quinta-feira, 31 de março de 2011

Scheveningen



Scheveningen é uma praia em Haia, na Holanda. 

No verão ela fica lotada de gente. A praia tem uma longa faixa de areia, um calçadão e um píer. Os holandeses adoram.

Curioso é pronunciar esse nome, Scheveningen.







Como toda língua o Holandês tem fonemas muito peculiares e difíceis de pronunciar para quem tem outra língua materna. Há por exemplo alguns tipos de sons de "erres" que só consegue falar quem aprendeu a língua desde pequeno, nativamente. 





São “erres” difíceis de pronunciar como alguns do Alemão e do Árabe; são daquele tipo de fonemas específicos de cada língua têm, como o "ão" do nosso Português.










O problema em pronunciar esses fonemas únicos das línguas é estritamente fisiológico e está relacionado às cordas vocais. Ou você as exercita quando criança ou então determinadas “notas” dificilmente serão emitidas na idade adulta.




É só isso, não tem nada de racial. É “musculação” das cordas. Ponto. 










No caso de Scheveningen a palavra tem uma tipo de "erre" pronunciado na segunda silaba, ali na altura do "h", com uma sonoridade que só existe em Holandês. Estas sonoridades do Holandês são tão especiais e "difíceis" que os ingleses chamam a língua de Double-Dutch. 




Em Alemão há algo parecido, mas não é exatamente igual. Mesmo com todos aqueles vários sons de "erres" e mesmo sendo uma língua parecida, os alemães não conseguem pronunciar o nome desta praia.




Só mesmo um holandês consegue falar Scheveningen. 










Quando as tropas nazistas invadiram a Holanda durante a II Guerra elas foram particularmente brutais, ainda mais do que quando ocuparam outros países europeus. 




Os Holandeses resistiram bravamente e pagaram um preço alto. Por isso quando a França se rendeu tão facilmente surgiu na Europa a piada:

- Sabe quantos franceses são necessários para defender Paris? Ninguém sabe, eles nunca tentaram. 










Uma das primeiras coisas que os nazis fizeram ao invadir a Holanda foi apreender todas as bicicletas, este ícone nacional holandês. Os alemães se apossaram de todas elas para quebrar a mobilidade, o moral e a resistência da população. 




Os holandeses nunca perdoaram. 




Ainda hoje se um turista alemão pede uma informação, alguns holandeses ainda respondem: 




- Onde está minha bicicleta? 




Se um alemão pede alguma orientação na rua eles apontam na direção da fronteira, 




- Vá por ali. 










Boa parte dos alemães fala holandês e praticamente todo holandês fala alemão. 




Quando finalmente a II Guerra terminou os holandeses começaram a caçar os nazis que ainda estavam no país. Como muitos soldados alemães falavam holandês eles tiravam os uniformes e se passavam por civis. 




Os nazis estavam se misturando na população e escapando. Mas os holandeses descobriram uma maneira infalível de identificá-los. E executá-los. 




Com uma arma apontada na cabeça do suspeito, o dedo apertando o gatilho eles ordenavam, 




- Fale Scheveningen. 










Quando trabalhei na Alemanha um grupo de técnicos, alemães, de nossa fabrica estava fazendo um treinamento de algumas semanas na ODME, nosso fornecedor de equipamentos, em Eindhoven na Holanda. 




Fui visitá-los para acompanhar e avaliar o aproveitamento deles. Terminada a semana de trabalho combinamos passear todos juntos e contratei um guia de turismo para nos mostrar um pouco do país. 










O guia holandês, muito simpático e informado, mostrava tudo com competência. 

Quando chegamos em Scheveningen esperei o grupo de alemães estar todo reunido em torno do guia e de mim. Apontei uma placa com o nome da cidade e pedi: 




- Por favor, vocês podem ler este nome para mim? 




Todos leram.










Olhei para o guia e ri. Ele se afastou para rir melhor.



segunda-feira, 28 de março de 2011

A Alemanha e a União Européia


Há europeus que dizem que a Alemanha conseguiu com o talão de cheques o que Hitler não conseguiu com os canhões.




Trata-se de um exagero tipicamente francês. 


Ok que a Alemanha é a locomotiva econômica do bloco europeu, que é de seus cofres que saem a maioria dos recursos para financiar os programas comunitários. Até aí é mesmo verdade, e isso dá um poder de fogo muito grande, afinal Berlin tem a chave do cofre.






Também não deixa de ser verdade que quando a Alemanha espirra a Europa vai para a UTI, como aconteceu quando os altos gastos com a Reunificação levaram a Alemanha à recessão levando junto o restante da UE.






Também é preciso admitir que o Euro nada mais é que o Marco Alemão extendido ao continente. Calcado, controlado e definido pelo Deutsch Bundesbank, o Banco Central Alemão. Não foi à tôa que a Velha Albion tenha preferido continuar com a Libra.






Também é verdade que o Banco Central Europeu, guardião do Euro, fica em Frankfurt. Logo alí a meros 2.800 metros do Banco Central Alemão. Mas é só para facilitar o estacionamento e o transito.

Mas há uns exagerados que vêm até no Hino da Europa mais uma influencia alemã. Uma calúnia.



O hino europeu foi extraído de um trecho da Nona de Ludwig van Beethoven.


É o trecho onde ele musicalizou o poema An die Freude de Friedrich Schiller.

Depois pediu-se a Herbert von Karajan que compusesse arranjos para piano, instrumentos de sopro e orquestra.

Mas foi só para facilitar. Racional e prático.




PS.: Não confundir An die Freude com Kraft durch Freude que já uma outra coisa, não é Addie?

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ilha de Maré


Anos atrás eu estava velejando o Vahine na Baía de Todos os Santos indo para Ilha de Maré.


Quando cheguei e terminei de ancorar vi que a placa de fixação do estai de popa do barco estava para se partir. Não ia dar para voltar velejando para Salvador pois o risco de partir a placa e perder o mastro era certo. O problema é que em Maré não havia como fazer o reparo.




Resumindo o veleiro teria de ficar ancorado na ilha. No fim de semana seguinte eu traria a peça e voltaria para Salvador .





Mas como voltar para Salvador? Perguntei ao pessoal da ilha e eles disseram,


– Pegue uma lanchinha até Inema, lá pegue uma kombi até Paripe e em Paripe pegue um taxi pra Salvador. Ou então lá em Paripe pegue o trem até a Calçada e de lá pegue um ônibus.


O jeito foi encarar a maratona. Mas deu tudo certo e no fim de semana seguinte eu estava velejando novamente.





Anos depois disso mudei do Brasil. 


E mais alguns anos ainda, cheio de saudades, voltei para Salvador.


Logo que cheguei olhando para as águas da baía de Todos os Santos lembrei do que tinha me acontecido. Resolvi fazer o caminho inverso daquele que tinha feito naquela época e fui passear em Ilha de Maré. Fui para Paripe, de lá para Inema e peguei a lanchinha.




Estas lanchas de madeira são o único meio, muito precário, de transporte do povo simples que mora ou passeia na Ilha de Maré. 


Paguei os R$ 3,00 (€ 1,20) e embarquei. A lancha não tinha mais que oito metros, estava cheia de gente e a borda do barco quase roçava na água.







Por cima de nós o céu azul da Bahia, daquele tom que só existe em Salvador, estava divino.


Embaixo dele enchendo a lancha estava este povo moreno, alegre, feliz, o patrimônio imaterial desta terra abençoada.


A lancha nem tinha saído quando já começou o samba puxado por uma rapaziada. Eles improvisavam nos versos brincando com cada passageiro, com cada tripulante. Em pouco tempo a lancha toda cantava, batia palmas e já tinha gente em pé se requebrando.


Motor ligado a lancha apontou para Maré levando toda aquela gente sambando, cantando. Flutuando pelas águas de Iemanjá, tão intensas em verde quanto o céu em azul. 


E eu ali no meio. Não estava como antes na escuna de meu pai, nem em lancha de amigos, nem num veleiro de competição, nem muito menos no meu Vahine.


Estava numa lanchinha precária cercado de gente simples. 





Mas meu Senhor do Bonfim como eu estava feliz!


Batendo palmas, cantando, rindo à tôa, me sentindo parte de tudo aquilo. De tão feliz eu nem sabia se olhava para o azul, para o verde, para o marrom das pessoas ou para o branco dos sorrisos. Preferi olhar para dentro e me encher de alegria.




A lanchinha subindo e descendo no mar jogando para lá e para cá só melhorava o equilíbrio de quem sambava. Cada pequena onda desatava uma gargalhada geral e o samba ficava mais alto, as cores mais fortes, a cerveja mais gelada, meus olhos mais úmidos.





Chegamos.


Não há atracação para os barcos que chegam, não há cais, não há nenhum recurso. A lanchinha, como todas as outras que já estão por lá, avança para a praia até a proa encostar na areia. 


Os pais pulam primeiro e carregam os filhos no pescoço, os namorados carregam as namoradas no colo e uns rapazes da ilha aparecem para carregar no colo quem vai lhes dar um trocado.


O resto de nós tiramos a roupa que não queríamos molhar e saltamos direto para a água que afinal só estava pelos joelhos. Quem conhece já vai preparado, vai de bermuda, levanta a calça, levanta a saia, uma delícia.







Na praia as barracas nos esperam. Há bebidas, peixe frito e moquecas, baianas de acarajé e ambulantes completam os sabores.


Sentei, pedi uma cerveja e fiquei de frente para o mar. 


A baía estava toda ali na minha frente. A Ilha de Itaparica, a Ilha dos Frades e Salvador lá ao longe. Por trás o casario, o coqueiral, o morro e a mata.


Tudo envolto em azul e verde. Tudo envolto numa brisa macia. Na areia a beleza cor de canela da minha gente se exibindo languidamente para lá e para cá. Um vai-e-vem de doçuras,  de desejos, de promessas, de amores.





Olhei para o mar transparente de ondas pequeninas e senti saudade do carinho Dela, levantei e fui.


Mergulhei e senti no abraço a doçura de um reencontro. Me deixei ficar alí, sentindo ora um amor de mãe, ora o de uma amante. Juro que se naquele momento Yemanjá quisesse me levar eu iria, e iria sorrindo.


Mas Ela só queria mesmo era dar as boas vindas a quem tão saudoso estava de volta.






Voltei Terra de Todos os Santos, de todos os deuses, de todas as cores, de todos os encantos.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Frui Tempore Carnival



É época de Carnaval.




Independente de crença, ideologia ou religião vivemos imersos e somos em última análise produto da cultura judaico-cristã.




Não consigo fugir de certas reflexões.




Mitologicamente falando, sem entrar em considerações sobre a sua veracidade mesmo por que culturalmente não faz diferença, vivemos em um universo criado por um ser originalmente ocioso.




Vivia ele numa eternidade imensa sem fazer nada. E no escuro.




Um dia ele desperta de sua preguiça e em toda sua energia diz Faça-se a Luz.




E aí numa seqüência compulsiva saiu criando e criando; criando Tudo. Criou o universo e todas as coisas que nele há, e nesta pressa também nos criou. Mas ocioso como era, em menos de uma semana cansou-se e descansou.




Estava criado o Universo.









E ele por aí ficou, até que um dia foi tomado de uma grande ira. Note que esse é o primeiro sentimento de que se tem notícia, sempre mitologicamente falando é claro.




E por que? Por que foi desobedecido.




Um ser inflexível.









Hoje é Carnaval.




Vivemos na era da Informação e sabemos que quanto mais ela se propaga maiores são os benefícios. 


Os tempos negros da humanidade foram os períodos em que o Conhecimento era guardado como segredo.




Aquela ira do criador foi desencadeada quando seus filhos se voltaram para a arvore do conhecimento. Ele os queria manter na ignorância, um Ser portanto politicamente incorretíssimo. 


Seus filhos eram ignorantes, ociosos como o pai e como ele mesmo afirmou, sem nenhuma vergonha. E ainda por cima viviam nus.




Nesta ira onipotente ele os castigou com a Dor, o Pecado, a Vergonha e como supremo castigo determinou que a partir dali ganhariam o pão com o suor do próprio rosto.




O Trabalho é portanto o supremo castigo de deus.




Estava criado o Mundo.









Estreitando o foco, pois já temos criados primeiro o universo e o mundo, falta agora refletir sobre a criação desta nação.




Essa em que vivemos, que nos criou e moldou nasceu num momento de distúrbio intestinal de um príncipe estrangeiro, devasso e irresponsável.




Uma nação que se declarou como independente literalmente no grito. E pior, durante uma dor de barriga às margens de um riacho.




Uma independência que, aliás, só se consumou quase um ano depois, e por uma incompetência.




Lutando contra o colonizador as forças nacionais venceram a ultima batalha quando por falta de um corneteiro que tocasse a ordem de “cessar fogo e debandar”, um substituto que só conhecia um único toque disparou de sua corneta o toque de “avançar e degolar”.




O inimigo assustado com tanta disposição e concluindo que ela só poderia ser fruto da chegada de novos reforços fugiu e se rendeu.




A ultima batalha, a batalha definitiva da luta pela independência foi vencida por engano e pela incompetência de um substituto.




Estava criado este País.









Agora é Carnaval.




Pensando no processo de criação do universo, do mundo e do país em que vivemos é preciso concluir alguma coisa.




O primeiro nascido como fruto do ócio de seu criador, o segundo feito para castigar os homens com o trabalho e o terceiro nascido de uma inconseqüência.




Ócio, preguiça, intolerância, nudez, pecado, horror ao trabalho, devassidão e inconseqüência.




Refletindo sobre estas coisas enormes o Carnaval só pode ser a conseqüência de tamanhas irresponsabilidades.



Está criado o Clima. Perfeito para uma festa fantástica.

terça-feira, 1 de março de 2011

Carnaval na Bahia


Biblicamente Deus teve duas grandes e imensas Iras. As duas maiores.



A maior de todas quando desiludido com a desobediência de Adão e Eva expulsou-os do Paraíso e criou o Mundo, a Dor e o Pecado.




A segunda grande desilusão foi quando ele cansado do mundo e dos homens, inundou e destruiu quase tudo com o Dilúvio.









O Carnaval esta começando em Salvador.









Sic Illa Ad Arcam Reversa Est  - E assim ela voltou à arca – é esta a frase que está no brasão da Cidade de São Salvador junto com uma pomba que tem um raminho preso ao bico.




Noé seguindo as ordens de Deus construiu sua arca para sobreviver ao Dilúvio. Ao final de alguns dias, já com as águas baixando, ele soltou uma pomba para que esta lhe trouxesse sinais de terra firme. Ela voltou à arca com um raminho colhido na terra. 




Da terra escolhida por Deus para retomar seu divino trabalho. Esta terra ele a povoou com seus escolhidos.




Este Deus que se não hesitou em entregar seu próprio filho ao martírio da crucificação lhe reservando tão horrendo sofrimento guardou para os seus preferidos as alegrias e doçuras da Terra da Felicidade. 




Quanta diferença de tratamento!







E mais:




Arrependido da severidade com que tratou o primeiro casal expulsando-os de Sua Presença num momento de Ira, Ele se redimiu guardando um pequeno pedaço daquela primeira terra para seus escolhidos. E para demonstrar sua Grande Generosidade acrescentou:










- Pequem à vontade.