terça-feira, 30 de novembro de 2010

Carioca


Rio, 27 de Novembro de 2010.


A ocupação militar das zonas em poder do crime organizado eletrizaram a atenção do mundo. As cenas das ações tanto dos traficantes quanto dos militares são impressionantes. Combates de rua. A reação da população emocionante.


Estes têm sido dias históricos para todos, principalmente para cariocas que como eu viram de longe o Rio sucumbir ao longo dos anos em um caos quase que inabitável.





As cenas ao vivo na televisão são impressionantes e dão a dimensão trágica da realidade. Todos se envolveram do presidente da república aos moradores. A televisão mostra combates, reunião enormes de ministérios, generais, soldados, policiais e políticos, planos sendo traçados, reuniões de comandantes e tropas.Helicópteros sobrevoando as áreas de intervenção, tanques de guerra avançando pelas ruas, tropas federais de todos os tipos se engajando numa ação enorme.


Tanques passando pelas ruas, esmagando e passando por cima de carros, paraquedistas camuflados, criminosos sendo baleados, incêndios por todo lado, tropas militares pouco a pouco ocupando território, criminosos recuando, bandidos fugindo mata à dentro, população desesperada, pessoas escondidas nas janelas, pais e mães fugindo com filhos no colo, escolas fechadas, bombeiros chegando, sons de fuzis e metralhadoras, mulheres colocando lençóis brancos nas janelas pedindo paz, paredes desmoronando, carros e ônibus incendiados.





Dias e noites de vida ou morte, de inferno e sangue. Tudo ao vivo, tudo real. Não é cinema.


Bem todo viu, todo mundo sabe do que estou falando. Mas do que eu quero realmente falar é do espírito carioca que faz o Rio sorrir de tudo, da alegria e da beleza que caracteriza esta cidade que ensinou o resto do país e do mundo a ser um pouco carioca. 


Alegre, displicente, brincalhão, indiferente, bem-humorado. Carioca.





A cena é a seguinte:


A televisão estava mostrando ao vivo um tiroteio entre tropas do exército e criminosos. O cinegrafista está muito perto da ação e a transmissão de imagens é arrepiante. Vê-se de muito perto uma esquina onde alguns soldados com roupas de combate estão deitados no chão disparando fuzis modernos com miras telescópicas. Os tiros são disparados contra uma casa de dois andares de onde criminosos revidam e disparam mais tiros. É uma cena real de combate. Ao vivo.


Muitos destes tiros passam tão perto da câmera que vê-se o rastilho. A cena é de tirar o fôlego por ser real. Você teme pela vidas daqueles soldados e pela do cinegrafista.


O tiroteio continua e a câmera continua mostrando a rua e a esquina de onde os soldados deitados estão atirando e a casa de onde os criminosos revidam os tiros.





De repente cessa o tiroteio. Passam alguns segundos. Os soldados continuam deitados. Passam mais alguns segundos de tensão e o tiroteio não recomeça. A câmera continua mostrando a cena. Os soldados continuam deitados se protegendo de possível ataque, de um recomeço do tiroteio.


De repente surge na rua um homem de chinelo, bermudas e camisa folgada. Ele aparece no campo de imagem da câmera, bem no meio da batalha. Uma imagem absurdamente contrária àquela realidade de combate. Alguém passeando num sábado tranquilo.


O homem começa a atravessar a rua normalmente. Ele está desprotegido, completamente exposto na linha dos tiros, bem no meio do tiroteio entre o exército e os criminosos.





Mas ele atravessa a rua tranquilamente, como se estivesse esperado o tiroteio terminar para atravessar a rua e seguir seu caminho em frente. Como se espera em uma passagem de pedestres que o sinal fique verde e os carros parem para você passar.


Simples assim. Bem carioca.

sábado, 27 de novembro de 2010

Klaus Velejador




Minhas crianças.




Well, crianças é que já não são. Vahine 20, Taanit 18, Klaus 15, Astha 14. 





Por causa da distância, Brasil-Portugal, uso todos os métodos possíveis para me manter em contato com meus filhos. Há anos quando só existiam os chats já passávamos tardes de sábado inteiras conversando, discutindo textos, ouvindo músicas. Em dial-up, imagine.










Bem as coisas mudaram e hoje usamos para nos comunicar um sistema próprio, avançadíssimo, chamado FOL.  O FOL é uma OSWS baseada em HSCR com recursos VTIR trafegando em HSCR.




Gostou, se interessou? Brincadeirinha: OSWS (open source web structure), HSCR (high-speed connection rate) , VTIR (voice, text and image resources) é tudo conversa fiada de analista de sistemas, hehe.  Ah sim o tal sistema FOL. É o Father On-Line...










Pois é passamos horas no Skype, fazemos tarefas de escola juntos e on-line, pesquisamos, montamos, criamos textos e apresentações. E-mails, Facebook, Orkut, GoogleTalk, MSN, HI5, YouTube, SMSs e Voips, downloads e uploads, usamos tudo.




Chegamos até ao absurdo de apelar para os correios, telefone e celular convencionais.




Ouvimos música, assistimos vídeos, almoçamos juntos, planejamos roteiros, férias e atividades. 




Comentamos livros, notícias, filmes e DVDs. Trocamos receitas e uma vez até cozinhamos on-line. 


Já estive presente - webcam, caixas de som e microfones lá e cá - em uma festa de aniversário que para mim foi virtual.




Às vezes brinco: 




- Vou ao banheiro agora, levo o laptop ou vocês esperam? 




- Ô Paaiiiiêê... 





A parte chata é que eles controlam a quantidade de cigarros e cervejas. Não dá pra esconder. Em compensação comemoramos as passagens de ano duas vezes. No fuso horário de lá e no de cá.











Eventualmente a coisa fica engraçada. Às vezes ouço uma voz mais alta da mãe a repreendê-los e acabo me metendo. Coitadinhos, pois aí eles têm que enfrentar a crítica de nós dois, pois ela quase sempre tem razão. O resultado de tudo isso é que acabo sendo mais presente que muitos papais por aí. E com a grande diferença que há mais qualidade e consistência nos contatos.




Como eles são excelentes alunos ganham prêmios em dinheiro das escolas e financiam as próprias viagens. Espanha, Italia, França, Noruega, eles conheceram com os próprios recursos. With a litlle help from mom & pop, mas a iniciativa é deles.










A Taanit, superdotada, me surpreendeu escolhendo Gastronomia ao invés de fisica nuclear, astronáutica ou algo exótico. Excelente, ela vai se dedicar ao que gosta.




A Vahine está no meio do curso de Cinema e já está para fazer estágio profissionalizante nos próximos meses. Ela está em dúvida entre Brazil, França ou Alemanha.




A Astha que já tinha me dado um susto enorme ao aparecer com um romance com mais de 200 páginas, quando ainda tinha 12 anos, continua a surpreender. Já lhe encomendaram uma peça de teatro ligeira para servir de teste vocacional a candidatos à uma escola de teatro. E depois disso escreveu um conto policial. Todos de muita qualidade. 






Mas o que me deixou ainda mais pasmo foi o que ela disse há cerca de dois meses. 




- Decidi estudar e viver num país civilizado, mas não em um país aparentemente civilizado. Vou para Cambridge cursar Linguas Modernas e Medievais.  




Simples assim.  E ela já tinha tudo em mãos: duração e matérias do curso, forma de financiar os estudos, de como paga-los e de como morar na universidade. 




E mais recentemente ela estreitou o foco. 




- Para ter certeza de entrar em Cambridge o ideal é terminar o secundário lá mesmo na Inglaterra.




Claro que ela está certa, na primeira decisão a segunda já estava quase implícita, mas mesmo assim ela me deixou surpreso. Agora ela está planejando como realizar, já entrou em contato com escolas secundárias inglesas e já sabe como tudo deverá funcionar.











Nestas três opções de vida eu me reconheço mais que em mim próprio: Cinema, Gastronomia e Literatura. As coisas de que mais gosto mas que nunca tive a coragem de segui-las profissionalmente. 





O impacto emocional é enorme, a satisfação indescritível. Poderia de tão longe te-los influenciado? Ou é apenas coincidência? Sandra, a mãe, assume, coitada, que:




- Eles todos têm nos gostos, personalidade e escolhas uma parcela muito grande do Ivan. 




Pobre mulher, que mesmo divorciada tem que conviver com quatro lindos fantasminhas. 










Mas até agora a grande incógnita era o Klaus. O que ele decidiria? Que escolha faria? Como ele é muito caseiro e vive grudado no laptop estava difícil adivinhar. Informática? Provavelmente não, por que ficar na frente de um computador hoje em dia não significa necessariamente uma vocação. E não seria pelo DNA por que apesar dessa ser minha profissão ela é apenas isso.










Mas eis que de repente surge uma grande novidade que nos surpreendeu a todos. 




Klaus saiu da frente do computador. 




Klaus escolheu um esporte para praticar. 




Klaus se matriculou numa escola para praticá-lo.




Klaus está VE-LE-JAN-DO.


Juro que chorei.






Velejar.




Não há nada que me dê mais prazer. Participei de uma equipe de vela, tive barco, participei de um monte de regatas, velejei em solitário por dias e por muitas vezes. Sobrevivi sozinho a uma tempestade onde outros barcos afundaram. Minhas filhas Taanit e Vahine devem seus nomes à veleiros! 




Uma cineasta, uma chef, uma escritora e agora um velejador. Meus filhos queridos, estes quatro pedaços enormes de mim.




Fico a pensar se os deuses decidiram me  abençoar com tantas e enormes alegrias ou se preferiram, abusando da Onipotência e na melhor tradição grega se divertir me mantendo apartado delas.


sábado, 20 de novembro de 2010

Dia da Consciência Negra

Hoje é dia 20.11 da Consciência Negra em quase todas as cidade do Brasil.



Pra começo de conversa acho que quase tudo que o que o Brasil tem de melhor devemos aos Negros.


A musicalidade, a alegria, esta religiosidade marota, o corpo cheio de curvas, o humor, uma certa mansidão, a sensualidade. 


E principalmente esta língua portuguesa falada tão docemente.






Mas é bom não esquecer de que tivemos e desfrutamos muito da Escravidão. E dessa vergonha carregamos as consequencias.


O historiador João José Reis diz não achar "que todos os problemas brasileiros, inclusive de relações entre as classes, tenham a ver com a escravidão. Mas o fato é que tivemos quase 400 anos de História em que os mais afortunados se acostumaram à noção de que os outros podem ser torturados. Isso pesa".






Manolo Garcia Florentino, outro historiador, acrescenta que "a escravidão foi a base a partir da qual se fundou uma civilização, para retomar a Sérgio Buarque de Holanda para quem o Brasil por sua complexidade e diversidade era uma civilização.


Ela, a escravidão, fundou a civilização brasileira. E ao fazê-lo viabilizou um projeto excludente, em que o objetivo das elites é manter a diferença com relação ao restante da população".






E para finalizar o historiador Luiz Felipe Alencastro mostra que "a escravidão legou-nos uma insensibilidade, um descompromisso com a sorte da maioria que está na raiz da estratégia das classes mais favorecidas, hoje, de se isolar, criar um mundo só para elas, onde a segurança está privatizada, a escola está privatizada, a saúde privatizada".






Somos uma civilização fundada na tortura, no estupro, no assassinato e no trabalho forçado.


Fruto de um projeto excludente que nos legou esta insensibilidade com a sorte da maioria, esta tendência a criar um mundo próprio e isolado por muros e cercas elétricas. Prisioneiros do próprio povo.


Por tudo isso não nos sentimos uma nação, por isso temos vergonha do outro e não nos sentimos iguais a ele. Talvez um dia esta Negritude maravilhosa e tolerante que viabilizou este país possa se espalhar tanto que nos una em uma só alegria. Aí e só então poderemos nos chamar de Nação Brasileira.