sexta-feira, 29 de abril de 2011

2001 Odisseia No Espaço


O filme do Stanley Kubrick continua atual e instigante.


As cenas iniciais são uma metáfora excelente da historia da Humanidade e de seu caracter mais profundo. 









Dois bandos de homídeos disputam a posse de um território, naquele vai e vem de posições em disputa.


Um bando avança, o outro recua e a situação não se define, pois não havia nenhuma superioridade aparente entre os grupos acostumados até então a afugentarem-se com gritos.


Mas os membros de um dos bandos carregam alguns ossos grandes.


Há pouco o líder deste bando tinha descoberto, por acaso, que batendo os ossos uns nos outros os ossos mais fracos se partiam.






Segue-se a disputa pela posse do território. O líder deste bando passa a ameaçar o bando rival com um osso até que acerta a cabeça de um deles. O outro cai e ele continua a bater-lhe, os companheiros de seu bando vêm, imitam os golpes e acabam por matar o rival.


O líder então se enche de um ar de vitória.


Estava cometido o primeiro assassinato, estava criada a primeira arma.


Estava estabelecida a violência como afirmação da propriedade e iniciada a percepção da  guerra como modus operandi político.






Nascia a base da organização social da Humanidade. Nascia a Civilização. O Homem jamais esqueceria nem deixaria de aplicar esta lição em sua Odisseia no Espaço.


sábado, 23 de abril de 2011

Solidão, doença contagiosa.


Em Wave, Jobim diz que...os olhos já não podem ver coisas que só o coração pode entender; fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho, triste é viver na solidão...

No Journal of Personality and Social Psychology há um estudo sôbre a solidão com conclusões surpreendentes. A Solidão além de ser um mal é contagiosa.

Isso mesmo uma doença contagiosa cujos efeitos se propagam até três graus de separação numa mesma rede de relacionamentos.

Sentir-se solitário é muito mais do que apenas desagradável para aqueles que gostam de estar cercados de amigos. É  um grave perigo para a saúde.



Estes estudos mostraram que a solidão reduz a expectativa de vida na mosca da fruta, aumenta as chances de desenvolver diabetes em camundongos e causa uma série de efeitos adversos nas pessoas.

Ainda segundo o estudo aqueles que tem contato imediato com uma pessoa solitária tem 50% mais chance do que a média de também se sentirem solitários.

No segundo nível de distância numa rede de relacionamentos, o das pessoas que conhecem outras pessoas, a chance de contágio é de 25%. E para os que estão a três graus de separação o risco é de 10%.



O motivo do contágio, segundo a equipe de Framingham, é que pessoas que sofrem de solidão tendem a agir de forma menos generosa e mais negativa.

Quem se torna solitário tem mais chance de agir negativamente com seus amigos e estes são propensos a interagir com outros amigos também de forma negativa.



Estes efeitos foram mais perceptíveis entre amigos do que com família, e mais forte entre as mulheres do que nos homens.

Os pesquisadores afirmam que isso ocorre porque os custos de abandonar os relacionamentos são mais baixos com os amigos do com que membros da família.

E no caso das mulheres por que elas olham mais para os amigos como suporte emocional e social do que os homens.



Falando de solidão Carlinhos Brown vai mais longe,

...passe em casa tô te esperando, estou esperando visita tão impaciente e aflita, se você não passa eu quase morro, estou implorando socorro, eu quase morro, vida sem graça se você não passa, passe agora, tô te esperando...

Doenças cardiovasculares, obesidade e enfraquecimento do sistema imunológico são alguns dos efeitos colaterais da solidão.

A mera percepção de estar isolado é mais que suficiente para criar efeitos graves para a saúde.

Mas basta estar cercado por outros que há cura.

Gilberto Gil tem a solução. Kaya N'gan Daya. Kaya já, nem que a chuva Kaya.

Caia na gandaia por que triste é viver na solidão.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Astha




Meus filhos Astha e Klaus e eu estávamos passando umas férias numa das praias mais lindas que conheço. Tamandaré e Praia do Carneiros no litoral entre Pernambuco e Alagoas, logo depois de Porto de Galinhas, na Costa dos Corais.


Nem vale a pena descrever a beleza, a cor e os detalhes deste mini-paraíso.


Tem de ir lá viver.





Minha amiga Paula tinha nos emprestado uma casa gostosíssima, que fica a umas dezenas de metros do mar, enorme para apenas nós três.


Foram seguramente uma das melhores férias que já tive. Era fora da estação de turismo e tínhamos todo aquele paraíso inteiro literalmente para nós.


Muitas vezes naquele arco imenso de quilômetros de praia não havia mais que dez pessoas. Temperatura ótima, cor do mar inacreditável, uma paz que lavava a alma.






Na época Klaus tinha cinco e Astha quatro anos.


Nossa rotina era perfeita.


Acordávamos bem cedo e íamos para a praia, brincar na areia, surfar nas marolas, mergulhar com óculos, correr na praia, descobrir coisas, catar conchinhas, olhar os peixinhos nas piscinas naturais.


Antes das dez horas voltávamos para a casa. Tomávamos banho, colocávamos bermudas, eles ficavam assistindo televisão, jogando, brincando.





Eu tomava um gole de cachaça para abrir o apetite e ia cozinhar nosso almoço que dependia do que nosso pescador tivesse trazido naquele dia.


Numa das vezes que voltávamos da praia caiu uma daquelas chuvaradas rápidas, inesperadas e fortes do litoral. Eles nunca tinham sentido uma chuva assim, um toró, com pingos grandes e assim quentes.


Espantados eles não fugiram da chuva, olhavam para cima, pulavam e gritavam de alegria.





Depois do almoço, para mim regado a uma cervejinha, tirávamos todos um cochilo e acordávamos depois das três da tarde. Esperávamos o sol ficar mais suave e íamos de novo à praia para as mesmas brincadeiras.


Voltávamos depois do sol se pôr. No caminho de casa tomávamos um sorvete ou ficávamos a conversar com o casal dono de um mercadinho.


Banho tomado, enquanto os dois se divertiam com algum dos brinquedos que tínhamos levado, eu lia algum livro e depois preparava o jantar.




Ou mais comummente acendia a churrasqueira no jardim da frente da casa para assar carne, frango ou linguiças.





As noites eram claras e incrivelmente estreladas.




Ficávamos na varanda a contá-las, a esperar por estrelas cadentes, fazer os respectivos pedidos.




Eu então eu lhes contava histórias engraçadas. Muitas destas histórias nós íamos alterando, inventando e criando ali mesmo na hora, com os típicos personagens infantis: pássaros, lobos, peixes, fadas, magos, príncipes, bruxas dentro daquele imaginário das histórias de criança.


E naturalmente nos incluíamos e aos nossos conhecidos, nestas histórias. Ficava engraçado e muito criativo.


Astha criava e resolvia enredos, começos e finais. 




Mudávamos cenas, discordávamos do destino dos personagens e às vezes chegávamos a impasses curiosos. 




Havia de tudo: lobos-maus que se regeneravam, bruxas que viravam fadas, fadas que viravam bruxas, sapos que não queriam virar príncipes, princesas que queriam virar sapo, por aí...


Como a criação era coletiva gerava as mais absurdas situações, todas elas engraçadíssimas.


Alí já estava se gestando a escritora que Astha viria a ser no futuro.




E assim as noites e os dias iam se passando, agradáveis, divertidos, amorosos.


O único senão do lugar eram os mosquitos que apareciam à noite, o que nos levava a dormir todos no mesmo quarto, convenientemente fechado antes do escurecer, ar-condicionado ligado.


Nada que atrapalhasse nosso paraíso.





Dormíamos Klaus e eu em duas camas de solteiro e a Astha, apesar de já estar grandinha, num berço.


Na hora de dormir, depois dos beijinhos de boa-noite, todos dois queriam naturalmente vir para minha cama.


Eu respondia que não, cada um na sua cama, que uma cama não dava para três e que afinal cada um tinha a sua. Mesmo assim antes de adormecerem os dois sempre insistiam:


- Pai posso ir para sua cama?


-Não filho - ou filha - já combinamos que não, fique na sua cama - berço- e vamos dormir.





Astha, muito carinhosa e espertinha, não desistia. 




Ficava bem quietinha no berço, esperava o Klaus dormir e então perguntava baixinho para não acorda-lo:


- Pai posso ir para sua cama, para lhe fazer carinho?


Dá pra recusar?




quarta-feira, 20 de abril de 2011

Vírus Perigoso


Gustavo Aragão é um colega de trabalho, profissional competente e responsável. Mas Gustavo é uma espécie de baiano arrependido, meio deslocado na terra.


Hoje ele me contou revoltado que tinha ido na agência do banco,





"para conversar com o gerente sobre as tarifas de minha conta, etc...


Chegando lá, já não vi o gerente na cadeira. Na esperança que ele pudesse estar em outro lugar, perguntei pra uma assistente dele:


- Jorge está por aqui?


- Ele não veio hoje não.


- Não? E tem alguém que possa ver as tarifas da conta ou responder por ele?


- Infelizmente não, agora só segunda-feira.


- Tá bom minha linda, bom feriado, disse espantado.


Como é que pode, o cara é o gerente. Simplesmente não foi trabalhar e não deixou ninguém pra resolver os problemas. Porque? Porque amanhã é quinta, véspera de feriado e o cara não pode pegar a estrada cheia ou então perder o ferryboat".





Espantado mesmo fiquei fui eu ao ouvir tamanho desatino.


O que um jovem saudável como Gustavo estaria fazendo numa pré-ante-véspera de feriado numa agencia de banco em Salvador?


E ainda mais para negociar rates, taxas, juros, tarifas bancárias!


O coitado estaria delirando por excesso de trabalho?





Rapaaaiz eu agora fiquei muito preocupado com você, que estresse é esse meu bró?


Se toque, você tá com problemas? Não seria melhor procurar uma ajuda especializada?


Estou sentindo - lá ele - que alguma coisa está desequilibrada em você.


Esta falta de percepção me parece sintoma do Pensamentus Paulistanus, uma séria enfermidade causada pelo vírus Trabalhus Intensus que ataca severamente o cérebro.





Os primeiros sintomas são estes.


Depois piora. Você vai querer almoçar em pé, não vai conseguir tirar o paletó e a gravata, vai se viciar em engarrafamentos, vai querer tomar um chopps com dois pastel.


O quadro clínico pode até deixar você rondando de bar em bar, rodando dadinho, jogando bilhar e neste dia então vai dar na primeira edição cena de sangue num bar na avenida São João.





Cuidado!


Esta gravíssima doença ataca principalmente baianos desprevenidos que imprudentemente não tomaram a vacina Eutodiboa.


Inclusive podem até se apresentar problemas cardíacos quando alguma coisa acontece em seu coração quando cruza a Ipiranga com a Avenida São João.






Gustavo meu amigo tome imediatamente três doses de Discaravit, antes que seja tarde demais.


Se não passar faça uma Lavagem.


terça-feira, 19 de abril de 2011

A Invenção da Indolência





Na tese O Mito da Preguiça Baiana, Fabricio Marques da
Fapesp e Elizete Zanlorenzi da USP, estudam o mito da indolência baiana. Eles
notam que alguns baianos quando chamados de preguiçosos tomam isso como elogio. Dorival
Caymmi e Gilberto Gil, por exemplo, tratam desta preguiça como se fosse um traço
da identidade cultural da Bahia, como uma expressão de um modo de vida. Puro
marketing e bastante duvidoso.





Note o caso do próprio
Carnaval, que já foi Da Bahia hoje é o carnaval Na Bahia. Lugar de diversão para
turistas, de trabalho duro para o povo. Uma festa cara, onde poucos grupos
faturam alto à custa de gastos altíssimos para o Estado, isto é, para o
contribuinte.


Não existe melhor
lugar para se ter um ataque cardíaco do que no circuito do carnaval de Salvador.
De qualquer ponto em que se esteja há sempre à mão uma ambulância, um posto,
uma UTI móvel. Procure o mesmo nível de atendimento depois da Quarta-feira.
Filas intermináveis nos hospitais públicos.


Na folia há banheiros
químicos por todo lado, ruas varridas e lavadas constantemente. Depois? Xixi e
lixo por todo lado.


Idem para segurança. Há
policiais sempre por perto, helicópteros da PM sobrevoando a festa em contato
direto com os policiais no solo. Ação imediata e super rápida. Depois das
Cinzas? Cinzas. O Estado é campeão de violência.





A tese mostra que a
origem do estereótipo nada tem de benigno, foi criado pela elite da própria
Bahia com o objetivo de depreciar os negros, a maioria da população. Formado
nos tempos da escravidão o estereótipo ganhou força como reação à Lei Áurea.


Realmente, a elite da
Bahia é a mais preconceituosa do país. Numa cidade onde quase 90% da
população são pretos ou mulatos, eles são muito discriminados. Salvador é uma
cidade com fortíssimo preconceito de cor. Casais bi-raciais são tratados com
desprezo.





Tenho um casal de
amigos se mudou para Brasília por conta das humilhações que passou. Meu
filho já teve impedida sua entrada em um restaurante por que as mesas estariam
todas reservadas, apesar de visivelmente vazias. Tive uma namorada que foi
insultada quando ficou sozinha na mesa de um bar enquanto fui ao toalete.




Negriagem, por mais absurdo que pareça, é uma gíria baiana para coisas mal
feitas. Deixe de negriagem significa deixe de fazer merda. Isso na cidade do
Olodum, do Ilê Ayiê, na maior cidade negra fora da África. A Ladeira da
Preguiça é outro símbolo deste preconceito. Nos tempos da escravidão quem reclamava da ladeira, extremamente íngreme,
carregando nas costas as mercadorias desembarcadas no porto, eram os "negros
preguiçosos". Os brancos que assistiam das janelas dos sobrados ao enorme
esforço gritavam:


- Sobe preguiça!





Vida tranqüila e aversão
ao trabalho não têm base real. Analisando o calendário de festas na Bahia
a dupla paulista fez descobertas curiosas. Uma empresa com sede no Pólo Petroquímico
de Camaçari registrou menos faltas durante o Carnaval do que sua filial de São
Paulo.


No final dos anos 1980
entre as pessoas ocupadas na Região Metropolitana de Salvador, 50% trabalhavam
mais de 48 horas semanais e 36% de 38 a 47 horas por semana.





Uma conclusão
surpreendente do trabalho mostra que a imigração nordestina, ao ser
antagonizada pela européia, fez o racismo crescer no Sul e no Sudeste. Fora
da Bahia, baiano significa tolo, negro, mulato, ignorante e se refere a todos
os oriundos do Nordeste.


O costume tem origem
no nome da estrada que conduziu o êxodo nordestino, a BR-116, a Rio-Bahia. Os
imigrantes foram indistintamente rotulados de baianos apesar de serem na
maioria paraibanos e pernambucanos. O fato não deixa de ser curioso, pois o
baiano de Salvador culturalmente não é nordestino.





A dupla de paulistas
conclui que depreciar nordestinos como preguiçosos é uma estratégia para excluí-los
socialmente. Os dois grandes motores do preconceito foram a falta de
capacitação e a intolerância dos imigrantes europeus do sul do Brasil.


Alemães, italianos e
outros, não queriam ser equiparados aos brasileiros pobres com quem disputavam
o mercado de trabalho e o espaço urbano. O mito da preguiça fixou uma forma
sutil, já que folclorizada, de racismo.





Dete é minha baiana
preferida. Para meu paladar ela cozinha o melhor abará de Salvador. Baiana do
acarajé ela começa a preparar suas delícias antes do dia clarear.


Rala e descasca todo
aquele feijão para a massa do acarajé, enrola e cozinha o abará, faz o
exaustivo vatapá, prepara o carurú, a passarinha e faz o molho de camarão. De doces ela faz a cocada branca, a marrom e a preta, faz o
doce de tamarindo, o cuzcuz doce e o bolinho de estudante (conhecido como punheta).


Às quatro e meia da
tarde Dete e seu tabuleiro já estão na rua. Então ela passa o resto da
tarde e boa parte da noite sentada, bem vestida com as cores do santo do dia,
cheia de colares, sorrindo e conversando com os fregueses. Na maior preguiça.


Às dez da noite ela
desarma tudo, limpa a calçada que ocupou. Guarda numa casa próxima o bujão de
gás, o fogareiro, o tabuleiro, os banquinhos onde os fregueses se sentam,
litros de azeite de dendê e todo o arsenal de panelas, travessas, toalhas e
roupas. Finalmente ela vai para casa dormir para novamente acordar antes do sol
nascer. Na maior preguiça.





A noção de tempo e
trabalho para os baianos é fortemente influenciada pelo Candomblé onde as
Obrigações são algo que se escolhe, que não se faz forçado. Vem da tradição
africana o conceito de que o trabalho não é o foco principal da vida e de que
trabalho e lazer não se opõem.


Esta maneira de ser e
de estar é reflexo de uma religião e ideologia isentas do pecado e sem a Culpa
cristã. Também passa longe da Teologia da Prosperidade protestante que foi a
base ideológica do estabelecimento do Capitalismo, vide Max Weber em A
Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.





Tudo isso não
significa que as pessoas não trabalhem. Trabalham e muito, mas sem colocar o
trabalho como objetivo central da vida e cuidando muito das relações de fora da
esfera do trabalho. Por exemplo: embora as relações formais sejam naturalmente
marcadas pelo relógio, as relações informais baianas seguem um tempo maleável.
Muitas pessoas em Salvador sequer usavam relógio, aparentemente pelo baixo
poder aquisitivo, mas a questão é outra porque um relógio não é tão caro.




O centro fundamental da questão é que a visão de vida baiana foge do
cartesiano, foge do utilitário, não é européia, não é fruto da revolução
industrial. Nela existe a consciência de que entre um evento e outro pode
ocorrer um terceiro, as pessoas sabem que a rigidez dos horários está sujeita
ao imprevisto. Não é em absoluto uma visão mecanicista.


Apesar de se basear
numa cultura muito antiga esta noção é inacreditavelmente contemporânea na
percepção da relatividade e incerteza da vida e do universo. Os eventos são
vistos como possibilidades de
ocorrência. 





É uma espécie de
aplicação prática tanto de Einstein quanto de Planck. Um modus onde seria possível
conciliar tanto as teorias do primeiro quanto as do segundo. Todo físico
moderno sabe que este espírito, comum também aos indianos, é o mais adequado
para os novos desafios do conhecimento.


Dizendo de forma mais
divertida, como pede o próprio objeto do assunto, seria uma forma de raciocinar
onde o tempo pode fazer uma curva ao redor do Farol da Barra. De saber que tudo
depende de como e de onde você enxerga os eventos e o próprio tempo. De que no
universo muitas vezes não há como se medir ou se expressar, e se insistir muda
o estado das coisas.





O Turismo explora
muito este mito da preguiça. Quer descansar, venha para a terra onde a
festa nunca termina, onde ninguém se preocupa com relógio. Nos anos 60 se notou
que ele tinha forte apelo e desde então virou Marketing.


Desde então os baianos
trabalham duro para manter esta ilusão capaz de entreter milhares de turistas.
A ilusão de que baiano não gosta de trabalhar.

Uma nigriagem só, na maior
priguí. Aff.., coisa de preto!



quinta-feira, 14 de abril de 2011

Gardel Ataca Novamente


A ADTV - Allgemeiner Deutscher Tanzlehrer Verband - a maior organização de escolas e professores de dança da Alemanha elegeu o Tango argentino como a dança do ano de 2010.





Milhares de alemães caem na nova moda e enchem as escolas para aprender a dançar.


A Alemanha se rende ao Tango. 


Curiosamente não é a primeira vez.






Durante o Batalha de Stalingrado em 1943 o exército soviético que havia cercado e sitiado os alemães, bombardeava impiedosamente a cidade para desalojar os invasores.


O Exército Vermelho fazia guerra psicológica jogando folhetos e transmitindo mensagens em alemão em altíssimo volume pelos alto-falantes apontados para a cidade.






Além das mensagens o exército russo usou uma técnica terrível para abater o moral do inimigo.


Os auto-falantes tocavam tangos sem parar. Os russos consideravam a música sinistra.





Freud, Einstein e Cristo


Freud e Einstein tinham em comum o fato de serem contemporâneos, judeus, de origem e formação alemã e gênios. O que não é pouca coisa.


Os dois se encontraram apenas uma vez e desse único encontro Freud comentou: "Ele entende tanto de Psicanálise quanto eu entendo de Física, de modo que tivemos uma conversa muito agradável".





Nestes tempos de violência, individualismo e crescente stress, a psicanalista Gracia Azevedo se pergunta o que é ser humano hoje?


Atônita com o que ela classifica como o que seria a sociedade do Um a Um ela indaga como substituir esse gozo narcisistico, egocêntrico, de uma sociedade crescentemente superficial.


E arrisca: Talvez se houvesse uma nova corrida pela Felicidade. Mas também pergunta: Há uma demanda para isso? É possível criar essa demanda? A partir do quê?





A grande diferença entre nossa atualidade e qualquer arranjo social/politico anterior é que nossa sociedade se organiza e se estrutura em função do consumo. Isso tem conseqüências sociais, ecológicas, econômicas, financeiras e principalmente psicológicas.


Desta forma Eu, Você, o Outro, também somos objetos a consumir e portanto descartáveis. Tudo parece possível, tudo tem um valor, tudo pode ser comprado, tudo pode e deve ser trocado. Tudo pode ser descartado.





Em 1932 o Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual, em Paris, propôs a Einstein que escolhesse uma pessoa para realizar um intercâmbio de pontos de vista. Ele escolheu Freud.





Einstein perguntou:


- Por que a Guerra? ... o homem encerra dentro de si um desejo de ódio e destruição latente. É possível controlar a evolução da mente do homem de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?





Freud respondeu:


- É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência... ocorrem também conflitos de opinião que podem chegar a atingir a mais raras nuanças da abstração e que parecem exigir alguma outra técnica para sua solução... as necessidades cotidianas e os interesses comuns, inevitáveis ali onde pessoas vivem juntas num lugar, tendem, contudo, a proporcionar a essas lutas uma conclusão rápida, e, sob tais condições, existe uma crescente probabilidade de se encontrar uma solução pacífica...





... os instintos humanos são de apenas dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir - que denominamos ‘eróticos’, ou ‘sexuais’, com uma deliberada ampliação da concepção popular de ‘sexualidade’ - e aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo...


... dessa forma, também o instinto de amor, quando dirigido a um objeto, necessita de alguma contribuição do instinto de domínio, para que obtenha a posse desse objeto. A dificuldade de isolar as duas espécies de instinto em suas manifestações reais, é, na verdade, o que até agora nos impedia de reconhecê-los...


... nosso instinto destrutivo, está em atividade em toda criatura , denominado instinto de morte, ao passo que os instintos eróticos representam o esforço de viver...



... as incontáveis crueldades que encontramos na história e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existência e a sua força. A satisfação desses impulsos destrutivos naturalmente é facilitada por sua mistura com outros motivos...


... o organismo preserva sua própria vida, destruindo uma vida alheia, mas se esse processo vai longe demais é positivamente insano...


... por outro lado, se essas forças se voltam para a destruição no mundo externo, o organismo se aliviará e o efeito deve ser benéfico...





... de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas dos homens... na minha opinião, é uma ilusão.


... nossa teoria dos instintos facilita-nos encontrar a fórmula para métodos indiretos de combate... se o desejo de aderir (à violencia) é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista, Eros (o amor)...





Finalizando Freud conclui:


- A Psicanálise não tem motivo porque se envergonhar se nesse ponto fala de Amor, pois a própria religião emprega as mesmas palavras: ‘Ama a teu próximo como a ti mesmo.’


Viena, setembro de 1932.





Há dois mil anos este insigth revolucionário que rompe a estrutura do Ego foi anunciado por Cristo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Salomé



Em 09 de Dezembro de 1905 estreou em Dresden, Salomé a ópera de Johann Strauss baseada na obra de Oscar Wilde.




Com a marca libertina de seus textos e de sua própria vida, Wilde levou para as platéias do fin de siècle seus temas preferidos: escândalo, decadência, perversão.




Gustav Klimt com o mesmo tema também criou uma obra prima em 1909. Salomé, uma pintura à oleo, que mais tarde foi reproduzida como cartaz para os espetáculos da ópera, hoje se encontra na Galleria d'Arte Moderna em Veneza.




Ao compor a ópera Strauss fugiu da harmonia e usou tonalidades musicais contrastantes para ressaltar as emoções da tragédia.




A montagem de estréia, extremamente erótica, escandalizou a crítica. Atrizes recusaram papeis, teatros se recusaram a apresentá-la.












A historia é bíblica e muito conhecida.




Durante a vida de Cristo, Salomé a belíssima filha adotiva de Herodes se apaixonou pelo apóstolo João Batista. Ela se declarou, se ofereceu a ele, mas foi rejeitada.










Nesta montagem de estréia o cenário era um horrendo calabouço subterrâneo onde João Batista estava preso.




Herodes, padrasto de Salomé, tinha uma enorme atração por ela e um dia ordena que ela dance para ele a dança dos sete véus. Apaixonado ele diz,




- Prometo lhe fazer qualquer vontade.




Ela aceita e dança lascivamente para ele.




Ao retirar o sétimo e último véu ela incendeia o desejo de Herodes.




- Peça. O que você quer Salomé?




- A cabeça de João Batista.




Chocado com o pedido de matar um homem santo, Herodes recua mas Salomé insiste,




- Eu quero a cabeça de João Batista.




Herodes cede,  manda decapitar o apóstolo e entrega para Salomé a cabeça de João Batista numa bandeja.










Neste momento a ópera atinge o clímax. 


Salomé dança no palco com a cabeça do amado. 




Salomé passa a dialogar loucamente com a cabeça de João Batista nas mãos. 




A fala é longa, desesperada, dilacerante.




Primeiro ela ri de sua morte, debocha dele.


Depois suplica que lhe olhe, que lhe ame, implora que lhe ouça.








Enlouquecida ela termina por beijá-lo freneticamente na boca, se sujando no sangue do amado.




Herodes manda matá-la.




Duas paixões, duas mortes.










No final do espetáculo o público aplaudiu apoteoticamente. Ovacionado, o elenco voltou 36 vezes ao palco para receber os aplausos.




Strauss e Wilde reuniram brilhantemente Tánatos e Eros na mesma cena, freudianamente juntos no mesmo impulso, dominando um ao outro. Destruindo o sujeito, destruindo o objeto.














Será sempre assim? 




Será que precisamos segurar na cabeça decepada de nossos sonhos, beijando o sangue morto de nossos amores?


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Física Quântica


Há poucas coisas mais faladas e menos entendidas que a Física Quântica e a Teoria da Relatividade, apesar do mundo tal como o conhecemos hoje não ser possível sem a aplicação destas descobertas.


Telefones celulares, energia atômica, tratamentos e diagnosticos médicos, navegação de navios, submarinos e aviões, computadores, a Internet e conseqüentemente a globalização, tudo isso é resultado desse conhecimento.






Apesar de já ter mais de um século a Teoria da Relatividade continua incompreensível para muita gente.




É difícil de entender e até de aceitar que:

Diferentes observadores em diferentes sistemas que se movem uniformemente sentem o tempo passar de forma diferente. 

Que o comprimento das coisas pode se contrair em função da posição e do movimento do observador.

Que eventos que parecem simultâneos em um local não são simultâneos para quem está em outro local em movimento relativo. 

Dependendo da posição do observador fatos que aconteceram um antes do outro para uma pessoa acontecem exatamente ao contrário para outra. E para uma terceira podem ter acontecido ao mesmo tempo.

Na prática: nascem duas crianças, para uns João é mais velho que José, para outros José é mais velho que João. Pra você João e José nasceram ao mesmo tempo. E todos os observadores estão certos.



Temos dificuldade de compreender estes aparentes paradoxos por que vivemos nosso dia-a-dia em um mundo relativamente estático de velocidades mais ou menos constantes. 

Também nem sempre vemos claramente as distorções do espaço-tempo, apesar delas estarem presentes bem ao nosso lado.

Mas tudo muda quando as velocidades se aproximam da velocidade da luz. Fica mais visível. 

Tudo muda quando os observadores estão em diferentes sistemas em movimento, em diferentes velocidades relativas. 

Relativas um ao outro, daí o nome da teoria.




O fato é que a passagem do tempo, o tamanho e a massa/pêso de um objeto são relativos e variam em função da velocidade.

Quando a famosa equação de Einstein - E = mc2 - diz que a energia é igual a massa vezes o quadrado da velocidade da luz, também  diz, implicitamente, que a massa e a gravidade se alteram e elas alteram o tempo e o espaço.  


Há mais de cem anos já se sabe disso.







Einstein resolveu boa parte de seu conceito da relatividade utilizando a Teoria da Incerteza, a teoria dos Quanta de Max Planck, 


A Teoria da Incerteza mostra que a velocidade e a posição de uma partícula fundamental, um Quantum,  não podem ser ambas determinadas com precisão.

Além disso nos níveis sub-atômicos a matéria não existe, ela tem tendências a existir. 

Os eventos, e portanto a realidade, não ocorrem, têm tendências a ocorrer. O próprio tempo tem tendência a ocorrer num mesmo sentido e direção, mas é só isso, uma tendência.

A diferença entre ser e ter tendência a ser é enorme. E isso não é uma discussão filosófica, não é Hamlet. 


É Fisica Quântica. A teoria que faz seu celular funcionar. 










A compreensão do comportamento da Luz e de sua velocidade é um ponto fundamental da Teoria da Relatividade. 


Einstein é luz, luz é Einstein. Todo o conceito começa por aí.


Einstein descobriu que no universo que habitamos a velocidade da luz não se altera, que é o limite de qualquer velocidade e que nenhuma velocidade pode ser maior que essa.


Tudo seria relativo, menos a velocidade da luz.


Quanto mais se acelera um objeto mais se gasta energia para aumentar sua velocidade. Isso é fácil de entender. Por ser a velocidade limite deste universo para se acelerar qualquer partícula até a velocidade da luz seria necessária toda a energia contida neste universo. 


Este é o limite.





A luz se propaga em minúsculos pacotes de energia, os Quanta.



Mas a luz tem a dualidade de se comportar tanto como onda quanto como partícula. Ora como onda ora como matéria. 


Atenção: ela se comporta, ela não é. 

Ela se comporta às vezes como onda, às vezes como partícula, mas ela não é sempre onda, ela não é sempre partícula. 


A luz é assim meio que um Oxumaré das forças elementares. Faz o maior sucesso nos bailes quânticos, tira a maior onda, sai com todo mundo. Uma onda essa partícula. 





Portanto como a luz tem massa ela sofre efeito gravitacional, e ao sofrer a ação da gravidade ela se curva em seu trajeto.


A luz assim como eu e você, tem massa e portanto na presença da gravidade tem pêso.


Se você estiver num açougue, achar que estão te enganando, duvidar do peso da carne e acender uma lanterna em cima dela para olhar o rótulo, cuidado por que ela vai ficar ainda mais pesada.







Energia idem.


Se você pesar uma mola e depois comprimi-la ela vai pesar mais por que além da massa ela agora está guardando a energia que a comprimiu.


Se foi você quem comprimiu, você ficou mais leve. Não é bem uma dieta, mas funciona assim.





Voltando a acender a lampada do gênio.

Ao cruzar a imensidão do espaço a luz se curva ao passar próxima aos corpos de grandes massas como as estrelas e outros astros. Ela se curva atraída pela gravidade dos corpos celestes.

Nestas situações em que a luz se curva  junto com ela também se curva o Tempo e o Espaço.







Há situações em que o espaço-tempo se comporta como uma curva de Möbius, aquela superfície em que se caminha sempre na mesma direção mas se muda do interior para o exterior, de uma dimensão para a outra sem quebra ou interrupção.

Lacan levou Einstein para o divã levando o conceito da relatividade para a Psicanálise. Passeando pela curva de Möbius ele mostra que não se deve fazer distinções polares, como interior/exterior et pour cause sanidade/loucura.

Freud que conhecia Einstein assinaria em baixo. É tudo relativo.

Na curva de Möbius você muda da face interna para a externa, você sai de uma dimensão e passa para outra sem notar.

O universo funciona mais ou menos como Alice No País Das Maravilhas. Ele é até mais bizarro.







Tudo isso acontece e afeta nosso dia-a-dia.


Inclusive o fato, aparentemente absurdo, do tempo passar mais devagar ou mais rápido dependendo da situação.


Por exemplo: por causa da enorme velocidade em que giram, para os 30 satélites que formam o sistema GPS o tempo passa mais lentamente do que para nós aqui embaixo na superfície da Terra.


Ao fim de cada dia eles estão 39 milionésimos de segundo mais jovens que nós. Atenção que para eles nós é que ficamos mais velhos. Viu só que é tudo Relatividade? Sempre depende do observador.





Parece não ser muito mas se esses 39 milionésimos não fossem considerados pelos sistemas de cálculos isso causaria um erro de até 11 quilômetros por dia, e acumulativos, ao determinar nossa posição.




Imagine as consequências na navegação de navios e aviões. Caos total. Pior que aeroporto brasileiro.




Você que acabou de comprar um aparelho de GPS novinho para seu carro voltaria na loja para reclamar que o aparelho mostra posicionamentos absurdos. O vendedor ia lhe pedir desculpas por que para estes satélites o tempo passa como as tardes em Itapuã.







Michael Frayn conseguiu tornar tudo isso mais compreensível para o grande público na peça Copenhague. Além de falar do princípio da incerteza na física quântica, Frayn fala das incertezas na história e na filosofia. Imperdível.

Carlos Palma, criador do Núcleo Arte Ciência No Palco que investiga as relações entre Arte e Ciência, montou o espetáculo no Brasil e foi premiado em 2001.






Einstein diz que a inspiração precede o conhecimento. Isto é uma afirmação seríssima. 

Quando criança ele imaginava como seria viajar pelo espaço sentado num raio de luz.

A inspiração rompe as barreiras do estabelecido e estende os horizontes da Ciência.





Portanto nada melhor que uma boa dose de inspiração para entender tudo isso. 


Uma brilhante compreensão da Relatividade, do Princípio da Incerteza e das relações quânticas onde partículas e energia não tem quantidade, energia ou forma definida para se medir e determinar é cantada por Gilberto Gil, com a mesma inspiração que iluminou Planck e Einstein.





Quando quase não há


Quantidade que se medir


Qualidade que se expressar


Fragmento infinitésimo


Quase que apenas mental


Quantum granulado no mel


Quantum ondulado no sal 




Mel de urânio, sal de rádio


Qualquer coisa quase ideal


Cântico dos cânticos


Quântico dos quânticos...


... Sei que a arte é irmã da ciência




Ambas filhas de um Deus fugaz


Que faz num momento


E no mesmo momento desfaz


Esse vago Deus por trás do mundo


Por detrás do detrás


terça-feira, 5 de abril de 2011

Low Fares


Quando David Neeleman criou em 1999 a Jet Blue, a primeira low-fares airline, em Nova Iorque, ninguém imaginou a revolução que estava se iniciando. A partir daí surgiram e proliferaram as empresas aéreas de baixo custo. 

Uma revolução nos transportes, no lazer e nos negócios que levou a uma mudança nos hábitos e costumes contemporâneos.





David, que é filho de holandeses, nasceu no Brasil e ficou aqui até aos cinco anos quando a família se mudou para os Estados Unidos. Hoje ele está de volta ao e fundou a Azul nos mesmo moldes da pioneira Jet Blue.


O conceito é simples.


Padronização da frota, usando um só tipo de aeronave, para baixar os custos de manutenção e treinamento. Serviço mínimo de bordo, que além diminuir custos aumenta a disponibilidade de espaço para transporte de cargas pagas. Baixos salários e forte espírito de equipe.


Mas principalmente e acima de tudo planejamento de rotas para uso intensivo da aeronave com o mínimo de tempo no solo.


Afinal lugar de avião ganhar dinheiro é lá em cima.





Os aviões da Jet Blue não passam mais de trinta minutos no solo. Houve anos em que eles alcançaram a média recorde de vinte e sete minutos de permanência nos aeroportos.

Mesmo empresas européias tradicionais como a British Airways, Lufthansa, KLM e Air France tiveram que se adaptar e oferecer tarifas flexíveis para enfrentar a concorrência das novatas como Air Lingus e Ryanair, moldadas no conceito de low-fares da Jet Blue.



A Ryanair tem preços absurdamente baixos.

Mas paga-se por qualquer extra: check-in real, lanche à bordo e bagagem de mão. Atendimento? Telefones à cobrar.


Durante o vôo os ecrans anunciam promoções e produtos diversos; o vôo é uma feira onde as aeromoças/vendedoras vendem de tudo. 

Há estudos da empresa para mudar os assentos e transforma-los em bancos de apoio altos para se viajar quase em pé e aumentar a capacidade do avião.

E por fim a wee-fee, a taxa do pipi. Banheiro pago. Só um irlândes como O'Leary poderia pensar nisso.





Hoje parece distante o tempo quando viajar de avião era um privliégio cheio de charme e para poucos. Serviço de bordo de primeira, bebidas à vontade, aeromoças elegantes que povoavam as fantasias masculinas e inspiraram musicas. 


Tudo isso parece coisa de um passado no mínimo romântico.


Claro que ainda há nichos de mercado ocupados por companhias como a Emirates onde existem confortos e luxos muito maiores que antigamente. Cabines individuais com camas horizontais e banheiro com ducha, discotecas, bares, salas de massagem e de ginástica.


Mas a regra é o transporte popular. 






Viajar de avião é de longe mais barato que viajar de carro, trem ou ônibus. Mesmo que para que isso sejam servidas apenas algumas barrinhas de cereais ou uns pacotinhos de amendoins.


Parece difícil de acreditar que se podia viajar regularmente, pagando apenas 20% a mais da tarifa normal, na primeira classe de um jumbo da Varig, um Boeing-747 de dois andares, em um vôo curto de pouco mais de duas horas de Salvador para São Paulo. 

No vôo, atendido por um garçon e um maître, duas ou três opções de refeição eram servidas em pratos de porcelana, talheres de prata, acompanhados por uma razoável escolha de vinhos servidos em taças. Depois sobremesas e licores. 


Se é dificil de acreditar num vôo como esse, mais difícil é acreditar que alguém olhasse para a planilha de custos.






Viajando de Berlin para Londres embarquei no Tegel num vôo curto da British Airways; quase uma ponte aérea.


À medida que os passageiros entravam notei entre nós uma menina bem jovem, hippie, vestida com aquelas roupas características.


Havia de tudo no avião. 

Executivos de gravata, jovens de mochila, operários com roupa suja de trabalho, famílias inteiras e esta hippie com uma criança no colo.


Todos acomodados, portas fechadas, avião taxiando, cabeceira da pista, motores a toda, decolagem, subida acentuada e pronto. Velocidade de cruzeiro, vôo normal.


Nem tanto.






A criança que estava com a hippie começou a enjoar e de repente blarghh!


Vomitou tudo e todos em volta.


As aeromoças apareceram para ajudar. A menina hippie levantou-se levando a criança em direção ao toalete. Uma das aeromoças limpava as poltronas e auxiliava os passageiros enquanto a outra limpava o chão. 

Eu observava tudo a duas filas de distancia, aliviado por meu Armani não ter ficado perto do blargh. Em pouco tempo tudo se normalizou.






Eis que a menina hippie volta.

Ela tinha se limpado e lavado a criança que agora estava envolta nuns trapos. Todas as roupas sujas ela tinha lavado no toalete e as trazia nos braços.


Ela aproximou-se da poltrona e sentou a criança nela. Colocou o cinto na criança, levantou-se e começou a abrir os maleiros que ficam por cima das filas de poltronas. Abriu um por um.


Na borda de cada maleiro que abria ela colocava uma das roupas que tinha lavado. Fechava a tampa e a roupa ficava presa, pendurada.


E assim ela foi abrindo e fechando os maleiros, pendurando todas as roupas que tinha acabado de lavar. Colocou todas, as roupas intimas inclusive, todas penduradas ao longo do corredor acima da cabeça dos passageiros.






O 757 da BA seguiu até o Heathrow com o corredor transformado em varal de roupas.

Nínguem disse nada.


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Coimbra. Vinícius e a Juventude Portuguesa.

Vinícius de Moraes fazia um show em Coimbra, cidade universitária de Portugal.

Platéia cheia de jovens de ouvidos e olhos vidrados no Poetinha. Ao fim do espetáculo, o público vibra, aplaude. Ele agradece entusiasmado, sorridente,

- Muito obrigado juventude portuguesa!



Imediatamente os aplausos se transformam em vaias.

Vinícius não entende o que esta acontecendo e volta a agradecer à juventude portuguesa alí presente, tão simpática, que ele gostava tanto.

- Obrigado a esta grande juventude portuguesa!

Aumentam as vaias e quanto mais Vinícius agradecia mais as vaias aumentavam.



Ele terminou sem entender o que estava acontecendo.


Depois quando lhe explicaram ele entendeu a gaffe enorme que cometera.


Para todos alí presentes Juventude Portuguesa á a juventude salazarista. Uma mancha na história recente do país: o equivalente português da juventude hitlerista, a Hitlerjugend.


A Juventude Portuguesa havia sido mais um dos instrumentos políticos organizados pela ditadura de Salazar que tinha oprimido Portugal por décadas.

Vinicius sem querer tinha ofendido aqueles jovens democratas.



Algo semelhante aconteceu em Munique, quando o cantor inglês Pete Doherty líder da banda de rock Babyshambles cantou o hino nacional alemão durante o festival ON3 em 2009.


Pete foi vaiado sem piedade pelo público presente e depois acabou sendo obrigado, pela organização do festival, a fazer um pedido público de desculpas por ter insultado o país.



Pete achava que estava fazendo uma homenagem ao cantar o hino nacional, composto em 1841.


Ma o coitado não sabia que a primeira estrofe do hino foi banida. Foi proibida de ser cantada.

A estrofe Deutschland Über Alles, "Alemanha, Alemanha acima de tudo, acima de tudo" ficou associada ao ultra-nacionalismo do período nazista e foi retirada do hino.


Só se cantam as outras estrofes.



A Europa é cheia de sutilezas.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Danúbio Azul


Que russo bebe prá cassete todo mundo sabe.


Que vodka é álcool puro também não é novidade, mas há uma história surpreendente da época tensa da Guerra Fria entre a extinta União Soviética e os Estados Unidos. 

A história que assombrou os meios militares da OTAN e do Pacto de Varsóvia, está em relatórios tanto da KGB quanto da CIA.





Quando Khrushev pela primeira vez instalou mísseis nucleares fora da União Soviética, crise cubana à parte,  ele os estacionou no coração da Europa, na Alemanha Oriental, numa das fases mais críticas da Guerra Fria.


Eram os mísseis R-5M, conhecidos no Ocidente pelas forças da OTAN como SS-3 Shyster, de estágio único, com alcance de 1.220 km, armados com ogiva nuclear.


Foram os primeiros mísseis estratégicos soviéticos com capacidade de alcançar todos os alvos importantes da Europa. 


Durante anos eles tiraram o sono não só dos estadistas europeus mas principalmente da população que sabia que qualquer faísca entre a União Soviética e os Estados Unidos explodiria a Europa.





Era muito claro para o mundo que se houvesse uma terceira guerra ela seria nuclear e a primeira vítima a Europa. O Velho Mundo desapareceria nas primeiras horas do conflito.


Einstein dizia que a terceira guerra mundial poderia ser de qualquer maneira mas a quarta com certeza seria na base do arco e flecha.


Enfim, a Europa durante muitos anos dormiu e acordou neste pesadelo de um Armagedon Nuclear.





Estes SS-3 Shyster nucleares utilizavam combustível líquido. 


Os mísseis eram movidos por um metanol a 92% azulado apelidado ironicamente pelos militares russos como "Danúbio Azul". 


Uma piada macabra com o possível destino da Europa.


Mas os soldados soviéticos, loucos por uma vodka, descobriram que esta maravilha tinha aplicações menos apocalípticas.





Provaram, adoraram e estavam bebendo todo o combustível dos foguetes nucleares. 


Para disfarçar a farra, evitar uma investigação e uma corte marcial, eles substituíam o combustível por um metanol amarelado, barato e de baixa pureza.





Imagine as conseqüências destas impurezas no motor de um míssil sendo disparado. Deus realmente protege as crianças, os loucos e os bêbados.