terça-feira, 30 de julho de 2013

Dr. Strangelove Ltda ou Stasi GmbH


Cientistas inimigos brilhantes povoam a literatura, os filmes de espionagem, a imaginação e a realidade.


Wernher Von Braun criador das Vergeltungwaffe, Armas da Vingança, as terríveis bombas V1 e V2 que os nazistas despejaram sobre Londres foi uma das maiores presas que os americanos fizeram no fim da guerra.




Imortalizado por Stanley Kubrick e Peter Sellers em Doctor Strangelove, ele é o pai de algumas gerações de ICBMs, mísseis atômicos intercontinentais, e é principalmente o pai do programa espacial americano, a NASA.


No dia anterior ao histórico lançamento da missão Apolo de desembarque na Lua, a NASA conduzia uma entrevista coletiva onde Von Braun respondia perguntas da imprensa. A certa altura um repórter lhe perguntou,


- O senhor tem certeza que estes foguetes não caírão em Londres?


O kraut se retirou da sala irritadíssimo.





Após a queda do Muro de Berlim os alemães estavam desesperados para evitar que os criptoanalistas da Staatssicherheit, a Stasi o serviço secreto e de inteligência da Alemanha Oriental, caíssem nas mãos erradas.


O governo de Helmut Kohl estava interessado em algo mais do que o material politicamente explosivo contido em alguns dos arquivos da Stasi. Ele estava de olho nos brilhantes especialistas da agência que foram capazes de desenvolver excelentes códigos e quebrar outros tantos. Os matemáticos e analistas da Stasi eram reconhecidamente muito bons nas duas coisas.



A Alemanha Ocidental precisava integrá-los e impedir que estes cérebros altamente treinados da Stasi entrassem no mercado. Analistas e matemáticos que passaram décadas decifrando os métodos de criptografia da Alemanha Ocidental e que quebraram os códigos de muitos serviços de inteligência. O pior dos pesadelos era que eles fossem trabalhar para países “complicados”, máfias ou terroristas.





O Ministério do Interior, sem poder absorvê-los, decidiu que os peritos deviam ser transferidos para uma empresa de fachada. O governo federal forneceu toda a assistência que podia e com a máxima discrição foi criada em janeiro de 1991 a Rohde & Schwarz SIT GmbH. Inicialmente ela ficou sediada em Grünheide, Brandenburgo, curiosamente no prédio de uma creche da antiga Stasi.


Não deixa de ser a aplicação literal e irônica do conceito de incubadora de empresas.





A operação começou durante os dias finais da Alemanha Oriental em 1990.


O então ministro do Interior da Alemanha Ocidental Wolfgang Schäuble, atual ministro das Finanças do gabinete de Angela Merkel, encarregou dois altos funcionários do Ministério do Interior, Hans Neusel e Eckart Werthebach, para cuidar das conseqüências dos 40 anos da guerra de inteligência entre as duas Alemanhas.





A transferência destes criptologistas da Stasi para a Alemanha Ocidental foi tratado de forma discreta pelas autoridades que não queriam que ninguém descobrisse a integração de oficiais da Stasi na Alemanha. A operação foi tão secreta que se manteve desconhecida até pouco tempo.


A SIT logo se tornou uma história de sucesso e assumiu a divisão de criptologia da gigante alemã Siemens. Um trajeto direto dos porões da Stasi para a iniciativa privada, sem escalas.


Ela emprega cerca de 150 matemáticos, engenheiros e cientistas que orgulhosamente se autodenominam como o "fornecedor preferido de alta segurança de criptografia" para da OTAN.




Criada em 1991 a SIT agora tem sede em Berlim e desde 2004 é classificada como "parceiro de segurança" pelo Ministério do Interior alemão. A SIT também é conhecida carinhosamente como Stasi Ldta. É deles o sistema Cosmic, o nível de mais alto sigilo da OTAN e o sistema Elcrodat que é equipamento de série em submarinos, fragatas e helicópteros militares da aliança militar do Atlantico Norte.





Na entrada do prédio da empresa no bairro de Adlershof em Berlim há um pequeno museu que guarda - orgulhosamente para uns, arrogantemente para outros - recordações do bons e velhos tempos. Ein kleines Museum.


Lá estão expostos vários equipamentos de codificação e decifração e entre eles uma maquina metálica verde do tamanho de uma geladeira, a T-130, o grande orgulho da Stasi usado na codificação de mensagens de telex. Com uma certa dose de Ostalgie.





Para mostrar sua gratidão aos esforços da empresa o governo alemão fez mais do que garantir contratos milionários. Eckart Werthebach antigo chefe da inteligência alemã e, portanto o principal adversário da Stasi entregou a um executivo da STI GmbH a Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha.



O executivo representando a equipe, recebeu a condecoração em uma cerimônia formal em Villa Hammerschmidtem, Bonn, a antiga residência oficial do presidente alemão. Werthebach estava na verdade condecorando os antigos inimigos que agora ele trata como camaradas.

Um espião prá chamar de seu.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Pôr de Sol em Lisboa


Adoro voar, sempre gostei.

Comecei a voar aos tres anos e a voar sozinho aos cinco. Meus pais me despachavam naqueles DC-3 da Panair e nem no aeroporto eles me levavam pois na época havia kombis que te buscavam em casa. A aeromoça que me cuidasse.

Claro que eu adorava o paparico das aeromoças pois naquela época só havia Mentos da Van Melle nos aviões e elas me enchiam os bolsos. E além de tudo ainda me levavam na cabine do piloto.



Além de curtir vôos comerciais quando eu era adolescente voava e pilotava planador num aeroclube. Havia um piloto da Varig, pai de um amigo de escola, e instrutor do aeroclube que lá nos levava nos fins de semana.

Gosto de voar em qualquer coisa e já quebrei braço, coluna e pescoço num acidente de asa-delta. Fico feliz quando preciso viajar mesmo que seja a trabalho por que sei que um vôo me espera.

Navego, observo, curto, e às vezes chateio a tripulação. Baseado naqueles mapas que as revistas de bordo têm, calculando a distancia pela velocidade de cruzeiro que em geral é de 800 a 850 km e me orientando pela posição do sol consigo me posicionar.



Certa vez em um vôo pedi à aeromoça para confirmar com o piloto se estavámos sobrevoando uma certa montanha, estávamos. Depois pedi para perguntar de novo ao piloto se aquele era um certo lago, era. Depois quando pedi outra informação, agora já por uma terceira vez, ela voltou com um convite do piloto para ir à cabine. Tipo assim: trás esse chato logo para cá.

Foi ótimo, conversei muito e vi tudo muito melhor.



A coisa mais bonita que já vi pela janela de um avião aconteceu num vôo de Lisboa para Amsterdã, rota norte subindo a costa.

O vôo era no exato final da tarde. Portas fechadas, cabine pressurizada, reboque terminado, o avião começou a se dirigir para a cabeceira da pista para iniciar a decolagem.

Chegando lá o avião não decolou imediatamente, ficou a esperar pela liberação da torre de controle.

Da minha janela eu estava assistindo o começo do por de sol. Como era um por de sol típico de outono eu torcia para que a autorização de decolagem demorasse. Demorou mesmo e deu para assisti-lo por inteiro. Lindo.



Logo após o sol desaparecer sinto o avião trepidar com as turbinas à plena potencia iniciando a decolagem. Trinta e dois segundos depois, decolagens em jatos médios variam sempre em torno dos trinta segundos, estávamos decolando.

Olhando pela janela o sol que acabara de se por começou a subir no horizonte, começou a nascer. Isso por causa do fato de estarmos subindo e vendo-o de uma posição relativa mais alta que a do solo. Lá estava o sol a nascer, e era um nascer lindo, como se fosse um novo dia.

Depois da subida inicial, o avião já quase em altura de cruzeiro começa a diminuir a velocidade de subida. Esta nova posição relativa fez com que o sol começasse de novo a descer em relação ao horizonte. Para mim ele estava se pondo pela segunda vez no mesmo dia!



Este segundo por de sol além de muito bonito teve uma característica deslumbrante: como continuávamos a subir, agora mais lentamente, nossa altura relativa variava devagar e por isso o por de sol levou muito mais tempo que o normal sendo assistido de um avião em subida suave.

Absolutamente maravilhoso.

Foi como se depois de um belo por de sol você pedisse a Papai-do-Céu:

- Puxa, foi tão bonito. Dá pra o Senhor repetir?

- Claro meu filho, é só pedir.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

Buzú







Morei num bairro tranquilo e tradicional de Salvador. A Graça não é um bairro grande e é cortada por uma avenida estreita. Esta avenida de apenas três pistas é a espinha dorsal do bairro. Todas as outras ruas deságuam nela.





Uma manhã dessas tomei um ônibus. Um buzú. Estava vazio com apenas algumas pessoas sentadas. Eram umas oito horas da manhã. 


Inesperadamente o buzú que seguia pela avenida de repente para. Não havia trânsito, não havia engarrafamento, também não era um sinal fechado, vermelho. Mas o ônibus parou. E parou em uma esquina.





O cobrador estava lá na frente conversando com o motorista. Cobradores em Salvador não ficam sentados em seus lugares atendendo os passageiros. Eles ficam lá na frente, bem embaixo daquela placa “só fale ao motorista o indispensável”, conversando animadamente com o colega. Sempre.


Ali é o lugar natural dos dois passarem o tempo, aliviarem mutuamente a longa espera pela hora de voltar para casa, para o bar, o futebol, o bloco, a nêga.





O Buzú parou. 


O motorista abriu a porta e o cobrador desceu. E lá foi ele para a esquina. Na esquina havia uma baiana e um tabuleiro. As baianas à tarde vendem acarajés e abarás. Pela manhã vendem bolos, mingaus e sucos .


Em pé, ao lado da baiana, o cobrador gritava para o motorista as opções do tabuleiro,


- Tem mingau de tapioca.


- De milho verde não tem não?


Enquanto isso o ônibus parado começou a provocar um pequeno congestionamento na avenida. Os carros que se dirigiam pela manhã para trabalho e escolas já formavam uma fila à espera das escolhas da dupla. Como a avenida é central o engarrafamento provavelmente já se estendia pelas ruas transversais.


- E tem suco de manga?


- Não, só tem de maracujá e pitanga, vai?


- Que jeito, vai maracujá mesmo. E o bolo? É do quê?





E o engarrafamento aumentando. 


Mas como baiano é paciente e vive num ritmo temporal especial, o Tempus Bahianus, ninguém ainda estava buzinando. Apesar do buzú já estar criando uma situação crítica em todas as imediações.


Nisto uma senhora que estava sentada no ônibus, obviamente uma pessoa estressada e sem o menor axé, resolve interferir nesta cena de fazer Caymmi, sofrendo lá no paraíso coitado, sentir ainda mais saudades da santa Bahia.


- Senhor motorista!





Atenção para a formalidade desta expressão que demonstra a completa falta de sensibilidade e capacidade de contextualização ao meio ambiente desta senhora, que deveria ter se dirigido ao rapaz em termos mais respeitosos. Do tipo,

 – Ô môtô! Ou melhor ainda,

 – Ô meu bró.


Bem, mas infelizmente foi assim mesmo que ela disse,


- Senhor motorista!


- Diga minha tia, respondeu educadamente o rapaz, sem se ofender com a aspereza do tratamento que acabara de receber.


- O senhor não pode parar um ônibus, engarrafar completamente uma rua inteira e deixar seus passageiros à espera que o senhor escolha seu mingau.





O rapaz depois de ouvir palavras tão duras, de um raciocínio tão intolerante e preconceituoso, se levanta atônito. Abre os braços num gesto largo,


- Minha tia... eu tô cum fome, eu tô trabalhanu. Eu preciso mi alimentá.


Uma lógica cristalina, perfeita, irrespondível.


O trânsito que esperasse!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Wellies


Beaconsfield, no Buckinghamshire, é um dos suburbs mais charmosos de Londres, bem no meio das Chilterns, próximo das Burnham Beeches. Há casas belíssimas, jardins de sonho, estradas suaves na paisagem idílica do countryside inglês,  ondulações que se sucedem suavemente nas colinas Chilterns. 


A exatos 35 minutos do Hyde Park pela M4 e M40 a vila surgiu por ficar exatamente a meio caminho entre Londres e Windsor. Ali no meio da viagem se fazia a troca de cavalos por outros descansados.






Além das casas há muitas mansion houses, manor houses, palácios, castelos e grandes propriedades, muitas delas históricas. A quantidade circulante de Astons, Bentleys, Ferraris e Rolls é altíssima. Além dos simples Jags, Porsches, Beemees, Mercs e não raros Lambos.


Bosques e mais bosques, estradinhas deliciosas com pequenas placas de transito para não poluir visualmente a paisagem. Pubs, inns, pontes, riachos e igrejas à beira das estradas.


Numa delas há uma passagem de patos. Como uma passarela para pedestres, sem as riscas brancas no chão, e uma placa com o desenho de um patinho.


Como todos respeitam, e os patos se condicionaram a cruzar por ali, eventualmente o transito para dos dois lados da estrada para uma pata atravessar acompanhada dos patinhos.






Muitas crianças vão sozinhas para as escolas seguindo pelas calçadas e atravessando as ruas no lugar certo. Ou então, como quase todos preferem, cortando caminho pelos bosques cujas trilhas são mais frequentadas que as próprias calçadas.


- Morning!


- And such a beautiful morning, is not?


Em alguns pontos de Beaconsfield, em Penn e Tylers Green, só há calçadas em um dos lados da rua para dar mais espaço para a grama, e não há iluminação pública pra as noites ficarem mais bonitas.






Burnham Beeches são um paraíso à parte.


Na chegada do outono, e depois por um longo período, o bosque vai gradualmente mudando de cor, assumindo as mais infinitas variedades de verde, marrom, amarelo e vermelho. Há momentos em que todas estas variações de tons e cores estão presentes ao mesmo tempo e um tapete vermelho amarelado se espalha por todo o chão.


A luz atravessa as árvores aqui e ali, ilumina espaços, se mistura e assume cores, cria focos e sombras teatrais. O silêncio se compõe suavemente pela bruma, pelo vento, pelo canto dos pássaros e por seus passos nas folhas secas.


É absolutamente deslumbrante. Fotos, cartões postais e wallpapers estão espalhados pelo mundo. Entrar, passear dentro deste cenário é uma experiência quase mística de tão profunda a beleza que lhe envolve.






A paisagem social também tem detalhes interessantes.

Além das famílias tradicionais há muitos casais jovens com filhos pequenos. As mulheres ficam em casa, sem trabalhar. É um comportamento relativamente novo e socialmente interessante.


Os casais formados em geral por dois profissionais muito bem sucedidos do centro de Londres resolvem ter filhos. Decidem se mudar do centro para Beaconsfield, comprar uma casa com um belo jardim e educar os filhos desde pequenos nas excelentes escolas públicas do lugar que estão entre as melhores do país.






A mulher interrompe temporariamente a carreira profissional para cuidar da casa e da educação das crianças, à moda antiga.


O marido vira um commuter indo e voltando diariamente pra Londres de trem. Durante toda a semana a bucólica estação da vila, no começo e no fim do dia, fica repleta de jovens executivos levados e trazidos por jovens esposas em carros caríssimos. Nos finais de semana eles cuidam juntos das crianças e naturalmente do jardim.






As mulheres criam interessantes mecanismos de convivência. O Tea Party acontece todos os dias durante a semana. Forma-se um grupo de mães na escola onde elas têm filhos de idades semelhantes. Cada dia uma delas ao final das aulas, no meio da tarde, recolhe todos os filhos das outras e os leva para casa. Lá ela preparou um tea party para os filhos e coleguinhas.


Durante o resto da tarde ela os entretêm com brincadeiras, jogos, chá, bolos e lanches. No final da tarde as outras mães aparecem, tomam um chá e levam seus filhos para casa. Pais e filhos exercitam uma convivência social agradável. Neste revezamento as mães têm muitas tardes livres para se cuidar e cuidar de casa e gastam apenas uma tarde para fazer um tea-party. 


Uma criação simples e prática, como os ingleses.






Nos fins de semana as lojas locais de DIY (do it yourself) e de gardening ficam cheias do que o príncipe Charles a contragosto chamou de “um país de jardineiros”.


O hábito é tão arraigado que as professoras nas escolas pedem que cada criança tenha e cuide de sua própria planta no jardim de casa. Desenvolve a afetividade, a responsabilidade, o gosto e o respeito pela natureza. E perpetua os ingleses.






Os jardins são naturalmente impecáveis e você descobre que já está integrado ao meio quando um dia alguém lhe pede seu cortador de grama, emprestado. É um código definitivo. Se um vizinho se ausenta por alguns dias, os outros cuidam de sua grama.


Há também outras obrigações não escritas. Mesmo que não se tenha um gato, o que é que raríssimo, é preciso ter comida para eles servida e disponível em casa para os gatos dos vizinhos que eventualmente apareçam na sua casa.


Neste ambiente há um lugar muito especial para as velhas senhoras. Velhinhas inglesas são um patrimônio da humanidade, deviam ser tombadas pela ONU. Simpáticas, educadas, gentis, fofíssimas. No Bucks sempre se acaba encontrando um mordomo no estacionamento do supermercado colocando as compras na mala do Bentley de uma delas.






Neste meio de regras e códigos muito claros há um símbolo delicioso. O mais surpreendente deles. As Wellies sujas de terra. Botas wellington verdes de borracha, discretamente sujas.

Prosaicas donas de casa circulam em Land Rovers dos modelos mais rústicos e despojados. Não dos luxuosos mas dos rudes. Aqueles modelos mais coloniais.


Desfilam elegantemente, displicentemente, usando green wellies discretamente sujas da terra da Rainha. Provavelmente ela não tem uma propriedade rural maior que um jardim. Mas num país onde a propriedade da terra, normalmente associada a títulos de nobreza, é um sinal definitivo de nobreza, essas botas sujas de terra são um discreto símbolo de status.


Por conta da simplicidade inglesa, e do stiff upper lip, ela ou uma baronesa são indistinguíveis no supermercado.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O Carlton Parou Por Alguns Momentos



Cannes não vive só do festival de cinema.




O Palais de Festivaux fica ativo durante o ano todo e o Ritz Carlton Hotel tem sempre grandes atrações. O Hotel fica exatamente no meio da cidade, de frente para o mar e da entrada monumental sai uma passarela que se estende até o cais onde aportam os iates.




Do barco para o cais, do cais para a passarela e dela para o tapete vermelho que recebe os ricos e poderosos que podem pagar as diárias altíssimas.









O Hotel que é uma joia da arquitetura fin-de-siècle tem um restaurante magnífico cujas reservas precisam ser feitas com mais de um mês de antecedência em períodos normais.




Além do festival de cinema Cannes tem outros e o MIDEM é um deles, o festival da industria da música. Fui lá à trabalho e levei Sandra, minha mulher. Como fomos de carro passamos por St Moritz que ainda tinha neve, descemos por Milano, Gênova, Mônaco, Nice e finalmente Cannes.









Descer de carro da Suíça para a Itália é uma delícia para quem gosta de um bom motor em um ótimo chassi. A estrada é sinuosa, escavada nas encostas dos Alpes. De um lado a montanha e do outro precipícios gigantescos com vistas deslumbrantes. As curvas se acabam no começo da próxima. Nas saídas de curva você precisa acelerar para conseguir mais aderência para vence-las, mas esta acelerada pode lhe colocar numa velocidade excessiva para a próxima e este erro será fatal.




Mesmo assim acelere ao máximo, faça as curvas um pouco acima do seu limite e sinta na beira desses precipícios o vazio esperando por um erro seu.









Chegando em Cannes não ficamos na cidade.




Eu tinha feito reservas num hotel em Les Mougins uma cidadezinha nas montanhas bem acima de Cannes nos Alpes-Maritimes. A vista é deslumbrante, os Alpes e o Mediterrâneo se encontrando em Mônaco e Nice. O lugar também é ponto focal dos perfumes franceses.




O hotel Mougin de Mougins além da arquitetura de piso único em meio a lindos jardins é conhecido pelo excelente pão e pelo foie gras de produção própria. Quando Sandra quis saber porque eu tinha escolhido aquele hotel assim longe de Cannes eu disse:




- Experimente o pão.









Na segunda noite convidei Sandra para jantar no Carlton. Ela se surpreendeu,




- Mas nós temos reservas?




- Não, mas vamos tentar mesmo assim.




Sandra colocou um mini-vestido preto bem básico e subiu num Charlles Jourdan altíssimo que lhe deixou com muito mais que seus 1,78 m. Pintou um traço leve nos olhos e mais nada.




O vestido preto acentuava tanto a alvura da pele como os cabelos louros, longos e lisos. Como era curto mostrava as pernas longuíssimas. Como era apertado acentuava as curvas e a cintura. O traço leve nos olhos realçava os olhos azuis. Long legs, blonde hair, blue eyes.




A alemãzinha estava linda.









Descemos a montanha, chegamos ao Carlton e paramos em frente ao tapete vermelho. Entreguei a chave ao valete e começamos a caminhar pelo tapete vermelho em direção às escadarias do Hotel.




A cidade estava cheia de celebridades, a Tina Turner estava se apresentando, o Michael Jackson estava sendo esperado e havia uma enorme quantidade de starlets e barões da industria fonográfica mundial.




Os paparazzi estavam indóceis.




Quando estávamos caminhando no meio do tapete vermelho, quase chegando nas escadas começo a ver flashes e mais flashes pipocando, fotos e mais fotos sendo tiradas.




Discretamente olhei para trás para ver quem estava chegando. Não havia ninguém.




Os flashes eram para Sandra.









Chegamos ao restaurante e encontramos na porta um maître elegantíssimo e uma hostess com o livro de reservas em um pedestal entre eles dois. Bem em frente às portas de madeira e cristal. Fechadas.




- Bon soir Madame, Bon soir Monsieur…




- Bon soir Monsieur, nós temos um pequeno problema.




- Oui Monsieur?




- Nós não temos reservas...




O maître olhou Sandra de alto a baixo. Encantado virou-se para mim e disse com um sorriso:




- Monsieur isso não é problema algum, por favor entrem e escolham a mesa que mais lhes agradar. Em seguida virou-se para ela,




- Madame.., fez uma mesura e abriu a porta.




Nós entramos e o restaurante literalmente parou para olhar. O Carlton em Cannes parou por alguns momentos.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Um Funcionário Exemplar


O Massacre na floresta de Katyn foi um episódio horripilante da ocupação nazista e soviética da Polônia em 1940.


No massacre em que foram assassinadas a sangue frio cerca de 25 mil pessoas, foi eliminado todo o corpo de oficiais do exercito polonês. Atribuído aos alemães foi sempre negado por eles que acusavam os russos.


Só durante a Perestroyka de Gorbatchov é que foi finalmente admitida a responsabilidade soviética. Blokhin foi o principal protagonista deste evento. Um dos mais impressionantes seres humanos que já passaram por este planeta.









Vasili Mikhailovich Blokhin, o performer de Katyn, teve sua mais brilhante atuação neste massacre quando executou pessoalmente mais de 7.000 oficiais poloneses capturados após a invasão soviética da Polônia. Pessoalmente, um a um. Todos os 7.000.




Este exemplar e dedicado funcionário público executando a ordem secreta № 00485 de 4 de abril 1940 de Stalin tornou-se o mais bem sucedido carrasco da História.




Zeloso, Blokhin planejou a operação em detalhes e inicialmente decidiu-se pelo ambicioso número de 300 execuções por noite. Ele criou uma operação eficiente em que os prisioneiros eram individualmente conduzidos a uma antecâmara pintada de vermelho, carinhosamente conhecida como o Quarto Leninista.




Depois de identificado o prisioneiro era algemado e levado para a sala de execução ao lado que tinha as paredes acolchoadas para insonorização, piso em declive de concreto com dreno para escoamento, mangueira de água e um quadro de registro.










Blokhin usava um discreto avental de açougueiro em couro, boné e luvas que protegiam seu impecável uniforme. Um a um ele atirava apenas uma vez na base do crânio dos prisioneiros com uma Walther TPH 2.25 alemã (*). Precavido ele trazia uma maleta cheia com suas próprias Walthers já que não confiava na TT-30 soviética.




Blokhin sempre fiel à sua reputação - na sua brilhante carreira profissional constam dezenas de milhares de execuções - trabalhava de forma contínua, rápida e sem interrupção.




Mas apesar de seu diligente esforço pessoal o número inicialmente planejado de 300 execuções por noite precisou ser ajustado para modestos 250 após a primeira noite de trabalho.










Entre 20 a 30 agentes da NKVD soviética - futura KGB e atual FSB - davam suporte a Blokhin. Eles faziam a escolta e identificação, removiam os descartes e mantinham o ambiente livre de sangue após cada execução. Toda a operação era realizada à noite e prosseguia até pouco antes do amanhecer.




Os resíduos da operação eram continuamente carregados em caminhões que duas vezes por noite iam para Mednoye, onde um trator e dois motoristas escavavam de 24 a 25 trincheiras de oito a dez metros que deveriam estar cobertas antes do amanhecer. A equipe trabalhava sem parar durante dez horas por noite e ao final do trabalho Blokhin distribuía vodka para todos. 




Nesta operação o incansável Blokhin, durante 28 noites consecutivas atingiu a impressionante média de uma execução a cada três minutos.










Lavrenti Béria, chefe do NKVD, reconheceu publicamente seus serviços como “irrepreensíveis”.




Stalin sempre atento aos talentos de sua equipe o promoveu a major-general e o condecorou com a Ordem da Bandeira Vermelha, uma honra reservada a poucos heróis soviéticos.











(*) não confundir com a Walther PPK, muito mais charmosa, a preferida de James Bond, a obra-prima de Carl Walther criada em 1929, produzida pela Carl
Walther GmbH Sportwaffen.






terça-feira, 16 de julho de 2013

Árvores de Cristal


Inverno.


Algo deslumbrante acontece com as árvores em
algumas condições: inverno muito frio, neve, céu azul e dias de sol.


As árvores estão
completamente desfolhadas, à tarde ou à noite a neve cai se depositando em cada
galho. Ao amanhecer, o calor do sol começa a derreter a neve lentamente, mas
como o frio é intenso a neve não chega a se transformar em água, mas em gelo
que adere a todos os galhos.


Totalmente envolvidas em gelo as
árvores assumem uma visão de esculturas de cristal. O sol ilumina os galhos
gerando reflexos brilhantes e coloridos.

As ruas ficam decoradas com
imensas esculturas de cristal debaixo do céu azul brilhante, flutuando no chão
branco e macio.


Você acorda, vai até a janela e se vê cercado de árvores de cristal,
brilhantes, cheias de luz, distribuindo raios coloridos.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Preta, preta, pretinha.


Passei por uma experiencia assustadora que literalmente gelou minha espinha, que me deixou atordoado por dias.


Há sempre uma intolerância latente nas sociedades que ó tempora, ó mores, ó loco, pode se dirigir contra judeus, homossexuais, negros, imigrantes, etc. Agora por aqui ela está bem focada nos fumantes, os discriminados da vez. Por consenso social estes grupos sofrem desrespeito, perseguições. A população se sentido legitimada discrimina impiedosamente. Até aqui nenhuma novidade.





Eis que, morando em Salvador fui um dia ao supermercado. Filas imensas, blá, blá, blá, o usual. Quando estou para finalmente ser atendido, a pessoa que acabara de pagar resolve discutir com a menina do caixa o preço de um determinado produto. Atenção: depois de ter pago.


Claro que a discussão que se prolongava era inútil. A menina aconselhava o cliente a procurar pela gerência, mas o cara estendia e estendia a conversa. Um chato.





Nisso eu me dirijo a ela e no mais puro e castiço baianês lhe peço,


- Ô minha pretinha, adiante aê meu lado.


A menina pulou da cadeira. Ficou de pé, a face transtornada, o dedo em riste me acusando,


- Ele me chamou de pretinha!


Todos pararam para ver o monstro discriminador. Eu.


Algumas pessoas próximas confirmavam,


- Ele chamou a menina de pretinha. Chamou sim, chamou mesmo.


A confusão se estendeu para as filas vizinhas. Eu completamente paralisado me perguntando: onde estou? que cidade é esta?


Me vi sendo acusado de preconceito racial, logo eu que já namorei negras, logo eu que sou apaixonado por Salvador, esta cidade de mais de 96% de mulatos.


Me senti num cenário de Kafka. Era por demais absurdo. Principalmente por ser a expressão intrinsecamente carinhosa. Principalmente por ser na Bahia. Principalmente por ser em Salvador.





Esta terra terá mudado tanto assim, terá se tornado tão igual às outras? A Bahia acabou?


Lá estava eu completamente petrificado. Acabara de rasgar o terceiro e o quinto artigo da Constituição, ferira o Código Civil e o Código Penal. Cometera crime inafiançável.

Iria parar nos jornais. Iria parar por dois a cinco anos na cadeia, mais a multa. Uma tragédia.

Bem pelo menos se eu fosse parar num tribunal, lá também teriam de estar comigo o Moraes Moreira, todo o grupo dos Novos Bahianos, o Luiz Caldas, o Tom Zé, a Bethania e o Caetano Veloso, no mínimo. O promotor teria contra nós pelo menos umas vinte músicas como prova de acusação de crime hediondo.

Lá estaria principalmente o Gilberto Gil que certamente pegaria prisão perpétua por ter afrontado a própria filha lhe batizando de Preta.



A confusão ficou tão grande que saí tranquilamente do lugar. Alguns dias depois reencontrei a mesma menina no caixa. Não resisti e disse,


- Pôrra minha pretinha cê armou o maior fuzuê. Deus é mais!


A pretinha riu.

Ufa! Deve ter sido uma distorção tempo/espaço, nível 5 sigma.

terça-feira, 9 de julho de 2013

O Falo. A Angústia do Ser, do Ter e do Estar.


Muita gente confunde falo com pênis. O Falo não existe na
realidade. Ele é uma representação que só existe na nossa cabeça. Quando Freud
utiliza os termos falo e fálico ele tem em mente uma fase do desenvolvimento da
libido. Libido é aquela energia que nos move na busca de um objeto de satisfação.





Bebês não procuram
satisfação no mundo exterior eles se divertem com o próprio corpo no que Freud
chamou de autoerotismo. Para eles a maior fonte de diversão é a própria boca
por isso usam  a chupeta ou o próprio dedo quando não têm o seio da mãe que ainda
não é um objeto externo. O seio é como se fosse parte da criança. Essa primeira
fase é a fase oral, depois a fonte principal de satisfação passa a ser o ânus, esta
é a fase anal. Elas de certa forma ocorrem simultaneamente.





Após essas duas fases
a libido se desloca para o pênis e para o clitóris. Aqui começam os problemas
pois até então não havia diferença entre meninos e meninas já que ambos se
satisfaziam com as mesmas partes do corpo. Neste momento surge a diferença que
permanecerá por toda a vida.


Agora as crianças descobrem
que existem diferenças, ele tem algo
entre as pernas e ela não. Assim meninos e meninas percebem a diferença entre si.
Mas não ainda como um que tem aquilo que no outro falta. Essa percepção vem
para o menino quando o pai ameaça que se ele ficar mexendo no próprio pênis
este será cortado.





Os garotos então concluem
por que as meninas não o têm. Elas tinham, mas o perderam por que mexeram muito em seus próprios pênis e por isso foram
castradas.


Para as meninas funciona
diferente por que elas não recebem a ameaça do corte. Para elas a diferença
entre o pequeno clitóris e o pênis seria por que elas têm um pênis filhote que irá
crescer. Como isso não acontece ela passa a achar que nasceu defeituosa. Os franceses sempre muito gentis preferem pensar em 
l'adorable absence.





Não é exatamente
assim que acontece mas serve para ilustrar o conceito do complexo de castração de Freud. Ele usa
o
mito do complexo de castração para responder por que há um macho e uma
fêmea.  Uns
que têm algo e outros que não o têm. Este algo
a Psicanálise chama
de falo.


Na verdade ninguém tem o falo pois a forma de
pensa-lo tanto para homens como para mulheres reside na possibilidade de não
tê-lo
. O homem teme ser castrado e a mulher tem inveja porque já nasceu
castrada. Duas angústias que os definirão para sempre.





Falo portanto não é
pênis. O pênis é apenas a origem da representação do falo. Sem pênis não
haveria a ideia de falo mas falo não é pênis, ele é uma representação
simbólica do pênis.


O falo pode ser
qualquer coisa que tenha a mesma significação deste órgão de completude. Algo
que quem tem não pode perder e quem não tem deseja ter. Esta representação
simbólica baseia-se no fato de que
não
gostamos de nos sentir incompletos
.





Daí a competitividade
masculina em mostrar conquistas como que para mostrar quem tem o pênis maior. 
Nas mulheres o
exemplo mais comum do falo é o filho. Supercuidadosas elas cuidam dos filhos como se
fossem parte do próprio corpo numa espécie de recompensa por terem nascido sem
pênis.


Por não deterem o Falo tanto homens quanto mulheres vivem na mesma eterna ansiedade, na incompletude de querer o que não têm, de não perder o que têm, na ansiedade do Ser, do Ter e do Estar.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

As Cores e a Gastronomia de Miranda do Douro



POR TAANIT CORRÊA










A Gastronomia em geral e a regional em particular abrange não apenas a culinária, mas as bebidas, os materiais usados na alimentação e todos os aspectos culturais de uma região como o vestuário, a música e a dança.




Todos estes elementos realçam suas cores, um dos mais fortes componentes da arte gastronômica.









Uma cidade e sua região.




Mirando do Douro, em mirandês Miranda de I Douro, é uma cidade portuguesa do Distrito de Bragança, na região do Alto Trás-os-Montes, que sendo muito única, tem até sua própria língua o Mirândes. Ergue-se imponente na margem direita do Douro que a separa da província espanhola de Castela e Leão e existe como povoado desde a idade do Bronze.




No século VIII, os Árabes conquistaram-na e deram-lhe o nome de Mir-Andul que depois derivou para Miranda. No início do século XII D. Afonso Henriques teria mandado fortifica-la.




Por sua importância estratégica D. Dinis concede-lhe foral em 1286 e no século XVI o Papa Paulo III concedeu-lhe o Bispado de Mirando do Douro. Finalmente a 10 de Julho de 1545 o rei D. João III atribui-lhe a categoria de cidade. 




Sua posição fronteiriça ganhou significado nos diversos conflitos com os espanhóis e franceses e já em 1640 Miranda era a localidade militarmente melhor apetrechada em todo o Nordeste Transmontano. Não obstante foi conquistada pelos espanhóis em 1762 na chamada guerra dos sete anos, ou como também é conhecida, a guerra do Mirandum.




Neste conflito o dia 8 de Maio marcou para sempre a cidade quando o paiol da Praça com cerca de 30 mil quilos de pólvora explodiu matando mais de 400 pessoas. Miranda ficou praticamente destruída e perdeu importância no séculos seguintes.









Os elementos da cultura das Terras de Miranda




Miranda do Douro, eminentemente rural, se destaca pela pecuária, vinicultura e olivicultura. Produz vinhos brancos e tintos como o Pauliteiros, Lhéngua Mirandesa e Ribeira do Corso. Lá é feito o azeite extra virgem da Terra Fria, o Casa dos Pradas.




O concelho tem várias raças autócnes como a bovina Mirandesa, a Churra Galega Mirandesa, a asinina Mirandesa e o cão de gado Transmontano.









Longos e frios invernos seguidos de verões curtos e quentes, quase sem transição, identificam a Terra Fria como de "nove meses de inverno e três de inferno" na expressão popular. O Inverno chega a extremos muito baixos com período de geadas nos meses de Outubro a Maio, deixando-a coberta de branco.




Nos Verões quentes e secos o solo xistoso absorve a água deixando a paisagem verde apesar de árida formando um contraste único e tornando possível uma grande variedade de flora. Umas alimentando os gados, outras utilizadas na mesa como as castanhas e nozes.




As paisagens ficam ainda mais coloridas pelas malhadas, as pastagens naturais de sequeiro usadas no pastoreio de ovinos.









Na Terra de Miranda, e em todo o Planalto Mirandês, ainda hoje se celebram as festas solsticiais de Inverno. São rituais de profundo significado mitológico, ritos de iniciação, mitos do eterno retorno.




A dança típica de Miranda é a dos Pauliteiros, uma dança comum à Península Ibérica que une tradições militares dos povos autóctones, dos greco-romanos, dos medievais e de outros.




Embora a Dança dos Pauliteiros possa ter existido anteriormente terá vindo para Miranda com os repovoadores do reino de Leão.









Posteriormente os povos conservaram estas danças para celebrarem a recolha dos frutos e dos cereais, assim como a passagem dos solstícios de Verão e Inverno.




Os trajos utilizados são militares e constituídos por enáguas (saias) brancas, camisas de linho brancas, coletes com lenços coloridos sobrepostos e chapéus negros com flores coloridas.









O brasão do concelho de Miranda do Douro é constituído por armas de ouro com um castelo vermelho, aberto e iluminado à prata. A torre central é encimada por um crescente de vermelho apontado ao centro do escudo. A Coroa mural é de cinco torres de prata com um listel com os dizeres “Cidade de Miranda do Douro” a negro.




O ouro indicado para o campo heráldico é o metal rico que significa felicidade, constância e poder. O castelo e o crescente são em vermelho que significa vitória, ardis e guerra. E o castelo aberto e iluminado é de prata metal que significa humildade e riqueza. 









O traje regional mais significativo é a Capa de Honra que seria usada quase exclusivamente por pessoas com alto nível econômico. A amplitude da capa de honras indica a capacidade económica do utilizador.


O capuz, com capeto, inteiramente bordado, termina numa larga faixa denominada Honra cujo tamanho é representativo da riqueza e importância do utilizador uma vez que a peça necessita de 10 metros de burel, um tecido de lã pisoado.




O nome Honra não provém unicamente do seu uso por pessoas ricas e nobres, mas por ser muito trabalhada. 




A Capa de Honra era também usada pelos boieiros, que a utilizavam não só como protecção contra o frio e a chuva, mas também para se deitarem sobre ela enquanto andavam nas suas fainas.






Nos dias de hoje ela é indispensável em qualquer tipo de cerimônias.









Na Metalurgia, a arte do Ferro e seus trabalhos foram forjados por uma pleíade de ferreiros anónimos que ao longo do tempo trabalharam os pica-portas das casas mirandesas, forjaram os apetrechos da lavoura, as facas, as relhas, as machadas, os calagoiços, as grades das varandas e muitos dos apetrechos de cozinha.





Na tecelagem a utilização de fibras de origem animal é antiga e provem dos ovinos, que existem na região. Perdem-se nos tempos os saberes de trabalhar a lã pelas mulheres a cardar, fiar, tecer e utilizar nas suas várias formas a lã.









Os sabores da região




Os sabores de Miranda, indubitavelmente agrestes como as paisagens, são fruto de uma cultura de hábitos profanos. Exemplo é a famosa Posta Mirandesa surgida de forma humilde, no instintivo e único gesto de atirar um naco de carne para cima de uma grelha quente, colocando-lhe sal grosso e servido-o em cima de um pedaço de pão caseiro.




Desta forma, e sem atentar muito bem a preciosidade do que serviam, os taberneiros das feiras de gado enchiam o estômago a quem apreciava a boa carne de Miranda.









Como a Posta Mirandesa, os outros elementos da cozinha tradicional são simples, utilizando a carne das raças autóctones da região, não muito condimentadas mas fortes para sustentar e dar força aos trabalhadores que suportam o clima agressivo.




A gastronomia tradicional é composta pela posta de vitela da raça bovina Mirandesa, o cordeiro de raça Churra Galega Mirandesa, enchidos de porco, produtos de caça como perdiz, coelho, javali e lebre e mais as castanhas. Em pratos de peixe está presente o bacalhau e o polvo.






Frequentemente assadas na brasa, estas carnes e peixes apresentam cores fortes e quentes, em tons de castanho e branco, acompanhados por grelos, batatas, castanhas, arroz, pão e cascas, feijão seco dentro das vagens, que acentuam as cores castanhas, exceptuando-se o verde dos grelos.




No fumeiro, podem-se encontrar as tradicionais alheiras, o butelo com cascas, o salpicão e a chouriça.




Na doçaria, são tradicionais as Súplicas, os Sodos, os Roscos e a Bola Doce Mirandesa.









As cores da gastronomia de Miranda




Em todos os elementos culturais e da gastronomia de Miranda estão presentes o vermelho, vários tons de castanho, o preto e branco.










O Branco.




Presente nas geadas do inverno, nas toalhas de mesa bordadas, nos trajes tradicionais dos pauliteiros, no bacalhau, na batata cozida, no arroz e no miolo do pão de trigo, complementa os pratos dando a leveza e frescura que os enchidos e as carnes não dão.




O branco forma um contraste que realça a rusticidade do prato, tradicionalmente servido em barro, a lembrar as geadas brancas em contraste com o solo árido, típicos da região.




Sendo uma região de culturas agrícolas e pastos nela vivem trabalhadores árduos que mantêm as culturas e cuidam do gado. Assim depois de um longo dia de trabalho o branco presente na refeição dá ideia de limpeza e tranqüilidade. A recompensa de um dia de trabalho produtivo e a presença do divino, dando as boas vindas ao descanso.









O Vermelho




Ele é encontrado na carne e nos enchidos, como a chouriça, o butelo e o salpicão, no polvo, no sangue dos animais sacrificados, no fogo que aquece as casas das aldeias e que prepara as refeições, presente nos lenços dos Pauliteiros e no brasão da região.




Esta cor nos pratos dá a ideia de calor e de conforto lembrando as festas tradicionais, como a fogueira comunitária no Natal, ou as bancas de fumeiros presentes nas festas. Todos estes elementos unidos fazem com que este vermelho dê a ideia de comunidade, de união e de tradição. Além da ideia de sustentação que a carne dá em contraste com o peixe que se pensou ser menos nutricional que a carne.









O Castanho




Esta cor está presente nas castanhas, nas nozes, na Bola Doce Mirandesa e na canela da mesma, na alheira, na carne assada, no barro dos utensílios de cozinha, na madeira dos talheres e nas facas de Palaçoulo, nos coletes e sapatos dos Pauliteiros na Capa de Honra. Na batata assada, no pão cozido, no solo árido da região, no azeite. Na madeira das próprias casas, da mesa e dos objectos.




Sendo uma cor natural traz uma sensação de comodidade e conforto, de tradicional e antigo. É a cor dos materiais rústicos e é muito experienciada em Miranda do Douro onde a tradição é respeitada e conservada com cuidado. O castanho à mesa realça os sabores intensos das comidas, mesmo que pouco condimentadas.









Na cultura Mirandesa, o castanho está presente em elementos de honra e orgulho como na Capa de Honra. Esta presente na madeira e nas peles para o fabrico das gaitas de foles e bombos da sua música tradicional e na cor das suas raças autóctones.




Todos estes elementos fazem do castanho uma cor importante na cultura Mirandesa e sua presença nos pratos remete a emoções positivas e acolhedoras.









Cores fortes e escuras, como o Castanho e o Vermelho dão a ideia de que o alimento é mais substancial, que alimenta mais, que é mais pesado.



Uma imagem positiva para os trabalhadores que esperam encontrar um bom prato quente quando chegam a casa depois de um dia árduo nos campos e pastos, e que encontram no branco das toalhas a ideia de limpeza, tranqüilidade e a recompensa de um dia de trabalho produtivo.



TAANIT CORRÊA é formada pela Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, Portugal.

domingo, 7 de julho de 2013

Professor Viana


Professor Viana. Jacinto Viana. Bon vivant, alto, atlético, bonito. Suave, simpático, um empresário bem sucedido. Um filósofo, um homem inspirador.


Estudante de Medicina, casou com uma mulher bonita, largou a
faculdade para trabalhar, criou uma empresa, ficou rico.





Professor? Sim, professor de matemática na Escola Técnica da
cidade. Sedutor incurável, era louco por meninas bonitas.


Não precisava, não dependia do salário de professor. Mas era
na escola, frequentada por meninas de classe média baixa, que ele exercia seu
charme irresistível de empresário, de professor, de colecionador de
Camaros e Mustangs.


Fui amigo da família, amigo de seu filho, namorei
rapidamente uma de suas filhas, belíssima por sinal. 
Professor Viana foi um dos filósofos mais sinceros que
conheci da difícil arte de ganhar dinheiro. Ele ganhou muito, facilmente. Lembro-me
de duas pérolas de seu pensamento.





Numa manhã de domingo estávamos todos bebericando uns scotchs
na beira da piscina da mansão. Todos alegres, despreocupados. Menos o filho
dele.


Professor Viana notou, perguntou,


- O que você tem? Estás com uma cara horrível.


- Hoje é sábado pai, na segunda-feira temos um monte de
pagamentos para fazer e estamos sem caixa.


- Sim. Qual o problema?


- Estou muito preocupado, não consigo dormir direito.


O Professor riu,


- Durma tranquilo. Quem tem de perder o sono é quem tem a
receber.





Numa manhã de sábado, estávamos em sua casa, sentados à
mesa, num tardio café da manhã, depois de uma fantástica noite de diversões. Um
caríssimo tour que começara em um restaurante continuara em um bar e terminara
numa boîte.


Comentávamos o quanto havíamos gasto. Ele riu,


- Meu filho, dinheiro é extremamente importante. Temos de
ganha-lo, nem que seja honestamente.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Rio gosto de você, Pernambuco obrigado.


Não sou pernambucano, sou carioca, mas poderia ter sido. Minha mãe é de lá, um grande amor, uma graça, é de lá. Nós cariocas temos imensas dívidas com eles. Bastaria o Nelson Rodrigues, mas ainda há o Antônio Maria.






Quem melhor descreveu o subúrbio carioca, quem melhor expressou a alma dark, a lascívia do Rio? O Divino Nelson é um patrimônio carioca. Ele veio de lá para revolucionar nosso Teatro, para nos entender, para nos explicar melhor, para ser nosso cronista. Explicar nossas dúvidas, nossas angústias, nossos desejos, nosso prazer.


E quem mais senão Antônio Maria para nos louvar melhor de forma tão simples? Valsa de uma Cidade,




Rio de Janeiro, gosto de você




Gosto de quem gosta 


Deste céu, desse mar 


Dessa gente feliz 





Valsa de uma Cidade. Um hino de amor ao Rio, aos cariocas.

A esta cidade que tem esse vento do mar no meu rosto, que tem este sol a brilhar no meu rosto a queimar. A brilhar nas calçadas cheias de gente a passar e a me ver passar. Um poema de amor que está em tudo que eu quis em tudo quanto eu amei.


O Rio soube reconhecer esse amor e premiou Antônio Maria com uma divina expressão carioca, a capixaba Danuza Leão.







Fofoquinha: Antônio Maria morou no apê 1005 do Edifício Souza na Cinelândia. Vizinho dos também pernambucanos Fernando Lobo, jornalista e pai do Edú Lobo, e do Abelardo Barbosa o Chacrinha.

Alô, alô Terezinha. No mesmo prédio também moravam Dorival Caymmi e o pintor Augusto Rodrigues. É muita gente pra cantar e amar o nosso Rio.


Rio de Janeiro gosto de você. E gosto ainda mais de quem gosta de você, dessa gente feliz que sabe fazer o Rio. Pernambucanos obrigado. Aquele abraço.