terça-feira, 27 de julho de 2010

Memorial do Retirante




Recife tem o privilégio que poucas cidades têm no mundo de ter uma grande obra de Oscar Niemeyer. Cidades se transformaram em cartões postais por conta disso. 


O grande mestre da arquitetura moderna, que levou adiante os conceitos de Le Corbusier, é indiscutivelmente o gênio das curvas impossíveis e sensuais. Pela idade avançada de Niemeyer ter hoje um projeto dele mais que um privilégio é uma oportunidade imperdível, é ter um patrimônio inestimável.





Sendo o centro geográfico e quase sempre cultural e intelectual do Nordeste, Recife sofreu ao longo de décadas as conseqüências desta localização e de suas misérias, principalmente as da Seca.


Para a cidade convergiram os miseráveis e desamparados de toda a região ao seu redor à procura de refúgio. Famílias de retirantes dos estados vizinhos chegaram aos milhares, expulsas pela seca. 


Recife foi quem pagou, sem poder, o alto preço de recebe-las.





Famílias inteiras aqui chegaram e aqui se desagregaram.


Os homens que estavam em condições de trabalhar terminavam por emigrar para o sul do país. Eles quase nunca retornavam deixando definitivamente para trás suas mulheres, velhos e crianças que estressaram a infraestrutura da cidade. 


Recife se enchia de crianças abandonadas, miseráveis, mendigos e prostitutas. A cidade acabou inevitavelmente por herdar todas as conseqüências sociais, políticas e urbanas desta situação indesejada. A cidade até hoje guarda em seu caráter e em sua estrutura a marca forte e a lembrança de tudo isso. Nenhum lugar portanto seria mais merecedor de sediar um Memorial do Retirante.





E assim foi feito.


Um grande centro de exposições começou a ser construído pela prefeitura da cidade no bairro de Boa Viagem. O Parque D. Lindú tem o nome da mãe do presidente do país, ele próprio um retirante, o mais famoso deles, projetado por ninguém menos que Niemeyer.


Para quem o vê pela primeira vez o conjunto arquitetônico além de belíssimo é avassalador pois o mestre criou uma obra-prima que instantaneamente transmite pela formas limpas e simples toda a solidão, o desamparo e o vazio da condição de um Retirante. 


De quem é obrigado pela miséria a abandonar sua terra em direção ao desconhecido.


É muito difícil não se emocionar e sentir imediatamente todo o contexto humano dos retirantes da seca que aquelas formas transmitem. A arquitetura trás um sentimento, uma história. O conjunto tem a expressão de um poema.





Mas a cidade envergonhada de seu passado rejeitou a obra.


Chegou a pensar em transformar o parque em uma área verde. Um contrasenso brutal querer povoar de verde um memorial ao retirante da seca. Hoje o parque se transformou num grande imbróglio. Esta semi-abandonado há anos e não se sabe se será um dia concluído e como será. 


A situação é ainda mais absurda por uma obra-prima desta importância estar semi-abandonada. Um parque que a população não desfruta com equipamentos que não funcionam. 


Além de um desrespeito ao bolso de contribuinte é mais um esqueleto inacabado numa cidade que já convive com tantas feiúras e mazelas.





Conviver com o passado, resolver suas questões e suas pendências é essencial para a saúde mental de qualquer indivíduo, quanto mais para a história de uma cidade. Negar suas heranças, mascarar sua história, fugir dessa realidade é doentio e impede que se resolvam os traumas do passado, para que se possa olhar com dignidade para o presente e construir o futuro.




PS.: Este post foi escrito em 2010. Hoje felizmente a obra foi terminada e se integrou na vida cultural da cidade.





terça-feira, 13 de julho de 2010

Srebrenika na Copa


Esquecemos neste domingo da Copa de 2010 de relembrar o massacre de 8.000 refugiados bósnios pelo exercito sérvio em Srebrenika.



Há exatos 15 anos no dia do jogo Holanda x Espanha.






Radovan Karadzic, o presidente sérvio na época é lembrado por ser psiquiatra e poeta. Poeta?




Pois é, o coleguinha do genocida executor Ratko Mladic, era poeta.




Qual o problema? Cada um escreve com a tinta que prefere, uns preferem as balas, outros o sangue, outros os dois.






O que acho mais emocionante nesta historia não é o genocidio sem paralelo na historia pois a area do massacre estava sob a proteção das tropas holandesas da ONU que assistiram passivamente à carnificina.






Tocante mesmo é saber que os pobres holandeses que assistiram ao espetaculo, tão tristinhos ficaram que depois se tornaram doentes, assassinos ou suicidas.




Tadinhos.






Vai ver que foram os urros das crianças, velhos, mulheres chacinadas e os milhares de mortos insepultos que gritaram mais alto que as vuvuzelas em Soccer City.