menos de 600 paginas e contem análises históricas e sociais surpreendentemente isentas para um historiador que participou pessoal e intensamente dos acontecimentos do século.


O livro tem de tudo, desde espionagem internacional a economia globalizada, jazz e futebol. Além de análises políticas e econômicas de cada país. Até o cangaço nordestino aparece.





O Século Soviético - Da Revolução de 1917 Ao Colapso Da URSS, de Moshe Lewin


Este é mais pesado, bem pesado. É para quem quer descer à fundo na nomenklatura e no contexto apparatchik. Lewin é um tremendo historiador e abusa de números e estatísticas. Realmente não dá para entender nada deste mundo em que vivemos sem levar em consideração o que os camaradas faziam depois do café da manhã.


Não existe movimento historico mais injustiçado por suas contribuições à humanidade e ao próprio capitalismo do que o dos coleguinhas do saudoso/nefando/improvável Béria.





E por falar nele, o Lavrenti Béria podia, ou não, ser tudo de mal mas que ele tinha olhos doces e carinhosos para as meninas do Balé Bolshoi isso ele tinha. Apadrinhou várias. Era um mecenas desinteressado.


Desinteressado do balé que elas dançavam é claro.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Lavagem do Bomfim


Hoje é dia da Lavagem.



No começo de dezembro de 2008 quebrei o pé direito.



Fiquei um mes de molho em casa sem sair para nada, o que não foi tão terrível assim por que trabalhando em home-office não houve muitas alterações na rotina de trabalho. Thanks IBM.




Além disso o que eu precisava o home service do flat em que morava providenciava, e meu filho Eric sempre aparecia na hora do almoço. Ponto.






Quando esse tempo estava chegando terminando lembrei-me da Lavagem do Bomfim. Coincidia que a lavagem seria nos dias em que eu voltaria a me movimentar sem gesso e sem muletas.




Então decidi: voltaria a caminhar na procissão da Conceição da Praia para o Bomfim.






A procissão se estende por de 8 km de ida e mais outro tanto de volta e não há nenhum meio de transporte disponível, só carros da policia em baixo e helicopteros em cima. Nada de taxis, nada de ônibus, nenhum tipo de transporte publico.




Quem tem fé vai a pé. E fui.






Acontece que me esqueci que um mês sem usar a musculatura deixa as pernas sem muita resistência.




Não deu outra, no meio da caminhada comecei a sentir dificuldades de continuar. Mas não havia o que fazer, estava exatamente no meio da caminhada e continuar ou voltar seria a mesma coisa.




E como eu não estava a fim de pagar o mico de pedir ajuda à alguma ambulancia segui em frente, parando ocasionalmente.






Numa destas paradinhas noto que o cortejo das Bahianas estava chegando. Todas lindas, bem vestidas de branco, com todos os colares, panos e rendas. Carregando os potes de agua benta e perfumada que tinham ficado por sete dias nos terreiros de candomblé sendo sagrados pelos orixás.




Continuei parado, descansando e olhando o cortejo.






Nisso uma delas para, me olha e pergunta:




- Meu filho o que você tem, parece cansado, tá estressado tá?




- Bahiana eu quebrei o pé direito e sai de casa hoje, pela primeira vez depois de um mês, pra vir à Lavagem. E estou sentindo o esforço, tá incomodando muito.




Ela tomou um galhinho de arruda, imergiu no pote de água, me aspergiu e me benzeu.




- Meu filho você vai ficar bom. Você não vai sentir nada e seu pé vai ficar como antes. Yansã que te proteja.






Agradeci aquela bondade.




Ela sorriu, seguiu e eu fiquei olhando o cortejo passar.




Depois segui em frente, subi a colina, comprei fitas para cada um dos meus amigos e as coloquei nas grades externas da igreja. As grades estavam coloridas, cheias de fitas, velas e pedidos.




A multidão enchia a praça.




Daí a pouco começaram a pipocar os fogos e aquelas milhares de pesssoas cantaram juntas o Hino do Senhor do Bomfim.




Gloria a ti nesse dia de Glória




Glória a ti Redentor que há cem anos...






Não dá para descrever a beleza dessa festa. A Lavagem lava o corpo, lava a alma, lava o espírito, lava o coração.




Carnaval, suor e cerveja. Fé e batuque.




Gente de todo tipo, de todos os lugares, de todas as cores.




Rezei pra minha fé, tomei cerveja, brinquei, dancei e voltei para casa. Exausto, quase arrependido da temeridade do esforço.






Muitos meses depois eu estava fazendo meus exames paranóicos de check-up. Ok, tudo bem, taxas e indicadores perfeitos.




Mas em consequencia de uma antigo acidente de asa-delta, em que quebrei os dois braços, vértebras do pescoço e da base da coluna, faço além de todos os exames um controle ortopédico-radiológico da coluna.




Também estava tudo ok.




Mas no meio da consulta lembrei do pé quebrado e pedi ao médico que fizesse uma radiografia de controle.






Feito o raio-x o médico ao examinar a placa e me pergunta:




- Tem certeza que foi o pé direito?




- Sim claro, por que?




- Aqui não aparece nada, seu pé esta intacto.




- Não é possível, quebrei, engessei e fiquei um mes imobilizado.




- Voce tem a radiografia que foi tirada na época do engessamento?




- Sim tenho.




- Então traga-me amanhã para olhar-mos.






No dia seguinte levei a placa, ele olhou e comparou com a atual.




- Realmente seu ligamento rompeu a inserção óssea no calcanhar e visivelmente quebrou o osso, mas na radiografia atual não aparece nada. Esta perfeito sem nenhum traço da fratura. Muito estranho.






Só então lembrei-me da benção da baiana.