quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Um Gentleman à Moda Antiga


Reinhard Tristan Eugen Heydrich nasceu predestinado a uma vida de sucessos pessoais e extraordinárias realizações.


Nasceu numa familia alemã sofisticada e culta, filho de um compositor e cantor de óperas e de uma professora de piano. Seu primeiro nome é um tributo a um personagem de uma ópera composta pelo pai, o segundo uma homenagem a um herói de Richard Wagner e o terceiro foi tomado de seu avô, diretor do Conservatório Real de Dresden.





A família de Heydrich além de grande projeção social tinha recursos financeiros substanciais que lhe garantiram uma excelente educação. Ele cresceu cercado de arte e requinte. Seu pai fundou o Conservatório de Música de Halle. A mãe lhe ensinou piano, mas sua paixão e virtuose era o violino. Ele tinha um talento excepcional que impressionava as audiências.





Reinhard também era um grande esportista. De personalidade requintada tornou-se um excelente esgrimista. Venceu duelos. O menino cresceu muito bonito e se tornou um sedutor. As mulheres não resistiam ao charme do playboy alto, louro, de olhos azuis. Sensível, culto, atleta, rico e bonito ele destroçou alguns corações. Milhões para ser exato.





Inteligente e brilhante ele tornou-se um competente executivo, atingindo metas impressionantes em sua carreira. Casou-se com uma nobre, teve quatro belos filhos, Klaus, Heider, Silke e Marte. Entrou para a política e brilhou ao restruturar o Ministério do Interior da Alemanha. O chanceler alemão o considerava o membro mais admirável, leal e eficiente de sua equipe.





Sua competência também foi reconhecida internacionalmente. Eleito presidente da Interpol foi muito elogiado pelo FBI. Os americanos consideravam seus métodos avançados e sua moderna administração como um exemplo a ser seguido.


Mas o belo e sofisticado gentleman, com seu nome de herói de óperas, morreu como um deles, vítima de um trágico acidente em sua Mercedes conversível.


Um charme na vida, um charme na morte.





Reinhard Heydrich, o Carniceiro de Praga.


Responsável pela morte de milhões de judeus foi o presidente da infame Conferência de Wannsee onde se decidiu a operação do Holocausto. A reunião onde a maioria dos participantes tinha menos de 40 anos, metade deles com doutorado, iria se realizar na sede da própria Interpol, mas por conta de um imprevisto foi transferida para uma mansão da Gestapo no lago Wannsee.


Ele foi assassinado por um comando de páraquedistas, que voou da Inglaterra para Praga, treinados pelo serviço secreto britânico no melhor estilo double-o-seven. Sua morte levou a um ato de vingança que prendeu 13.000 pessoas, dizimou toda a população de Ležáky e todos os homens de Lídice. 





Heróico, como os personagens de seu nome, Heydrich resistiu durante o atentado.


Ao dobrar uma esquina seu Mercedes conversível diminui a velocidade. O comando surge com uma metralhadora em frente ao carro. O motorista quer acelerar, Heydrich manda parar, salta e corre para os atacantes. O comando joga uma granada antitanque. Heydrich é atingido.

A fumaça se dissipa, ele se levanta e corre de pistola na mão em perseguição aos assassinos. Eles fogem de bicicleta. Heydrich sangra muito nas costas, é socorrido por uma mulher, jogado em um caminhão e levado para a emergência do Hospital Bulovce.





A morte de Heydrich poderia ter sido evitada.


Ele chegou a se recuperar dos ferimentos e no hospital recitou versos sobre o destino. Ele foi tratado durante nove dias por Kerl Gebhardt, médico pessoal de Himmler. Apesar da recuperação Heydrich entrou subitamente em coma e morreu de septicemia.


O médico deliberadamente não lhe deu sulfonamida, suficiente para deter a infecção. Invejóosa.





Bonito na vida como na morte um amigo descreveu sua última expressão facial como de "uma estranha espiritualidade e de uma beleza pervertida, como um cardeal do Renascimento". Findas as hostilidades o novo governo da Alemanha concedeu a sua viúva uma justa aposentadoria federal.

Heydrich atingiu vários recordes impressionantes em sua carreira, só não conseguiu em termos de massacre étnico superar os brasileiros na Guerra do Paraguai.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A Velocidade de Deus. Yes we can!

O ano de 2012 terminou de forma brilhante.

Depois da descoberta do Bóson de Highs em meados do ano, 2012 terminou com um anúncio fantástico feito pela NASA. Estamos cada vez mais perto de viajar FTL - faster than light - mais rápido que a luz. Exatamente como na Enterprise de Star Trek.



- Dobra Sete Sr. Sulu, direção setor Cinco, quadrante Beta, destino minas de dilithium de Rura Penthe.

- Ok Capitão, estaremos na Zona Neutra em uma hora, trinta e quatro minutos e dezessete segundos.

Data estelar 2267.

Antes do capitão Kirk poder dar este comando de velocidade Warp em dobra sete na torre da NCC 1701 Enterprise, tanto Casimir quanto Alcubierre tiveram de fazer seu dever de casa.

Eles começaram o trabalho que nos levará a viajar FTL, acima da velocidade da luz, em missões no espaço "audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve".

Vamos rever alguns fatos e dados das últimas décadas. Só tenha um pouquinho de paciência, nem é preciso entrar no estado de Kolinahr do Spock.



O físico holandês Hendrick Casimir determinou em 1948 a existência de uma pequena força entre duas placas metálicas paralelas. Quase cinqüenta anos depois a teoria foi confirmada experimentalmente por Steven Lamoreaux, no Laboratório Nacional de Los Alamos, em 1996.

O efeito Casimir é um dos vários fenômenos que fornecem evidências da existência do vácuo quântico. Este vácuo equivale na mecânica quântica o que na física clássica poderia ser descrito como o espaço vazio. Note bem que este vazio está longe de corresponder à noção filosófica do Nada.



Funciona assim.

O vácuo é preenchido por ondas eletromagnéticas de muitos tamanhos que estão imbuídas de uma enorme energia, invisível para nós. Casimir percebeu que entre duas placas nem todas as ondas podem ser consideradas no cálculo da energia total.

No vácuo entre as placas somente se contam as ondas cujo comprimento é um múltiplo inteiro da distância entre elas. O resto, que fica abaixo da densidade de energia do espaço ao redor, são ondas de Energia Negativa.

Quanto mais diminui a distância entre as placas mais ondas caem abaixo deste nível de densidade. Quanto mais as placas se aproximam mais surge energia negativa. O resultado é que se forma entre as placas uma pequena força que atrai uma para perto da outra. Este espaço entre as placas é conhecido como a Cavidade Casimir e a medição desta força é a prova da existência do vácuo quântico.

A grande importância da descoberta não esta apenas na força de atração entre as placas, mas na presença da Energia Negativa.



A teoria original de Casimir se aplicava apenas a placas de metais nobres ou materiais dielétricos, mas entre 1950 e 60 o físico russo Evgeny Lifshitz estendeu a teoria de Casimir para metais reais. Daí o efeito Casimir também ser conhecido como Casimir-Lifshitz.

Mais importante ainda foi que ele descobriu que a pequena força de atração também poderia ser de repulsão. A força do efeito Casimir-Lifshitz não só puxa, mas também empurra. Essa característica é fundamental na aplicação prática do efeito.

Energia Zero é por definição a densidade normal de energia no espaço vazio. Uma vez que a densidade de energia entre as placas condutoras da cavidade é menor do que o normal, ela então é negativa.

O efeito Casimir tem sido associado à possibilidade de se viajar FTL pelo fato de que a região dentro de uma cavidade Casimir ter densidade de energia negativa.

Esta densidade negativa é essencial na propulsão Warp, a velocidade de dobra-distorção, imaginada pelo físico Miguel Alcubierre, mais à frente.



Apesar da aparência esotérica de suas teorias, Casimir foi um pioneiro na aplicação prática da ciência. A maioria das suas descobertas foi feita nos laboratórios de pesquisa da Philips em Heindhoven na Holanda. Elas tiveram aplicações industriais, Henk Casimir chefiou o laboratório, fez parte da diretoria da empresa e morreu em 2000, semanas antes de completar 101 anos.

Há uma possibilidade muito interessante para quebrar a barreira de luz pela aplicação do efeito Casimir.

No espaço vazio o trajeto da luz  é retardado, e sua velocidade portanto diminuída, pelas interações da luz com as ondas e partículas invisíveis que enchem o vácuo quântico. Mas dentro da região de energia de uma cavidade Casimir, a luz viaja mais rápido porque há menos obstáculos.



Em 22 de fevereiro de 1990, Klaus Scharnhorst da Universidade de Humboldt, na época Berlim Oriental, publicou alguns cálculos mostrando que sob certas condições a luz pode ser induzida a quebrar a barreira de sua velocidade normal.

Ele mostrou que a luz propagando-se perpendicularmente às placas de Casimir sofreriam uma pequena aceleração de uma parte por 10^36 ao passo que a luz se propagando paralelamente não sofreria alterações em sua velocidade.

Gabriel Barton chegou à mesma conclusão na Universidade de Sussex em Brighton na Inglaterra.

Em laboratório este aumento de velocidade é incrivelmente pequeno, mas novas tecnologias vão oferecer maneiras de aumentar o efeito Casimir fazendo a luz viajar ainda mais rápido.

Scharnhorst, um berlinense oriental, três meses depois da quebra do Muro, quebrou uma barreira muito maior.



Quatro anos depois a ideia de viajar FTL foi sugerida pelo físico teórico Alcubierre, em 1994.

Ele parte da noção implícita na teoria geral da relatividade de Einstein de que a matéria causa uma curvatura na superfície do espaço-tempo. Isso ficou comprovado em Sobral no Ceará durante o eclipse solar de 29 de Maio de 1919 quando se mediu experimentalmente os efeitos da Teoria da Relatividade.

Naquela quinta-feira se observou que a luz que nos chegava das estrelas por atrás do Sol se curvava ao passar em volta de sua enorme gravidade.



Alcubierre se diplomou na Universidade de Gales e recebeu em 1993 um PhD realizando soluções numéricas das equações da Relatividade Geral. Ele resolveu as equações gravitacionais de Einstein com computadores extremamente rápidos, depois criou técnicas numéricas para descrever a física relacionada com os buracos negros.

Mais tarde publicou um artigo sobre a relatividade geral: Modelo Padrão Para Espaço-Tempo e Gravitação. No artigo ele descreve uma solução incomum das equações de Einstein, descrita como Warp Drive, velocidade de dobra. Estavam sendo criadas as condições de se fazer uma modificação do espaço-tempo de modo a se viajar em velocidades maiores que a da luz.



Abre Parênteses.

Qualquer coisa acima da velocidade da luz é tabu científico.

Vide o escândalo recente quando em Setembro de 2011 duas equipes do CERN na Suíça disseram que medições realizadas ao longo de três anos mostraram que neutrinos enviados pelo laboratório viajaram até o LNGS - Laboratori Nazionali del Gran Sasso - na Itália, em um tempo 60 nanossegundos inferior ao que a luz demoraria para fazer o mesmo percurso.



No contexto da Relatividade Especial a velocidade de luz é o limite absoluto de velocidade em nosso Universo para qualquer objeto que tenha massa real.

Isto acontece porque quando a velocidade de um corpo se aproxima da velocidade da luz, mais e mais da energia usada para acelerar o corpo aparece sob forma de massa adicional.

Quanto mais rápido o objeto mais energia é necessária ao movimento. Quanto mais rápido o movimento maior o aumento de massa do próprio objeto. Para se acelerar uma partícula até o limite da velocidade da luz seria necessária uma energia infinita e sua massa se tornaria também infinita. Seria necessário usar toda a energia do universo e a partícula ficaria com toda a massa do universo.

Um paradoxo físico e pronto, não se fala mais sobre isso.



Físicos que trabalham com grandes aceleradores de partículas subatômicas notam que a massa e a velocidade das partículas ajustam-se exatamente aos valores da Teoria da Relatividade.

Por isso o enorme escândalo causado pelo anúncio de partículas viajando da Suíça para a Itália acima da velocidade da luz foi ainda maior, pois a afirmação partiu exatamente de cientistas do CERN o maior dos aceleradores de partículas existente.

Uma explicação aceitável seria que os neutrinos acelerados entre o CERN e o Gran Sasso podem ter viajado dentro de uma cavidade Casimir. Em outras palavras, o laboratório que já foi acusado de criar buracos-negros artificiais, poderia ter criado contrações/dilatações no espaço-tempo. Isso de certa forma poderia explicar os “desaparecimentos” de alguns neutrinos que poderiam ter passado para dimensões paralelas, o que é cientificamente possível.

Uma aplicação prática para Luca Stanco e seus 15 colegas no projeto Opera do laboratório de Gran Sasso poderia ser mandar a dívida italiana, e naturalmente o Silvio Berlusconi junto, para outra dimensão.

Rápido. Em dobra 10.

Fecha Parênteses.



Voltando a Alcubierre. Ele desenvolveu um modelo matematicamente válido para um campo gravitacional que permite uma propulsão superluminosa.

Ele concluiu que esta propulsão seria viável se a matéria pudesse ser rearranjada de forma a expandir o espaço atrás da nave e contrai-lo em frente dela, formando uma bolha.

Mais precisamente uma onda, parecida com as do mar, onde a parte de trás do espaço sobe e a da frente desce. Graficamente a nave pareceria surfar, dentro de uma bolha, uma onda do espaço-tempo.



A dilatação do espaço atrás da nave deixaria o ponto de partida a alguns anos luz de distância dela e a contração em frente traria o local de destino para perto da nave.

A bolha ficaria então “estacionada” entre as duas distorções do espaço. A nave continuaria viajando em velocidades normais dentro desta bolha, sem nenhuma quebra das leis da física. Dentro da nave a tripulação não sentiria nenhum efeito de altíssimas acelerações e desacelerações por que elas não estariam acontecendo dentro da bolha. Muito menos sentiria o efeito relativístico de contração ou dilatação do tempo.

Alcubierre mostra que para isso é necessário fazer uma manipulação da matéria com energia de densidade negativa. A mecânica quântica admite a existência de energia negativa em determinadas circunstancias, como no efeito Casimir.



Uma análise mais aprofundada do conceito de Alcubierre foi levada adiante. Chris Van Den Broeck da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, deixou as viagens FTL ainda mais perto. Pelos cálculos dele a energia necessária para a criação da bolha são muito menores que o determinado nos estudos de Alcubierre.

Em meados de 2010, o físico Igor Smolyaninov da Universidade de Maryland apresentou um modelo matemático baseado em metamateriais na zona de 100 GHz onde ele obteve velocidades 25% mais rápidas que a luz. Dobra 1,25 é pouco para a Enterprise, mas já é um bom começo. Ao invés de 350 dias já daria para chegar em Marte em 2 minutos e 37 segundos. Na Lua em 1,024 segundos.



Resumindo. Essas são as três premissas básicas da Warp Drive, a velocidade de dobra de Alcubierre:

Primeiro. A curvatura do espaço, comprovada experimentalmente no eclipse solar em Sobral, mostra que o espaço-tempo pode se contrair ou expandir na dependência da velocidade da luz no local.

Segundo. Dentro da cavidade de Casimir a Energia Negativa permite que a luz viaje em velocidades maiores que o padrão.

Terceiro. A velocidade da luz determina o formato do espaço e vice-versa. Um está diretamente ligado ao outro.

Conclusão. Variações na velocidade da luz determinam uma expansão ou contração do espaço. Variações de expansão ou contração do espaço determinam variações na velocidade da luz.

Simples assim. Já se sabe disso há mais de cem anos.



Aplicação Prática.

Manipulando campos de Energia Negativa pode-se criar duas distorções no espaço. Uma de expansão, outra de contração. As duas formam uma onda como no mar. No meio delas forma-se uma bolha que surfa descendo da primeira para a segunda em velocidades acima da luz.

A nave fica dentro da bolha viajando FTL  junto com ela.



Agora a boa nova. A excelente boa nova do fim de 2012.

Desde Novembro alguns experimentos foram anunciados por Harold White, que trabalha em um laboratório do Centro Espacial Johnson da Nasa, para tornar as viagens interestelares possíveis. White partiu do princípio de Alcubierre de que é possível curvar o espaço, compactando-o e esticando-o.

Acontece que o próprio Alcubierre escreveu um artigo em 1994 sugerindo que apesar de possível o feito exigiria níveis de energia equivalentes à massa de Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar. Mas agora White descobriu que, mudando a configuração da criação do campo de dobra, é possível obter o efeito com muitíssimo menos energia. White que está montando um experimento de laboratório para testar a ideia diz que:

- As descobertas mudam o status da pesquisa de impraticável para plausível e merecedora de mais investigação.





A solução pode estar em alterar a geometria da dobra espacial otimizando a espessura da bolha de dobra mudando sua forma de anel para uma forma de rosca e oscilando sua intensidade. Isso alteraria a rigidez do espaço-tempo e poderia reduzir a energia necessária para fazê-la funcionar.


White ajustou a forma de anel, feita inicialmente por Alcubierre, transformando o esferoide de formato de halo plano para algo mais grosso e curvo.





Usando lasers e uma bobina com forma de anel, White espera criar a primeira demonstração experimental de uma dobra espacial, que tentará distorcer o espaço-tempo em escalas submicroscópicas.

Mesmo com a redução da energia necessária ainda resta um problema: as distorções para a dobra espacial de Alcubierre exigem o uso da densidade de energia negativa do Efeito Casimir que vimos no começo e ainda não se sabe como utilizá-la de forma intensiva e constante. Ainda. Tempus Fugit.



Se o CERN em Genéve acabou de descobrir o campo e o Bóson de Highs, a Partícula de Deus, não está muito longe o dia se operacionalizar o efeito de Casimir e a velocidade de dobra de Alcubierre, a Velocidade de Deus.

Esta cada vez mais próximo o dia de se realizar o sonho de infância de Einstein que era viajar pelo espaço sentado num raio de luz. O sonho de uma criança que mudou nossas vidas, que sonhando a velocidade de Deus nos mostrou de que matéria são feitos nossos sonhos. Certo, Shakespeare?

Poesia e Ciência são apenas faces da mesma dimensão humana.



PS.: A data estelar, os dados de velocidade, tempo de viagem, direção, quadrante e destino da USS Enterprise NCC-1701, nave da classe Constituition, citados no começo do post estão absolutamente corretos. Eles podem ser checados nos arquivos dos diários de bordo da Federação do período de cinco anos entre 2265 a 2270 quando a nave esteve sob o comando do capitão James Tiberius Kirk.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Realpolitik. Um Príncipe Encantado(r) .


Sua Alteza Sereníssima Prinz Felix zu Schwarzenberg, o elegante príncipe da Realpolitik, o Realismo Político.


Schwarzenberg foi um estadista austríaco, nascido na Bohemia, atual República Tcheca, que consolidou o Império Habsburgo como potência europeia após derrotar algumas das revoluções de 1848. Estas revoluções de caráter nacionalista, liberal e democrático incendiaram o continente europeu lutando contra governos autocráticos e absolutistas.









Os principais núcleos revolucionários estavam em Paris, Berlin, Nápoles, Budapeste e nas regiões tchecas. Foi a primeira onda de revoluções democráticas de âmbito mundial e marcou o nascimento dos nacionalismos poloneses, italianos, alemães, dinamarqueses, tchecos, húngaros, croatas e romenos.

O espírito revolucionário Quarente-Huitard embriagou a Europa.




Estas nacionalidades enfrentaram os regimes autocráticos que as dominavam exigindo reconhecimento, democracia e autonomia. O período ficou conhecido como a Primavera dos Povos.

O refinado aristocrata Schwarzenberg, noblesse oblige,  nunca poderia apoia-las. Jamais.









De linhagem nobre, filho, irmão e sobrinho de príncipes e generais, o sofisticado Schwarzenberg iniciou sua carreira como diplomata e se tornou protegido de Metternich. O grande estadista Klemens Wenzel von Metternich que após as derrotas napoleônicas promoveu o fortalecimento do absolutismo na Europa.




Foi Metternich, supremamente maquiavélico no bom sentido, quem apoiou D. Miguel, irmão do imperador brasileiro D. Pedro I, a usurpar o trono da própria sobrinha D. Maria II iniciando uma guerra civil em Portugal. A disputa só teve fim quando D. Pedro I deixou o Brasil, desembarcou no Porto em defesa da filha, derrotou o irmão, colocou a filha no trono português e promulgou uma constituição liberal copiada da brasileira.









Muito articulado, elegante e tremendamente sedutor, Schwarzenberg durante sua temporada diplomática em Londres e Paris teve um tórrido affair com a belíssima aristocrata inglesa Jane Elizabeth Digby, a desejada Lady Ellenborough,  conhecida nas cortes europeias como Jenny, a Aurora.




O escandaloso romance causou o divórcio de Jane que terminou sendo abandonada infeliz e grávida pelo vigoroso Schwarzenberg.




Mas Jane não fazia o tipo Sedotta e Abbandonata. Lady Ellenborough também ela não era nada fácil.




Teve quatro maridos e diversos amantes, entre eles o rei Ludwig I da Baviera, seu filho o rei Otto da Grécia, o barão da Bavária Karl von Vennigen, o conde da Grécia Spyridon Theotokis, alguns generais e membros da aristocracia européia. E mais alguns priminhos.




Sinceramente convertida ao muçulmanismo ela terminou seus alegres dias em Damasco casada com o Sheikh Medjuel el Mezrab, 20 anos mais novo que ela.











Voltando ao nosso bom Schwarzenberg.




Durante as revoluções de 1848 ele ajudou o marechal Josef Radetzky von Radetz a derrotar as forças rebeldes na Itália. Ajudou também seu cunhado Alfred I, príncipe de Windisch-Grätz a suprimir as revoluções de Praga e Viena.




Na sua amada Áustria o refinado Schwarzenberg liderou a aristocracia, retomou o poder, assegurou a transição imperial, forçando a abdicação de Ferdinand I para Franz Joseph I e restabeleceu a tranquilidade e a ordem no Império Habsburgo.




Competente e eficaz nosso encantador príncipe promulgou em 1849 uma nova constituição, absolutista, que fez do império austro-húngaro um estado centralizado e unitário que durou até o fim da Primeira Guerra Mundial. Schwarzenberg permaneceu no cargo de presidente-ministro das Relações Exteriores da Áustria até morrer prematuramente de enfarte aos 51 anos em Viena. Uma perda irreparável.




Apesar de seu enorme poder e importância política, fundamental na história européia, Schwarzenberg ficou mais conhecido por uma frase. Uma requintada, uma deliciosa pérola da diplomacia e da Realpolitik.




Durante o levante popular de 15 de Março de 1848, na Hungria contra a dinastia Habsburgo, ele pediu ajuda ao império russo para socorrer e defender a Áustria. A dinastia tinha perdido completamente o controle e o poder. Schwarzenberg  e o imperador estavam à beira da mais completa e absoluta ruína.

Encurralado o pragmático príncipe apelou, desesperado, ao Império Russo.







O Czar Nicolau I, primo e amigo, prontamente lhe enviou o exército russo que dominou a revolução húngara, assegurando e restabelecendo o poder, a honra e o trono do imperador austríaco.




Depois de dominada a revolta, durante uma festa, o embaixador francês perguntou ao agradável príncipe Schwarzenberg como ele pretendia agradecer ao Czar Nicolau I.




Sua Alteza Sereníssima, entrando brilhantemente para a história da Diplomacia, respondeu solenemente:







- O Mundo se assombrará com a grandeza da ingratidão Austríaca.


E serenamente expulsou os russos de volta para casa.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Klaus - 1995




Klaus esta fazendo 18 anos. Foi uma longa caminhada até esta maioridade. Parabéns filhote.





Sintra, Portugal.


Dia 11 de Janeiro de 1995.




06:00 hs


Sandra acordou com dores que pareciam ser as primeiras contrações do parto, ela já estava com quarenta semanas de gravidez. As contrações estavam aumentando de intensidade e o intervalo entre elas diminuindo, mas mesmo assim Sandra não me acordou.




07:00 hs


Sandra começa a arrumar as roupas dela, as do bebe já estavam em uma pequena bolsa há alguns dias. Durante esta movimentação ela acendeu a luz eu despertei ligeiramente mas logo voltei a dormir pois parecia tudo normal.


Apesar das dores ficarem mais intensas ela não quiz me acordar pois a bolsa d'água ainda não havia rompido.




08:00 hs


Como as contrações não estavam muito freqüentes Sandra voltou a deitar.


As duas meninas ainda não haviam acordado e como era inverno ainda estava escuro e frio.




08:30 hs


Sandra, ainda deitada, me acorda e diz que estava sentindo muitas contrações.


Levantei, perguntei pelas malas com as coisas dela e do bebe e fomos fazer nosso café da manhã. As contrações começaram a aumentar de intensidade e período, o parto era para breve.




09:30 hs Acordei as meninas.


Enquanto as vestia para leva-las para D. Isabel, a ama que cuidava delas durante o dia, rompeu-se a bolsa d’água. Sandra me avisa mas diz não sentir muitas contrações.


- Pela experiência dos outros dois partos ainda devem faltar algumas horas.


Desci liguei o carro e comecei a carrega-lo com as bolsas e tudo que levaríamos para a maternidade.




10:00 hs


Sandra sente uma contração muito forte e me chama. Faço um toque no útero e sinto que ele já tinha pouco mais de um dedo de dilatação.


- Vamos para o carro, já está tudo pronto.


Descemos as escadas e quando chegamos no portão Sandra sente uma contração muito forte. Ela me olha e diz que não vai dar para chegar na maternidade em Lisboa, que fica a 18 km de nossa casa.


As contrações se aceleraram muito rapidamente e de forma muito diferente das outras duas vezes. Voltamos do portão e encontramos D. Isabel que percebe o que esta acontecendo


- Voltem e tenha seu filho em casa já que seu marido percebe dessas coisas.


Ela se referia a eu ter cursado alguns anos de medicina, ter sido interno numa maternidade e ter feito algumas dezenas de partos.


Voltamos e Sandra subiu os degraus já com dificuldade. No fim da escada veio outra contração ainda mais forte e ela precisou se controlar para o bebe não nascer ali mesmo. Fomos direto para o quarto.




D. Isabel tinha nos seguido e lhe pedi que me trouxesse um plastico bem grande para forrar a cama. Sandra já estava deitada, perguntei-lhe por uma tesoura grande.


- Esta no armário da cozinha e há uma outra mais afiada na minha caixa de costura. Coloquei as duas para ferver enquanto D. Isabel chegava com um plastico enorme.


- Desculpe mas como não tinha nada muito grande tirei a cortina da banheira.




Sandra já estava em trabalho de parto com dores muito fortes e contrações uma atrás da outra . D. Isabel apareceu com mais uma tesoura.


- Outra? Já são três! Não seria por falta de tesoura que nosso bebe deixará de nascer.


D. Isabel que entrava e saía nervosamente do quarto perguntou se eu precisava de mais alguma coisa.


- Preciso de um cordão bem forte.


Sandra entendeu que seria para cortar o cordão umbilical e disse que havia fio dental no banheiro. Fui busca-lo e D. Isabel também trouxe um rolo de fio de crochê, depois saiu do quarto dizendo que era uma hora muito íntima.


E era.




10:15 hs


Começa o parto.


Sandra tem uma contração forte de expulsão. A cama estava forrada com o plastico e eu tinha algumas toalhas à mão. Ia tudo correr bem pois Sandra já tinha tido dois partos excelentes. Ela teve mais uma contração forte e a cabeça do bebe corôou, apareceu.


- É agora, força que na próxima ele nasce.




10:30 hs


Nasceu.


Nasceu na segunda. Puxei a cabeça, delivrei os ombros, segurei-o nas mãos e sorri para Sandra.


- É o Klaus!


Com a boca aspirei-o pelo nariz algumas vezes para limpar as vias respiratória, ele então chorou com sua primeira respiração. Antes de cortar o cordão entreguei-o a Sandra e Klaus ficou um pouco no colo dela. D. Isabel, que estava do lado de fora do quarto, ouviu o choro e entrou.


Com o fio de croché dei dois nós no cordão e com o fio dental fiz um corte entre os dois.


Sandra pediu que eu desse Klaus para D. Isabel segurar, ele estava muito limpo só com um pouco do muco na cabeça.




Fui então buscar a filmadora e acender um cigarro.


Estava tudo bem, tinha sido muito rápido, perfeito, e eu tinha realizado o sonho de fazer o parto de um filho. E tinha sido em casa, em nosso próprio quarto, em Sintra.


Sandra sorria e conversava com D. Isabel que estava encantada.


- Que mulher forte, nunca vi coisa tão linda.


Eu também estava muito orgulhoso de minha mulher, feliz por meu filho e por aquele momento em um lugar tão lindo.




10:45 hs


Estava na hora de delivrar a placenta. Sandra sorrindo de felicidade, mas muito cansada, mudou de posição na cama. Fiz algumas manobras e a placenta começou a sair. Finalmente ela se soltou, examinei-a e guardei-a num saco plastico.


Sandra lembrou-me de usar o Betadine, fui busca-lo, enchi o aplicador e utilizei bastante para desinfectar. Era o primeiro parto que eu fazia em que a paciente colaborava , ajudava e ainda orientava.


Como a cama estava bastante molhada Sandra levantou-se e fomos todos para o quarto das meninas.




Klaus que estava no colo de D. Isabel voltou para o de Sandra. Estavamos tão felizes que só conseguiamos rir da situação. D. Isabel continuava encantada com Sandra.


- Que mulher! Assim é que tem que ser.


Ficamos todos sentados nas camas das meninas conversando felizes sobre tudo aquilo que acabara de acontecer.


Escolhi um CD de Bach e coloquei para tocar Jesus Alegria do Homens, a musica que encheu nossa casa era a mesma que tocara em nosso casamento. Depois coloquei a ària da suite numero 2 em Si Menor também de Bach, que combinava com o momento e com a calma do bosque que nos rodeava.




11:00 hs


Já estava na hora de ir chamar as meninas para conhecer o irmãozinho.


D. Isabel foi busca-las e como Sandra já tinha leite Klaus mamou pela primeira vez. Isso era ótimo pois êle já começava a se alimentar e o útero de Sandra a se contrair.


Quando as meninas chegaram êle já tinha mamado. Vahine, que tinha quatro anos, chegou muito excitada querendo conhecer o mano, já a Taanit, com dois anos, não percebia muito o que estava acontecendo.


Vahine comentou que Klaus tinha os olhos fechados e quando Taanit o viu deu um grito:


- O bébé !!


O grito assustou Klaus que abriu os olhos, os arregalou e a partir dái ficou sempre de olhos abertos. Ela acabara de entrar no clima das manas. Ficamos todos juntos curtindo nosso recém chegado.


Agora éramos cinco.




12:00 hs


Depois de Sandra descansar um pouco fomos à maternidade de Cascais para fazer exames nela, em Klaus e na placenta. Quando chegamos todos ficaram espantadíssimos e as enfermeiras perguntaram:


- Mas a senhora está de pé?


- E como queriam que eu estivesse?


Sandra foi examinada, foi feita uma ultrasonografia, estava tudo bem, não havia restos de placenta e o utero estava perfeito.


No Klaus foram feitos os exames de sangue e estava tudo ótimo. Mas como o corte do cordão tinha sido feito com uma tesoura não muito esterilizada eu estava preocupado com tetáno e infecções. A pediatra que nos atendia, simpaticíssima, entendeu nossa preocupação e deu uma atenção especial ao Klaus.




Tínhamos entrado na maternidade, pai, mãe e filho com uma placenta na mão pela porta da frente. Enquanto isso víamos outras mulheres, chorando e reclamando. Aquilo não tinha nada a ver conosco afinal Sandra estava ali, de pé e tranquila.




17:00 hs


Concordamos, a contragosto, com a pediatra, que seria melhor para o Klaus dormir aquela primeira noite no berçario da maternidade. Seriam feitos mais exames e ele estaria em segurança caso surgisse qualquer problema. Seria chato voltarmos para casa sem ele, afinal tínhamos feito tudo tão bem e não podíamos tê-lo naquela primeira noite.


Mas aceitamos que seria o melhor para ele e para nós. Ele ficaria em observação e Sandra poderia descansar em casa. De qualquer maneira retornaríamos à maternidade às 21:00 hs e às 24:00 hs para que êle mamasse.




19:00 hs


Saímos meio tristes da maternidade sem nosso bebe.


Mas como faltava algum tempo para retornarmos, aproveitamos para ir ao supermercado e à farmacia comprar fraldas e outras coisas para Klaus e Sandra que continuava de pé, agora andando e fazendo compras. Depois fomos para casa para vermos as meninas.


Fiz uma macarronada, jantamos, pusemos as meninas para dormir e voltamos à maternidade para a mamada das 21:00 hs.


Os exames de Klaus estavam ótimos, ficamos um tempão curtindo nosso bebe. Depois saímos, fomos dar uma volta em Cascais e tomamos sorvete.


Retornamos para a mamada da meia-noite ficamos mais um tempo no berçário e depois fomos para casa dormir a noite de um dos melhores dias de nossas vidas.




02:00 hs


Chegamos em casa.


A lua estava quase cheia, o ar muito frio e as luzes do Castelo dos Mouros ainda acesas. Da cozinha o ar muito limpo deixava ver muito ao longe o Convento de Mafra. Mais perto o mar e os vinhedos de Colares.


O bosque que cerca nossa casa estava como sempre muito calmo e perfumado.


Começaram a soar os sinos da igreja da Vila de Sintra, e logo depois as badaladas, que tradicionalmente se repetem com um minuto de atraso, da torre da Quinta do Moraes.


As meninas dormiam e a roupa da cama do parto, que tínhamos deixado na lavadora/secadora, já estavam limpas e secas.




Fizemos nossa cama e dormimos felizes à espera de ver nascer o primeiro dia de nosso Klaus.









sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Reveillon 2013


Isla Privilège. Uma ilha no mar de Angra dos Reis.


Nela uma casa de entretenimento, excelente pista, os melhores DJs, ótima cozinha. Eleita o melhor club do país.


Certamente é o mais exclusivo pela própria localização, afinal é uma ilha, só se chega de barco. E privada. Sem transito, sem problemas de estacionamento, sem flanelinhas. E como diria Ione, a mais dondoca de minhas ex-namoradas, sem gente chata. Um singelo adjetivo com conotações sociais, econômicas e étnicas.





Depois de uma magnífica ceia no Resort Frade, onde estávamos passando uns dias, um iate de sessenta pés movido por 1.800 puros-sangues alemães nos deixou na ilha em 13 minutos.


A viúva francesa continuava nos embalando com seus melhores líquidos. Mas agora era hora de se deixar embalar pelo China, pelo Renato e pelo Pete Tha Zouk que apesar do nome é português e um dos melhores DJs do planeta.

A festa reunia uma das maiores concentrações de gente bonita do país. Cercada por toda a exclusividade, luxo, bom gosto e tecnologia que se pode desejar uma das belas filosofou singelamente:

- É tão fácil ser feliz.





Minha filhota Patrícia me apresentava a dezenas de pessoas.


- É seu irmão?


- É seu namorado?


Não sei qual de nós dois se divertia mais. Literalmente ninguém acreditava que somos pai e filha. Eu já estava me sentindo uma ave exótica sendo exibida pela filhota.

Alguns amigos e amigas dela nos olhavam embevecidos. Uns nos abraçavam. Outros davam parabéns. Eu brincava:


- É minha irmã mais velha.


Uma amiga dela mais espontânea disparou:


- Seu pai é um tesão.





Dancei muito. Adoro dançar pop e eletrônica, me hipnotiza.

Dançar a dois sou péssimo, prefiro sozinho ou em grupo. Até já tomei aulas de forró para agradar  um grande amor, mas não consigo. Minha vibe é para dançar separado.


Dancei muito. A música rolou por exatas treze horas e quinze minutos. Delas curti pouco mais de nove, rigorosamente sem parar. Ainda assim não bati meu próprio recorde de dez horas, coincidentemente também com a Pat.


Em determinado momento, quando por acaso olhei para o relógio, e vi que fazia oito horas que estava dançando sem parar me emocionei. Meus olhos ficaram úmidos, olhei para o céu e agradeci por tanta saúde. Dancei então com ainda mais energia.





Dançando tanto e tão bem, os amigos da Pat se espantavam ainda mais. Até que o Caio tomou coragem e me fez a pergunta decisiva.


- Afinal quantos anos você tem?


Menti. Por vaidade escondi minha idade. Menti, aumentei. Aumentei-a em seis meses e arredondei:


- Sessenta e três.


- Impossível!!


Pat soltou uma gargalhada. O abraço do Caio quase me derruba.


A viúva borbulhou nas taças.