sexta-feira, 16 de março de 2012

Toda Menina Baiana


Sexta-feira, 24 de Janeiro de 1992, Sintra, Portugal





Inverno português suave, nada de mais, uns 3 ou 4 graus. Ainda assim um frio razoável.


Na nossa casa fazíamos um daqueles inesquecíveis churrascos.





Havia um talho em Lisboa que importava os melhores cortes do Rio Grande do Sul. Lá se tinha melhor carne do que se poderia encontrar no próprio Brasil. Selecionada, cara, para exportação.


Por sorte estávamos do lado certo do balcão. Fora do Brasil, mas com a melhor carne brasileira possível.


Então era uma farra de maminhas, fradinhas e picanhas dos pampas, acompanhadas da deliciosa carne de porco portuguesa. Thanks D. Afonso, sorry mouros.


Engraçado desfrutar de tão excelente carne tendo o Castelo dos Mouros exatamente em cima de nossas cabeças.


Tudo isso regado ao excelente, o indispensável Dão. Tudo isso no paraíso de Sintra. Sorry again. Thanks again.





Sandra, Eric, Vahine e eu passávamos então tardes gloriosas de céu azul, sol brilhante, carne e vinho excelentes. E música, muita música. Vahine adorava, dançava.


Acho que é daí o gosto dela por blues e bossa-nova.





Mas à certa altura colocamos um CD de Gil e nele havia o Toda Menina Baiana. A musica é uma delicia, um baita suingue, aquela batida marcada, gostosa.


A musica terminou e a colocamos repeat. A música nos trazia uma alegria gostosa, uma saudade sem mágoa. Repetimos one more time.





A noite chegando, o Dão já bem bebido, o cansaço de uma tarde feliz, a música gostosa, o frio aconchegante. A música se repetindo, mais vinho, mais maminha, mais picanha, mais Gil.


Sandra não agüentou, a musica estava em loop.


- Esta musica já tocou mais de 20 vezes!


Grávida de cinco meses, ela se irritou, fechou a porta de vidro da varanda e tipicamente se retirou. Ela não é de reclamar duas vezes.


A musica continuava em repeat. Nem percebi quando ela saiu.





Só quando tentei entrar é que notei a casa trancada, Sandra já estava dormindo. O frio já estava incomodando, a carne acabara, o Dão idem.


Eu estava literalmente de castigo do lado de fora.


Bati muitas vezes na porta antes que ela aparecesse. Claro que ela acordou e abriu a porta sem reclamar, mas com aquela cara de quem não estava exatamente feliz.


Eu estava congelando. E certamente não iria me aquecer como gostaria.






Acho que Sandra nunca mais conseguiu ouvir Toda Menina Baiana.












Sexta-feira, 19 de Setembro de 2003, Nova Iorque, USA. Sede da ONU.






Doze anos depois.


Sessão solene de abertura da Organização das Nações Unidas. Todos os representantes dos países do planeta presentes. A maioria dos habitantes da Terra assistiu ao vivo ou viu depois nas TVs e jornais.

Eu estava em Recife, Sandra no Estoril. Um divórcio e um oceano nos separando.





O Brasil tradicionalmente é o país que sempre abre e conduz a sessão solene de abertura, a primeira sessão do ano da ONU. Neste ano o representante brasileiro para a abertura da ONU não foi o presidente da república, foi o Ministro da Cultura.


Gilberto Gil.


Em pleno final da sessão de abertura o ministro entrega ao secretário geral das Nações Unidas Kofi Annan um atabaque. O ministro toma uma guitarra. Espantosamente um show ia começar.


Os dois começam a tocar juntos para o planeta inteiro.


Todos os representantes no plenário acabaram dançando, rindo, batendo palmas.

Cantando Toda Menina Baiana.





Não deu para deixar de sentir muitas saudades de Sintra, rir muito e tentar imaginar o que Sandra teria feito se estivesse naquele dia visitando a ONU.





terça-feira, 13 de março de 2012

O Que Deve Ser Dito


O que precisa efetivamente ser dito.


Toda a polêmica em torno do poema "O Que Deve Ser Dito" do prêmio nobel Günter Grass publicado pelo Süddeutsche Zeitungtraz trás à reflexão um assunto tabu para toda a comunidade internacional. O Trauma Alemão. O Genocídio, o Holocausto.





Alemães têm vergonha de se dizerem alemães. Gerações pagam o preço do pecado que não cometeram. A comunidade internacional lucra com isso em muitos aspectos. Chantagem inclusive, não apenas psicológica, mas principalmente material.


Vergonha de que?


O Holocausto não é um crime maior que os de Stalin, na verdade é numericamente várias vezes menor. É igual ao que se cometeu recentemente nos Bálcãs, ao que se cometeu contra os Armênios, contra os Cossacos.

O Holocausto é muito menor que o holocausto brasileiro na Guerra do Paraguai. Brasileiros eliminaram 76% da população, nós brasileiros matamos 96% dos homens adultos do Paraguai.


O Holocausto é infinitamente menor que o maior de todos os genocídios, a eliminação completa pelos espanhóis das três civilizações pré-colombianas, Maias, Aztecas e Incas, na Era dos Descobrimentos.





São crimes de nacionalidades específicas? Há umas mais sangrentas que as outras?

Definitivamente não. A história da Civilização Humana não é uma fairy tale, é uma história sangrenta de assassinatos, roubos, eliminações, violações e apropriações.


Você e eu somos capazes de fazer o mesmo. Você e eu somos iguais tanto ao algoz quanto à vítima. São crimes cometidos por mim, por você, por nós.

São crimes do Homem. Pesam em todas as nossas consciências.


Apesar do insight de Hannah Arendt o fato é que a Banalização do Mal não é recente, ela é intrínseca da condição humana. Vide Stanley Kubrick no começo de 2001, A Space Odyssey.





Você e eu somos irmãos nesta grandeza e nesta tragédia de ser humano.


Homo homini lupus até o dia em que "livres das dentadas do mundo já não teremos no fundo desejo profundo por nada que não seja bom".

sábado, 10 de março de 2012

Araras, Papagaios e Palhaços


Que o Brasil é um país estridente e barulhento não é novidade para ninguém. Certamente suas raízes tropicais, seus animais, seus pássaros tiveram uma enorme influencia na formação, ou na falta de, de sua população.








As pessoas falam alto, ouvem musica alto, automóveis e casas tocam musica na altura de trios elétricos. Além dos próprios é claro.




Mesmo assim me surpreendi quando um dia destes ouvi um som alto vindo não de uma casa, de um automóvel, não da rua, mas de cima. O som vinha do céu.









Olhei para o alto e vi que o som vinha de um pequeno Piper que voava muito baixo sobre a cidade. Um avião monomotor muito simples carregando alto-falantes fazendo publicidade. O som naturalmente era altíssimo afinal vinha de um avião lá no alto e deveria ser entendido cá em baixo.









Tocava fanfarras e um locutor anunciava nada mais nada menos que a chegada de um circo à cidade. Naturalmente dizia ser o maior e melhor espetáculo já visto, com grandes atrações.




Existem poucas coisas mais melancólicas, mais bregas, mais dolorosamente kitsch que um circo, mambembe ou não. Mas ouvir compulsoriamente sua publicidade vinda do alto, tocada por um avião em vôo baixo sobre toda a cidade beira o escatológico.









Para um país em que uma companhia de gás engarrafado não se constrange em colocar seus caminhões de distribuição tocando Pour Elise de Beethoven aos berros pelas ruas das cidades enquanto anuncia seu produto e seu preço, não chega a ser tão surpreendente assim.




De qualquer maneira ainda é melhor ouvir um Piper anunciando um circo do que ouvir um Stuka tocando a Cavalgada das Valquirias de Wagner.




Na verdade bom mesmo seria fazer estes últimos tocar em cima dos primeiros.


quinta-feira, 8 de março de 2012

Ilse




Ela foi dos meus amores o que menos compreendi. Que menos, ou quase nada, correspondi.


Ela colocava para que eu ouvisse The Look Of Love do Burt Bacharach, nunca esquecerei.

Ela insistia que


The Look of Love is saying so much more than just words could ever say 


And what my heart has heard, well it takes my breath away. 





Para mim era difícil de acreditar, mas ela dizia que 


I can hardly wait to hold you, feel my arms around you 


How long I have waited 


Waited just to love you, now that I have found you 


I´ve got the Look of Love. 





Não que ela não tivesse qualidades para um homem se apaixonar. Bonita, sexy, delicada. Mas eu não encontrava razões para que ela tivesse este Look of Love. Mas ela tinha. 


It's on her face, a look that time can't erase. 


E assim eu a deixei, com um look of love nos olhos, sem entender que 


How long She have waited. 


Waited just to love me.




A música é perfeita, a vida nem tanto. Sorry Ilse.