quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Doce Veneno


Em vinte anos Portugal recebeu 120 mil brasileiros.


Nos últimos seis meses 52 mil portugueses se mudaram legalmente para o Brasil via Passos Coelho Export Airlines. 






Conta rápida: são dois Boeings por dia. Um português de cinco em cinco minutos, 24 horas por dia, sete dias por semana. 


Que sejam todos muito bem vindos. 


Apenas aritmeticamente falando, nesse ritmo Passos Coelho, o primeiro-ministro que tem aconselhado seus patrícios a sair do país, conseguiria transferir Portugal inteiro para o Brasil em menos de três anos. 



Manchetes de jornais portugueses estampam "A Avalanche de Novos Portugueses No Brasil".

Arquitetos, engenheiros e administradores parecem ser a maioria, mas há quem chegue apenas com o secundário.



O Brasil recebeu 329 mil pedidos de visto em seis meses.


É assustador que em apenas seis meses 3% da população portuguesa tenha pedido residência no Brasil.


Um êxodo mais comumente associado a situações de guerra ou de catástrofes.


E é. 





É a catástrofe política e econômica que a política portuguesa construiu ao longo dos 25 anos pós-entrada de Portugal na Comunidade Européia. 


Bilhões de Euros foram recebidos através de fundos comunitários, a maioria deles a fundo perdido.


Os que não se dissolveram em transações suspeitas e foram efetivamente gastos, acabaram empregados em obras fúteis ou inúteis. 


Não se fez planejamento de longo prazo nem muito menos se investiu em ciência, tecnologia e desenvolvimento sustentável. 





A população seguiu o exemplo e entrou num consumismo desvairado de novos-ricos, gastando e se endividando. 


Agora tanto o país quanto a população estão quebrados, afogados em dívidas que não podem pagar. 


O país sem um futuro definido. A população desempregada e endividada. 





Neste ambiente caótico o primeiro-ministro Passos Coelho aconselha os desempregados a saírem para o Brasil e para Angola.


Alexandre Mestre o ministro para a Juventude aconselha os jovens a imigrar. 


O eurodeputado Paulo Rangel propõe a criação de uma agencia nacional para ajudar os portugueses a sair do país. 


Seria bizarro se não beirasse o criminoso. 






São declarações de uma irresponsabilidade política alarmante.


Um país que se arrisca a prescindir de sua juventude para construir seu futuro.


Um país pobre que gastou muito para educar e formar sua juventude e depois a oferece gratuitamente a países que estão em melhor situação.


Suicídio lento e a longo prazo.



Nas manifestações de rua os jovens carregam cartazes:

"Quero trabalhar sem precisar emigrar",

"Emigra tu Passos Coelho".

Um grupo de manifestantes se reuniu em frente à residência oficial do primeiro-ministro para lhe,

"Devolver o Convite"

Dezenas de milhares já assinaram a carta aberta de Myriam Zaluar à Passos Coelho.

Trechos:



....Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia...

...Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer... Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer...

...Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu...

...Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida...

...Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira 'congelada'. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como "nativa"...

...Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor ...

...Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenh
o mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor.

...Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara...

...Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, Feliz Natal. Ou Feliz Ano Novo à sua escolha, Senhor Primeiro-Ministro...




Quem sai, sai para ser estrangeiro, ser cidadão de segunda classe, no país que escolheu. 


Sem as nuances da língua, sem referências sociais, sem intimidade cultural, sem raízes. E quando após alguns anos se comparar com os que ficaram a comparação dificilmente será favorável. 


Que sai perde network e não consegue construí-la no novo país. 


A rede de contatos escolares, familiares, políticos e de amizade que se constrói ao longo de anos é fundamental para o sucesso de qualquer exercício profissional.


Mais até que a própria competência.


Quem fica enxerga oportunidades que aquele que saiu normalmente não consegue ver em um ambiente estrangeiro. 


Isso sem falar na construção sócio-emocional.



Pior é a situação do que saiu e depois voltou. 


O retornado. 


Além de perder a network, não consegue recupera-la e é visto como aquele que saiu nos maus tempos e que volta na bonança. 


O retornado normalmente é visto ou como um fracassado ou um ingrato. No mínimo como um estranho. 





Para quem imigra, apenas sua segunda ou terceira geração, crescida e adaptada ao novo país terá uma vida normal. 


O imigrante pode até chegar a ser visto como estrangeiro por seus descendentes, e a depender da tolerância social do país, poderá ser discriminado por seus filhos e netos. 


Muitas vezes a saída para enfrentar os desconfortos de ser estrangeiro tem sido formar ou se juntar a máfias específicas de nacionalidades ou viver em guetos de imigrantes.

Uma situação perigosa, a outra melancólica. As duas à margem.



Isso é claro se trata de quem imigrou de forma definitiva. A situação do expatriado profissional que imigra temporariamente por curtos períodos e vive ao sabor de oportunidades financeiras em diversos países é diferente.

Não é o caso de quem troca efetivamente de país.



No caso específico das correntes migratórias entre Portugal e Brasil a situação é menos critica, pois em geral há algumas ligações familiares mesmo que distantes e alguma identificação cultural.

E no sentido Portugal-Brasil a recepção aos portugueses, pela própria natureza do Brasil, será sempre muito mais amigável que a recebida pelos brasileiros que para lá foram.

Contudo independentemente da receptividade natural dos brasileiros, o problema estrutural do imigrante permanece.



Meu bom amigo português Armindo Paulo imigrou aos 16 anos para o Brasil, aqui se casou, teve um filho e voltou rico para Portugal com a mulher brasileira, deixando para trás os amigos, a família da mulher e grande parte de sua história. Em Portugal o filho se casou e "seu"Armindo teve netos.


Ele lamenta,

- No Brasil sou tratado como português, em Portugal sou tratado como "o brasileiro".

E concluí como num fado,

- Metade da minha vida está em Portugal a outra metade no Brasil. Meu coração ficou no meio deste oceano imenso, a sangrar de saudades, ora de cá ora de lá.



Pedro Passos Coelho está oferecendo um doce veneno que ele próprio não irá provar.

Carta aberta de Myriam Zaluar ao primeiro ministro de Portugal


A carta que já foi assinada por dezenas de milhares de pessoas é uma reação à sugestão do primeiro-ministro Passos Coelho para que os portugueses saiam de Portugal à procura de uma vida melhor.






Pela primeira vez, o chefe do Governo de um país apontou a porta da rua aos jovens e desempregados.



Carta aberta ao Senhor Primeiro Ministro



Exmo Senhor Primeiro Ministro,



Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome "de guerra". Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.




Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.




Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.




Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. "És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro." - disseram-me - "Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção". Fiquei.




Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. "Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante". Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira 'congelada'. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como "nativa". Tinha como ordenado 'fixo' 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas...




Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci - felizmente! - também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.




Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.




Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar...




Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores - e cada vez mais raros - valores: um ser humano em formação.




Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.




Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, Feliz Natal. Ou Feliz Ano novo à sua escolha, senhor Primeiro-Ministro

E como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus.




Myriam Zaluar

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Kluso de Luz


Era uma noite claríssima.


Eu caminhava sozinho numa praia quase deserta de Alagoas.


Muito tarde da noite quase não havia outras pessoas na praia, se é que havia alguma. A maré estava muito tranqüila, havia uma leve brisa nos coqueirais. Sentei-me na areia para olhar o Kluso.





Kluso é como os gregos - que como poucos entendem de beleza e poesia - chamam o quebrar das ondas na praia.


As ondas pequenas formavam-se por igual, muito longas e quebravam-se na areia uniformemente. Uma após outra elas se formavam, cresciam, deixavam uma espuma branca na noite e se quebravam.


A sucessão formava um balé suave, o tempo se espreguiçava, parecia que elas iriam se suceder eternamente, sempre assim, sempre desta mesma forma.


Pequenas, longas, uniformes, quebrando por igual, calmamente. Sentei na areia. Alegre, sorrindo, feliz com o cenário.





Olhando para as ondas notei que uma delas cresceu e antes de se quebrar emitiu uma luz extraordinária.


Na sua concavidade, no bojo interno que forma sua própria essência, havia a percorre-la de ponta a ponta um raio de luz branca e brilhante. Rápido, imenso. Em toda sua extensão.


Fiquei atônito.


O raio de luz percorria a onda inteira, completamente, rapidamente, de ponta a ponta. No exato momento em que ela crescia e se formava, antes dela se quebrar.


O efeito era lindo, mas incompreensível. Um Kluso de luz.






Eis que outra onda se forma e o fenômeno se repete. Ela cresce e antes de se quebrar um raio forte e brilhante de luz branca percorre toda sua extensão.


Pensei em muitas coisas.


Podiam ser cardumes de pequenos peixes prateados, podia ser alguma fluorescência de algas, podia ser até uma deusa do mar. Podia ser qualquer coisa.


O fato é que era um espetáculo belíssimo, que eu nunca tinha nem visto nem sequer ouvido falar.


Na noite clara, ondas muito largas, pequenas e muito iguais se quebravam na praia e antes de morrerem soltavam um raio brilhante de luz branca. Um gran finale da própria onda antes de se desfazer, uma celebração dentro dela.

Um adeus de luz.






Fiquei sentado, extasiado, desfrutando de tamanha beleza, me sentindo privilegiado. Ou pela natureza ou pela deusa que poderia estar me acenando dentro daquelas ondas.


Mesmo desfrutando do espetáculo meu espírito inquieto não sossegava, precisava entender o que poderia estar acontecendo.


Levantei-me, caminhei, fui me aproximar das ondas.


Quando cheguei perto da água do mar os raios de luz desapareceram. Esperei um pouco, as ondas quebravam, molhavam meus pés, a espuma branca se desfazia na areia, mas nada voltou a acontecer.

Se era uma deusa, era vaidosa e não permitia aproximação.


Esperei ainda mais um pouco. Nada. O  milagre tinha acabado.


Voltei frustrado para onde estava antes, caminhando pela areia de costas para as ondas, lamentando o fim do espetáculo.




Sentei-me novamente. 


Assim que me sentei os raios recomeçaram. Quase me assustei. Olhei em volta, não havia mais ninguém, só o coqueiral, a areia imensa, as ondas luminosas e a lua se pondo bem por trás de mim.


O que era aquilo? Que fenômeno era aquele?
Eureka!

Achei. Era isso, a resposta era a lua. Ela, que estava bem baixa e por trás de mim, se refletia na concavidade interna das ondas. Como a superfície forma um espelho côncavo a imagem refletida se contraía e se concentrava num faixo de luz intensa. A luz da lua é que formava aqueles raios luminosos, concentrados, prateados, rápidos, intensos.
Tão intensos quanto fugazes. Como a própria Beleza.

Você não mudou nada


O Brasil ultrapassou em 2011 a Grã-Bretanha, chegou ao sexto lugar entre as economias globais, deve ultrapassar a França em quatro anos e deixar a Alemanha para trás em oito. 


São excelentes notícias, mas há algo mais importante e muito preocupante por trás destes números. 






Renda. 


Considerando a renda per capita por ano 44 países têm renda melhor que a brasileira. 


Na distribuição da renda a situação é catastrófica. 


Segundo dados da ONU entre 187 países apenas sete apresentam distribuição pior do que a do Brasil. Colômbia, Bolívia, Honduras, África do Sul, Angola, Haiti e Comoros.


Um time para lá de vergonhoso. 





Custo de vida.


Na contramão dos avanços econômicos o custo de vida no país está aumentando muito. Em 2011 foi o país com maior alta no preço dos imóveis. 


Uma pesquisa do banco suíço UBS feita em 73 países indica que o poder de compra no Rio e em São Paulo vem caindo nos últimos cinco anos apesar da elevação dos salários. 


A consultoria Mercer divulgou em seu ranking anual que São Paulo é a 10ª cidade mais cara do mundo e o Rio a 12ª. 





Conhecimento.


Na área de Ciência e Tecnologia, essencial para a manutenção do crescimento a situação é péssima.


Um estudo da Royal Society, academia nacional de ciência britânica, mostra que do total global de investimento em pesquisas científicas o Brasil gasta ridículos 1,6%. 





Educação. 


Em aproveitamento e rendimento escolar o país fica entre os piores. 


Os últimos dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos - PISA - em 65 países colocam o Brasil em, 


51º lugar no ranking de leitura e compreensão,


55º no de matemática,


52º no de Ciências. 





Desenvolvimento Humano. 


No IDH, o índice de desenvolvimento humano que engloba áreas como educação, saúde e expectativa de vida, a posição do Brasil fica em 84º lugar.





Competitividade.


Na avaliação do Fórum Econômico Mundial entre 142 países o Brasil ocupa a modesta 53ª posição em competitividade.





Ambiente de Negócios. 


Segundo o Banco Mundial o Brasil piorou no ranking que mede a facilidade de se fazer negócios. Entre 183 países perdeu seis colocações, caindo da 120ª para a 126ª posição. 





Corrupção. 


A nota do Brasil avaliada pela Transparência Internacional sobre corrupção piorou, passando de 3,7 para 3,8. O país ocupa a 73ª posição entre 182 países.



Boa parte do crescimento brasileiro se deve à exportação de commodities como minério de ferro, carne, frango e soja entre outras. Produzindo muito petróleo, açúcar, madeira e álcool, sem investir em conhecimento e importando tecnologia.

Estruturalmente o perfil não é muito diferente do Brasil-Colônia.

Índia e China fazem o caminho inverso. O próprio governo tem se alarmado com a crescente desindustrialização brasileira.



Resumindo. 


Um país que não investe em conhecimento e onde seus jovens saem das escolas em situação lamentável. 


Uma nação de péssima distribuição de renda e de alto custo de vida.


Um país sem competitividade internacional e péssimo ambiente de negócios. 


Uma nação com baixíssimos índices de desenvolvimento humano, crescente criminalidade e corrupção assustadora.



Em 1974 o economista Edmar Bacha, da equipe que criou o Real, cunhou a expressão Belíndia para definir um Brasil que convivia com padrões da Bélgica e da Índia.

Já não serve, a Índia mudou. Hoje o Brasil se parece mais com Suíça e Haiti.

Quem sabe então Suití ?

Suit better e soa até meio indígena.



O Brasil é socialmente desigual, mal-educado, pouco competitivo, com baixa qualidade de vida, perigoso, caro e corrupto.

O país cresceu muito nos últimos anos, por conta da estabilização da moeda, do ambiente estável na economia, e do boom econômico global nos anos recentes, especialmente à reboque do crescimento chinês. Ainda assim aproveitamos mal estas oportunidades.

Euforia à parte, nos números que avaliam a realidade o Brasil é um dos cem piores países do mundo.



Chato jogar água fria na alegria de fim de ano, mas como lembra meu amigo Chico Lyra, citando Gramsci e Lênin, a verdade é sempre revolucionária.

Sexta economia mundial, mas infelizmente continua com a mesma cara.

Who giv'a fuck, do ya?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Brasil Sexta Economia Global


O Brasil superou a Grã-Bretanha e se tornou a sexta maior economia do mundo em 2011. 





Sorry M'dam no hard feelings, a conclusão é do CEBR - Centre for Economics and Business Research - Centro de Pesquisa Econômica e de Negócios, publicadas na própria imprensa britânica nesta segunda-feira 26.12.11.


O Brasil tem batido os países europeus no futebol por um longo tempo, mas superá-los na economia é um fenômeno novo, disse Douglas McWilliams, executivo-chefe do CEBR.





Para o CERB as coisas para a Europa não estão indo nada bem.


Segundo o centro a crise na zona do euro deverá levar o bloco a um desempenho econômico de - 0.6% em 2012 se a crise do Euro for resolvida, se não a queda irá a - 2%. 






Para o centro de pesquisa, dentro de oito anos, os quatro BRIC's - Brasil, Rússia, Índia e China - serão as primeiras economias globais junto com os EUA e Japão.





O jornal The Guardian diz que a perda de posição britânica reflete a crise bancária de 2008 e a crise econômica européia que persiste em contraste com o boom vivido no Brasil.


Outro jornal inglês, o Daily Mail, destaca que o Brasil está se tornando rapidamente uma das locomotivas da economia global com seus vastos estoques de recursos naturais e uma classe média em ascensão.





O Brasil está se internacionalizando.


Empresas brasileiras investiram US$ 32,6 bilhões na compra de empresas no exterior e na sua internacionalização no período de 2008 a novembro de 2011.





O Brasil também está se fortalecendo internamente.


As empresas brasileiras não só estão se internacionalizando mas também começaram a avançar sobre as estrangeiras estabelecidas no País.





Um estudo inédito feito pela Sobeet , Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização, mostra que as companhias brasileiras gastaram US$ 27,5 bilhões no mesmo período para comprar ativos de empresas estrangeiras no Brasil.





O resultado é surpreendente. 


Anteriormente se via apenas o movimento de internacionalização das multinacionais brasileiras. Mas as empresas brasileiras estavam não só indo às compras no exterior, mas também adquirindo empresas estrangeiras no Brasil, num claro sinal de fortalecimento da sua situação financeira.





Os recordes mundiais são muitos:


A maior fabrica de automóveis, a maior empresa estatal de petróleo, o maior conglomerado de cervejarias, a maior empresa de carnes, o maior produtor de soja, o maior produtor frango, o maior produtor de carne bovina, a cidade com a maior frota de helicópteros, a cidade com maior numero de jatos executivos, a empresa aérea que mais cresce, a maior frota de ônibus, o maior produtor de cinema de animação comercial.


A lista é enorme e engloba várias posições de liderança em medicina, engenharia, petróleo, bancos, televisão, produção de energia limpa, siderurgia, plásticos, mineração, biodiesel, açúcar, produção de frutas, telefonia e etanol.




No Brasil fica a maior concentração de industrias alemãs em uma unica região, mais que na própria Alemanha. A cidade com mais descendentes de italianos, mais do que em Roma, a maior cidade libanesa, a segunda maior cidade japonesa depois de Tókio, a maior população de origem africana.

E last but not least, o maior e mais bem sucedido programa de inclusão social e distribuição de renda.



Agora, o ranking das maiores economias mundiais é liderado pelos EUA, seguido pela China, Japão, Alemanha, França e Brasil.





O crescimento econômico brasileiro está diretamente relacionado com a estabilização da moeda, politica monetária, abertura internacional e programas sociais implantados pelo governo liberal anterior e sabiamente mantidos e aumentados pelo atual. 


Mas todo este crescimento deve-se principalmente ao boom econômico mundial criado pelo desenvolvimento da China, aliado ao intenso movimento de capitais e aumento internacional de crédito.



Nos últimos trinta anos a China tirou da extrema pobreza de 300 a 400 milhões de pessoas, que agora trabalham, comem, se vestem e produzem. Este é o maior mercado de commodities brasileiro, este é o maior parceiro comercial do Brasil.

Não haveria o boom atual sem a parceria com a China.



Apesar de tudo o Brasil foi o país entre os BRIC's que menos aproveitou a onda recente de crescimento econômico mundial. Faltou, e falta, planejamento de longo prazo e grandes investimentos em educação, tecnologia, pesquisa e inovação.

Cresceu menos que os outros e está sendo ultrapassado tanto pela Rússia quanto pela Índia.



O CEBR também prevê que o Brasil:


1 Superará a França em menos de quatro anos.


2 Ultrapassará a Alemanha em oito anos.


3 Será ultrapassado pela Rússia e pela Índia até 2020.





O mundo em muitos poucos anos terá um face econômica completamente diferente.





Estas projeções de dados precisos são baseadas na evolução, sem grandes modificações, da realidade tal como ela se apresenta hoje. Não incluem, evidentemente, surpresas e fatos inesperados que surjam no trajeto.


Algumas surpresas sociais, militares e políticas podem estar se formando no horizonte e poderão modificar ainda mais a face deste novo mundo:





A fome na África que poderá levar correntes migratórias para a Europa.


O futuro político, pós primavera árabe, dos países da região e suas consequências no Oriente Médio.


O crescimento do fundamentalismo muçulmano no Oriente Médio e na Europa.


A atuação da Coréia do Norte e do Irã nuclearizados.


O atual crescimento político conservador nos países centrais e o crescimento político de esquerda nos periféricos.


O futuro do Euro.


Uma crise financeira global atrelada ao imenso déficit americano.





Em 2012 ninguém certamente morrerá de tédio, como diria minha querida Teca Rozowykwiat.

Um Fascista do Carago


Países e sociedades em crise econômica, de auto-estima ou passando por momentos de séria transição costumam produzir grupos ultra-conservadores e regimes fascistas. 


Não aqui nenhuma novidade, os exemplos são muitos e alguns foram devastadores para países e para o mundo em geral. 





Grupos neo-nazistas pipocam na ex-Alemanha Oriental, por toda a Europa e até mesmo na América e no Brasil. 


Por isso é de estranhar o aparecimento no cinema do super-herói português Capitão Falcão, que está para ser lançado. 





Capitão Falcão, o super-herói que é um fascista do carago. 


O primeiro super-herói português casou-se aos 18 anos, nunca mais dormiu com outra mulher e come comunistas no pequeno-almoço (café da manhã). 


Esta é a definição do diretor e criador português. Queremos que ele seja o super-herói mais conservador do mundo. Portugal sempre precisou de um super-herói. O projeto nasceu dessa urgência, diz João Leitão. 





O super herói, assim como Batman tem o Robin, também tem um sidekick: o Puto Perdiz (na terrinha puto é garoto). O Capitão Falcão usa uma mascara como a do Zorro e o puto se disfarça numa roupa inspirada nas roupas da Juventude Portuguesa, o grupo fascista moldado por Salazar na Juventude Hitlerista. 


No enredo há comunistas assustadores usando macacão tipo Super Mario armados de foice e martelo, múmias também munidas de martelo e foice e raios que convertem os fracos de mente ao marxismo. 





Apesar do João Leitão salientar que a ideia é em tom de crítica à sociedade portuguesa salazarista, o filme que é intrinsecamente polêmico pode ter um efeito completamente ao contrário e despertar ainda mais nostalgia dos bons tempos do Portugal dos Pequeninos de Salazar. 


João Leitão já experimentou isso e confessa: 


Tenho sempre medo quando alguém leva aquilo a sério. É uma paródia. E há pessoas que levaram aquilo a sério. Estou a falar de partidos ultra-mega-hiper-conservadores a roçar o fascista 






Tudo que Portugal não precisa neste momento é de algo que confunda ainda mais a opinião pública. 


Os tiros e as porradas do Capitão Falcão e de seu Puto Perdiz podem sair pela culatra e virar mais uma piada-de-português de muito mal-gosto.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Klaus


Todos gostamos muito de música e os filhotes cresceram muito saudáveis à base de leite materno, jazz, blues e rock.


A dieta básica era Art Blakey, Oscar Peterson, B.B. King, George Benson e Eric Clapton. No café, almoço e jantar. Música, sempre música, around the clock.





Klaus era o que mais gostava de blues. Sorria e se balançava. Nem sabia falar direito mas já pedia pra repetir as musicas.


Um dia ele vai além e pede uma música. 


Isso mesmo aquele pedacinho de gente de três anos já tinha preferências! Ele queria ouvir a música do Tossel. Tossel? pensei.


- Tossel filho? Não sei que música é essa.


- Tossel, eu quero aquela música do Tossel.





Fiz o possível para imaginar que música era aquela, tentei lembrar dos refrões, de corruptelas de palavras, de aproximações fonéticas, pedi ajuda e nada. Nada da música do Tossel.


E ele pedindo, e ele insistindo:


- Pai, põe a música do Tossel!


Tive que dizer que não sabia que musica era aquela, que não tínhamos. Tentamos outras formas de entendimento, mas nada. Ele queria aquela música e pronto. Eu dizia que não conhecia, que não tínhamos.

Ele insistia que tinha sim, que queria a tal música.


Claro que tudo isso acabou em choro. Muito choro.





E pior, ele ficou tristinho e frustrado logo no seu primeiro pedido musical.


Algum tempo se passou e quando um dia estávamos ouvindo Eric Clapton, o Klaus se aproxima alegre e excitado.


- É esta, é esta. É esta a música do Tossel. 


Klaus sorria satisfeito. A principio não entendi. Clapton estava tocando Before You Acuse Me.





Prestei mais atenção à musica e fui deixando-a passar para ver se a coisa se esclarecia.


Até que chegou a hora do Tossel e eu começei a rir. E ri muito.


... before you acuse me take a look to yourself...


Yourself, Tossel. Agora já se sabia que esta era a musica favorita do nosso Klaus.





Anos depois, quando ele já tinha uns dez anos, estávamos todos conversando, ouvindo blues e relembrei desta história. Rimos muito e coloquei a música para tocar, ele ouve reconhece a música e me pede:


- Pai traduz a letra para mim.





Ficou mais complicado ainda.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Papai Noel


Papai Noel é uma figura lendária associada à uma figura histórica.

São Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mira na Turquia, nasceu no ano 280 e costumava ajudar anonimamente quem estivesse em dificuldades financeiras colocando um saco com moedas de ouro na chaminé das casas.

Papai Noel também é chamado no além mar de Pai Natal pelos infelizes súditos do imperdoável exportador de gente Passos Coelho.



Algumas lendas dizem que o bom velhinho mora no Pólo Norte uma terra de neve eterna.

Outras dizem que ele mora nas montanhas de Korvatunturi da Lapônia na Finlândia cercado de elfos mágicos e oito ou nove viadinhos voadores.

Outra lenda diz que ele faz uma lista de crianças de acordo com seu comportamento.



Clark Moore, professor de literatura grega em Nova Iorque, escreveu em 1822 o poema Uma visita de São Nicolau para seus seis filhos. Aqui aparece a versão de Papai Noel viajando num trenó puxado pelas renas.

A versão da chaminé veio também da Finlândia.

Os lapões viviam em pequenas tendas semelhantes a iglus cobertas com pele de rena. A entrada da casa era um buraco no telhado.

A chaminé também se relaciona ao costume de limpa-las no Ano Novo para deixar que a boa sorte entre na casa durante o resto do ano.



O visual atual de Papai Noel é obra do cartunista alemão Thomas Nast na edição de Natal de 1886 da revista Harper's Weeklys. Até então ele era representado com roupas de inverno de lenhadores.

Em alguns lugares da Europa ele ainda é representado com paramentos eclesiásticos de bispo, uma relação com o bispo Nicolau, usando em vez do gorro uma mitra episcopal.

Os holandeses, que já foram colônia da Espanha, fizeram um samba-do-criolo-doido e acreditam que Papai Noel é um bispo espanhol que chega à cavalo, vindo do oeste, um dia antes do Natal com presentes para as crianças.

Nicolau, o bispo turco, foi declarado santo pela igreja católica pelos milagres que lhe foram atribuídos.

Quem diria que a maior festa cristã tenha seu símbolo nascido numa região do Profeta.

Papai Noel é um símbolo nascido em terras muçulmanas.



A arvore de Natal, o Tannembau, foi criada por Matinho Lutero na Alemanha. Como o pinheiro é a única arvore que permanece verde no inverno, época do Natal no hemisfério norte, ele a usou como símbolo de permanência da vida.

Lutero colocou um tannembau num altar de igreja na época do Natal representando a noção cristã de renascimento em Jesus. Catarina achou chiquérrimo.

A arvore de natal é um símbolo protestante.



Quanto à data o Natal é a festa em que se comemora o nascimento de Jesus.

Na antiguidade o Natal era comemorado em datas diferentes pois não se sabia com exatidão a data do nascimento do filho da virgem.

Somente no século IV o 25 de dezembro se estabeleceu como data da comemoração. Na Roma Antiga o 25 de dezembro era a data que os romanos comemoravam o início do inverno.

Uma data pagã.



Um bispo turco, nascido em terras muçulmanas, que mora sozinho no pólo norte e que aparece ao lado de um arvore protestante numa data pagã vestido, futuramente, com as cores de um refrigerante. 

Dito assim é assustador, quando não bizarro.



Fairy Tales são contos de terror de crianças.

Algumas como a do lobo-mal estão associadas à justificativas sociais. Neste caso por que era preciso exterminar os lobos que contaminavam com o vírus da raiva os rebanhos na Inglaterra medieval.

Outras como as de anões e duendes estão ligadas à degeneração física dos trabalhadores das minas de sal de Steinberg, na Montanha Sandling no Tirol austríaco.

Operada por um pequeno grupo de famílias durante cerca de três mil anos, ainda na época do império egípcio,  os mineiros extraíam o sal em extensos, profundos e estreitos túneis subterrâneos.

Durante séculos por conta da endogamia, condições de trabalho e alimentação enquanto os homens cresciam os mineiros que viviam nas entranhas da terra foram perdendo estatura ao longo de dezenas de gerações. 



Os contos de fada já eram catalogados quatro mil anos antes de Cristo. Historicamente eles desempenharam um papel importante na educação, transmissão de valores e formação do inconsciente coletivo.

Esta linguagem metafórica transgride o pensamento racional e abstrato revelando um mundo onde o homem e a natureza não se distinguem.

Jung percebeu no caráter metafórico dos contos a base poética da mente. 

Como elementos de catarse social eles refletiam os sonhos e angústias de suas populações.

Se não posso dobrar os deuses ao menos moverei os infernos, notou Freud. 


Mas nenhuma destas figuras tem uma dinâmica histórica tão extensa e adaptativa quanto o Papai Noel.



Tanto visualmente quanto conceitualmente foi a Coca-Cola quem estabeleceu o Papai Noel atual.

Em 1931 a produtora da deliciosa L'acqua nera del'imperialismo fez uma campanha publicitária vestindo Papai Noel com as cores vermelha e branca da empresa e de garrafa na mão.

Althusser, Marcuse e Adorno se arrepiaram com tamanha absorção.

A campanha foi criada para promover o consumo de Coca-Cola no inverno, período em que as vendas eram mais baixas.

Foi um sucesso.



A simbologia e o conceito do Papai Noel e do Natal se modificaram e se mesclaram antropofagicamente no melhor estilo Oswald de Andrade.

Hoje a data, a figura e o comportamento social estão efetivamente ligados ao conceito da Coca-Cola de estimular o consumo.

Boas compras.













Hobsbawm e a Nova Era das Revoluções


Eric Hobsbawm, aos 94 anos, é provavelmente o mais brilhante historiador vivo. Para ele a classe operária perdeu seu papel histórico. Em entrevista à BBC em 23.12.11 o historiador afirma que a classe operária e a esquerda tradicional estiveram à margem das grandes mobilizações de 2011. Trechos:





A classe média foi a grande protagonista e força motriz das revoltas populares e ocupações que agitaram o ano. 


As mais eficazes mobilizações populares são aquelas que começam a partir da nova classe média modernizada e, particularmente, a partir de um enorme corpo estudantil. Elas são mais eficazes em países em que, demograficamente, jovens homens e mulheres constituem uma parcela da população maior do que a que constituem na Europa. 





Foi uma alegria imensa descobrir que, mais uma vez, é possível que pessoas possam ir às ruas e protestar, derrubar governos. 


As ausências da esquerda tradicional e da classe operária nesses movimentos se devem a fatores históricos inevitáveis.


A esquerda tradicional foi moldada para uma sociedade que não existe mais. As diversas ocupações realizadas em diferentes cidades do mundo ao longo de 2011 não são movimentos de massa no sentido clássico. 





As ocupações na maior parte dos casos não foram protestos de massa, foram formadas por estudantes e integrantes da contracultura. Por vezes eles encontraram ecos na opinião pública. Em se tratando das ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas foi claramente esse o caso. 






Há semelhanças entre 2011 e 1848, o chamado Ano das Revoluções, na Europa, quando ocorreram uma série de insurreições na França, Alemanha, Itália e Áustria quando foi publicado O Manifesto Comunista de Marx e Engels. 


As insurreições que sacudiram o mundo árabe e que promoveram a derrubada dos regimes da Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen lembram 1848, uma outra revolução que foi tida como sendo auto-impulsionada, que começou na França e depois se espalhou pelo continente em um curto espaço de tempo. 





As revoluções no mundo árabe tomaram rumo inesperado para aqueles que um dia saudaram a insurreição egípcia, mas que se preocupam com os rumos tomados pela revolução no país. 


Dois anos depois de 1848, pareceu que alguma coisa havia falhado. No longo prazo, não falhou. Foi feito um número considerável de avanços progressistas. Por isso foi um fracasso momentâneo, mas sucesso parcial de longo prazo, não mais em forma de revolução. 


Com a possível exceção da Tunísia não há perspectivas de que os países árabes adotem democracias liberais ao estilo das europeias. 





Estamos em meio a uma revolução, mas não se trata da mesma revolução.


O que as une é um sentimento comum de descontentamento e a existência de forças comuns mobilizáveis - uma classe média modernizadora, particularmente, uma classe média jovem e estudantil e, é claro, a tecnologia, que hoje em dia torna muito mais fácil organizar protestos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Crise, Doce Crise


O Banco Central Europeu emprestou nesta quarta-feira 21.12.11 meio trilhão de Euros a 523 instituições financeiras européias com juros de 1% ao ano e vencimento em 2014. Outra operação semelhante deve acontecer em Março.

O BCE nunca tinha emprestado a prazo tão longo e o volume fica acima dos 300 bilhões esperado pelo mercado. Uma benção de Natal para os banqueiros.





Os empréstimos são uma transferência indireta de recursos do BCE para os bancos privados comprarem títulos de países endividados, como a Itália, que estão pagando juros superiores a 6%.


A aliança entre bancos e governos está no centro da atual crise da zona do euro.


Uma aliança de lucros mútuos onde os bancos compraram imensas quantidades de dívidas soberanas sem análises realistas de risco e os governos se beneficiaram por não terem que pagar os juros altos que teriam de pagar numa operação séria.





Agora a história se repete. Financiada diretamente pelo cidadão europeu. 


Os bancos pegam empréstimos no Banco Central Europeu para emprestar aos próprios países membros. Tomam 489,2 bilhões com juros de 1%, repassam a 6% e embolsam a diferença de 24,5 bilhões, com uma simples troca cruzada de assinaturas.


Simples assim.




Além das tecnicidades operacionais não há justificativa ética para uma farra destas. Por que premiar a incompetência dos bancos? Já que o BCE vai emprestar por que não faze-lo diretamente aos governos? Por que enriquecer ainda mais os responsáveis pela crise?


O cidadão europeu que está passando os momentos mais difíceis dos últimos 70 anos é quem vai pagar esta conta. Já os bancos que criaram a crise estão ganhando muito com ela. Enquanto isso o governo português incentiva seus jovens e desempregados a saírem do país.


Bertold Brecht dizia: O que é assaltar um banco em comparação a fundar um banco?




Banqueiros são gente compenetrada, circunspecta, de postura formal e rosto sério. Por que se eles começarem a rir não vão conseguir parar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A Partícula de Deus

Estamos a um passo de chegar ao conhecimento científico mais procurado nas ultimas seis décadas. O Bóson de Higgs.


Acredita-se que a partícula surgiu imediatamente após o Big Bang iniciando o processo de formação do Universo.


A partícula de Deus.


A localização da partícula é o elo que falta para concluir a Teoria da Física de Partículas - conhecida como Modelo Padrão - que descreve como partículas e forças interagem.


O Bóson e o Campo de Higgs explicam como a matéria foi criada. Eles seriam responsáveis por criar a massa de todas as outras partículas durante a criação do Universo.





Funcionaria assim.


Quando universo esfriou logo após o Big Bang, uma força invisível conhecida como o Campo de Higgs teria se formado juntamente com o bóson.


O campo de Higgs cria uma resistência ao movimento tornando o movimento das partículas mais lento levando-as a se aproximar umas das outras e se juntar. Ao se juntar as partículas criam massa e formam os átomos.


Nesse momento a matéria é criada.


Sem a existência do campo estas partículas viajariam dispersas pelo cosmos na velocidade da luz e não conseguiriam se aglutinar, a matéria não existiria.


Sem o campo não existiria o Universo.





A origem do nome Partícula de Deus, apesar de soar imensamente poético, como quase tudo em Física de Partículas, não é exatamente o que parece.


O físico Leon Lederman escreveu um livro sobre suas frustradas tentativas de provar a existência do bóson de Higgs e deu-lhe o título de The Goddamned Particule, A Partícula Maldita 


O editor achando o título muito forte cortou um pedacinho e ficou The God Particule, A Partícula de Deus. Seis letrinhas a menos, mas que fazem toda a diferença.





O campo de Higgs e sua partícula fundamental, o Bóson, têm sido estudados no LHC - Grande Colisor de Hádrons - em Genebra operado pelo CERN, Organização Européia para Pesquisa Nuclear.


O CERN, criado em 1954, é o maior laboratório de física de partículas do mundo, tem vinte Estados membros, um efetivo de aproximadamente 2.400 funcionários em tempo integral e mais de 11.000 cientistas e engenheiros de 580 universidades e centros de pesquisa de 80 países.


O CERN foi o único lugar onde cientistas russos e americanos trabalharam juntos durante a Guerra Fria. A organização está relacionada a oito prêmios Nobel.





Por meio do projeto Sprace pesquisadores brasileiros operam e coordenam uma rede de processamento de dados e participam da análise dos dados produzidos. O volume de dados é de cerca de 700 megabytes por segundo, equivalente a  quase 10 mil DVDs por minuto. Anualmente são processados 15 petabytes de dados, volume de informação equivalente a mais de 3 milhões de DVD's.


Os grupos de pesquisa do CERN estudam os momentos imediatamente seguintes ao Big Bang através do aceleramento de partículas fundamentais.


Duas equipes estudam a criação do universo no LHC, o Grande Colisor de Hádrons. O LHC é um túnel circular de 27 quilômetros na fronteira da França com a Suíça, repleto de ímãs que conduzem partículas de prótons pelo imenso anel.


O tunel fica a cem metros de profundidade e é refrigerado a -271,25 ºC, quase o zero absoluto, mais frio que o vácuo do espaço sideral.


Para resfriar os eletroímãs e opera-los sem resistência elétrica, o LHC usa cerca de 10 mil toneladas de nitrogênio líquido e depois mais 54 toneladas de hélio líquido para refrigerá-los ainda mais.





Apenas para acelerar e energizar partículas elementares o LHC consome anualmente cerca de um milhão de megawatts hora (MWh), suficientes para alimentar uma cidade. Mesmo a preços subsidiados são gastos cerca de vinte milhões de Euros em eletricidade.


O complexo compreende além do gigantesco LHC, seis aceleradores de partículas. Cada um aumenta a energia das partículas antes de entrega-las ao seguinte.


INAC 2, acelera as partículas para as injetar no Proton Synchrotron Booster.


LINAC 3,  fornece ions pesados para injeção no  Low Energy Ion Ring.


Proton Synchrotron Booster, aumenta a energia das partículas geradas no Linac 2 antes de transferi-las. Low Energy Ion Ring, acelera as partículas de ions vindos do Linac 3 antes de envia-las ao Proton Synchrotron.


Proton Synchrotron aumenta ainda mais a energia dos feixes.


Proton Super Síncroton, um acelerador circular com 2 Km de diâmetro, injeta mais energia nos feixes antes de injeta-las no LHC.


Ao chegarem ao túnel de 27 km do LHC as partículas aceleram durante 20 minutos antes de atingirem a energia e velocidade máximas, próximas da velocidade da luz.





O Big Bang está a um passo.


Em determinados pontos do trajeto o colisor faz com que os feixes de prótons se choquem uns com os outros a uma velocidade próxima à velocidade da luz para que seja possível detectar novas partículas surgidas da colisão.


O CERN recria as condições do Big Bang para observar o aparecimento do Bóson. O processo assusta muita gente, cientistas inclusive, que temem uma mega-explosão descontrolada. Os experimentos podem criar micro buracos-negros e há quem tema que um deles cresça o suficiente para sugar e engolir a Terra à partir do laboratório.


Os cientistas do CERN disseram que existe a possibilidade de serem criados micro buracos-negros mas que seriam muito pequenos para engolir a Terra, e foram em frente.


Muitas manifestações já tentaram acabar com algumas experiências do CERN. O mundo sabe que as experiencias e descobertas do CERN são imensas e algumas podem ser inesperadas. O homem nunca chegou tão perto do momento da Criação.


Já houve a suspeita de que alguns dos neutrinos acelerados tivessem desaparecido.


Como a matéria não desaparece eles teriam então passado para outra dimensão, um universo paralelo, o que teoricamente é possível. O homem estaria transferindo matéria para outras dimensões desconhecidas.





Outra descoberta no CERN atordoou o mundo.


Em Setembro de 2011 duas equipes disseram que medições realizadas ao longo de três anos mostraram que neutrinos expelidos pelo laboratório viajaram até Gran Sasso, na Itália, em um tempo 60 nanossegundos inferior ao que a luz demoraria para fazer o mesmo percurso.


Partículas subatômicas deslocando-se a velocidades superiores à da luz colocam em xeque as teorias de Einstein sobre as leis do universo.


A Teoria Especial da Relatividade diz que a velocidade da luz é uma constante universal imutável.


Universalmente aceito o conceito é a base da compreensão que temos, pelo menos até agora, do Universo e de seu funcionamento. O anúncio gerou imensas polêmicas, com acusações agressivas entre os que acreditam ou não na quebra do maior tabu científico da história.





Agora uma revelação criou ainda maior alvoroço. Dentro do CERN há duas equipes independentes trabalhando sem nenhum contato um com o outro, à procura do Bóson de Higgs. O Atlas e o CMS. Em 13 de Dezembro de 2011 foi anunciado que os dois  grupos chegaram a conclusões semelhantes. A equipe CMS encontrou evidências no intervalo de massa entre 115 Gev (gigaelétron-volt) e 127 GeV. A massa encontrada seria cerca de 130 vezes mais pesada que os prótons encontrados no núcleo dos átomos.


Este excesso pode ser resultado de uma flutuação mas também pode ser algo tremendamente importante.O excesso é muito compatível com a existência de um Bóson de Higgs nos arredores de 124 GeV e abaixo.


E mais: há 95% de chances do bóson não ser encontrado no intervalo entre 127 GeV e 600 GeV, portanto já se sabe com precisão onde ele está.


A equipe Atlas chegou a conclusões semelhantes às do CMS. Para eles o bóson está na região entre 116 e 130 GeV


Duas equipes trabalhando isoladas chegando ao mesmo resultado é sinal de comprovação cientifica. A descoberta, importantíssima, é a pista para descobrir onde a partícula se "esconde".Agora se conhece com precisão científica a região onde o bóson estaria.


O homem já sabe aonde vai encontrar a Partícula de Deus.


O anuncio deixou o mundo e a comunidade científica em estado de alerta.


A grande descoberta está prestes a ser feita. Estamos a um passo de entender, e repetir cientificamente, o momento inicial da Criação do Universo.





Muitas pessoas disseram que está chegando a hora de rever Einstein e de rever Deus.Isso mesmo, rever Deus. Sintomaticamente a cada novo limite científico ultrapassado, ou a ultrapassar, a velha questão existencial  volta a aparecer.  Junto com ela também vem a vontade de rever conceitos filosóficos fundamentais.


Desde Platão que ele nos alertou que quanto mais sabemos mais sabemos que não sabemos. Só sei que não sei. Por isso estamos sempre revendo o Conhecimento.


Já a existência e o conceito de Deus é questão de Fé. Ou se tem ou não se tem. É pessoal, não é científico.


Se a teoria do Campo de Higgs estiver correta, e tudo indica que está, chegaremos sim até o Bóson. Iremos ainda mais além e chegaremos a imensas descobertas. Esta tem sido a maravilhosa aventura humana, a nossa aventura de viver.


Desde Prometeu.


Mas sempre estaremos acompanhados da mesma dúvida fundamental. Não estamos nem estaremos mais perto nem mais distantes de sua solução. O  CERN está à procura do momento da criação do universo e da partícula fundamental, o Bóson. Note que a pesquisa pressupõe a existência do Campo de Higgs, “uma força invisível”. O maior experimento científico da Humanidade parte do pressuposto da existência de uma força inexplicável.


Conceitualmente portanto nada muda em relação à origem do Universo. Estamos chegando cada vez mais perto dos mecanismos e da compreensão da origem do Universo, mas a questão fundamental permanece. Reveremos Einstein, como revimos Newton e continuaremos a nos rever sempre.


Mas não há como rever Deus.


Nem para os que crêm nem para os que não crêm.

Pérfida Albion


Depois de se isolar e ser o único país da UE a se recusar a participar das decisões da ultima reunião de cúpula da Comunidade que tratou da crise, a Grã Bretanha reaparece nas manchetes.

Ela estaria se preparando para retirar os cidadãos britânicos de Portugal e da Espanha em caso de colapso dos bancos da região. Uma operação de resgate para retirar mais de um milhão de residentes britânicos com aviões, barcos, ônibus e carros.

A notícia vazou de uma fonte não idenficada do Foreign Office, o ministério das relações exteriores e foi manchete hoje, 19.12.11, no Daily Telegraph.

O Sunday Times deu a mesma notícia.



Oficialmente o Foreign Office admitiu ter planos de contigência para situações de motins e agitação social nos países da zona do Euro na sequência de um colapso financeiro dos bancos e da moeda.

Notícia, vazamento, confirmação.

Trata-se do mais puro terrorismo político. Táticas de contra-inteligência usadas largamente no terceiro-mundo para desestabilizar regimes.

Uma irresponsabilidade criminosa capaz de precipitar uma corrida aos bancos com o conseqüente efeito dominó que poderia levar a um crash bancário em Portugal e na Espanha e a uma crise destrutiva para o Euro.

Um ato requintado vindo do país que a diplomacia internacional conhece como Perfidious Albion.

A Pérfida Albion.



Registros da frase remontam ao longínquo século treze. Oitocentos anos atrás.

No século dezessete foi usada pelo teólogo francês Jacques-Bénigne Bossuet. L'Angleterre, ah, la perfide Angleterre. Ele se referia ao fato de que protegida por seus mares era infiel à fé recebida.

O uso atual da frase é atribuído a um poema de Augustin de 1793 sobre a traição inglesa ao Tratado de Limerick de 1691 que encerrou uma guerra religiosa.

O tratado consentia liberdade de culto, de propriedade e porte de arma, mas os termos foram repudiados pelas Leis Penais de 1695.



O curriculum histórico é grande e inclui a captura, sem declaração de guerra, de centenas de navios franceses em 1755, fazendo milhares de prisioneiros durante a Guerra dos Sete Anos entre a França e a Áustria.

O ataque de surpresa de Nelson contra a frota dinamarquesa em Abril de 1801.

A interferência da marinha britânica, apesar da declaração de neutralidade, na Guerra Russo-Turca de 1877-1878 para evitar a queda de Istambul para os russos.

Há muito, muito mais.



A frase Pérfida Albion é um lugar comum na diplomacia mundial.

Ela foi usada publicamente pelo vice-presidente americano Dick Cheney reagindo à reunião de Novembro de 2008 do ministro do exterior britânico David Miliband com o presidente sírio Bashar al-Assad.

Os portugueses têm um fascínio doentio pelos ingleses.

Ainda em 1990 a elite portuguesa, ia ao dentista e até ao cabeleireiro em Londres.

Eles entregaram aos ingleses e por nada, no máximo um casamentosinho, a Índia, o chá, o ouro do Brasil e o vinho do Porto.

D. João VI e sua corte, fugindo de Napoleão, deixou o próprio país nas mãos do ingleses e do futuro duque de Wellington. É dessa época a frase Tudo como Dantes no Quartel de Abrantes.

A própria independência do Brasil foi comprada quando D. Pedro I assumiu uma imensa e mal explicada dívida portuguesa com bancos ingleses.

Há mais, muito mais nessa relação anglo-lusa.



Mas agora a Pérfida Albion talvez tenha ido longe demais manipulando e “vazando” uma noticia como essa para a imprensa.

Se não houver equilíbrio uma corrida aos bancos será fatal para a já combalida terrinha de Camões.

Nunca Espere


Não hesite, nunca espere para dizer a alguém que você lhe ama. O tempo não perdoa. Um minuto faz diferença, a oportunidade não volta.


Minha mãe estava em estado terminal. O câncer tinha lhe corroído, lhe arrasado. Ela definhava no Brasil. Morando na Alemanha eu não a via há muito tempo e decidi traze-la para conhecer os netos, viver conosco seus últimos dias e morrer em paz ao nosso lado.


Eu trouxe-a. Ela chegou, sua figura física era lamentável. Estava devastada pela doença. Chegou numa quinta-feira, morreu na segunda. Viveu cinco dias alegres, cercada pelas crianças, numa felicidade que eu nunca tinha visto nela.

Ficou cinco dias e partiu. Morreu de manhã.





Minha mãe me amou devotadamente, insanamente, como nunca fui amado por ninguém.


Uma noite fui dar boa-noite e beijar meus filhos como sempre fazia antes deles dormirem. Fui no primeiro quarto, beijei Klaus, Astha e Taanit. Depois fui no segundo onde mamãe estava com Vahine. Desejei boa noite e beijei minha filha. Mamãe me olhava com doçura, desejei-lhe boa noite e saí. Não a beijei. Estava tão feia que não consegui beija-la.





Durante a madrugada ela teve um AVC, acordou balbuciando, chamei uma UTI móvel. A equipe chegou, cuidaram dela. O médico alemão me perguntou,


- Ela acabou, é o fim. Na América vocês prolongam a vida ao máximo com aparelhos, aqui preferimos deixar a natureza agir. O que o senhor decide?


- Deixe a natureza agir.


Levaram-na para um hospital.


Quando lá cheguei ela já estava imóvel numa cama. Entrei sozinho no quarto. Me aproximei da cama, me aproximei dela, olhei seu rosto pálido, imóvel, os olhos fechados.


Lembrei de seu olhar doce na noite anterior, lembrei do beijo que não lhe dei. O beijo que neguei à quem mais me amou na vida. O beijo que eu agora jamais poderia lhe dar.





Me aproximei dela, toquei-lhe o rosto quase frio, passei as mãos em seus cabelos ralos. Baixei meu rosto em direção ao dela, beije-lhe a testa. Um beijo inútil, um beijo culpado.


Seus lábios se mexeram levemente. Ela ainda vivia. Ela balbuciou baixinho, sem forças. Não entendi o que ela dizia. Aproximei meu ouvido de sua boca. Ouvi um fiapo de vida, um murmúrio,


- Ivan... Ivan meu filho.


Beijei-lhe o rosto.


Morreu.