terça-feira, 30 de abril de 2013

Recife. Cidade de muro baixo.


Recife é uma cidade interessante, de muitos segredos.


Não é
nem de longe uma cidade bonita como o Rio ou Paris. Não tem as belezas naturais
de uma nem as belezas urbanas da outra. O litoral do Estado, este sim é belíssimo com algumas das praias mais lindas do planeta.




O encanto da cidade está nas
pessoas. 
Recife é uma cidade de amigos, de bons amigos. De grandes e fortes abraços.

Apesar dos quase dois milhões de habitantes é uma cidade pequena, todo mundo
se conhece. 
Uma cidade claramente dividida em núcleos. Boa Viagem, Olinda e
Casa Forte quase não se misturam, têm caráteres diferentes, são virtualmente autônomas.


Todo
mundo se conhece mesmo. Amizade é o tempero fundamental da cidade.





Por ser uma cidade de núcleos voltados pra si mesmos, por
ser uma cidade sempre em festa, por ser uma cidade de amigos, Recife acabou se auto denominando
“cidade de muro baixo”. 
Regada a muito uísque, o maior consumo per capita do país, o maior consumo mundial de Johnnie Walker, servido no terceiro polo gastronômico do país.


É verdade todos se conhecem, se conhecem bem, se conhecem em detalhes. As pessoas ainda se conhecem por nome e sobrenome. Sendo uma cidade de
amigos, cidade de muro baixo, os amigos são naturalmente o assunto principal.


Não há nenhuma maldade nisso, é pura diversão. Uma intimidade carinhosa.





Ariano Suassuna, apesar de paraibano, é um recifense
convicto.


É dele a melhor definição desse “muro baixo”. Diz ele,
cobertíssimo de razão, que não vale a pena falar de desconhecidos, não faz sentido falar de quem não se conhece
, não tem a menor graça.

Deve-se falar mal dos
amigos. E mais: deve-se sempre falar pelas costas, falar pela frente seria deselegante, é desagradável.


Um sábio.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Modern Jazz Quartet




Estava em Londres quando Maria Helena, minha namorada, me fez uma enorme surpresa. Deu-me de presente uma entrada para assistir ao show do MJO - o Modern Jazz Quartet - do Milt Jackson e do John Lewis.





Ela sabia que eu adorava os caras, fiquei über alegre. Espantado perguntei,




- Por que só um ticket? Você também gosta deles, não vamos juntos?




- Ao invés de comprar dois ingressos preferi comprar um só na primeira fila, para você. Mas te espero na saída do teatro para jantarmos juntos. 

Ela devia estar realmente apaixonada. Enchi-lhe de beijos, amei-a com doçura, fiz-lhe as vontades. No dia seguinte tentei comprar uma entrada para ela mas já estava tudo esgotado há semanas.






O Royal Festival Hall fica na margem do Thames oposta ao Parlamento, ao Big Ben.

Em pé na fila de entrada do teatro, o som solene do Big Ben marcava que uma hora importante estava chegando. Sentado na primeira fila o silencio solene marcava que chegara a hora de ouvir os ídolos.

Eles chegam, silencio absoluto, tomam seus lugares. O teatro escurece, o espetáculo começa. A música fluí como uma bênção. Absolutamente lotado o teatro assiste em silêncio religioso, os raros aplausos eram discretíssimos. Não era um show de jazz era um culto, uma cerimônia.






Acho que eles começaram com Django.

Os solos do Milt Jackson no vibrafone me lembravam que tinha aprendido a gostar do instrumento por causa dele. Lembrava dos meus primeiros shows de jazz, ainda adolescente, nas tardes de Jazz&Bossa aos sábados no Copacabana Palace.

Sentado bem em frente ao John Lewis eu olhava fascinado as mãos negras flutuando no teclado branco, contrastando com as teclas do piano.




Acho que eles terminaram com Round Midnight.



Quando terminou eu ainda me sentia perto do paraíso, faltava pouco pra chegar lá. A vontade de chegar perto dos ídolos era grande mas em Londres essa aproximação era impossível. As pessoas hesitavam em sair. Difícil aceitar que terminara. Antes de sair olhei para trás certo que talvez não os veria novamente.

Um abraço amoroso me esperava na saída. Fomos para casa, ela havia feito um coq au vin, ela abriu um Valpolicella, ela colocou Bag's Groove, ela me fez as vontades.



Semanas depois fui a Salvador, aniversário de meu filho Eric. Quando cheguei tive uma surpresa enorme. O Modern Jazz Quartet estava na cidade para uma única apresentação. Um milagre.




No dia do espetáculo lá estava eu de novo, na primeira fila é claro. Só que desta vez no Teatro Castro Alves, meio vazio. No fim do show não vacilei e junto com outras pessoas subi no palco para falar com os músicos, coisa que eles próprios estimularam.



Indescritível apertar a mão do Milt Jackson. Apertar a mão de um dos que primeiro me conduziram pelo jazz, quase a beijei. Conversei muito com todos. Falando com o John Lewis disse que os havia ouvido em Londres há algumas semanas. Ele se surpreendeu, riu e brincou:




- Você está nos seguindo pelo mundo?




- Não, infelizmente não. É só uma enorme coincidência.




- Mas o que você acha de continuar nos acompanhando?

Ri da gentileza, da brincadeira, dele. Hoje acho que deveria ter aceitado.








A Night In Tunisia








Túnis fica à beira do Mediterrâneo em frente da Itália e da França no norte da África. Tem o mesmo clima da Cote D’Azur, a mesma cor turquesa no mar e uma fascinante mistura de culturas árabe e francesa. Tem as duas línguas, as duas culturas.






Além disso Túnis tem algo muito, muito especial.


A cidade é cercada por um cinturão de cultivo das mais diversas flores para produção das essências que abastecem as industrias locais e francesas de perfumes.


De dia sopra um maral, do mar para a terra, e nos fins de tarde o vento se inverte para um terral vindo da terra para o mar. Como o Sahara ocupa quase metade do país o vento da tarde vem diretamente do deserto em direção à cidade. Um vento quente e seco que antes de chegar a Túnis passa pelas plantações de flores trazendo seus perfumes.






No fim de tarde a cidade é tomada por essa brisa inebriante que sopra durante toda a noite até ao amanhecer, perfumando toda a cidade. A sensação é quase sufocante, entontecedora. Este começo da noite em Túnis além de perfumado é muito festivo pelo ruído ensurdecedor dos milhares de pássaros que trinam ao mesmo tempo, logo após o por do sol, na avenida central Habib Bourguiba. Sorri, lembrei de Shakespeare, de Gonzalo comentando o casamento de Claribel com o Príncipe de Túnis.

Estas noites de calor, sons e perfumes inspiraram a música A Nigth In Tunísia do Dizzy Gillespie. 






Eu estava saindo de uma palestra no Hotel Abou Nawas e voltando para o Afrique Méridien na avenida Bourguiba, onde estava por uma semana. Noite muito clara, límpida, cheia do perfume de Túnis. Minha primeira noite no Magreb, minha primeira noite na África. Fiquei imaginando como o Dizzie devia te-la sentido ao fazer o jazz que gosto tanto.






Como os dois hotéis são próximos, resolvi aproveitar a noite morna e enluarada para caminhar de volta ao meu. Caminhando pela calçada alcancei um velhinho. Um fedayin. Ele não usava a kafia branca dos sauditas nem a branca e vermelha dos outros árabes. Usava a branca de riscas pretas dos palestinos. Quando o alcancei acertei meu passo ao dele. Nos olhamos, nos cumprimentamos,  puxei conversa. Ele não falava francês como quase todo tunisino, só árabe. Sendo assim decidi  falar em português.









E assim fomos conversando por muito tempo cada um falando sua própria língua. Ele na dele, eu na minha, ele em árabe eu em português. Olhávamos as estrelas, a lua, falávamos de muitas outras coisas. Fomos caminhando como dois conhecidos.




Subitamente surge do outro lado da avenida um rapaz fazendo gestos para nós, falando em francês. Impaciente ele atravessa a avenida se aproxima de nós, me pergunta se o palestino estava me incomodando, me pedindo alguma coisa.



- Non monsieur.




Expliquei que estávamos passeando e conversando. O rapaz se volta para o velhinho em francês, o velhinho responde em árabe, os dois conversam em árabe.


O rapaz se volta para mim,


- Mas ele não fala francês, você fala árabe?


- Não, infelizmente não.


- Se nem você fala árabe nem ele fala francês como é que vocês estavam conversando?


- Com o coração. Pergunte a ele se não estávamos falando sobre o perfume da noite de Túnis, destas estrelas, de nossos filhos, de onde eu sou, de onde ele é.


O rapaz faz algumas perguntas ao velhinho, se volta para mim espantado,


- Incrível ele confirmou tudo. Precisamos comemorar este milagre.






Paramos em algum lugar e o rapaz, que era estudante de Medicina, disse que só voltaria para casa naquela noite depois de me ensinar meia dúzia de palavras em árabe e de aprender outras tantas em português. Nos divertimos muito e depois de muitas comilanças e de beber muita água voltei para o hotel e dormi minha primeira A Night In Tunísia.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

ibn 'Abbad al-Mu'tamid


Mohammed ibn Ammar foi um árabe pobre cujos pais tinham emigrado do norte da África para a Europa. Ibn Ammar era poeta e queria continuar assim. Um poeta. Só um poeta, nada mais que um poeta.







Ele pretendia estudar para expandir seus talentos, mas os pais não podiam lhe sustentar. Como quase todo artista, Mohammed começou a procurar por um mecenas, por alguém que patrocinasse sua arte. Alguém que pagasse suas contas em troca de seus versos. Escreveu poemas a muitos ricos e poderosos, mas não recebeu muitos apoios.


Estamos no século XI. A Península Ibérica vivia os anos dourados do apogeu da civilização árabe.



Muhammad ibn 'Abbad al-Mu'tamid era o filho e herdeiro do Rei de Sevilha.


Apesar de muito jovem o pai lhe reservava uma brilhante carreira tanto militar quanto política. Era em al-Mu'tamid que o rei depositava seus projetos mais ambiciosos de continuação da dinastia dos Abádidas.


Na altura o rei de Sevilha estava empreendendo uma ação militar contra os salteadores berberes que infestavam o al-Gharb, o atual Algarve, sul de Portugal. Ele aproveitou a oportunidade para colocar o filho à frente da ação militar.


Al-Mu'tamid era muito jovem para ser o comandante, mas o pai não perdeu a chance de prestigiar o filho, embora o trabalho fosse efetivamente realizado pelos militares de carreira. Após o sucesso militar da campanha o poeta ibn Ammar decidiu compor versos de exaltação ao filho do Califa, louvando as habilidades militares do Libertador do Algarve.


Ele continuava à procura de um patrocinador para sua arte. Seus versos foram enviados ao filho do rei.







Al-Mu'tamid adorou os poemas, os comprou por uma alta soma e quis conhecer o poeta que lhe cantava em tão belos versos. Mandou trazê-lo a Sevilha. Conheceram-se. O herdeiro caiu-se de amores.

Al-Mu'tamid apaixonou-se perdidamente pelo poeta. Apesar de ter apenas 12 anos na sua louca paixão entregou-se perdidamente a ele. Nesta altura o rei, sem saber do incendiário romance, entregou ao filho o governo de Sevilha. Uma das primeiras decisões de al-Mu'tamid foi nomear o amado como primeiro-ministro e governador de al-Gharb.







O casal mudou-se para lá. Foram morar em Xelb, hoje Silves, o centro da cultura árabe, conhecida como a Bagdá do Ocidente. Chegaram e desfilaram à cavalo pelas ruas da cidade, aclamados pela multidão encantada com seu jovem libertador.




Loucamente apaixonados eles passaram a viver tórridos dias de amor e paixão desenfreada no paraíso semi-tropical da entrada do Mediterrâneo. Juntinhos eles não estavam nem aí para os comentários maldosos dos muçulmanos mais ortodoxos que não achavam a menor graça naquela luta de cimitarras entre o Príncipe e o Poeta debaixo do caliente sol algarvio.




As más línguas locais deram muitos apelidos a al-Mu'tamid. Por sua tenra idade e seu fogoso comportamento o mais suave deles na tradução mais elegante para o português atual seria o Viadinho do Algarve.







O Príncipe e o Poeta construíram muitos palácios.


No Palácio das Varandas o casal real reunia a corte para assistir a recitais de poesias, espetáculos de dança e promoviam banquetes regados a muito vinho. A restrição islâmica ao consumo de álcool tinha sido convenientemente relaxada. O príncipe dançava sensualmente para o poeta, a corte adorava. Os dois se amavam loucamente, publicamente, escandalosamente.




Muito religiosos, os dois não perdiam as sagradas orações diárias. Iam para a mesquita de mãos dadas e faziam suas orações em versos improvisados. Olhos nos olhos.




– Escute enquanto o Almuaden chama o povo para a oração, dizia o pequeno príncipe.


– E espere que deus lhe perdoe os seus muitos pecados, respondia o poeta-governador.


Muitos destes delicados poemas devotos ficaram famosos e entraram para a Literatura.





Quando o Rei de Sevilha descobriu que os dois estavam coabitando ficou escandalizado, ficou furioso. Tomado de imensa ira desfez o casal. Destitui o filho, chamou-o de volta à Sevilha e exilou o poeta para Saragoça no norte da Espanha.


E mais, castigo terrível. Numa suprema injúria ao filho, o bofe comprou-lhe uma linda escrava e condenou-o a se casar. Sim, a casar. Horror dos horrores. Imaginem.







Mas o tempo conspira pelos apaixonados. O amor sempre vence. Eis que o pai parte primeiro para o Jardim das Delícias.





O velho califa foi finalmente se deitar com as 72 huris “sobre leitos incrustados com pedras preciosas, frente a frente, onde lhes servirão jovens de frescores imortais com taças e jarras cheias de vinho que não lhes provocará dores de cabeça nem intoxicação, e frutas de sua predileção, e carne das aves que desejarem. E deles serão as huris de olhos escuros, castas como pérolas bem guardadas” como prometem os versículos 12 a 40 da Sutra 56 do Alcorão. 



Agora al-Mu'tamid era o Rei de Sevilha. Seus mais recônditos desejos tinham de ser atendidos. O reencontro do casal foi emocionante. O amor sempre triunfa. Al-Mu'tamid embriagado de amor compôs para seu poeta amado:





Minh’alma quer-te com paixão 


Ainda que haja nisso uma tortura 


Alegre vai na ânsia da procura. 


Que estranho ser difícil nossa ligação 


Se os desejos d’ambos concordaram 


Não te ocultes, oh jardim secreto: 


Quero colher meu fruto predileto!





Moral da história: nem só de Sherazades vivem as Mil e Uma Noites.


Em seu doce idílio os dois nem iriam se importar com o cartoon publicado pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten em 30 de setembro de 2005. No cartoon que provocou uma crise internacional Maomé adverte aos homens-bomba que estão chegando no Céu,


– Stop, stop. Vi er løbet tør for Jomfruer. (Parem, parem. As virgens acabaram).





Mas a suprema vingança do casal apaixonado contra o califa invejoso pode estar no entendimento de Christoph Luxenberg. O professor alemão publicou Die Syro-Aramaische Lesart des Koran - Uma Leitura Sírio-Aramaica do Alcorão - onde defende a tese de que como o Alcorão não foi escrito apenas em árabe, mas numa mistura de dialetos aramaicos, muita coisa tem outro sentido.






A palavra Hur, que em árabe quer dizer Virgem em sírio significa Branca.

Assim, segundo Luxenberg, as castas huris de olhos castanhos descritas no Alcorão não seriam virgens. Na verdade são "uvas brancas secas" de "clareza cristalina".

Pobre califa. Coitados dos homens-bomba.





Os dinamarqueses precisam refazer o cartoon:




– Parem, parem. Não são virgens, são uvas brancas.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Piadas Soviéticas 1


Ostalgie é um neologismo alemão para a nostalgia do Ost. Lembranças da vida difícil mas estável nas antigas repúblicas do Leste Europeu. Vale lembrar do humor típico destas piadas da época da Guerra Fria.




Stalin e Pedro, O Grande, se encontram-se no outro mundo:


- Diz-me Stalin, em que estado é que deixastes a Mãe-Rússia ?


- A Rússia é uma grande potência, temida e respeitada pelos seus inimigos, tal como tu antes de mim a deixastes.


- E o exército e a polícia secreta ?


- Continuam fortes e poderosos.


- E os batalhões dos cossacos ?


- Em forma como antes.


- Muito bem! E as torres do Kremlin ?


- Estão em perfeito estado.


- E a vodka ? Continua a 38 % ?


- Não, agora está a 40% !


- Então explica-me lá uma coisa, será que por causa de 2 miseráveis graus era necessário fazer aquela carnificina toda ?!






Stalin decide inspecionar os aviários da Ucrânia. Chegando ao primeiro pergunta ao administrador quanto ele gastava por dia com alimentação por galinha.


- Cinco rublos, grande Camarada


- Muito bem, respondeu Stalin, esse foi o valor estabelecido pelo Plano.


- E o que é que lhes dão de comer?


- Uma ração à base de trigo, grande Líder


- TRIGO???!!! - explodiu Stalin - com a falta de trigo que existe no país você está dando trigo às galinhas?! Béria, leve-o a julgamento por sabotagem!


E partiu furioso. No segundo aviário repete-se o diálogo:


- Quanto gasta uma galinha por dia em alimentação?


- Cinco rublos, ilustre Camarada.


- Muito bem, e o que é que elas comem?


- Uma ração à base de milho, grande Líder


- MILHO?! - explodiu Stalin - com a falta de milho que existe no país você está dando milho às galinhas?! Béria, prenda imediatamente este inimigo do povo!


A notícia se espalha e os restantes administradores não sabem mais o que dizer.


No aviário seguinte Stalin faz as mesmas perguntas,


- Quanto gastam por dia com a alimentação de uma galinha?


- Cinco rublos, grande Líder.


- Ótimo, e o que é que você lhes dá de comer ?


- Eu?! Eu não lhes dou nada, cada uma pega seus cinco rublos e vai à rua comer o que quiser.






Três prisioneiros num gulag discutem o motivo que os levaram para o campo de trabalhos forçados. 


O primeiro diz:


- Estou aqui porque eu sempre chegava 5 minutos atrasado no trabalho. Fui acusado de sabotagem.


O segundo explica:


- Eu chegava sempre 5 minutos adiantado. Me acusaram de espionagem.


- Eu sempre chegava na hora. Fui acusado de ter um relógio ocidental. 






A mãe de Kruschov vai visita-lo em Moscou. Ele lhe mostra o escritório enorme e luxuoso.


- É aqui que trabalho.


Ao fim do dia leva-lhe para casa numa limousine,


- Este é meu carro.


Ao chegar numa mansão diz-lhe,


- Esta é minha casa.


No fim de semana leva a mãe para sua dacha.


- Esta é minha casa de campo.


A mãe começa então a chorar.


- Por que choras mamãe? Achas que vivo mal?


- Não meu filho, vives muito bem. Estou preocupada por que os comunistas podem lhe tomar tudo.






Stalin, Kruschov, Brejnev e Gorbatchov estão viajando de trem, quando de repente o vagão para. Stalin é o primeiro a colocar a cabeça para fora da janela e grita:


- Fuzilem o maquinista.


Como o trem continua parado, Kruschov grita:


- Reabilitem o maquinista.


Como nada acontece Brejnev sugere:


- Camaradas, vamos descer as cortinas, ligar a vitrola e fazer de conta que estamos nos movimentando.


Finalmente Gorbatchov diz:


- Camaradas, vamos descer e empurrar.






Lavrenti Béria chefe do NKVD e hábilíssimo interrogador passava um fim de semana na dacha de Stalin. Em determinado momento Stalin procura mas não acha o cachimbo.


- Béria me ajude a procurar meu cachimbo.


Procuram por toda a dacha mas não acham. O fim de semana chega ao fim e Béria volta a Moscou.


No fim de semana seguinte Béria esta de volta à dacha. Stalin diz,


- Béria lembra do meu cachimbo? Achei-o estava entre as almofadas do sofá.


- Impossível Grande Líder já tenho mais de duas confissões assinadas!






Dois soldados um russo e um polonês encontram um tesouro em moedas de ouro nos escombros da guerra. O russo diz,


- Vamos dividir este tesouro como dois irmãos socialistas.


O polonês responde,


- Nada disso, vamos dividir meio a meio






Putin sonha com Stalin e lhe pergunta


- Como governar a Rússia grande Líder?


Stalin responde:


- Mate todos os inimigos e pinte o Kremlin de azul


- AZUL? Se espanta Putin.


Stalin solta uma gargalhada:


- Eu sabia que você não ia perguntar sobre a primeira diretiva!






Putin e Medvedev acordam com a maior ressaca. Putin pergunta a Medvedev:


- Quem de nós é hoje presidente e quem é premiê?


Medvedev responde:


- Eu me esqueci, mas pode ser que eu seja premiê.


Putin retruca:


- Então vá você pegar a vodka.






O partido pró-Kremlin Rússia Unida escolhe seu candidato à presidência. Para Medvedev votaram 478 delegados. Somente um votou contra, o próprio Medvedev. Por estar com medo.






No período das eleições dois amigos em Moscou discutiam política.


- Vais votar em Putin?


- Não vou votar em Putin, e você?


- Estou cansado dos dois vou votar em Putin.






O próprio Gorbachov contou esta piada na BBC,


Um homem em Moscou que está irritado numa fila de comida diz para um amigo:


- Chega! Vou matar esse Gorbachov!


E sai determinado em direção ao Kremlin. Duas horas depois, o homem volta à fila. O amigo pergunta:


- E aí? Acabou com ele?


- Não. Lá tinha uma fila ainda maior que esta.






E last but not least, 


Margaret Thatcher compareceu ao funeral de Yuri Andropov que comandara a URSS por apenas quinze meses. Como Konstantin Chernenko de 72 anos foi escolhido o sucessor, Maggie teria telefonado para Ronald Reagan: 


- Você deveria ter vindo ao funeral, Ron. Eles fizeram tudo muito bem. Com certeza vou voltar no ano que vem. 


E voltou mesmo, treze meses depois, para o funeral de Chernenko.


Em tempo: Maggie era conhecida como Tina Thatcher pois ao defender suas decisões no Parlamento repetia sempre,


- There Is No Alternative.



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Os Deuses Malditos



O filme La Caduta Degli Dei - a Queda dos Deuses - realizado em 1969 é uma das obras-primas de Luchino Visconti. Os Deuses Malditos, aqui no Brasil, é a saga de uma família aristocrata alemã da industria do aço no período do nazismo, a família Krupp, uma dinastia de 400 anos de Essen.





O título é magistral, sintetiza perfeitamente o filme e a situação histórica. Mesmo assim há de se perguntar por que Visconti escolheu este título, A Queda dos Deuses. Afinal os Krupp não caíram, não perderam, muito pelo contrário se beneficiaram tremendamente com a guerra. O grupo econômico ThyssenKrupp continua fazendo parte de nossas vidas até hoje em diversos ramos multinacionais. Que deuses malditos caíram?









Albert Speer ( pronuncia-se ischpéar) foi o arquiteto preferido de Hitler.




Brilhante, culto e sofisticado Speer criou obras belíssimas, prédios monumentais e desenvolveu um novo plano urbanístico para Berlin. Como cenógrafo criou os espetáculos de luzes e movimentos humanos que fizeram dos comícios nazistas obras de arte de Leni Riefenstahl. Ironicamente um desses filmes, O Triunfo da Vontade, foi premiado em Paris. Antes da guerra é claro.




Speer foi um administrador brilhante. Como Ministro do Armamento foi responsável pela coordenação da industria alemã no esforço de guerra. No fim, já desiludido com a loucura do Führer, Speer estava na lista dos conspiradores da Operação Valquíria liderada por Von Stauffenberg para matar Hitler.


Speer foi um dos poucos acusados a ter a vida poupada no Julgamento de Nuremberg, assumiu toda a responsabilidade por seus atos, cumpriu pena de 20 anos em Spandau e depois publicou dois best-sellers. Churchill reservadamente o chamava de “o bom nazista”.









Quando Hitler no fim da guerra ordenou a Operação Nero, a política de terra arrasada para destruir o que ainda restava da Alemanha, Speer se opôs executar as ordens do Führer. Ele estava decidido a salvar o que fosse possível do país. Um dos maiores patrimônios da Alemanha era e é, a Filarmônica de Berlin. Apesar do bombardeio devastador sobre a cidade a orquestra continuava tocando regularmente de três a quatro vezes por semana.




Semanas antes da rendição incondicional e da ocupação da cidade pelo Exercito Vermelho, Speer já vinha providenciando a retirada dos melhores pianos, das harpas, das tubas wagnerianas, das partituras e até dos smokings dos músicos. Mas faltava retira-los. Esta era a parte mais complicada.




Speer não tinha a menor intenção de deixar o corpo dos músicos da Filarmônica cair nas mãos dos russos, mas também não arriscar se os Aliados chegariam a Berlin.





Por outro lado retirar muito cedo da cidade os 105 músicos da orquestra chamaria a atenção de Goebbels. O ponto crítico era decidir o momento de retirar as dezenas de músicos e como dar para eles o sinal para a partida.




Speer criou uma estratégia e combinou que daria uma senha para avisar à orquestra que era chegada a hora da fuga. A senha seria uma alteração de última hora na programação do espetáculo. Pelo plano de Speer todos deveriam sair de uma só vez à noite, imediatamente após a apresentação da orquestra e tomar os ônibus que ele providenciaria para a retirada. Os ônibus ficariam estacionados na escuridão do lado de fora do Beethoven Hall. A senha para a fuga seria uma música a ser escolhida pelo próprio Speer para encerrar o espetáculo que só seria informada pelo diretor da orquestra ao maestro durante a própria apresentação.









Na noite escolhida, 12 de Abril de 1945, Speer estava sentado na platéia em seu lugar habitual. No palco os músicos trajavam ternos escuros ao invés dos smokings habituais que já estavam escondidos. Na platéia só ele sabia o motivo. Momentos antes de terminar a apresentação Speer enviou seu assistente para informar ao diretor da orquestra Von Westermann e a ao regente Gehrard Taschner uma alteração no programa. A música escolhida para finalizar o espetáculo. Von Westermann ficou surpreso com a escolha:




– Você sabe perfeitamente que esta música representa a morte dos deuses, a destruição do Valhalla e o fim do mundo. Tem certeza que é isso que o ministro ordenou?




Não havia nenhuma dúvida. Para a última apresentação da Filarmônica de Berlin, Albert Speer havia escolhido Die Götterdämmerung.




O Crepúsculo dos Deuses, de Wagner.


terça-feira, 23 de abril de 2013

O Calor do Sahara


Túnis é um desses lugares únicos e fascinantes.


A capital da Tunísia fica no Mediterrâneo em frente da França e da Itália no norte da África. Tem o mesmo clima da Cote D’Azur, o mesmo azul-turquesa no mar. A la mer opposé no Lacus Romanus. Nas noites claras se vêm ao longe luzes da Sicília.


Túnis tem o fascínio da mistura das culturas francesa e árabe. Ex-colônia francesa tem as duas línguas, as duas culinárias, hábitos e costumes, além das heranças dos fundadores cartagineses e dos conquistadores romanos.





Túnis tem algo ainda mais singular, ainda mais fascinante.


A cidade é cercada por um cinturão de cultivo das mais diversas flores para produção das essências que abastecem as indústrias de perfumes locais e francesas.


Em Túnis o vento sopra de dia como maral, do mar para a terra e nos fins de tarde se inverte para terral soprando da terra para o mar. Como o Sahara ocupa quase 40% do país o vento que chega no fim da tarde vem diretamente do deserto em direção à cidade. Um vento muito quente e seco que antes de chegar a Túnis passa pelas plantações de flores trazendo com ele todos aqueles perfumes.





No fim das tardes, durante o pôr de sol, a cidade é tomada por uma brisa muito quente, seca, inebriante, que sopra durante toda a noite até ao amanhecer perfumando tudo. A sensação é quase sufocante, entontecedora, sensual.


Além do vento morno e perfumado do deserto o começo da noite em Túnis é muito festivo por causa do ruído ensurdecedor dos milhares de pássaros que trinam ao mesmo tempo, logo após o por sol, na avenida central Habib Bourguiba.

O sol se vai escurecendo lentamente os azuis claros do mar e do céu do Mediterrâneo deixando rosas, amarelos e vermelhos intensos. Chegando suavemente a noite trás uma brisa morna, aconchegante, feminina, de muitos perfumes acompanhada do canto estridente dos pássaros. A noite chega para acordar seus sentidos.





Mais tarde a esse calor, sons e perfumes começam a se misturar os da noite urbana.

Perfumes das comidas muito temperadas dos restaurantes, do café forte dos bares, dos muitos chás, dos crepes de muitos sabores assando nas esquinas, do tabaco dos nagliês que amigos dividem nas praças.


Sons dos bares e cafés. Sons amorosos de canções muito longas, dolentes. Sons de línguas e dialetos misturados. Sons das dançarinas do ventre. Uma sensualidade preguiçosa no calor, nos sons, nos perfumes, nas musicas, nos sabores, nas danças. Dos andares, dos gestos, dos olhares, do viver. A noite chega para provocar seus sentidos.





Conheci a Ingrid numa festa libanesa em São Paulo.

Rafael um amigo comum nos apresentou. Austríaca, ela se destacava muito de toda a festa. Muito alta, muito magra, muito branca, os olhos muito azuis, os cabelos longos, ruivos, encaracolados. E linda, escandalosamente linda.

Ingrid era uma mulher especial. Tinha viajando pelo mundo, tripulante de um grande veleiro. Não morava em São Paulo vivia em um sítio em Itatiaia a meio caminho entre Rio e São Paulo.


- Fico mais perto da natureza, de meus cães. Posso saltar de para-quedas no campo das Agulhas Negras. 


- Você trabalha em que?


- Sou especialista em pastores alemães para forças militares. Agora mesmo cheguei de Paris onde treinei cães para patrulhar aeroportos. Paga bem e me permite viajar muito.


Ingrid me mantinha fascinado. Apesar deste perfil era muito feminina, sexy apesar da aparência simples e despojada. Ou por isso mesmo.





Falando de viagens e países descobrimos que os dois conhecíamos e gostávamos muito da Tunísia. Ela tinha morado em Túnis, era louca pela cidade. Conversamos sobre a música, os queijos, a culinária regional de Cartage, os cafés, os restaurantes da cidade, o mercado Souk, as janelas, o artesanato, as gaiolas azuis, até dos amores do Abou Nawas. Finalmente fiz a pergunta inevitável.


- Lembra do vento quente nos fins de tarde?


Ela riu, seus azuis brilharam. Deslizou uma mão lentamente numa carícia subindo pela cintura em direção aos seios. Parou a mão neles, me olhou com um olhar firme, direto,


- Claro que lembro. Um calor que queima mas não sufoca.

- Você tem alguma coisa para fazer hoje à noite?


- Não. Se você quiser te pego logo mais para darmos uma volta.


- Combinado.





Como eu não sabia para onde iríamos me vesti da forma mais comum possível. Camisa pólo, calça de tecido e sapato esporte daria para ficar na média em qualquer lugar.


Na hora combinada fiquei à espera da Ingrid em frente de casa me distraindo com o movimento intenso do Morumbi. Muitos carros e motos para lá e para cá, mas nada da Ingrid parecer, já começava a ficar preocupado com o atraso dela.


Nisso um ruído forte de motocicleta me chama atenção. Som alto e inconfundível de Harley-Davidson. Era das grandes, era negra. Passou rápida e barulhenta pela rua, pilotada por alguém inteiramente de couro negro com umas botas enormes. O som alto da Harley, a figura de negro me distraíram completamente da espera por Ingrid.





Subitamente a moto faz a volta, retorna e para ao meu lado. A figura de negro salta, se põe de pé com a roupa de couro brilhante coladíssima ao corpo, as botas até o joelho, tira o capacete, solta os cabelos ruivos. Era ela.


- Vamos lá? Sobe aí atrás.








(*) Colônia francesa a Tunísia se tornou independente da França em 23 de Março de 1956.

Três semanas antes Norma Jean Morteson trocara legalmente de nome tornando-se Marilyn Monroe. O que uma coisa tem a ver com a outra? Absolutamente nada. 



segunda-feira, 22 de abril de 2013

Engenharia de Produção


Fazem algumas décadas que o executivo Franz Stangl deixou o Brasil.


Franz que trabalhou durante os anos pioneiros da Volkswagen é um dos responsáveis pela implantação da indústria automobilística no Brasil. Excelente administrador, engenheiro brilhante, ele foi reconhecido diversas vezes por sua competência na organização de processos industriais e de produção em massa. 





Impecável, elegante, Franz era amável, extremamente polido. Muito respeitado sempre se destacou pela forma meticulosa, disciplinada e eficiente com que conduziu todos seus projetos profissionais. Seu primeiro desafio foi como Superintendente do T-4 Euthanasia Programme no Schloss Hartheim. Com incomparável eficiência ele liquidou com a quase totalidade dos deficientes físicos e mentais da Alemanha nazista.





Admiravelmente bem sucedido ele foi promovido a Kommandant do campo de concentração de Sobibor e depois do Campo de Treblinka. Chegando a Treblinka ele encontrou o campo com problemas operacionais nas câmaras de gás, sempre apresentando defeitos, além de problemas de logística na chegada, liberação e manuseio dos trens de carga. Rapidamente ele organizou, sistematizou, todos os detalhes do processo que se transformou em modelo de eficiência operacional. Quando Stangl foi premiado como o melhor comandante de campos alemães, ele disse,


- Transformei Treblinka num local especial com jardins bem cuidados, novos alojamentos, cozinhas novas, alfaiates, sapateiros e carpinteiros.





Com extraordinário senso de organização ele criou em Treblinka um processo rigoroso e preciso onde as cargas chegavam de trem pela manhã, eram classificadas, despachadas e processadas em questão de horas. Stangl atingiu a incrível marca de 99% de finalização de processo em no máximo duas horas.  


Antes do final da tarde o ciclo operacional já estava totalmente finalizado e o campo sem resíduos. Stangl sempre vestido impecavelmente com roupas brancas de equitação inspecionava as instalações. Depois montado em seu cavalo, também branco, ele verificava os jardins e preparava Treblinka para mais um dia de trabalho.


Afável, dava as últimas ordens ao pessoal administrativo antes de voltar para casa onde mantinha a família. Cuidadoso, ele morava em uma vila a alguns quilômetros de distância do campo para que nenhum odor de gás, material queimado ou fumaça incomodasse a família. Artista sensível, nestes fins de tarde ele tocava cítara, como fazia desde a juventude.





Terminadas as hostilidades Hans Stangl deixou a Alemanha após pequenas dificuldades. Viajou através da Áustria utilizando documentos legais, passaporte da Cruz Vermelha e visto para a Síria que lhe foram facilitados pelo Vaticano através do bispo católico austríaco Aloïs Hudal. 


Após implantar e trabalhar durante três anos em instalações industriais têxteis na Síria Franz mudou-se para o Brasil.


Na Volkswagem de São Bernardo do Campo Franz foi sempre muito admirado, tanto pela direção quanto pelos funcionários, por sua capacidade de liderança, extrema eficiência e organização. Franz sempre polido, gentil e amigável raramente se irritava. Quando isso acontecia dizia secamente,


- Sieht aus wie Sie flüchtete das Programm - parece que você escapou do Programa.





Apesar de bem sucedido como administrador e engenheiro de produção na Volkswagen do Brasil ele teve a carreira bruscamente interrompida quando foi inesperadamente extraditado em 1967 para a Alemanha. Franz Stangl foi julgado e condenado pela morte de 900 mil pessoas em Treblinka e mais 100 mil em Sobibor.


A Volswagem do Brasil só atingiria uma produção nesta ordem de grandeza muitos anos depois.

O Sol Nas Bancas De Revista


A imprensa alternativa no Brasil nasceu no Caderno Escolar do Jornal dos Sports da família do Nelson Rodrigues.


Deste caderno escolar surgiu, muito antes do Pasquim um jornal chamado O SOL. O jornal idealizado pelo poeta Reynaldo Jardim teve como editora-chefe a jornalista Ana Arruda Callado. Nasceu em 1967 antes do AI-5.





Adolescente, dezesseis anos, eu tinha uma prima que além de manequim e muito bonita estudava jornalismo na PUC. Metade das meninas bonitas do Rio estudavam jornalismo na PUC, sendo que a outra metade estava se preparando para entrar. As más línguas chamavam a escola de espera-marido.


Dezembro de 1966, um dia a prima aparece lá em casa.


- Vais fazer o que nessas férias?


- O de sempre, praia, cinema, praia, teatro, praia, festinhas e praia.


- Quer trabalhar num jornal e ganhar um dinheirinho?


- Claro!





Era para ser repórter “foca” do Jornal dos Sports no caderno escolar. Era ótimo trabalhar com aquele pessoal mais velho, brilhante, importante, como se dizia época engajado. Como era tempo dos vestibulares me deram estas tarefas mais fáceis de cobrir. Eu nem imaginava o que me esperava, o que estava por acontecer.


Eis que um dia surge uma grande novidade na redação. Estava sendo criado um novo novo jornal.


Nascia O SOL.


O SOL foi ideia do Reynaldo que trabalhava no Jornal dos Sports. Dona Célia Rodrigues, viúva do irmão do Nelson, topou a ideia de criar uma espécie de jornal-escola para formar uma nova geração de jornalistas e comunicadores.


N'O SOL havia gente como Ziraldo, Zuenir Ventura, Arnaldo Jabor, Henfil, Antonio Calado, Carlos Heitor Cony, Fernando Duarte, Adolfo Martins, Ricardo Gontijo, Otto Maria Carpeaux, Martha Alencar e Sérgio Lemos. Nelson Rodrigues desenvolveu suas primeiras histórias infantis nas páginas do diário. Chico Buarque chegou a publicar um cartum.





E eu ali assistindo tudo. Babando.

O SOL era revolucionário em vários aspectos tanto gráficos quanto editoriais. Ele criou a corrente de onde surgiriam mais tarde O Pasquim, Opinião e Movimento. Era um lugar de pessoas engraçadas, malvadas, inteligentes e com um ego muito grande, diz a Martha Alencar hoje produtora de cinema.


A diagramação do jornal era linda, inovadora. Para poder ser lido e dobrado no ônibus, cada matéria ocupava apenas um quarto da página. As diagramadoras, entre elas minha prima, eram conhecidas como as "meninas do Reynaldo" e literalmente mandavam na redação.


Depois que cada editoria fazia sua pauta com os assuntos do dia as meninas desenhavam as folhas do jornal. Antes de escrever os redatores já sabiam o espaço que teriam para cada reportagem, o tamanho possível para o título, tudo de acordo com o espaço que as "meninas" determinavam.





CHE GUEVARA PODE ESTAR VIVO.


Enquanto todos os jornais noticiavam a morte de Guevara esta foi a manchete d'O SOL. Ela mostra bem o espírito do primeiro jornal alternativo no Brasil pós-golpe militar de 64.


Na equipe todos se interessavam por tudo um pouco, inclusive em divulga-lo e vende-lo nas ruas e nos points frequentados pela intelligentzia (pela burritzia também) e pela boêmia carioca.


Numa desta vezes eu estava divulgando-o à noite na porta do Cinema Paissandú, a meca do cinema de arte no Rio, onde acontecia de tudo.


Fui então clicado por um repórter fotográfico: fazendo pose, com um sorriso enorme, mostrando o jornal todo aberto. A foto acabou sendo usada pela revista Fatos&Fotos. Em pagina inteira, a foto ilustrava uma reportagem sobre a Esquerda Festiva, como era chamada a ala da esquerda que fazia seriamente a Revolução a partir de bares e festas.





Esta foto me rendeu uma tremenda descompostura no PCdoB onde eu militava.


Tive que fazer uma séria autocrítica reconhecendo meu comportamento pequeno-burguês e anti-revolucionário, etc, etc.

O SOL chegou a ter uma tiragem de 70 mil exemplares mas apesar do sucesso, sem muitos anunciantes o jornal não durou muito. Depois de encerrado o sol do Reynaldo, nossa equipe assumiu a programação da TV Continental. Com dezessete anos fui locutor no jornal da noite. Infelizmente O SOL não teve fôlego para participar do íconográfico ano de 68. Fico a imaginar tudo o que ele poderia ter feito num ano como aquele.





Como diz o Zuenir “O SOL experimentou expressões do cotidiano. Um pouco, guardada as devidas proporções, o que a Semana de 1922 fez com a linguagem poética, de mostrar um universo vocabular mais popular, a fala do dia-a-dia".


E do ponto de vista do conteúdo "era um jornal mais libertário e sem comprometimentos políticos, ideológicos. Era, evidentemente, contra a censura, contra a ditadura, sobretudo, mas não pertencia a nenhum partido. Era um jornal muito livre. O compromisso era o de resistir à ditadura. Neste sentido O SOL foi precursor".





Caetano Veloso estava recém chegado ao Rio tomando conta da irmã Maria Bethânia que aos dezoito anos substituíra a Nara Leão no show Opinião. Ele namorava a Dedé Gadelha da equipe d' O SOL e frequentava a redação. Na época ele compôs Alegria Alegria:


O Sol nas bancas de revista


Me enche de alegria e preguiça


Quem lê tanta noticia?

Por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores, eu vou.

sábado, 20 de abril de 2013

Eric e o pedinte. Um pedinte do caraças.


Todos os dias voltávamos de Lisboa para Sintra.


Eric meu filho, Vahine minha filha, Sandra minha mulher e eu. Invariavelmente tomávamos o mesmo
comboio (trem) no mesmo horário. Preferíamos não usar o Mini por conta dos
longos engarrafamentos na A9, a CREL - circular regional exterior de Lisboa.


De tanto viajar no mesmo comboio com o tempo se
conhece algumas pessoas que frequentam o mesmo horário. Normal.





Havia uma figura, um pedinte. Um homem alto, magro,
relativamente bem vestido, de aparência saudável. Saudável mesmo.


Ele sempre estava lá, uma presença tão certa quanto a do
pica (fiscal que pica os bilhetes). Ele passava de uma carruagem (vagão) para
outra abria a porta e recitava sempre a mesma cantilena. A voz baixa. O 
rosto triste. Muito triste,


- Tenho fommm... (fome).


As pessoas já acostumadas nem lhe davam atenção. Ele
continuava,
 quase choroso,


- Tenho as diabetes, tenho ossos fracos, cá tenho a tensão alta, não tenho o baço, já tirei partes dos
intestinos, um rim não funciona, tive ataques do coração, sou hemofílico, tenho
cancro (câncer) no estômago e na pelll (pele), só um pulmão está a funcionar.





Dava vontade de rir. O homem era uma enciclopédia ambulante de
doenças graves. Gravíssimas. Ele continuava,


- Não posso trabalhar. Minha mulher me abandonou. Lá em casa, a esperar pelo pão, tenho
putos e raparigas (meninos e meninas).


Aí é que dava mesmo vontade de rir, mas nos controlávamos.
Até que um dia ele acrescentou mais uma doença,


- Tenho Sida (Aids).





Aí o Eric não aguentou e disse em bom brasileiro (português
falado no Brasil),


- Putaqueôpariu! E ainda estás vivo?


A portuguesada sempre muito formal começou a rir
disfarçadamente. Até o pica riu,


- Esses brasilairos...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A Gracia do Capibaribe.


Carioca criado em Ipanema, na Nascimento Silva.

Ali mesmo, um cantinho, um violão, este amor uma canção, pra fazer feliz a quem se ama. Praia em frente à Montenegro, passando sempre na frente do
Veloso. Surfando no Arpoador.





Mas nas férias uma imposição familiar. Ficar em Recife.


Uma tragédia, nada pra fazer numa cidade provinciana. Sem hipótese de comparação com Ipanema. Mas eu ia. Fazer o quê? Ia como iria ao cadafalso.


Mas havia compensações. Lá podia aos 12 anos dirigir o jeep
de meu avô, dirigir o fusca de minha tia. Prazeres impossíveis no Rio. 
Também havia mais tarde aos 14 anos os retiros espirituais
no Mosteiro de São Bento e as carnes fogosas de uma prima. Va bene.





Para o mosteiro beneditino de Olinda eu levava montanhas de
livros, meu gosto por Arte, a vontade de aprender o Barroco. Ficava uma ou duas semanas. Lá eu lia, ouvia
gregorianos, engordava como um frade. 
Para a prima eu levava outros desejos, outro fogo, outras
sevícias. Loucuras mais que bem bem-vindas, mais que bem aceitas.





Também haviam os encantos das agulhas fritas na beira do
Capibaribe, as piscinas mornas da Boa Viagem, os azuis, os sussurros, as madrugadas, as esquinas da cidade de Bandeira,
de João Cabral, de Nelson. A cidade de João Câmara me mostrava outros amarelos e vermelhos. Outros fins de tarde. 
Numa dessas tive uma revelação. Um acaso, uma epifania mudava meus ouvidos, mudava minha vida.





Chantageando minha mãe por ter deixado minhas areias de
Ipanema eu exigia compensações. Ela aceitava e pagava. Pagava em espécie.


Eu então caminhava em direção às agulhas fritas do Capibaribe.
Numa destas tardes, caminhando por uma calçada à beira do rio das pontes, das lamas
e dos caranguejos, ouvi um som inusitado, nunca ouvido. 
A música vinha de um bar. Entrei extasiado. Adolescente pedi
uma coca-cola.





Ouvi melhor a música que me magnetizava. Uma harmonia
incomum. Voz rouca, negra. Ouvi um lamento. 
Vinha de uma juke-box.

Olhei para ela, caixa colorida, luzes piscando. Não ela, mas era a música que me hipnotizava.


Ray Charles, um desconhecido para um beatlemaníaco. I Can´t Stop Loving You. Era diferente, era novo, era arrebatador.
Ouvi, quis ouvir de novo. Fui ao caixa, comprei uma ficha coloquei na máquina.





Ray Charles cantou novamente. Fascinado comprei mais fichas.
Repeti a música várias vezes. A canção me transformava. Aprendi numa cidade
nordestina a gostar de blues. Quando voltei ao Rio meu destino estava
traçado. Blues e jazz até hoje são minha trilha sonora.


Na beira daquele capibaribe-mississipi aprendi a doçura, a agonia do
blues, o mistério do jazz.





Muitos anos depois, já muito adulto, mas da mesma forma
desprevenido, fui atingido por uma graça semelhante. Outra paixão tomava meu corpo.
Recife mudava minha vida novamente. Coloria minha alma com outro amor.
Marcava minha carne para sempre.


I can’t stop loving you. 


It's useless to say.


So I'll just live my life in dreams of yesterday.

Those happy hours that we once knew.