segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Jaguar


Sir William Lions fundador da Jaguar criou um ícone do design moderno, o modelo XK-E. O carro foi o sonho de uma geração e deixou a seguinte órfã quando parou de ser fabricado. Uma frustração enorme para minha geração que não teve idade para tê-lo, apenas para admirá-lo e quando chegou nossa hora ele já não era mais fabricado. Por causa do XK-E vivemos na eterna ansiedade de que um dia a Jaguar voltasse a fazer carros esporte.



Mas eis que a Jaguar toma a decisão de voltar ao mercado esportivo. Chamam o Ian Callum apontam o XK-E e dizem:

-Do it again.

Para Callum, o mais brilhante car designer inglês, a “ordem” era tudo que qualquer um gostaria de ouvir. Por dois anos acompanhei pela imprensa o renascimento da fera: os primeiros esboços, os desenhos, os protótipos, as fotos, os testes, o desenvolvimento. Eu morava e trabalhava na Alemanha, a terra das Autobahnen, perfeitas, sem limite de velocidade, o país ideal para se ter um carro deste. Eu sonhava com a fera solta nestas estradas, até que um dia leio em uma revista que o Jag estava pronto.

Oh Glorious Day! O XK-E renascia como XK-8, o sonho agora era possível.



Passei na sala do Horst, diretor financeiro da empresa, coloquei a revista aberta em cima da mesa dele:

- Este é meu presente de Natal. Compre-o.

Dias depois Horst entra na minha sala,

- Posso comprar o Jaguar, mas a fila é de dois anos.

- Você não entendeu, eu quero o meu no Natal.

Horst, sabe-se lá como, conseguiu furar a fila mas não me disse nada. Um dia ele entra na minha sala carregando um catálogo, para em minha frente com um ar vitorioso e joga o catálogo na minha mesa.

- Especifique as opções. Ele chegará antes do Natal.

Olhei para ele, olhei para o catálogo. Era o Jaguar. Nem sequer lhe agradeci.

- Saia daqui agora. Eu não estou nem para minha mulher.

Éramos amigos, ele deu uma gargalhada e saiu.



Que delícia folhear aquele catálogo, eu ia poder tê-lo. Melhor ainda ia poder usá-lo. Usá-lo sem limites nas Autobahnen. Escolhi, especifiquei cada detalhe como se um amante pudesse construir a amada. Viajei duas vezes à Inglaterra apenas para escolher a cor. Decidi pela Acquamarine, um azul que muda ligeiramente pra verde dependendo da incidência da luz.

O Jaguar tem várias delícias, além da beleza, da nobreza e da potencia. Uma delas é o perfume interno, the Jaguar scent. O perfume característico é uma mistura do aroma da lã virgem de carneiro dos tapetes, do mogno envernizado, muitas e muitas vezes até ficar espelhado, no painel, laterais e detalhes, e do couro Connolly em todo o interior. Este couro vem de vacas selecionadas, tratadas por veterinários com dietas especiais, que vivem numa fazenda sem cercas para que não machuquem a pele. Todas as arvores da fazenda são descascadas e o tronco nu é lixado para que os animais não se arranhem. São vacas privilegiadas que um dia darão suas vidas pela Inglaterra. O couro é exclusivo dos sofás da rainha.



Callum fez um trabalho magnífico no XK-8 recriando o XK-E em formas atualizadas. O carro foi eleito pelos arrogantes italianos, La più bella machina convertibile di secolo. Módena se rendia a Coventry os tiffosi ficaram mais vermelhos que seus carros. Em deferência ao Commendatore configurei os instrumentos da mia bella em italiano. Mas nem tudo foi fácil. Foi quase um calvário. Houve um pequeno atraso na linha de produção por conta do desenho dos bancos, que precisou ser alterado. Tremi. Será que o Jag não chegaria para o Natal?

- Horst por favor cheque o prazo de entrega. Pedi quase chorando.

Estava tudo bem o atraso era de duas semanas mas a entrega seria feita a tempo. Relaxei, sem imaginar que uma tempestade se aproximava.



Eis que numa manhã Horst entra na minha sala.

- Temos um pequeno problema com seu XK-8.

- Não será entregue no Natal?? Disse quase enfurecido.

- Calma, será sim. O problema está nas especificações que a Jaguar Deutschland passou para os ingleses.

- O que houve?

- Eles erraram um detalhe.

- Aonde eles erraram?

- Na cor, o carro será preto.

- Preto? Como preto? Você sabe perfeitamente que fui duas vezes à Inglaterra apenas para escolher a cor. Preto jamais! Será Acquamarine.

- Mas o Jag já está pronto para ser enviado para cá...

- Ligue agora para a Jaguar Deutschland. Incompetentes, é por isso que vocês perderam a guerra!



Horst ligou para a Jaguar Alemã. Ele tentava, mas não conseguia convencer os alemães a corrigir o erro. Eu ouvia a conversa em alemão e mesmo sem entendê-la sentia que o problema não se resolvia.

- Me dê este telefone.

Tomei o telefone e falei diretamente com o diretor alemão. Mas não havia como convencê-lo, ele insistia dizendo que o carro estava pronto e se eu quisesse outro teria que esperar meses.

- Mas foram vocês que cometeram o erro!

- Assumimos o erro, mas não há como mudar a produção da fabrica e o senhor sabe que já foi privilegiado no prazo de entrega.

Não havia jeito, o Kraut estava irredutível. Irado desliguei o telefone.

- Horst ligue já para Coventry, ligue para o presidente da Jaguar!



Horst se espantou, tremeu, mas ligou. Ligou para o diretor de produção da fabrica.

- Eu falo. Me dê esse telefone.

Expliquei calmamente o problema ao diretor, contei-lhe dos sonhos da minha geração, do excelente trabalho do Ian Callum, das minhas idas à Inglaterra apenas para escolher a cor. Falei do erro inaceitável dos alemães. Joguei com os sentimentos dos ingleses pelos pérfidos Germans.



Mr. Smith (acho que era esse o nome dele) concordava, mas argumentava dizendo que o XK-8 ficava lindo em preto, que eu iria adorar. Que era impossível alterar o planejamento da produção, que a fabrica estava abarrotada de pedidos para os próximos dois anos. Que por favor, eu fosse compreensivo com os erros dos bárbaros alemães.

Disse inclusive que entendia meu sofrimento de morar numa terra hostil e xenófoba como a Alemanha. Compreendia principalmente por que ele já havia morado em São Paulo e conhecia a hospitalidade e a alegria dos brasileiros. Ele também estava entrando no jogo das nacionalidades.



Quando senti que a batalha estava quase perdida me lembrei da gentileza e do caráter inglês.

- Mr. Smith eu ainda não lhe expliquei porque escolhi essa cor, a Acquamarine. Ainda não lhe disse o motivo de minha escolha.

- Yes, Mr. Correa?

- Mr. Smith eu escolhi esta cor por que é essa a cor dos olhos da minha mulher. São azuis e também mudam de azul para verde a depender da luz. Fez-se um brevíssimo silencio.

- Oohh... Oh my God, Mr. Corrêa. Que belíssimos olhos tem sua mulher! Nos perdoe pelo erro dos alemães. É mais fácil alterar nossa linha de produção que mudar olhos tão magníficos. Por favor, receba o Preto com os cumprimentos da Jaguar e fique com ele enquanto fabricamos um Acquamarine. Para nós é um privilégio ter a cor de tão lindos olhos em nossos carros.

- Obrigado. Para mim não é menor o privilégio de tratar com um gentleman.



Desliguei o telefone. Lancei um olhar vitorioso para o Horst e disse quase com raiva:

- Horst providencie para que esse carro em nenhuma hipótese passe pelas mãos da Jaguar Deutschland. Mande o container com o carro direto de Coventry para mim. Não quero nenhuma bunda alemã sentando em meu Jaguar.

Horst fumegou de tão vermelho. Tenho certeza de que se ele pudesse me mandaria para um Konzentrationslager. Se controlando ele balbuciou:

- Herr Corrêa lembre-se de que pelo menos uma, pelo menos uma bunda inglesa já terá sentado em seu carro na pista de testes de Coventry.

- É verdade. Mas pelo menos será a de um súdito da Rainha e não a de quem já jogou bombas sobre a cabeça dela.

Ainda bem que Horst não tinha uma Lugger.



Recebi o Jaguar preto antes do Natal e esperei mais dois meses pelo Acquamarine.

Quando a machina finalmente chegou, junto com ela veio um simpático representante da fábrica para fazer a entrega oficial do XK-8 definitivo. A Jaguar tem o cuidado de que todo carro seja entregue pessoalmente ao dono por um funcionário. É ele quem lhe entrega as chaves, os manuais, as agendas, o chaveiro de prata, o alfinete de gravata, o cartão do clube de proprietários Jaguar, o pin para o paletó e outros mimos.

Depois de me entregar tudo ele gentilmente se propôs a ir me mostrar o funcionamento do carro. Eu ri, olhei-o diretamente nos olhos e perguntei,

- O Sr. é casado?

- Sim, respondeu ele intrigado com a pergunta.

- O Sr. por acaso levou mais alguém para sua lua-de-mel?

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Alemanha e o Nazismo



Gosto muito tanto da Alemanha quanto dos alemães. Tive e tenho amigos alemães ou filhos deles, e apesar da fama de frios e rudes, algumas das pessoas mais cultas, gentis e sofisticadas, alguns dos maiores gentlemen que conheço são alemães. Morei e trabalhei lá.









Gosto da língua alemã por sua precisão, pelo foco em conceitos que exprimem completamente em uma palavra idéias e situações inteiras.




Admiro a quantidade enorme de músicos, teólogos, poetas, escritores, teatrólogos, filósofos e cientistas que a Alemanha produziu. A história da humanidade seria completamente diferente, irremediavelmente mais pobre sem a contribuição alemã. Definitivamente a Alemanha e os alemães são um dos maiores patrimônios da humanidade.









Tive o privilégio de conhecer alguns nazistas.




Um deles lutou na frente russa e sempre reservava um prisioneiro para, depois do jantar, praticar tiro ao alvo. Ele os libertava e os mandava correr avisando que iria atirar, mas caso errasse o prisioneiro estaria livre. Nunca errou um tiro, sempre acertava no meio da nuca dos ruskies.




Outro refez a vida no Brasil e trabalhava tranqüilamente na fabrica da Volkswagem, a “fauvê”, em São Bernardo do Campo. Um outro lutou, ainda adolescente, na frente russa já no final da guerra. Foi feito prisioneiro e passou alguns anos num campo de prisioneiros na Sibéria. Fugiu a pé do deserto polar e conseguiu chegar a Paris. 




Todos eles sem exceção eram e são homens honrados, gentis, educados, encantadores.









Por isso é tão difícil, e fascinante, tentar entender a Alemanha e o Nazismo.




Mesmo oitenta anos depois, com a história exaustivamente estudada, ainda é complicado ter uma visão completa e imparcial da Alemanha. Os historiadores Boris Fausto, Ian Kershaw, Joachim Fest e Nobert Elias ajudam a clarear um pouco o enigma alemão.




O Nazismo subverteu a noção política de Direita, por definição conservadora, ao incorporar a dinâmica das revoluções. Não é possível interpretar o fenômeno nazista sem levar em conta a participação das massas embaladas pelo sonho do socialismo nacional, da unidade da pátria e da supremacia da raça ariana.









A análise comunista feita pela III Internacional, que não corresponde necessariamente ao marxismo, baseou-se na visão leninista de um presumido colapso iminente do Capitalismo. Assim, elementos reacionários e do capital financeiro teriam manipulado os movimentos de massa do pós-guerra a fim de usa-los para seus interesses. Por esta visão o Nazismo estaria a serviço do capital financeiro na instrumentalização da classe operária.




Acrescente-se a política desastrosa do KPD, Partido Comunista Alemão, nos anos 20 e nos primeiros anos 30, minimizando a ameaça nazista e identificando os social-democratas do SPD como o inimigo principal. Nas eleições de setembro de 1930 o KPD alcançou 13,1% dos votos e o SPD 24,5%. Os dois juntos tinham 37,6%, mais que o dobro dos 18,3% do NSPD nazista.




Depois, orientados por Stalin, os comunistas alemães se aproximaram dos nazistas para tentar enfraquecer os social-democratas. A aliança natural de comunistas e socialistas poderia ter evitado a chegada dos nazistas ao poder. Trotski comentou: Essa gente nada quer aprender.









Tanto a elite econômica liberal quanto comunistas e social-democratas não foram capazes de entender a ameaça nazista. O Nazismo radicalizou as teorias de superioridade racial e anti-semitismo. A crença central do Nazismo na grandeza da Alemanha, da raça ariana e sua luta pela pureza racial gerou esta mudança.




A obtenção dessa pureza biológica implicava na submissão dos inferiores, os eslavos, ciganos e outras etnias. E principalmente na destruição total dos judeus, a Endlösung, a Solução Final.




Nem a discriminação histórica, os pogrons ou a radical expulsão dos judeus da Península Ibérica se aproximam em virulência dos objetivos de um Estado que decidiu erradicar os judeus do planeta.




O anti-semitismo nunca havia estado antes no núcleo de uma formação social.




A Solução Final não se explica por critérios racionais. Dentro do processo civilizatório o Nazismo representa um colapso da civilização.









Existe a impressão de que o Nazismo seria um resultado inevitável da história germânica.




Desde Armínio, o Querusco, passando pelos imperadores medievais, por Frederico, o Grande até finalmente se chegar em Bismarck haveria na história alemã um hitlerismo latente.




O povo alemão carregaria atávicamente uma propensão à barbárie, uma tendência à violência e uma nostalgia da vida selvagem das tribos bárbaras que assolaram a Europa.




Haveria também em parte do pensamento alemão um elitismo que desprezaria a essência da política. Na formação da burguesia alemã não existiriam as características do próprio Liberalismo. As elites também não teriam desenvolvido a consciência de cidadania como todos os regimes nascidos da Revolução Francesa.









Muitos historiadores acreditam que a elite alemã assustada com o crescimento dos comunistas e temerosa de um possível colapso do capitalismo teria manipulado os movimentos de massa através dos nazistas. Por esta visão os nazistas teriam sido um instrumento do Capital alemão.




De fato o capital financeiro e industrial colaborou e se beneficiou da ascensão nazista, mas foi o partido e o Estado nazista quem determinou os rumos da política. 




Os nazistas em geral encaravam com desprezo a grande burguesia “decadente” que lhes apoiou e da qual dependeram. Vide o excelente Os Deuses Malditos de Luchino Visconti.









Poderia-se conectar o surgimento do Nazismo com a política alemã do final do século XIX com suas tradições autoritárias, feudais e ausência de uma autêntica revolução burguesa.




Assim a Alemanha estaria numa fase pré-capitalista enfrentando as contradições de se transformar num estado moderno.




Seria uma situação semelhante a da Rússia semifeudal, ainda menos capitalista e que também sucumbiu ao autoritarismo da revolução comunista.




Também não se compreende o Nazismo considerando apenas a conjuntura histórica internacional e européia, a profunda crise de 1929 e o acirramento dos conflitos de classes nos movimentos proletários e na Revolução Russa.









Interpretações personalistas centradas em Hitler começam a perder força. Atribuir tanto poder à vontade do Führer seria concordar com o próprio argumento nazista mostrado em Triumph Des Willens, o magnífico filme de propaganda de Leni Riefenstahl.




Nenhuma dessas visões explica satisfatoriamente, isoladamente ou mesmo em conjunto, a Alemanha Nazista. Falta alguma coisa para consolidar todas elas.









Para se entender o colapso da civilização alemã é preciso analisar a formação do Habitus germânico.




Habitus é o resultado de todos os acontecimentos ao longo da história que definem a capacidade de sentir, pensar e agir de cada indivíduo que compõe um povo.




Para entender a catástrofe alemã é preciso analisar a formação da nacionalidade e da tradição germânica. Ela criou as condições para o nascimento do regime que potencializou suas características. O fenômeno nazista é indissociável da esmagadora participação popular sonhando Deutschland Über Alles.









Cenário Histórico.




O assentamento dos povos germânicos.




Desde seus primeiros assentamentos os Germanos enfrentaram freqüentes invasões das hordas dos Hunos. Tanto Ostrogodos quando Visigodos foram alvo da fúria asiática. Os Hunos destruíram estruturas sociais dos Ostrogodos que terminaram por emigrar para a região dos Visigodos. Mais tarde os Visigodos também foram atacados.




É preciso considerar a situação instável das tribos de fala alemã, assentadas a oeste do Rio Elba.




Paranoicamente rodeadas de tribos inimigas, historicamente lutando por espaço vital, o mesmo Lebesraum de Hitler.









As características do I Reich.




O Sacro Império Romano-Germânico, no século X, estava cercado por estados vizinhos que se organizaram, se pacificaram internamente e se transformaram em monarquias centralizadas.




Já o Sacro Império se manteve como uma frágil integração de senhores regionais. Antes da Unificação as regiões alemãs eram uma colcha de retalhos de pequenos reinos, principados, baronatos e cidades livres.




Divisões internas geraram intermináveis conflitos que favoreceram invasões e guerras como a dos Trinta Anos no começo do século XVII, a invasão de Luis XIV no fim do século XVII e a de Napoleão no século XIX. 




A Guerra dos Trinta Anos terminou com a perda de um terço da população alemã.









A formação do II Reich.




A Prússia eliminou os rivais internos e tornou-se dominante no contexto alemão. 




Na segunda metade do século XIX a dinastia prussiana de Brandenburg executou a estratégia militarista Feuer und Schwert, Ferro e Sangue,  de Bismarck. Ele consolidou a Prússia ao unir os pequenos territórios alemães na luta contra inimigos externos.




Em 1864 na guerra contra a Dinamarca anexando o Schleswig-Holstein.




Em 1866 na guerra contra a Áustria se consolidando como líder do mundo germânico.




Em 1870 na guerra contra a França.




Só depois da vitória na guerra franco-prussiana se realizou a Unificação Alemã. O II Reich foi fundado em 1871 à Ferro e Sangue por Bismarck e seu primeiro imperador, Guilherme I da Prússia, foi coroado na França vencida. No Palácio de Versalhes.









Neste momento, no final do século XIX, poderia ter se revertido o quadro de fragilidade nacional através da Unificação Alemã e de sua consolidação.




Mas em conseqüência das rivalidades dinásticas com outras potências e do expansionismo inicial do capitalismo, um estado frágil recentemente unificado entrou numa nova guerra, sem possibilidade de vitória. O resultado foi à derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial e a humilhação do Tratado de 1919. No Palácio de Versalhes.




O II Reich alemão, a formação moderna fruto da Unificação Alemã, começou e terminou no Palácio de Versalhes. Hitler não se esqueceria desta humilhação e fez a França assinar sua rendição ao III Reich no mesmíssimo vagão de trem onde foi assinada a rendição alemã na I Guerra.




Esse tipo de simbologia constrói e vive no Habitus de um povo.









O Habitus Alemão.




Para dar sentido a este cenário histórico é preciso entender a formação do Habitus alemão.




Habitus não é sinônimo de caráter nacional.




Caráter nacional é a interação dos conceitos de Crenças e Pertença. O primeiro é o corpo da sabedoria popular, dos provérbios, ditados e canções. O segundo é o sentimento de pertencer a uma terra natal, a uma paisagem geográfica e humana.




Já o Habitus é o resultado de todos os acontecimentos e da experiência histórica.




No plano individual o desfecho das situações determina o desenvolvimento da personalidade.




No plano social, de forma semelhante, as experiências de um povo vão determinar seu Habitus. Ele estabelece a forma de sentir, pensar e agir.




Numa correspondência imperfeita com o plano individual, o caráter nacional de um povo seria a cultura e a educação formal.




O Habitus seria a mentalidade, a personalidade.









O Habitus alemão se ressente fortemente dos cortes e descontinuidades históricas. Sua formação é marcada por fragmentação, social e nacional, ao contrário dos vizinhos França, Inglaterra e Rússia.




Situações que deixaram marcas dramáticas de baixa auto-estima, depressão e crise de identidade no povo alemão.




A posição secundária na Europa dos fragmentados estados alemães contribuiu para a baixa auto-estima e produziu uma vontade ardente de unidade. O sentimento de não ser capaz de conviver sem discórdias produziu o desejo por um líder poderoso capaz de produzir unidade e consenso.




Após a derrota na primeira guerra mundial seguiu-se a implantação da república de Weimar, um regime democrático parlamentarista.




Este sistema democrático com seus inerentes conflitos entre correntes políticas reavivou os traumas das disputas que mantiveram o povo alemão por tanto tempo desunido.




Criou-se uma aversão pela democracia parlamentar.









Compreensivelmente ressurgiu a crença na necessidade de um líder forte e a nostalgia do modelo prussiano da Unificação Alemã, o Feuer und Schwert.




A valorização da violência. A derrota na guerra, a humilhação em Versalhes e o ressentimento em relação aos outros estados da Europa tiveram como conseqüência uma ênfase na necessidade de afirmação, grandeza e poder. Aversão à democracia, ressentimento em relação aos estados vizinhos, necessidade de grandeza e valorização da violência. Faltava a faísca para incendiar a nação.




Hitler construiu para si a imagem dramática de representante da raça alemã oferecendo um mundo de glória, superioridade racial e dominação. 




Goebbels, que criou a propaganda moderna, transformou tudo isso numa obra-prima da comunicação de massas.




Speer, um dos maiores arquitetos do século, completou o sistema com uma estética arrebatadora.




Estava criado o mais poderoso mito da Modernidade.









Hitler prometia resgatar a nação do fosso de problemas em que a derrota militar, a depressão econômica e a democracia haviam criado. Tanto que a primeira tarefa e primeiro grande sucesso do Nazismo foi justamente destruir a democracia da República de Weimar.




Para o povo alemão a democracia representava um estímulo à discórdia, um fator gerador de divisão, não de unidade. O incêndio do Reichstag, o parlamento alemão, é simbólico no estabelecimento da Alemanha Nazista.




Exaltando os valores autoritários e guerreiros cristalizados na história alemã, Hitler sintetizou no Nazismo a solução para cada um dos fantasmas da alma alemã.




Unidade, ordem, território, orgulho racial e dominação. O Nazismo trazia em sua essência autoritarismo, violência, vingança e expansão territorial. A guerra era seu destino inevitável.









A arrasadora derrota na Segunda Guerra trouxe para a Alemanha, já dilacerada pela dinâmica destrutiva do poder nazista, mais divisão, caos, humilhação, ocupação estrangeira, perda de população e ainda mais perda de território. Mais um trauma terrível no Habitus alemão.




Na seqüência da derrota do Nazismo, além da perda substancial de território o que restou do país foi saqueado, tomado, ocupado. O país depois foi dividido em dois.




Com a divisão veio outra experiência igualmente autoritária, sendo agora comunista, na Republica Democrática Alemã, a Alemanha Oriental. Do outro lado da fronteira a existência da República Federal Alemã, a Alemanha Ocidental, como estado democrático pluripartidário foi imposta pelos aliados que escreveram sua Constituição.




De um lado uma imposição russa do outro uma imposição anglo-americana.




O povo alemão não teve como não aceitar a vontade de seus conquistadores, sem nenhum controle sobre seu próprio destino. Mais outro trauma devastador para o Habitus germânico.









Conversando com um amigo alemão, lá mesmo na Alemanha, ele se queixava da falta, insuportável para um alemão, da mitológica Ordnung. Queixava-se da desorganização, desperdício do governo e falta de fibra da parte da população que vivia conformada com os subsídios do seguro desemprego.




- Estamos precisando de outra guerra.




O espírito prussiano de Bismarck ainda assombra um dos povos mais cultos e civilizados da História.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Filhos


Tenho tantos e muitos amores. Não os que escolhi, ou os que me escolheram, mas os que nasceram de meus amores, feitos de meu sangue, de meus sonhos, de meus mais profundos carinhos. São seis.





Todos diferentes, todos muito diferentes. Todos partes de mim, que começaram a ser feitos, amados e nascidos em tempos diferentes. Todos chegaram abrindo as portas de meu coração, me surpreenderam, lá cresceram, encontraram seus lugares e ficaram. 







Todos me enriqueceram, me marcaram, me despertaram diferentes formas de amar, de querer. Deixaram seus choros infantis, seus primeiros passos, suas primeiras palavras, suas perguntas, seus abraços e sorrisos gravados em meu coração. 





Mas aqui e agora não tenho nenhum deles ao meu lado. Só a carência, a saudade, a lembrança. 


Como seria bom abraça-los. São minhas paixões.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A ordem árabe está se desintegrando



Tudo que é sólido se desmancha no ar. Karl Marx, 1848.

O mundo árabe começou a implodir e tanto pode estar entrando em colapso como se reinventando.

A Revolta Árabe é muito mais direcionada para dentro, para uma ordem falida, do que para fora. Para Israel, Estados Unidos ou o Ocidente.



O Ocidente é cúmplice e beneficiário do modelo de autocracia árabe.

Os herdeiros do espólio do colonialismo criaram, apoiaram e mantiveram líderes árabes, do norte da África ao Golfo, em países ricos e pobres.

O Xá Rheza Pahlevi que caiu no Irã foi um, outro foi Saddam Husseim que deu errado e se voltou contra o criador.



Esta política neocolonialista, míope e de curto prazo tem mantido e patrocinado autocracias delirantes e corruptas com pouca ou nenhuma legitimidade.

Por décadas o Ocidente apoiou a estabilidade das ditaduras em prejuízo da democracia.

Agora é hora de pagar o o preço.

O mundo e os líderes ocidentais estão impotentes na posição de meros espectadores enquanto a revolta popular toma velocidade rumo a um final imprevisível.



Bismarck dizia que os Balcãs não valiam um braço de um soldado prussiano. Décadas depois a irresponsabilidade com a península cobrou muito mais que isso.

O Irã espera que as massas árabes sigam o exemplo da revolução islâmica, mas aparentemente os jovens manifestantes teriam como modelo a democracia da Turquia.

O problema aqui é que na ausência de uma oposição organizada e consistente a Irmandade Islâmica e a Al Qaeda é que estão exercendo a liderança real nas ruas.

Elas são as maiores beneficiárias políticas da revolta.

São elas as únicas forças políticas capazes de preencher o vácuo político que está se abrindo.



A velha ordem árabe faliu e está caindo como o Muro de Berlim e a União Soviética caíram há vinte anos atrás. Mas nem a Tunísia é a Tchecoslováquia nem o Egito é a Polônia.

Vinte e dois países, trezentos e sessenta milhões de pessoas. A batalha pelo futuro do mundo árabe está apenas começando.

E será muito sangrenta.

E respingará seriamente no Ocidente.



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Mastretta


Mastretta é um carro esporte mexicano.


O embaixador do México em Londres Eduardo Medina Mora protestou junto à BBC contra comentários feitos no programa Top Gear, um programa sobre automóveis. Ele julgou os comentários, feitos no programa, a respeito do Mastretta como "ofensivos, xenofóbicos e humilhantes".





O programa que é um dos melhores que existem na TV para quem gosta de carros, é apresentado por Richard Hammond, Jeremy Clarkson e James May. Clarkson por sinal é um dos jornalistas mais inteligentes e perspicazes da Europa. O cara escreve e fala de tudo um pouco com muita irreverência, apesar dos carros serem sua maior especialidade.


Acontece que humor politicamente correto é meio sem graça. Humor mesmo é sempre corrosivo, coloca pessoas, mitos e o cotidiano em cheque. Não dá para ser diferente. Fica chato. Fica sem graça.






O Mastretta, por sinal uma cópia estética e tecnológica do Lotus Elise inglês, pode até ser um carro esporte interessante. Mas é mexicano. Os caras não perdoaram e soltaram,


- Carros mexicanos são preguiçosos, ineficazes, flatulentos, obesos, dormem apoiados contra uma cerca olhando para um cactos e vestidos com um lençol que tem um buraco no meio e que serve de casaco. Clarkson ainda completou dizendo estar confiante de que os comentários não despertariam protestos porque,


- O embaixador do México deve estar dormindo.


Não estava, ou se estava acordou.


Mein Name ist Bond





Um pequeno escândalo político europeu estourou desde quinta-feira 27 de janeiro de 2011 na Alemanha. 




Políticos de oposição exigem que o governo investigue as atividades do agente secreto inglês Mark Kennedy acusado de cometer crimes em solo alemão. 




A história publicada pelo jornal Der Spiegel cita fontes internas do governo. 



Numa reunião sigilosa Jörg Ziercke o diretor do BKA - Departamento Federal de Investigações da Alemanha - denunciou a políticos importantes o trabalho secreto de Kennedy no país.









Note que Jörg Ziercke é colega de profissão de Mark Kennedy. Ou rival, nunca se sabe.




Após a publicação nos jornais um dos presentes na reunião disse que, 




- Não posso comentar sobre os procedimentos no comitê interno, mas sei que as reportagens nos jornais de hoje estão na maior parte corretas, confirmou o deputado Hans-Christian Ströbele. 










Mark Kennedy esteve ativo na Alemanha não apenas para o serviço britânico, mas também para várias forças policiais alemãs. 




Ele chegou a ser detido, mas todas as acusações foram retiradas quando autoridades informaram a polícia sobre sua identidade. 




Sob o codinome de Mark Stone, Kennedy praticou pelo menos três delitos na Alemanha numa conduta totalmente vedada aos agentes secretos do país comandados por Jörg Ziercke. 










Primeiro. 




Ele infiltrou-se em organizações criminosas com o objetivo de obter provas. 




Segundo. 




O agente secreto também era "pago pelo governo alemão, além do polpudo salário que recebia do governo britânico", acusa Ziercke. 




Terceiro. 




O agente manteve um relacionamento sexual com uma mulher que espionava, rompendo os códigos de conduta aplicáveis aos oficiais alemães. 










O governo britânico recusou-se a comentar por que suspendeu qualquer processo contra seu agente. 




Agora marque uma das opções abaixo:










(  )  Mark Kennedy é gente boa.




(  )  Parece que este Jörg Ziercke não leva jeito para "M".



(  )  Jörg não entende nada de James Bond.



(  )  Jörg é uma in-ve-jo-sa.




(  )  Todas acima.