quinta-feira, 26 de abril de 2012

Chernobyl


Hoje é aniversário de Chernobyl, o desatre nuclear que contaminou 75% da Europa.

O desastre também é um dos fatos marcantes no processo da Perestroika e da Glasnost iniciados por Gorbatchov .



A explosão do reator 4, às 1h23m do sábado 26 de abril de 1986, da usina nuclear em Pripyat na Ucrânia iniciou o maior desastre atômico da história.


A cúpula da sala do reator foi pelos ares. Chamas e partículas de grafite altamente radioativo foram lançados a 1.200 metros de altura.


A primeira explosão liberou níveis de radioatividade dez vezes mais poderosos que a bomba de Hiroshima.


Quatro segundos depois outra enorme explosão demoliu duas paredes da usina. Uma nuvem radioativa imediatamente começou a se espalhar pelo continente à partir da Europa Central. A contaminação radioativa chegou até a Escandinávia. O incêndio na usina se prolongou por dias.


Níveis de radiação de 6 a 150 vezes maiores que o normal foram detectados a milhares de quilômetros do "epicentro" da explosão.


Em três anos centenas de pessoas morreram de câncer e leucemia e muito mais nas décadas seguintes. A cidade e a região ficaram devastadas e permanecem completamente abandonadas. Mutações genéticas acontecem até hoje.





Chernobyl foi um Armagedon localizado que imprimiu profundamente em Gorbatchov a dimensão do que seria o apocalipse nuclear se a corrida armamentista fosse até às últimas conseqüências. Como dirigente máximo soviético, e no centro da crise, isso o marcou definitivamente.


Algum tempo após o acidente Gorbatchov participou de um exercício simulado de guerra. Na sala de jogos de guerra estava o alto comando político e militar soviético.



Durante o exercício chegou um momento em que era preciso reagir a um ataque americano. Um enorme painel emitia sinais de aviso: mísseis nucleares americanos foram disparados em direção à União Soviética.


Gorbatchov não reagiu.

O tempo passava. O painel disparava dramaticamente mais informações sobre a direção, velocidade, posição e aproximação dos mísseis. Os minutos se passavam, a tragédia era iminente.


Todos olhavam para Gorbatchov, todos esperavam a reação dele. 

Mais informações eram emitidas por todos os painéis, mais luzes de alerta piscavam, mais sinais sonoros estridentes disparavam.




Todos olhavam para Gorbatchov e para o botão que ele supostamente deveria apertar para retaliar o ataque.


- Não. Não vou apertar este botão. Nem mesmo para fins de treinamento.

Thanks Gorbie.

O Despertar de Astha


Astha escreveu seu primeiro romance aos 12 anos.


À Procura de Algo Impossível. Uma parte deste romance foi usado como texto no concurso nacional dos CTT – Correios de Portugal e foi premiado como melhor texto literário de 2011. O público que a elegeu lhe atribuiu 240% mais votos que ao segundo lugar. O premiado escritor Raimundo Carrero foi definitivo: 

- Ela tem talento, e muito.





Acredito que Astha despertou para sua carreira criativa numas férias que passamos Klaus, ela e eu na praia de Tamandaré em 2001, na Costa dos Corais entre Pernambuco e Alagoas no Brasil.


Foi seguramente uma das melhores férias que já tive. Como foram fora da estação de turismo tínhamos todo aquele paraíso inteiro literalmente para nós.


Muitas vezes naquele arco imenso de quilômetros de praia não havia mais que dez pessoas. Temperatura ótima, o mar ora azul ora verde num transparente inacreditável, uma paz que lavava a alma.





Na época Klaus tinha cinco e Astha quatro anos. Nossa rotina era perfeita.


Acordávamos bem cedo e íamos para a praia, brincar na areia, surfar nas marolas, mergulhar com óculos, correr na praia, descobrir coisas, catar conchinhas, olhar os peixinhos nas piscinas naturais.


Antes das dez horas voltávamos para a casa. Tomávamos banho, colocávamos bermudas, eles ficavam assistindo televisão, jogando, brincando.





Eu tomava um gole de cachaça para abrir o apetite e ia cozinhar nosso almoço que dependia do que nosso pescador tivesse trazido naquele dia.


Depois do almoço, tirávamos todos uns cochilos e acordávamos depois das três da tarde. Esperávamos o sol ficar mais suave e íamos de novo à praia para as mesmas brincadeiras.





Voltávamos depois do sol se pôr. No caminho de casa tomávamos um sorvete ou ficávamos a conversar com o casal dono de um mercadinho.


Banho tomado, enquanto os dois se divertiam com algum dos brinquedos que tínhamos levado, eu lia algum livro e depois preparava o jantar.


Ou mais comumente acendia a churrasqueira no jardim da frente da casa para assar carne, frango ou lingüiças.





As noites eram claras e incrivelmente estreladas.


Ficávamos na varanda a contá-las, a esperar por estrelas cadentes e fazer os respectivos pedidos. Eu então lhes contava histórias. 


Estas histórias nós íamos alterando, inventando e criando ali mesmo na hora, com os típicos personagens infantis: pássaros, lobos, peixes, fadas, magos, príncipes, bruxas dentro daquele imaginário das histórias de criança. E naturalmente nos incluíamos e aos nossos conhecidos, nestas histórias.


Ficava engraçado e muito criativo.





Astha adorava brincar com estas estórias.


Ela as criava, modificava e resolvia enredos, começos e finais. 


Mudávamos cenas, discordávamos do destino dos personagens e às vezes chegávamos a impasses curiosos. 


Havia de tudo: lobos-maus que se regeneravam, bruxas que viravam fadas, fadas que viravam bruxas, sapos que não queriam virar príncipes, princesas que queriam virar sapo, por aí...


Como a criação era coletiva gerava as mais absurdas situações, todas elas engraçadíssimas. Mas a Astha tinha uma solução criativa para todas elas.





Alí naquele paraíso de sonho com quatro anos estava nascendo a escritora que Astha viria a ser no futuro.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Made in China


A China hoje já responde por um quinto da produção global. 


Mas os tempos de produção barata estão chegando ao fim. A globalização funciona como um sistema de vasos comunicantes onde é apenas uma questão de tempo de fluxo para que os sistemas se equalizem. 





Se no começo da globalização os salários baixos da Ásia atraíram muitas fabricas e postos de trabalho da Europa e dos EUA o sistema agora está se equilibrando com aumento dos salários e de outros custos na própria Ásia. 


Os custos estão subindo não apenas nos preços da terra, nos custos ambientais, de segurança e de impostos. Os custos estão crescendo principalmente nos salários.





Em março a Standard Chartered divulgou uma pesquisa feita em 200 fabricas onde se nota que os salários subiram 10% este ano. A Foxconn que faz os iPads da Apple em Shenzhen aumentou os salários em 16 e 25% só no mês passado.


Os custos dos salários subiram em 20% por ano nos últimos quatro anos diz Dale Weathington da Kolcraft.


– A China já não é barata como costumava ser. 


Outro fator importante é que o progresso no interior está dificultando as empresas de manter e trazer trabalhadores migrantes. Depois das férias do último Ano Novo Chinês 15% deles não retornaram para a Kolcraft. 





Os custos de mão de obra em Guangdong aumentaram 12% e em Xangai 14% ao ano entre 2002 a 2009. Comparativamente o aumento foi de apenas 8% nas Filipinas e de 1% no México.


Para 91% dos membros da Câmara de Comércio Americana em Xangai os maiores desafios de hoje são os custos crescentes de mão de obra, mais problemáticos que a corrupção e a pirataria. 


Joerg Wuttke da Câmara de Comércio da UE na China prevê que o custo para fabricar na China pode subir duas vezes ou mesmo três vezes até 2020. 


A Alix Partners prevê que se o Yuan e os custos de transporte aumentarem 5% ao ano e os salários crescerem 30% ao ano até 2015 custará o mesmo produzir na China e enviar a produção para os EUA quanto produzir lá mesmo. 





Essa convergência provavelmente será mais lenta, mas a tendência é clara. 


Como na imagem dos vasos comunicantes os desempregados do primeiro mundo começam a aceitar salários e benefícios mais baixos e a crescente classe média asiática começa a pedir por mais. 


Os custos tendem a se igualar em alguns anos. 





Mas enquanto a convergência não chega toda a fantástica infra-estrutura que a China criou nestes anos de bonança vai segurar muito a maré vazante.

O país sabiamente soube aproveitar as imensas oportunidades do passado recente e se modernizou em todos os setores da economia, pesquisa e educação.



Fortemente dependente de commodities a China está bem quanto às matérias primas que mais interessam. Há anos ela detém o monopólio da prospecção dos metais de terras raras. São 17 elementos com características químicas ou físicas especiais vitais à indústria de alta tecnologia.

A China é a única nação que dispõe de toda a cadeia de produção para a fabricação e extração dos metais, passando pelo refino até o seu processamento.




Apenas a título de curiosidade James Cameron chegou à China neste sábado 21.04.12 para tratar da co-produção de Avatar 2 e Avatar 3, pouco depois do anúncio que Iron Man 3 será co-produzido por lá. A China é hoje o segundo mercado mundial de cinema faturando $ 2,06 bilhões de dólares nas bilheterias.



Mesmo a dependência das commodities mais comuns está sendo superada com as imensas reservas que o país acumulou. A China está se precavendo e investindo maciçamente na produção de alimentos na África.


É esse planejamento estratégico que está transformando a China na primeira potencia econômica do planeta. 





Diferentemente da Terrae Papagalis, este eterno país do futuro. Produtor de commodities e de gente muito, muito esperta.





Ou talvez sejamos realmente o último país feliz do mundo. 


O que não é muito difícil de entender já que o analfabetismo funcional atinge cerca de 68% da população. Somados esses 68% de analfabetos funcionais aos 7% da população que é totalmente analfabeta resulta que 75% da população não possui domínio da leitura, da escrita e das operações matemáticas. 


Ou seja na prática 3 de cada 4 brasileiros são analfabetos. 





E felizes, muito felizes. Ao som de muito pagode, arrocha e axé.

Aff...



sexta-feira, 20 de abril de 2012

Terceira Revolução Industrial


Estamos na fronteira da Terceira Revolução Industrial. 





A primeira começou na Inglaterra no final do século 18, com a mecanização da indústria têxtil. Tarefas feitas anteriormente à mão em centenas de casas de artesãos foram consolidadas em um único local, a fábrica de algodão. Os tecidos, fabrics em ingles daí a palavra fábrica em português, passaram a ser feitos num mesmo e amplo ambiente físico. 


A segunda revolução foi no início do século 20, quando Henry Ford criou a linha de montagem de automóveis depois de conhecer o trabalho de André-Gustave Citroën na produção em massa de armas para o exercito francês na primeira guerra mundial. Depois o próprio Citroën repetiu o conceito e criou seu próprio império. 






Curiosamente Ford entrou para a história se inspirando num judeu, coisa que ele detestava. Citroën era filho de pai judeu alemão e de mãe judia polonesa, o que em si já é uma fantástica alegoria da guerra que se seguiu à que ele colaborou para vencer. A primeira, irresolvida, de certa forma provocando ou se continuando na segunda.




Abre Parêntesis. 



Ford publicou no seu jornal Dearborn Independent em 1920 - cinco anos portanto antes do Mein Kampf de Adie - O Judeu Internacional uma versão dos Protocolos do Sião.

Os Protocolos tratam de uma suposta conspiração dos judeus para dominar o mundo. O documento é a mais elaborada fraude anti-semita já produzida, forjado em 1897 pela Okrana a policia secreta russa, para o czar Nicolau II. O documento foi traduzido para mais de doze idiomas e inspirou o Mein Kampf de Hitler e o Der Ewige Jude de Fritz Hippler. O que dá mais ou menos na mesma não é Riefenstahl?


Em matéria de trabalho sujo não há muitas diferenças entre a Okrana, seu arrepiante filhote KGB, a elegantézima SS nazista, a atrapalhada CIA, a charmosa double-o-seven MI6 e naturalmente o improvável Mossad dos deicídas. Tutti buona gente, right Lucie in the Hell with Fire? 


Mas isso é outra estória.

Fecha Parêntesis. 





Voltando à III Revolução Industrial. 


Nesta primeira década do 21 acabam de convergir diversas tecnologias que se desenvolveram quase que independentemente. Software inteligente, novos materiais, robôs e internet. 


Isso mudou não apenas os negócios mas a própria forma de viver e produzir das pessoas. 


A terceira revolução industrial começou agora. 





Manufacturing Via Digital. 


A produção baseada em muitas peças parafusadas e soldadas está acabando. Agora um produto pode ser idealizado cad/cam ning em computador e impresso/produzido numa impressora 3D.

A estereolitografia, um processo digital que não foi startreking criado nem pelo Spock nem pelo Scott, cria um objeto sólido através da construção e superposição de camadas sucessivas de materiais. Tudo é ajustado com alguns cliques.

Estes robôs-impressoras em 3D são capazes de fazer quase qualquer coisa, em qualquer lugar, a qualquer momento. Exatamente como as materializações da scifi. 




Você acha que nunca viu isso mas aquelas próteses auditivas da vovó são produzidas assim, aplicações cirúrgicas como um queixo de titânio, caixa de marchas de carros de corrida e peças do caça F-18 da Boeing idem.

A GE tem um scanner de ultrassonografia, fabricado em impressora 3D, tão pequeno que pode ser injetado até no corpo de um feto ainda por nascer e de lá emitir imagens. A coisa já começou e está bem a seu lado, bróder.



O Replicator (1) da Cybaman Technologies, uma empresa britânica, usa um feixe complexo de raios laser para ler as formas de um objeto e em seguida produzir uma cópia do mesmo. Indo ainda mais longe o Replicator pode fazer a leitura de um objeto em um lugar, transmitir digitalmente as informações e construir uma réplica exata em qualquer outra parte do planeta.

O que é tecnicamente um forma de teletransporte. Hoje, agora.

Detalhe: esta produção em 3D pode ser controlada remotamente exatamente como os drones militares americanos que sobrevoam e bombardeiam o Afeganistão pilotados por alguém confortavelmente sentado na California comendo donots, hambúrgueres e chacinando um monte de gente chata.



Materiais e processos ​​para fazer as coisas também estão mudando. Assim como compósitos de fibra de carbono estão substituindo o aço e o alumínio em bicicletas e aviões, a produção poderá não será feita apenas por máquinas mas por micro-organismos geneticamente modificados.


Não só a produção industrial mas a cadeia de abastecimento e a logística envolvidas estão mudando. E rápido. Muito rápido.


Está perto o momento em que um engenheiro trabalhando dentro de um veleiro navegando na brisa do Caribe ou no meio de um safari na Africa precisa analisar uma determinada peça. Em tap speed ele baixa e imprime o projeto e shazam a peça está em suas (his or yours) mãos. 


- Tá beleza assim Harry? Ok então produz.


Da mesma forma como a peça foi projetada e testada ela pode desta mesma forma ser produzida industrialmente em qualquer lugar por qualquer um que precise dela. 


- Meu bem, vamos trocar a geladeira (2) ? Passa na esquina e pede ao Joaquim para imprimir uma nova para a gente. 


- Tô sem crédito no cartão. 


- Pede pro Joaquim “pendurar” até o fim do mês. 


                                                             (wel,well, nem tudo muda...)





A pesquisa e o trabalho colaborativo, em labs ou em home-office, via internet são hoje o maior criador de empregos no mundo. Equipes que nunca estiveram fisicamente juntas, com gente das mais diversas cores e sexos, trabalham round the world round the clock em ingles a lingua franca do planeta. Estes imensos escritórios virtuais custam praticamente zero para as empresas e são tremendamente convenientes para suas equipes.


No plano industrial a produção pode começar a partir de um laptop e uma impressora 3D.


Uma cenário bem diferente das tenebrosas fabricas de Dickens. Uma estrutura infinitamente mais barata que os tremendos investimentos necessários para montar uma indústria tradicional. 





A III revolução industrial vai afetar não só como as coisas são feitas, mas principalmente onde. O modelo chinês que levou as industrias do primeiro mundo a exportar seus jobs para a Ásia começa uma inflexão.


Primeiro porque os salários estão subindo na Ásia. Segundo por que as empresas querem estar mais perto de seus clientes para responder mais rapidamente às mudanças na demanda. 


O Boston Consulting Group estima que em áreas como transportes, computadores, produtos metalúrgicos e máquinas de 10 a 30% do que os Estados Unidos importam hoje da China poderão até 2020 ser feitos back home.







Assim como no segmentos de serviços onde empresas bilionárias começaram numa garagem ou num quarto de universidade, como a Microsoft e o Facebook, a produção industrial está atingindo o mesmo Konzept. Novos empresários e grandes inovadores começam a colaborar online em pequenos e grandes projetos e vão transforma-los em produtos a partir de casa e comercializá-los globalmente a partir de qualquer garagem. 


E provavelmente serão financiados por crowdfunding. 





A Terceira Revolução Industrial já começou e the girl-next-door pode estar agora projetando e produzindo seu próximo objeto de desejo. 


Dê um alô para ela. 


Se é que ela não está aí mesmo ao seu lado, em casa, grudada na tela de um laptop, papai.





(1) apesar da sonoridade semelhante não é o copiator-replicator-duplicator das Organizações Tabajara.

(2) geladeira = arca frigorífica = fríza , depende do português que você pensa que fala.



Leia mais em  http://www.economist.com/node/21552901



quinta-feira, 19 de abril de 2012

Bananão


Não somos o que pensamos ser. Não somos muito menos a opinião que temos de nós mesmos. Infelizmente somos como os outros nos vêm. E isso muitas vezes é difícil de aceitar.


O papo aqui não é existencial, não tem a ver com o "somos como os outros nos vêem" de Sartre. É econômico mesmo.






Somos a sexta economia do mundo, acabamos de ultrapassar quem já foi o orgulhoso império britânico onde o sol nunca se punha. Ok doc.


Mas alguém leva o Bananão a sério?


A chave da questão é que a estrutura do PIB é quem determina a importância política de um país. A recente expansão econômica fortemente baseada na exportação de commodities mantêm o Brasil numa posição desimportante na cena mundial.





Jonathan Warren, chefe do departamento de estudos brasileiros da Universidade de Washington diz que apenas quando a economia brasileira for capaz de passar de uma sociedade baseada em commodities para uma baseada numa grande classe média com produção de alto valor agregado é que as coisas vão mudar.


Ruchir Sharma chefe do setor de investimentos em mercados emergentes da Morgan Stanley alerta que o crescimento do Brasil é baseado no preço instável das commodities e que se o país não se diversificar e estimular seu crescimento real poderá em breve cair junto com elas.





Isso explica por que o Brasil não é um parceiro estratégico dos EUA e de outras potências, diferentemente dos outros BRIC´s como a China e a Índia.





A euforia do crescimento recente e a propaganda oficial não nos deixam ver a realidade com clareza. Crescemos principalmente a reboque do crescimento da China. Pior ainda é que crescemos menos do que os outros emergentes durante a recente onda de oferta de crédito e crescimento mundial.


Apesar de muitos avanços, estamos em péssima situação em educação, pesquisa, tecnologia, estrutura e produção de valor agregado.


Continuamos a ser estruturalmente a imensa colônia que produz o básico para a corte.


O Bananão.


terça-feira, 17 de abril de 2012

J.J. Abrams e Camões na Enterprise. Juntinhos!


Fringe de J.J.Abrams é uma série excelente de scifi e no melhor estilo trekie coloca dúvidas existenciais em relação ao progresso científico e suas manipulações na natureza.


Sem a mesma elegância e refinamento do Rodenberry, mas isso já é outra história, afinal o publico gosta do bizarro e o J.J. tem fixação em needles.





Há uma certa altura em que algumas fragilidades, distorções e decays materiais estão a ocorrer em pontos determinados, em alguns soft spots desta realidade. Interrogada sobre o que está a ocorrer no universo Nina Sharp singelamente responde:


- Nós estamos a ocorrer.


                  (por nós entenda você e eu cara-pálida)





O progresso humano interfere e sempre interferiu na natureza, isso é intrínseco de nossa presença.


Mas não é o caso aqui de se levantar as questões dos ecochatos. O ponto não é conceitual. Ele está muito mais relacionado com a velocidade dos eventos. Uma velocidade que nem sequer nos dá tempo para analisá-los.


Considere que nas últimas décadas acumulamos mais conhecimento, inventos e descobertas que em todo o período anterior da história da humanidade.


Hoje estamos realmente à beira ou talvez já até tenhamos ultrapassado o limite do descontrole. Não há nada nem ninguém que saiba tudo que está ocorrendo nos labs privados, das corporações e dos governos espalhados pelo mundo.


Fato é que nos potencializamos muito acima do imaginável há cinqüenta anos. Para o bem e para o mal.


E quer saber? A farra mal começou.





Há meio milênio atrás Camões fez Baco se queixar a Plutão em VI, 29 dos Lusíadas.





- Vistes com que imensa ousadia eles atingiram as prerrogativas do Céu, como eles agiram como nós?


Eles não tiveram limites em sua arrogância, deixaram que suas loucas fantasias os guiassem por caminhos que antes nos eram reservados. Eles agem como se fossem um de nós tanto a nível macro quanto molecular e sub-atômico.


Não faz muito tempo em que eles se lançaram ao mar apenas com velas e remos. De lá para cá eles se tornaram tão orgulhosos e insolentes que temo que em mais alguns anos eles venham a ser os deuses e nós os humanos.


                (dê um desconto aê que o Baco já jogou no time de cá, tá reclamando é de reserva de mercado, ou então bebeu demais; como sempre)





Any way, fico a imaginar o que Luiz diria agora se pudesse entrar na Massive Dinamic.





Well, well, certamente de cara lhe iriam colocar um belíssimo olho biônico, por que cá para nós não dá para andar para lá e para cá se exibindo por aí com esse tapa-olho horroroso. Faça-me o favor, todo mundo já sabe que estivestes em Ceuta.






O que queres pá? Uma aposentadoria?


Exibido este portuga, isn't it?

Empadas


Carl Sagan num insight simples e claro falando sobre a formação do universo nos lembra que somos feitos de poeira de estrelas.





Olhando o céu noturno, tentando brincar ou contar a enormidade de nossa solidão vendo o brilho de nossas irmãs, sentimos de que matéria somos efetivamente feitos.


Quando á noite pisamos os astros distraídos lembramos que Bandeira considera que este verso de Orestes Barbosa é o mais belo escrito em língua portuguesa. Tu pisavas nos astros distraída.





A pergunta de Shakespeare continua presente e se mistura nas nossas noites quando lembramos de Próspero na primeira cena do quarto ato d'A Tempestade,


... tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão de sumir-se, como se deu com essa visão tênue, sem deixarem vestígio. Somos feitos da matéria dos sonhos.






É nestes sonhos que carregamos a memória primal que nos faz olhar com encanto para o céu estrelado à procura de uma resposta na mesma poeira que nos formou, pisando distraídos em suas sombras aqui nesta terra azul de Gagarin.


Pois se por mares nunca de antes navegados, já passamos ainda além da Taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana, certamente será por entre esta poeira que iremos infinitamente procurar a matéria de que são feitos nossos sonhos, de que somos primariamente feitos.





Uma pergunta bem mais divertida de ser respondida do que a dos clientes das empadas de Garanhuns que perguntaram a Isabel Cristina Pires da Silveira, a Chef do Ano,

- De que são feitas estas empadas? Estão excelentes!





PS.: pra quem não se lembra a chef também fazia parte de uma gang de criminosos, ela também se ocupava de ocultar cadáveres.

Pena de Morte


Neste momento em que começa o julgamento do Anders Behring Breivik o assunto da pena se morte é instantâneo. O que Breivik fez é horrendo, sem justificativa de espécie alguma.





Vamos considerar dois aspectos éticos da eterna questão do crime e da pena de morte.


Primeiro por que se prendem as pessoas.


Não se prendem as pessoas para castiga-las. Este não é o ponto. As prisões existem para proteger a sociedade de seus elementos perigosos e tentar reabilita-los. Esta é a idéia que leva a sociedade como um todo a se proteger e ao mesmo tempo se responsabilizar pela reabilitação de um de seus membros.


Por isso se paga pelos sistemas policial, judiciário e penitenciário. Esta é a idéia por trás da atitude extrema, assustadora e terrível de retirar de alguém seu mais preciso e sagrado bem. A Liberdade.





Segundo a questão da pena de morte.


Eticamente a pena de morte é indefensável. Independente do aspecto religioso onde a vida seria uma doação de deus e só ele a poderia retirar. Um homem, nenhum homem, pode se arvorar a exercer um direito que não é seu.


Mas aqui é o aspecto ético que se discute. E este é extremamente simples.


Para se exercer a pena de morte e retirar a vida de alguém é preciso cometer um assassinato. É preciso se igualar ao criminoso. E acima de tudo é preciso fabricar um assassino, o carrasco. O funcionário público que em nome da sociedade cometerá um assassinato. Em nome dela, justificado por ela, pago por ela.





Não consigo aceitar a idéia de cometer um assassinato para se fazer justiça. Principalmente não aceito em nenhuma hipótese ser cúmplice de um assassinato a sangue frio.


E pago por mim.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O que deve ser dito - Günter Grass

Porque guardo silêncio há demasiado tempo

sobre o que é manifesto

e se utilizava em jogos de guerra

em que no fim, nós sobreviventes,

acabamos como meras notas de rodapé.



É o suposto direito a um ataque preventivo,

que poderá exterminar o povo iraniano,

conduzido ao júbilo

e organizado por um fanfarrão,

porque na sua jurisdição se suspeita

do fabrico de uma bomba atômica.



Mas por que me proibiram de falar

sobre esse outro país [Israel], onde há anos

- ainda que mantido em segredo –

se dispõe de um crescente potencial nuclear,

que não está sujeito a nenhum controle,

pois é inacessível a inspeções?



O silêncio geral sobre esse fato,

a que se sujeitou o meu próprio silêncio,

sinto-o como uma gravosa mentira

e coação que ameaça castigar

quando não é respeitada:

“antissemitismo” se chama a condenação.



Agora, contudo, porque o meu país,

acusado uma e outra vez, rotineiramente,

de crimes muito próprios,

sem quaisquer precedentes,

vai entregar a Israel outro submarino

cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras

para onde não ficou provada

a existência de uma única bomba,

se bem que se queira instituir o medo como prova… digo o que deve ser dito.



Por que me calei até agora?



Porque acreditava que a minha origem,

marcada por um estigma inapagável,

me impedia de atribuir esse fato, como evidente,

ao país de Israel, ao qual estou unido

e quero continuar a estar.



Por que motivo só agora digo,

já velho e com a minha última tinta,

que Israel, potência nuclear, coloca em perigo

uma paz mundial já de si frágil?



Porque deve ser dito

aquilo que amanhã poderá ser demasiado tarde [a dizer],

e porque – já suficientemente incriminados como alemães –

poderíamos ser cúmplices de um crime

que é previsível,

pelo que a nossa cota-parte de culpa

não poderia extinguir-se

com nenhuma das desculpas habituais.



Admito-o: não vou continuar a calar-me

porque estou farto

da hipocrisia do Ocidente;

é de esperar, além disso,

que muitos se libertem do silêncio,

exijam ao causador desse perigo visível

que renuncie ao uso da força

e insistam também para que os governos

de ambos os países permitam

o controle permanente e sem entraves,

por parte de uma instância internacional,

do potencial nuclear israelense

e das instalações nucleares iranianas.



Só assim poderemos ajudar todos,

israelenses e palestinos,

mas também todos os seres humanos

que nessa região ocupada pela demência

vivem em conflito lado a lado,

odiando-se mutuamente,

e decididamente ajudar-nos também.



Günter Grass, Nobel de Literatura 1999



Was gesagt werden muss



Warum schweige ich, verschweige zu lange,

was offensichtlich ist und in Planspielen

geübt wurde, an deren Ende als Überlebende

wir allenfalls Fußnoten sind.



Es ist das behauptete Recht auf den Erstschlag,

der das von einem Maulhelden unterjochte

und zum organisierten Jubel gelenkte

iranische Volk auslöschen könnte,

weil in dessen Machtbereich der Bau

einer Atombombe vermutet wird.



Doch warum untersage ich mir,

jenes andere Land beim Namen zu nennen,

in dem seit Jahren - wenn auch geheimgehalten -

ein wachsend nukleares Potential verfügbar

aber außer Kontrolle, weil keiner Prüfung

zugänglich ist?



Das allgemeine Verschweigen dieses Tatbestandes,

dem sich mein Schweigen untergeordnet hat,

empfinde ich als belastende Lüge

und Zwang, der Strafe in Aussicht stellt,

sobald er mißachtet wird;

das Verdikt "Antisemitismus" ist geläufig.

Jetzt aber, weil aus meinem Land,

das von ureigenen Verbrechen,

die ohne Vergleich sind,

Mal um Mal eingeholt und zur Rede gestellt wird,

wiederum und rein geschäftsmäßig, wenn auch

mit flinker Lippe als Wiedergutmachung deklariert,

ein weiteres U-Boot nach Israel

geliefert werden soll, dessen Spezialität

darin besteht, allesvernichtende Sprengköpfe

dorthin lenken zu können, wo die Existenz

einer einzigen Atombombe unbewiesen ist,

doch als Befürchtung von Beweiskraft sein will,

sage ich, was gesagt werden muß.



Warum aber schwieg ich bislang?

Weil ich meinte, meine Herkunft,

die von nie zu tilgendem Makel behaftet ist,

verbiete, diese Tatsache als ausgesprochene Wahrheit

dem Land Israel, dem ich verbunden bin

und bleiben will, zuzumuten.



Warum sage ich jetzt erst,

gealtert und mit letzter Tinte:

Die Atommacht Israel gefährdet

den ohnehin brüchigen Weltfrieden?

Weil gesagt werden muß,

was schon morgen zu spät sein könnte;

auch weil wir - als Deutsche belastet genug -

Zulieferer eines Verbrechens werden könnten,

das voraussehbar ist, weshalb unsere Mitschuld

durch keine der üblichen Ausreden

zu tilgen wäre.



Und zugegeben: ich schweige nicht mehr,

weil ich der Heuchelei des Westens

überdrüssig bin; zudem ist zu hoffen,

es mögen sich viele vom Schweigen befreien,

den Verursacher der erkennbaren Gefahr

zum Verzicht auf Gewalt auffordern und

gleichfalls darauf bestehen,

daß eine unbehinderte und permanente Kontrolle

des israelischen atomaren Potentials

und der iranischen Atomanlagen

durch eine internationale Instanz

von den Regierungen beider Länder zugelassen wird.



Nur so ist allen, den Israelis und Palästinensern,

mehr noch, allen Menschen, die in dieser

vom Wahn okkupierten Region

dicht bei dicht verfeindet leben

und letztlich auch uns zu helfen.





Fonte: Süddeutsche Zeitung, 4 de abril de 2012