domingo, 29 de janeiro de 2012

Condor


Quem já voou pela Lufthansa ou por sua subsidiária de charter a Condor conhece a excelência dos serviços, e se voou dentro do próprio território delas conhece o impecável silêncio dentro dos aviões.

Ouve-se apenas o ruído do sopro do ar-condicionado na cabine.



Este nível de excelência em transporte aéreo foi responsável por uma eficiente ponte aérea entre o Marrocos e a Espanha utilizada intensamente entre Julho e Outubro de 1936 quando 13.962 passageiros foram transportados em 868 vôos no trimotor JU-52.

O serviço pioneiro inaugurou o primeiro transporte aéreo de massa da história.



O então chanceler alemão sugeriu a seu colega espanhol que este “precisa erguer um monumento ao JU-52 o avião responsável por sua vitória”.

Um indelicada injustiça com o trabalho dos rapazes da Condor, não a empresa de charter, mas a esquadrilha que inspirou Picasso.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Economias Quebradas



Todos os olhos dos outros países europeus estavam alertas. A situação estava cada vez mais crítica para o governo. As manifestações estavam levando milhares de pessoas às ruas para protestar contra o governo. A situação das finanças era caótica.









O governo vinha constantemente mascarando os índices econômicos e refinanciando crescentemente a dívida nacional.Os empréstimos eram cada vez maiores e mal serviam para cobrir o pagamento dos juros de empréstimos anteriores. Durante uma reunião de gabinete o ministro do Planejamento resolveu mostrar os números reais da economia. A maioria dos outros ministros desconhecia a verdadeira situação. Assim como a população eles estavam completamente alheios ao tamanho do rombo financeiro.









À medida que o ministro apresentava os números o restante do gabinete entrava em estado de choque.




Meses atrás ele havia advertido o primeiro ministro para encarar os fatos,




- Ou vamos nos tornar insolventes.




O primeiro ministro havia lhe respondido que ainda não era a hora certa de divulgar os fatos e que ele permanecesse calado. Mas agora não havia como esperar mais. O primeiro ministro havia caído. O país estava insolvente, à beira do caos.Ele continuou mostrando os fatos.




- Quase 60% da base industrial está obsoleta. A produtividade nas fábricas está 50% abaixo do resto da Europa.




A divida com os bancos havia aumentado 12 vezes nos últimos 15 anos. Já estava na casa dos 123 bilhões e crescia mais10 bilhões anualmente .




- Um valor extraordinário para um país como o nosso.









O gabinete estava atônito. O ministro continuou explicando que fraudes foram necessárias a fim de ocultar os fatos dos bancos e dos outros governos europeus. Mostrou que os empréstimos de curto prazo estavam sendo obtidos apenas para pagar os juros dos créditos de longo prazo.




O Estado vinha constantemente mentindo a respeito de seus ativos, pois se os mercados financeiros soubessem da real situação os empréstimos seriam suspensos.




- Vamos ter de tomar medidas de austeridade que vão baixar o padrão de vida da população entre 25% a 30% . Teríamos que ter feito ajustes na dívida há cinco anos atrás.




Só os juros da dívida representavam dois terços da balança cambial.




E concluiu,




- Não temos como pagar os juros que vencem nas próximas semanas. Precisamos de 2 a 3 bilhões no curto prazo, além dos limites atuais. Se não conseguirmos levantar esta quantia poderá haver um confronto prejudicial com o Fundo Monetário Internacional.







Não se trata de uma reunião ministerial do governo da Grécia, nem de Portugal, nem da Espanha. O ministro não falava em Atenas, Lisboa ou Madri. O ministro que falava era Gerhard Schurer na terça-feira 31 de Outubro de 1989 em Berlim Oriental. A Republica Democrática Alemã, a Alemanha Oriental, estava economicamente falida.




Nove dias depois, à meia-noite e quinze minutos, um grupo de jovens orientais se juntou a um grupo de jovens ocidentais no Portão de Brandenburgo, subiram no Muro e dançaram. Os grepos – guardas da fronteira – apontaram uma mangueira. Um dos jovens abriu um guarda-chuva.




Caía o Muro de Berlim.



A economia tinha desmoronado muito antes. Não há movimento revolucionário mais poderoso que uma conta bancária vazia.


A Queda do Muro


A história contemporânea se divide entre antes e depois da Queda do Muro de Berlim.


O Muro dividia uma cidade, uma nação. Dividia simbolicamente um continente, separava o mundo em dois sistemas político-ideológicos, militares e econômicos.





O fim do mais poderoso ícone da Guerra Fria foi precipitado por um inacreditável erro de leitura numa entrevista coletiva à imprensa. Três décadas que mantiveram o mundo suspenso à beira de um apocalipse nuclear terminaram em forma de farsa.





Berlim Oriental, Quinta-Feira, 9 de Novembro de 1989.





16:00hs


Sede do partido Comunista em Werderscher Markt, Berlin Oriental.


A Alemanha Oriental enfrenta uma fuga crescente de pessoas através da Hungria. De lá os alemães cruzam para a Áustria e depois para a Alemanha Ocidental.


Para conter o êxodo uma nova lei será implantada.


Ela não abre o Muro, mas diz que qualquer pessoa com permissão de saída e passaporte pode deixar o país, temporária ou permanentemente, por qualquer ponto da fronteira com a Alemanha Ocidental.


A lei entrará em vigor no dia seguinte quando as permissões passarão a ser emitidas.


Egon Krenz lê devagar para que depois ninguém possa dizer que não havia entendido.


A lei é aprovada por unanimidade.





17:40hs


Gunther Schabowski, chefe do partido em Berlim, entra no gabinete de Egon Krenz.


Ele não havia participado da reunião, mas é quem vai anunciar a nova lei. Pergunta a Krenz se há algo mais a ser anunciado. Krenz diz que não e lhe entrega o texto do decreto.





17:55hs


Centro Internacional de Imprensa na Mohenstrasse.


Schabowski chega para a coletiva de imprensa pouco antes da 18hs. A sala está repleta de jornalistas e televisões ocidentais.





18:00 hs


A coletiva começa pontualmente. Schabowski leva uma hora falando de reformas administrativas e ministeriais, antes de tocar no assunto principal.





18:53hs


Schabowski lê o texto do decreto. Explica que se “tornará possível a todo cidadão deixar o país cruzando os pontos de passagem sem demora”, entre as duas Alemanhas.


Os jornalistas ficam surpresos. Dizem que não ficou bem claro, pedem mais explicações.


Schabowski não conhece bem o decreto. Está nervoso, sua muito. Os jornalistas pressionam.


Tom Brocaw da rede NBC americana pergunta,


- Quando a nova regra entra em vigor?


Schabowski inseguro remexe nos papéis à sua frente, olha o decreto, remexe outros documentos. Após uma pequena pausa, murmura um palavrão,


- Segundo me consta, isto é, humm...Imediatamente, sem demora.




19:04hs

A rede de notícias ADN transmite a leitura de Schabowski.



19:30hs

O programa Tageschau da TV alemã ocidental anuncia: A RDA abriu as fronteiras.




19:30hs


Um dos erros administrativos mais monumentais da história começa a ser noticiado e editado pelas agencias de notícias de todo o mundo.


O programa Today da ZDF noticia as novas regras. Compreensivelmente, a maioria das televisões da Alemanha Ocidental dão a notícia de forma hesitante.





20:00hs


A emissora ARD explode a notícia: Este é um dia histórico.


Hans Joachim Friedrichs âncora do noticiário, muito ouvido e respeitado dos dois lados da fronteira, precipita os fatos:


- A Alemanha Oriental está abrindo suas fronteiras, os portões do Muro de Berlim estão abertos.


Não estavam. Ainda.


Quando o noticiário termina uma multidão já está na Bornholmer Strasse.





21:20hs


Bornholmer Strasse.


O grande fluxo começa. Harald Jager, comandante da guarda de fronteira não tinha assistido à coletiva de imprensa. A multidão exige o direito de cruzar e grita,


– Schabowski disse que podemos.


Jager contacta seus superiores para checar. Ninguém confirma nada. A multidão pressiona para passar.


- Abram os portões.


O químico Rudigger Rosendahl lembra que ninguém queria emigrar naquele momento


- Nós só queríamos ver se podíamos passar, ver como era do outro lado.


Chega uma ordem para liberar a passagem para poucas pessoas. Entre 250 e 300 cruzam a fronteira.


Milhares ficam. O resto da multidão força o portão.





21:30hs


Checkpoint Charlie.


Cruzamento da Friedrichstrasse com Zimmerstrasse. O posto de controle fiscalizado de um lado pelos alemães, do outro pelos americanos.


Uma multidão de quase 2 mil pessoas se acotovela na rua estreita antes do posto. A estação do metrô nas proximidades despeja mais gente.


O coronel Gunther Moll comandante da guarda liga para o comando do Exército.


O major americano Bernie Godek do outro lado observa tenso seus colegas alemães.


- Parecia tudo normal eles permaneciam atrás da linha branca com os rostos impassíveis.





22:30hs


Bornholmer Strasse.


A multidão aumenta. Mais de 20 mil pessoas se espremem na região do posto de controle. Carros bloqueiam as ruas vizinhas.


Jager está cada vez mais preocupado.


Quando contacta seus superiores ouve sempre a mesma resposta. Eles mandam esperar.


- Eu só conseguia pensar em evitar um banho de sangue.Havia tantas pessoas que elas não tinham espaço para se mover. Se alguém perdesse a cabeça, se o pânico começasse elas seriam esmagadas.


O tempo passa.





22:45hs


Jager desiste de esperar. Ordena a dois de seus homens que levantem o portão vermelho e branco. A multidão da Bornholmer Strasse explode em aplausos. Jager faz um gesto largo,


- Passem.





23:30hs


Check Point Charlie.


O coronel Moll ainda não recebeu nenhuma ordem superior. Uma lâmpada explode. O barulho assusta um soldado. Ele se encolhe nervosamente, leva a mão à arma.


Gunther pressente que uma tragédia para acontecer.


- Recuem para trás do Muro, ordena aos soldados.


Do outro lado o major Godek se espanta,


- Ficamos totalmente surpresos, os guardas alemães recuavam, primeiro alguns, depois uma onda.


Durante mais alguns minutos o coronel tenta uma confirmação superior. Nada.


Moll se dirige à barreira e abre os portões por conta própria.


A multidão passa eufórica.





24:00hs


Fronteira Berlim Oriental - Berlim Ocidental.


Todos os seis postos de controle ao longo da fronteira já estão abertos. Uma multidão enorme se forma do lado ocidental do Muro.


De braços abertos, com flores, com champagne, recepcionando os irmãos do Leste. A festa cresce na Invalidstrasse.





00:15hs


Jovens orientais e ocidentais se reúnem no Portão de Brandenburg. Sobem no Muro e dançam em cima dele. Os grepos - guardas da fronteira - apontam uma mangueira. Um dos jovens abre um guarda-chuva.





O Muro caíra.


Doze mil grepos retornam aos quartéis.


- Nós, alemães, somos agora o povo mais feliz do mundo, disse o prefeito de Berlim. 





George Bush, o presidente americano, assistiu a queda do Muro pela televisão.


Ao ser chamada a CIA admitiu que “escabrosamente” não havia nenhum espião no local. Tudo que a CIA e a Casa Branca souberam foi através do noticiário da rede CNN.


Mikhail Gorbatchov, o líder soviético, só soube da Queda na manhã seguinte.


A embaixada russa em Berlim, cinco horas depois da queda, recebeu um chamado: O que está acontecendo com o Muro?


Helmult Kohl, chanceler da Alemanha Ocidental estava em Varsóvia quando o Muro acabou. Naquela noite comentando a possibilidade do Muro cair ele disse:


- Não, realmente acho que não. Isso vai levar muitos anos.





O Muro de Berlin acabara.

Não era para ter acabado nem naquele dia, nem naquela hora, nem daquela maneira. Um erro de leitura precipitou o fim do Mauerwall. 


Três décadas que mantiveram o mundo suspenso à beira de um apocalipse nuclear terminaram em forma de farsa.

Tudo que é sólido desmancha no ar - Karl Marx.



domingo, 15 de janeiro de 2012

A Cortina e o Muro


Segunda Guerra Mundial.


Terça-Feira, 8 de Maio de 1945.


O maior conflito da história da humanidade acabara. A maior operação logística, o maior numero de recursos já empregados pelo homem em um único objetivo, a maior movimentação geográfica de povos.


O maior saldo de perdas humanas, o maior genocídio tinha chegado ao fim. Com três grandes vencedores: Rússia, Estados Unidos e Inglaterra, nessa ordem.


Ao fim do maior conflito armado da humanidade, o mundo surgia dividido em duas partes bem determinadas.


Capitalismo no Ocidente, Socialismo a Leste.





Cortina de Ferro.


Terça-feira, 05 de Março de 1946, Fulton, Missouri, Estados Unidos.


Dez meses depois do fim da Segunda-Guerra Mundial dois dos três vencedores estavam lado a lado.


Churchill, ao lado de Truman, fazia um discurso provocador e batizava uma fronteira.


- De Stettin no Báltico a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro baixou através no Continente. Por trás desta linha jazem todas as capitais de antigos estados da Europa central e oriental...todas aquelas cidades...e suas populações estão submetidas...não apenas à influência soviética mas a um altíssimo e crescente grau de controle por Moscou.





O discurso sintetiza a Guerra Fria e atacava o outro sistema e seu líder. A União Soviética e Stalin, o senhor da guerra da guerra que terminara meses atrás.


Á partir dali a Guerra Fria e o sistema soviético durariam mais de quarenta anos.





O enfrentamento mais caro, complexo e sofisticado da história onde dois sistemas ideológicos lutariam lentamente por quase meio século.


Um período que deixou a humanidade no limite de um holocausto nuclear, à beira de sua própria extinção.





Muro de Berlim.


Desde que uma greve em 1953 na Alemanha Oriental se transformara em manifestações contra o governo reprimida por tanques soviéticos, que o regime se tornara cada vez mais autoritário.


A partir de 1955 cerca de 20 mil pessoas estavam deixando o país todo mês em direção à Alemanha Ocidental.


Em 1961 aproximadamente 30 mil estavam saindo por semana. A dimensão das saídas se transformou em crise.





Sábado, 18 de Agosto de 1961, Berlim, Alemanha.


22:00hs


Depois do fechamento da fronteira uma semana antes com arame farpado, um muro de cimento começa a ser construído da noite de sábado para a madrugada de domingo.


Um mês antes da chegada do Outono um muro caía sobre a cidade.


01:30hs


Seis caminhões chegam a Potzdamer Platz, ao sul do Portão de Brandenburg, carregados com dezenas de placas de concreto.


01:54hs


O tráfego de trens entre Berlim Ocidental e Oriental é interrompido.


02:10hs.


Chegam os vopos – volkspolizei, a polícia do povo – carros de bombeiros e uma brigada de pedreiros. Começa a construção.


05:00hs


Pouco depois do amanhecer todos se retiram deixando o primeiro pedaço do Muro de Berlin passando a centímetros da entrada do metrô.





A cidade amanhece dividida, famílias estavam separadas, pessoas que saíram na noite de sábado não puderam voltar para casa.


O mundo amanhece com um muro separando Berlim Ocidental de Berlim Oriental.





Sexta-Feira, 21 de Agosto de 1961.


Os americanos tinham um posto de controle na Friedrichstrasse com Zimmerstrasse. Construíram uma casinha de madeira no meio da Friedrichstrasse, o Checkpoint Charlie.





Quarta-Feira, 23 de Agosto de 1961.


A Alemanha Oriental proíbe a entrada de berlinenses ocidentais em Berlin Oriental.





Quinta-Feira, 24 de Agosto de 1961.


Gunther Liftin de 24 anos é morto ao tentar atravessar o Muro, cinco dias depois da construção.


A primeira vítima fatal dos grepos – policiais da fronteira – que tinham ordens de atirar para matar. Muitos outros marcariam com sangue a história do Mauerbau.





Sexta-Feira, 27 de Agosto de 1961.


Crise no Checkpoint Charlie.


A primeira crise. Duas semanas depois da construção do Muro.Catorze meses antes da crise dos mísseis em Cuba. 


A crise no checkpoint começou quando os soviéticos impediram a entrada de um oficial americano que pretendia ir ao teatro.


O general Lucius Clay, assessor pessoal de Kennedy ordenou a escalada militar, mandou os tanques se posicionarem e apontarem os canhões. 


O bloco soviético reagiu posicionando os seus.





Trinta tanques completamente carregados de munição ficaram frente a frente no meio de Berlin. Soldados dos dois lados da fronteira apontaram metralhadoras uns para os outros.


Krushov e Kennedy usaram pela primeira vez o telefone vermelho direto do Kremlin para a Casa Branca.


Orquestrados pelos dois os tanques recuaram dez metros.





Sábado, 01 de Junho de 1963.


- A Wall is much better than a War.


Em visita a Berlin o presidente americano John F. Kennedy diz,


- Não é uma solução muito simpática, mas um muro é muito melhor que uma guerra.





O Muro de Berlin iria ter 155 km de comprimento, 66,5 km de gradeamento metálico, 302 torres, 127km de redes eletrificadas, 255 pistas de corrida para guardas e cães.


A Guerra Fria tinha acabado de materializar seu mais poderoso ícone.


Com pragmatismo ambos os lados da Guerra Fria concordaram com a iniciativa alemã.


Não há inocentes na construção do Muro, só vítimas.





A Queda da Cortina.


No final de 1988 o ministro do Interior da Hungria, Iztván Horváth, havia sugerido ao primeiro ministro Miklós Néméth que a cerca de eletricidade de baixa tensão da fronteira fosse desativada. A cerca estava enferrujada, não funcionava direito e era motivo de constrangimento.


Vinte e cinco milhões de turistas entravam na Hungria. Há anos que os húngaros tinham permissão para viajar para o Ocidente, mais de seis milhões por volta de 1989.


Os incidentes por ano na fronteira eram de 200 a 250 estrangeiros tentando cruzar ilegalmente, a maioria de alemães orientais e romenos.


No máximo 10 húngaros por ano criavam problemas: bêbados, alunos com notas baixas e maridos fujões.


A reforma da cerca iria custar mais de 50 milhões de dólares. Um gasto inútil.





Sexta-Feira, 3 de Março de 1989, Kremlin, Moscou, Rússia.


O primeiro-ministro húngaro entra na sala de Gorbatchov para avisar que ia desmantelar a cerca. A fronteira com a Áustria ficaria aberta, apenas com controle padrão de passaportes.


Gorbatchov disse,


- Temos um regime rigoroso em nossas fronteiras, mas também estamos ficando mais abertos.





Caía a Cortina de Ferro. Melancolicamente, por falta de recursos e vontade de mantê-la.





A Queda do Muro.


Domingo, 05 de Fevereiro de 1989.


Chris Gueffroy e o amigo Christian Gaudian atravessam na área de Britz, que separava a parte oriental do bairro de Neukoln na parte ocidental.


Com uma enxada amarrada a uma corda eles escalam a primeira barreira de três metros e meio de altura. Cinco metros depois havia outra barreira mais baixa que eles atravessaram facilmente. A barreira disparou o alarme.


Holofotes, alarmes. Os dois correm em direção a terceira e ultima barreira. Dois grepos estavam lá. Dispararam.


O amigo cai atingido no pé.


Chris cai perfurado por dez balas no peito. A última vítima do Muro, meses antes da Queda. Íngua Heinrich que disparou os dez tiros ganhou uma condecoração e 150 Marcos, 75 Euros, 180 Reais.





A história contemporânea se divide entre antes e depois da Queda do Muro de Berlin.


O Muro dividia uma cidade, uma nação. Separava simbolicamente um continente e o mundo em dois sistemas político-ideológicos, militares e econômicos.





A Alemanha Oriental ao fim de um longo processo de falência econômica estava enfrentando, novamente, um movimento crescente de seus cidadãos fugindo do país. Contornando o Muro pela Hungria.


Viajar para a Hungria, também do bloco socialista era permitido ao contrário de cruzar o limite com a Alemanha Ocidental, escalar o Muro de Berlim ou cavar túneis por baixo da fronteira, que era fatal.


Os alemães saíam de “férias” para a Hungria em seus Trabants, dirigiam em direção ao Lago Balaton até a cidade de Sopron no oeste do país, cruzavam a fronteira aberta para a Áustria e seguiam para a Bavária, na Alemanha Ocidental.


Aos milhares.


Centenas de carros ficavam abandonados nas estradas, a trilha Trabbie, o novo Êxodo Alemão.





Domingo, 10 de Setembro de 1989.


A Hungria anuncia oficialmente que os controles da fronteira serão levantados à meia-noite. A Alemanha Ocidental envia ônibus para receber os alemães na Áustria e traze-los. Mais de 8 mil no primeiro dia. Em três dias mais de 18 mil.


A sangria aumentava. A trilha Trabbie engarrafava as estradas. Faltavam professores nas escolas, técnicos nas fábricas, funcionários nos escritórios.


Os serviços básicos e a produção estavam comprometidos.





Desesperado, o governo de Berlim muda as rigorosas regras de viagem ao exterior tentando acalmar a população e conter o êxodo em massa.





Berlim Oriental, Segunda-Feira, 6 de Novembro de 1989.


Krenz que havia substituído Honecker prometeu uma nova lei para viagens. A nova lei permitia que as pessoas viajassem 30 dias por ano, desde que recebessem autorização do Ministério do Interior.


O processo podia demorar um mês e só permitia que as pessoas levassem 15 marcos, o suficiente para uma cerveja e um sanduíche.


A pessoas apelidaram a lei de “Volta ao Mundo em 30 dias, mas como pagar?”


Krenz se irrita e dá dois dias ao Ministério do Interior para que regras mais razoáveis fossem criadas.





As manifestações e as piadas cresciam.


Qual a diferença entre Honecker e Krenz? Krenz tem vesícula.


A DDR – Deutsches Dermokratik Republik – República Democrática Alemã, o nome oficial da Alemanha Oriental foi apelidado para Deutsches Demonstrations Replublik, Republica Alemã das Demonstrações.





Berlim Oriental, Quinta-Feira, 9 de Novembro de 1989.


Para tentar conter o êxodo regras mais liberais iam ser implantadas.


A nova lei não abria o Muro, mas dizia que qualquer pessoa com permissão de saída, passaporte e visto poderia deixar o país através de qualquer ponto da fronteira com a Alemanha Ocidental. A lei entraria em vigor no dia 10 de Novembro quando os requerimentos de saída passariam a ser recebidos nos postos de autorização.





Na sede do partido Comunista em Werderscher Markt, Egon Krenz, o recém empossado líder do país, leu devagar a nova lei para que depois ninguém pudesse dizer que não havia entendido.


Os altos dirigentes ouviram e aprovaram por unanimidade.





Gunther Schabowski, chefe do partido em Berlim, entra na sala de Krenz.


Ele não havia participado da reunião anterior onde tinha sido apresentada a nova lei. Mas ele seria o porta-voz que iria para coletiva de imprensa anuncia-la.


Schabowski perguntou a Krenz se havia alguma coisa a mais para ser anunciado. Krenz disse que não e lhe entregou o texto integral do decreto.





Schabowski chega para a coletiva pouco antes da 18hs. A sala estava repleta de jornalistas e televisões ocidentais. A coletiva começa pontualmente às 18hs.


Ele levou uma hora falando de outros assuntos, reformas administrativas e ministeriais, antes de tocar no assunto principal.


Leu o texto do decreto e explicou que a nova lei “tornaria possível a todo cidadão deixar o país cruzando os pontos de passagem entre a RDA e RFA sem demora”, entre a oriental e a ocidental.





Os jornalistas ficaram surpresos.


Disseram que não estava bem claro, pediram mais explicações.


Schabowski não conhecia bem o decreto. Estava nervoso, suava muito. Os jornalistas pressionavam.


Tom Brocaw da rede NBC americana perguntou,


- Quando essa nova regra entra em vigor?


Schabowski estava inseguro, suava, remexeu os papéis à sua frente, olhou o decreto que não conhecia direito, revolveu outros documentos. Após uma pequena pausa, murmura um palavrão e responde,


- Segundo me consta, isto é, humm...Imediatamente, sem demora.





Um dos erros administrativos mais monumentais da História começou a ser editado pelas agencias de notícias de todo o mundo. Compreensivelmente algumas televisões da Alemanha Ocidental noticiaram de forma hesitante. O programa Today da ZDF noticiou as novas regras.


A emissora ARD explode a notícia.


Hans Joachim Friedrichs, ancora do noticiário precipita os fatos:


- A Alemanha Oriental está abrindo suas fronteiras, os portões do Muro de Berlim estão abertos.


Não estavam. Ainda.


Quando o noticiário acabou uma multidão estava na Bornholmer Strasse próxima de um dos postos de controle de fronteira.





Harald Jager, o comandante da guarda de fronteira próximo da Bornholmer Strasse não tinha assistido à coletiva de imprensa. A multidão exigia o direito de cruzar a fronteira e gritavam,


 – Schabowski disse que poderíamos.


Jager contactou seus superiores para checar. A multidão pressionava para cruzar o posto. Ninguém confirmava nada para Jager.





Mais de 20 mil pessoas já estavam se espremendo na região próxima ao posto de controle. Os carros estavam bloqueavam as ruas vizinhas.


Jager estava cada vez mais preocupado. Uma hora havia se passado e sempre que ele contactava seus superiores ouvia a mesma resposta, eles mandavam esperar.


- Eu só conseguia pensar em evitar um banho de sangue.Havia tantas pessoas que elas não tinham espaço para se mover. Se alguém perdesse a cabeça, se o pânico começasse elas seriam esmagadas.


Jager toma a decisão por conta própria e ordena a dois de seus homens que levantassem o portão vermelho e branco.


A multidão explode em aplausos. Jager acena para ela,


- Passem.





A Alemanha Oriental, junto com o Muro de Berlin, tinha efetivamente deixado de existir às 22:45hs de uma quinta-feira cinzenta e fria de outono, que começara calmamente como um dia qualquer. Um dia comum que não prometia surpresas.





À meia-noite todos os seis postos de controle ao longo da fronteira já estavam abertos. Uma multidão enorme de alemães se formara ao longo do lado ocidental do Muro.


De braços abertos, com flores, com champagne. A festa crescia em animação no posto da Invalidstrasse.


As duas partes da cidade se unem, bebem, dançam, comemoram na maior festa popular da História.





O Muro caíra. Dramaticamente, sem que ninguém decidisse acaba-lo.


Doze mil grepos retornam aos quartéis.


- Nós, alemães, somos agora o povo mais feliz do mundo, disse o prefeito de Berlim. 





Na casa de Schabowisk, sua sogra de origem russa perguntou à filha Irina o que estava acontecendo.


- Abriram a fronteira.


- Então vamos ter capitalismo?


- Provavelmente sim.


- Então vou ficar mais um pouco para ver como é isso. 





As imagens da Queda do Muro de Berlim são a mais poderosa representação do fim de uma era na história da humanidade.


A derrubada do Muro também é um dos maiores momentos da era da informação instantânea.


Ele caiu, em transmissão direta para as televisões do mundo ao vivo e à cores. Com champagne, flores, musica e muitos abraços.





Nenhum estadista, governo ou agencia de inteligência foi capaz de prever o momento.


Nem o premiê soviético, nem o presidente americano, nem o chanceler alemão.


Nem Gorbatchov, nem Bush, nem Kohl.


Na noite da Queda do Muro de Berlin, Kohl nem sequer estava na Alemanha, estava em Varsóvia e previa que o Muro só cairia dentro de anos.


Pego de surpresa, Kohl brincou com seus amigos poloneses disse que estava na festa errada e voou para a festa certa.





Gorbatchov só soube da Queda do Muro na manhã seguinte.


Igor Maksimichev, embaixador russo em Berlim, cinco horas depois da queda recebeu um chamado: O que está acontecendo com o Muro?


Gorbatchov pediu cautela a Kohl. Comunicou-se secretamente com Bush, Margareth Thatcher e François Miterrand, pedindo prudência.





Bush assistiu a queda pela rede CNN.


Milt Bearden analista sênior da CIA admitiu que “escabrosamente” não havia nenhum espião no local que pudesse informar alguma coisa.


Tudo que a CIA e a Casa Branca souberam foi através do noticiário da CNN, como todo mundo que tem uma televisão.


No dia seguinte Bush gaguejou por meia hora em declarações patéticas.





Fim de uma Era.


O Portão de Brandenburg foi reaberto no sábado 23 de Dezembro de 1989, as festas duraram três dias. As portas para a Reunificação Alemã estavam abertas.





O Muro de Berlin acabara.


Não era para ter acabado nem naquele dia, nem naquela hora, nem daquela maneira.


O fim do mais poderoso ícone da Guerra Fria foi precipitado por um inacreditável erro de leitura numa entrevista coletiva à imprensa.


Três décadas que mantiveram o mundo suspenso à beira de um apocalipse nuclear terminavam em forma de farsa.


Tudo que é sólido desmancha no ar – Karl Marx, 1848.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Capital Financeiro


Dados do The Wall Street Journal.

Em 1950, o setor financeiro e segurador nos Estados Unidos representou 2,8% do PIB.

Em 1960 a participação cresceu para 3,8%.

Em 1990 atingiu 6%.

Em 2011 foi de 8,4% do PIB, e está aumentando.



Poucos anos após a crise o setor bate um recorde histórico. Se aproxima o dia em que um  de cada dez dólares estará no capital financeiro, 10% de comissão de intermediação financeira para tocar a economia. Parece excessivamente reducional, mas é exatamente isso. Capital financeiro em última analise é custo. Gera riqueza? Sim, mas é custo.


Em cinqüenta anos mais 5,6% do PIB americano passaram para o setor financeiro. São 750 bilhões de dólares retirados das atividades que produzem bens e serviços de utilidade direta. Equivale a uma Holanda inteira. É a soma dos PIBs da Argentina e da África do Sul. Todo ano. Nada indica que a economia dos EUA seria 6% menos produtiva se tivesse o mesmo sistema financeiro de 1950.





Um sistema financeiro está saudável e equilibrado quando:

Diversifica e dissipa alguns riscos e lida com outros.

- A experiência dos investidores no mercado de ações e imobiliário nas últimas duas décadas aponta na direção contrária.

Associam projetos de investimento sem liquidez a vários fundos distribuindo riscos e rentabilidade.

- Atualmente as próprias empresas emitem obrigações de rendimento.

O crédito serve para se gastar agora uma poupança futura. É assim que funciona comprar uma casa e paga-la em 25 anos.

- Ocorre que o mercado financeiro esta induzindo ao consumo e não à poupança futura. Usando crédito para despesas correntes a população consume além de sua capacidade de pagamento e consequentemente quebra. 




A informatização das transações bancárias facilitaram a vida financeira.

- Mas a automatização não barateou os serviços. Não se repetiu o que na telefonia levou a uma enorme diminuição no custo das ligações.

Um setor financeiro maior e melhor deveria levar a uma melhor governança corporativa.

- Mas a pulverização acionária permite controle efetivo sobre a gestão. Não faltam exemplos de gestão auto-indulgente e temerária. Dirigentes pagos a peso de ouro quebram instituições centenárias aparentemente sólidas. Há setores inescrutáveis dentro do sistema.



A crise financeira de 2008 teve impactos profundos. Apenas nos primeiros nove meses de 2009, 1.046.449 pessoas solicitaram falência pessoal nos EUA. No mesmo período de 2008, esse número foi de 773.810, 41% a mais do que o total registrado em setembro do ano anterior. Quase 20% da população americana está em falência pessoal. Pelos resultados do censo de 2010 o número de pessoas situadas abaixo da linha de pobreza aumentou para 15,1% da população chegando ao recorde de 46,2 milhões de cidadãos. O maior percentual desde 1958. Um em cada seis americanos vive na pobreza. 


Mais do que uma Argentina inteira. Há mais pobres nos EUA que espanhóis na Espanha.




Thomas Philippon da Universidade de Nova York diz que atualmente o setor financeiro americano está super dimensionado em pelo menos dois pontos percentuais do PIB. Isto é, 270 bilhões de dólares estão sendo queimados inutilmente. É mais do que o PIB de Israel, da Irlanda ou de Portugal. São dois Kwait, duas Ucrânia, duas Nova Zelândia. Todo ano. Descendo pelo ralo de Wall Street. 





Analisando as crises recorrentes e bolhas na internet, na área imobiliária e no re-financiamento de orçamentos nacionais desequilibrados conclui-se que atuação do capital financeiro tornou-se temerária e de alto risco. Mais ligada em usar o dinheiro de depositantes, fundos de pensões e de pequenos investidores anônimos na especulação do cassino financeiro global, correndo altíssimos riscos – e faturando as correspondentes altíssimas comissões - do que efetivamente sustentando o crescimento saudável das economias. Mesmo que para isso se quebrem empresas, setores produtivos e países.




O capitalismo financeiro se tornou um predador supranacional, indisciplinável, causando conseqüências genocidas que estão ameaçando a estabilidade do próprio capitalismo.

Um Cronos com sinal invertido, uma espécie de parricida econômico.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Pingo Amargo


Nem tudo que é legal é legítimo. 


Qualquer ditadura se cerca de um arcabouço legal que lhe dá suporte jurídico. 


Nem tudo que é possível é ético. 


Aqui as fronteiras são mais esgarçadas. 





No momento em que Portugal está falido, à beira de um colapso, acontece a inacreditável declaração do Primeiro Ministro aconselhando seus patrícios a deixarem o país. 


O mesmo conselho foi dado pelo ministro da Juventude, aconselhando os jovens a sair. 


Logo depois um deputado sugeriu a criação de uma agencia nacional para apoiar a emigração. 





Mas parece que os deuses não estão muito alegres com a terra de Cabral.



O grupo proprietário do Pingo Doce, uma das maiores cadeias de supermercados nacionais, anunciou agora que transferiu, no dia 30 de dezembro, ao apagar da luzes de 2011, sua sede para a Holanda.

O grupo é o segundo maior importador do país.

Na Holanda eles vão pagar muito menos impostos. 




Vão ganhar dinheiro em Portugal e pagar imposto na Holanda. 


O contribuinte holandês agradece essa chegada de recursos inesperados que irá ajudar a manter seu elevado padrão de vida. 


Já os portugueses, que se lixem. 





A revelação chocou a população que descobriu que enquanto fazia suas parcas compras de fim-de-ano o Pai Natal lusitano estava às mudanças. 


E não só. Há mais, pá.



No grupo de empresas portuguesas com sedes/subsidiárias na Holanda estão por exemplo:

Mota-Engil - engenharia, concessões publicas, transporte, turismo

Galp - combustíveis, distribuição e gaz

Petrogal - petróleo

Sonae - jornais, média, telecom, supermercados

Grupo Espírito Santo - banco e financeiras

CGD - maior grupo bancário e de seguros

Portucel - papel e celulose



E muitas outras. Dezoito entre as PSI-20 - Portuguese Stock Index - as vinte maiores do país cotadas na Bolsa. Dezenove agora.

Só falta mais uma. A EDP - Energias de Portugal - monopólio de eletricidade, que os chineses acabaram de comprar uma parte.

O escândalo levou a se investigar mais empresas portuguesas com ações na Bolsa.

Triste decepção.



A maioria delas prefere pagar pouco ou nenhum imposto na Holanda ou em Luxemburgo. Algumas delas controladas pelo próprio governo português.


A população que arque com os crescentes aumentos de impostos dos quais não consegue fugir.



Até agora a Holanda já recebeu 6,6 bilhões de Euros de capitais portugueses. Setenta por cento dos investimentos estrangeiros portugueses. Dezenove de suas vinte maiores empresas mudaram para lá.

Um êxodo catastrófico para um país em crise.

Financeiramente a atitude das empresas está correta como estruturação fiscal. Inclusive por que quem não fizer enfrentará a concorrência, com menores custos, de quem já fez.



Mas há algo de profundamente errado na legislação comunitária que permite essas fugas fiscais dentro da União Européia.

Principalmente quando servem para transferir renda, enriquecer os ricos e empobrecer os pobres.

Mais errado ainda o governo que a permite.



O jornalista Pedro Santos Guerreiro, resume bem o sentimento no país:


Estamos saturados de manhosos, desconfiados de moralistas, estamos sem ídolos, sem heróis, estamos encandeados pelos faróis dos que saltam para o lado do bem para escapar à turba contra o mal. Quando apanhamos, abocanhamos. Estraçalhamos. Somos uma multidão furiosa. Às vezes, erramos. A família Soares dos Santos não está a fugir aos impostos. Esta a fugir ao País. O que custa a engolir não é que Soares dos Santos tenha cortado o passado com Portugal. É que tenha cortado o futuro.



Alexandre Soares dos Santos, presidente e um dos proprietários do Pingo Doce chamou o governo atual de "desgoverno".

E disse publicamente há quase um ano, no dia 18.02.11,

- O governo mente ao negar que o país está em recessão. Não vale a pena pedir sacrifícios às pessoas sem lhes dizer a verdade.


Há um ano atrás Soares estava alertando que ia sair do país. Foi o penúltimo dos vinte.



O último a sair, a EDP, terá que sair e apagar a luz.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Enquanto isso na sala de justiça


A Alemanha encerrou 2011 quebrando recordes de emprego.





Segundo o Destastis - Departamento Federal de Estatísticas - um total de 41,04 milhões de pessoas estavam empregadas no ano passado, um aumento de 535 mil em um ano. 


A taxa de emprego subiu 1,3%. 


O país vive a maior taxa de emprego em 21 anos, desde a Reunificação em 1990. 





Segundo a Ernst & Young quase 90% de um total de 2 mil consumidores entrevistados se sentem seguros no seus postos de trabalho 


A maioria não sente a crise européia na vida cotidiana. 


A pesquisa revela otimismo: 37% dos consumidores entrevistados consideram sua situação financeira pessoal positiva, 51% classificaram-na como sendo igual à antes e apenas 12% se queixam de uma situação financeira ruim. 





O boom no mercado de trabalho beneficiou todos os setores da economia, mas tão importante quanto o crescimento é a mudança no perfil do mercado de trabalho com o setor industrial se tornando menos relevante. 





A industria ocupou em 2011 apenas 19 % dos trabalhadores. 


Muito menos do que em 1991 quando ela representava 29% dos postos de trabalho. 


O setor de serviços subiu de 61% em 1991 para 74% no ano passado. 


Um sinal mais que evidente de que a economia alemã se fortaleceu e se modernizou nos últimos vinte anos. 





Haverá alguma relação entre um fortalecimento tão intenso de um país da Zona do Euro e a falência de outros? Alguém está se beneficiando da crise?


Independentemente da administração temerária do perdulário Club MED parece que há algo de podre no reino da Dinamarca.



Os ricos ficaram mais ricos e os pobres faliram.

€ - Dez Anos do Euro


O Euro completou dez anos. 


Dezembro de 2001. Os cidadãos de 12 países europeus tiveram nas mãos, pela primeira vez, os euros que passaram a circular em 1° de janeiro de 2002. 





Para a Alemanha a moeda única trouxe um aumento enorme nas exportações para os países periféricos movida a juros baixos. 


Isso ajudou a equilibrar a situação do país que se endividava intensamente emitindo títulos do tesouro e injetando bilhões de euros nos cinco estados da parte oriental após a Reunificação. 





Para outros o Euro foi o ouro-de-tôlo de uma tragédia econômica anunciada que quase destruiu suas economias. 


Os problemas financeiros dos países do sul da Europa, especialmente da Grécia e de Portugal, têm razões profundamente domésticas. 


A introdução do Euro trouxe enormes oportunidades a esses países. 


A nova moeda apontava para a redução dos juros que eles pagavam pelos títulos públicos que emitiam em suas próprias moedas. 


O Euro era a benesse que iria diminuir o peso dos juros em seus orçamentos nacionais. 





Mas nem gregos nem portugueses usaram responsavelmente esta oportunidade: a enorme vantagem de terem automaticamente, da noite para o dia, uma moeda forte. 


Ao invés de realizar investimentos que promovessem o crescimento econômico eles aumentaram seus gastos internos. 


E custearam esse aumento de gastos através de  financiamentos.





Com os juros baixos proporcionados pela nova moeda, Estado, empresas e cidadãos correram a gastar loucamente, fazendo dívidas. 


Bancos novos surgiam, às vezes inaugurando 50 agencias na partida. Portugal chegou a contratar de uma só vez 150 gerentes financeiros de primeira linha no Brasil para gerir um novo banco.

Bancos eram inaugurados oferecendo altos créditos automáticos para quem abrisse uma conta.



A entrada destes novos recursos na economia gerou um boom econômico artificial, financiado por empréstimos. Isso elevou preços e salários acima de outros países europeus.

Estes países se tornaram caros e começaram lentamente a perder competitividade.

Com o dinheiro fácil recém chegado aumentaram as importações e diminuíram as exportações.



O mercado de imóveis entrou numa espiral inflacionária que criou uma imensa bolha imobiliária na Espanha. Nos outros países as bolhas se repetiram.


O mercado da construção civil cresceu vertiginosamente e quando a bolha estourou veio o desemprego e a falência das construtoras.


A Espanha chegou recentemente a promover em feiras internacionais o aluguel e a venda de seus guindastes e equipamentos de construção ociosos. 





Portugal chegou ao ponto inacreditável de desequilibrar sua balança comercial apenas com a importação de computadores pessoais. 


Manchete de um jornal de Lisboa há seis anos atrás: “PCs Desequilibram Balança Comercial Portuguesa”. A idade média da frota de automóveis portugueses chegou a ficar mais nova que a da rica Alemanha.

Na Grécia e na Irlanda as coisas não foram muito diferentes.



Quando as dívidas chegavam no limite os bancos reestruturavam e consolidavam as dividas pessoais através do refinanciamento do patrimônio. 


As pessoas seguiam o exemplo de seus governos. 


Famílias passaram a re-hipotecar suas casas em prazos ainda maiores para com o dinheiro extra saldar dívidas acumuladas em cartões de crédito e empréstimos pessoais.

Saldavam e voltavam a gastar. 


Hoje as prestações destes financiamentos imobiliários se tornaram impagáveis e os bancos estão tomando os imóveis.



Para os governos a bolha econômica de prosperidade desfez-se quando o mercado deixou de financiar os enormes déficits orçamentários nacionais sem cobrar taxas adicionais de risco.

Irlanda, Espanha e Itália ficaram, em diferentes medidas, na mesma situação da Grécia e de Portugal.



Popularizou-se o depreciativo acrônimo PIGS, para Portugal, Italy, Greece e Spain.

Apesar da excelente carne de porco local, Manuel Pinho, ministro português da Economia, protestou quando o Financial Times usou o termo em 2008.

Tarde demais, The Economist, Newsweek e The Times também já estavam usando.

Os terrivelmente maldosos ingleses preferiam a aproximação fonética pork and cheese.



Países de economia mais frágil como Portugal e Grécia estão em uma profunda crise estrutural que esta destruindo sua competitividade.


Em Portugal entre 2008 e 2009 o consumo de eletricidade, um dado significativo de saúde econômica, caiu 1,4%, sendo que na industria a queda foi de alarmantes 8,7%.

No ano passado, em 2011, o consumo caiu ainda mais.

Caiu 3,2%, numa queda ainda maior que a do PIB, o que significa que não apenas a atividade econômica diminuiu, mas que também as famílias estão menores, comendo menos, consumindo menos, iluminando menos e aquecendo menos suas casas no inverno.



Assim como as famílias estão entregando, perdendo ou vendendo seus patrimônios o Estado está fazendo o mesmo, vendendo ou privatizando suas estatais.

Tanto o patrimônio público quanto o privado estão pagando a conta da gastança.

Tanto o Estado quanto a população estão pagando a festa com o patrimônio.

Como bem analisa Vahine Corrêa, há também aqui uma crise de valores.



A solução monetária clássica seria fazer uma desvalorização da moeda nacional para que estes países se tornassem novamente competitivos. 


Evidentemente essa possibilidade não existe.

Eles já não têm uma moeda nacional. Dracmas e Escudos pertencem ao passado. 





O Euro foi uma oportunidade única que alguns países não souberam aproveitar. Preferiram o caminho fácil de gastar e se endividar catastroficamente. 


Governo, empresas e cidadãos. 


A conta chegou, a farra terminou. 





Não há uma solução fácil.


Ou suportar anos de crise, emigração e recessão nacional ou abandonar a Zona do Euro, voltar às antigas moedas, desvaloriza-las, declarar moratória e dar um adeus definitivo ao sonho de uma noite de verão.



Com um sarcástico e delicioso humor negro o presidente da Adidas, o alemão Herbert Hainer, afirmou no final de dezembro passado que a empresa “estaria preparada para regressar às moedas locais” de cada país caso fosse necessário.

Herr Hainer deve ser berlinense.