quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Um bruxo. Uma princesa.


Vinte e seis de Dezembro.

Depois do Natal em Sampa, destino Angra dos Reis. Saída de São Paulo tranquila estrada livre. São José, Taubaté e descida da Serra.


Que serra!


No trecho preservado de mata atlântica uma delícia de curvas de fazer inveja ao rally de Monte Carlo. Uma descida mais radical que a dos Alpes-Maritimes ao principado. Quem já se divertiu por ali ou se lembra da abertura de GoldenEye com Pierce Brosnan na DB-5  brincando com a Famke Janssen numa Spider 355 sabe do que se trata. Pena que o tráfego não deixava nos divertir.





Fazia o dia mais quente na região desde 1917.


Quarenta e nove, sensação térmica de cinqüenta e dois graus. Um recorde de quase cem anos. No resort dezenove pessoas desmaiariam de calor.


Um calor infernal antes de chegar ao paraíso. Duas mil praias, mais de trezentas e sessenta ilhas, uma baía perfeita, cercada de montanhas e cachoeiras. Um dos três melhores lugares do mundo para se navegar.





Um resort deslumbrante, exclusivo, imenso. Campo de golf, cachoeiras, vários canais com piers exclusivos nas casas, trilhas, praias, vilas, bares, lojinhas, restaurantes, iates atracados nos jardins das casas.

Muita gente chegando. Apesar dos dois heliportos houve engarrafamento e vez por outra um helicóptero precisava dar umas voltas antes de encontrar espaço para pousar.





Dez dias de pecados, também gastronômicos, nos esperavam. Entrada, frutos do mar, aves, carnes e sobremesas no almoço. No jantar idem, mais o creme ou sopa. Irresistível, depois a malhação compensaria.


Ao fim de todas as delícias dos muitos dias de dolce far niente - ou quase - dois fatos deliciosos. Um prato e uma frase.





O prato.


Na praia em frente ao resort, sentado próximo ao restaurante, começo a sentir o delicado aroma de cebola sendo preparada. Certamente era um roux que estava sendo feito para a confecção de algum prato. O perfume era refinado, exalava boa manteiga e a doçura das cebolas dourando. Sentia-se que o roux não chegava ao ponto de queima, que escurecia até o ponto certo. Algo maravilhoso estava sendo preparado por um mago em seus caldeirões.


No jantar a sublime revelação. A sopa creme de cebola que tornou o chef  Léo famoso no hotel Maksoud Plaza de São Paulo. Léo atiçava o paraíso com o pecado da gula.


Um bruxo.





A frase.


Ainda em São Paulo um casal se preparava para voar para Angra. Sabendo do enorme calor que fazia na praia ela pede a ele,


- Meu amor, manda o helicóptero na frente com os empregados para ligar o ar condicionado e fazer meu suco de laranja. Bem geladinho.


Uma princesa.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Sampa City


Vim passar o Natal com Patrícia, minha filhota, em Sampa. Sampa capital, pois em São Paulo eu já estou numa chácara a 60 km do centro. Um dos lugares menos poluídos, mais agradáveis e silenciosos em que já estive.


Pat mandou um motorista me buscar na chácara. “Seu” Carlos me trouxe em cerca de 50 minutos até o Brooklin, trânsito tranquilo, sem stress. Em menos de uma hora, saímos de um refúgio quase monástico para o centro de uma das maiores cidades do planeta.


À medida que chegávamos, a cidade se impunha no horizonte, o tráfego aumentava, as pistas da auto-estrada se enchiam. O transito se condensava.





Sampa surgia ao longe quase irreal. Estávamos penetrando na metrópole. A cidade chegava, crescia, nos rodeava, surgia assustadora nas dimensões. O tempo que estava ótimo no campo, na cidade estava péssimo.


Avistava-se a cidade dentro de uma bolha esfumaçada de nuvens escuras. A cidade surgia dentro de uma redoma cinza nas extremidades, completamente negra no centro, com raios cortando o céu interior.


A bolha que crescia à nossa frente, ficou enorme nos encobrindo. O tempo piorava, os raios explodiam em todas as direções. A bolha nos envolveu completamente. Estávamos na cidade. 





Ao nosso lado transito intenso, carros rápidos, mais e mais pistas, viadutos se sucedendo. O céu cinzento repleto de raios. Sampa é a cidade com a maior incidência de raios do planeta.


Os prédios altos e espelhados refletiam os raios, a cidade como um todo explodia em luzes faiscantes. Alguns carros esporte passavam em velocidades muito acima do permitido cortando o transito insanamente.


Muitos helicópteros cruzavando o céu, aviões à jato com turbinas zunindo alto, voando muito baixo, descendo enfileirados no centro da cidade, pousando entre os prédios. Os carros em muitas pistas zuniam em muitas direções. Tudo acontecia freneticamente.



Uma Gotham City apocalíptica, esfumaçada, fechada em si própria, desenhada em preto e branco num cartoon alucinado. Uma obra de Lang. Linda.


Definitivamente São Paulo é hyper-realista.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Toda esposa honesta precisa de um amante.

Toda esposa honesta precisa de um amante.



Um amante mantém a esposa tranqüila, descontraída, satisfeita. Ela pode se dedicar melhor ao lar, aos filhos e ao marido. Se sente mais desejada mais completa.


Tendo um amante ela pode ter pelo marido uma paciência e uma tolerância que de outra forma não poderia. Pode ter por ele o carinho que uma leve culpa lhe traz. Isso pode encher um lar de ternura. Um amante é essencial para o equilíbrio de uma família ajustada.





A esposa honesta que tem um amante pode ser para o marido quem ele desejar, pois ela pode ser com o outro quem ela deseja ser. Assim o marido terá sempre ao seu lado a esposa de seus sonhos.


A esposa que tem um amante é mais discreta que as amigas. Torce sempre o nariz horrorizada com as inevitáveis aventuras de suas colegas e as repreende, sendo assim um exemplo de moralidade para seus filhos. A esposa honesta só irá revelar seus segredos bem mais tarde para suas filhas e apenas quando elas se casarem, para ajudá-las em sua felicidade conjugal. - Filha já tens um marido, agora falta um amante.





O amante ideal para uma esposa honesta deverá ser sempre um homem muito mais jovem que lhe traga as alegrias do vigor da juventude. Um jovem amante faz muito bem para a pele e dispensa os trabalhos sem fim numa academia de ginástica.


Mas o amante perfeito é um sacerdote.


Uma vantagem dos amantes sacerdotes é que eles são necessariamente discretos. Os melhores são os padres católicos, pois além de todas as vantagens carregam o fascínio dos ardores da batina.


A vantagem suprema de um amante sacerdote é que ele além de proporcionar as alegrias do pecado também lhe trará o conforto da absolvição.





Um amante é a melhor maneira de afastar das esposas as tentações da infidelidade.

Se os maridos soubessem o bem que um amante trás para seus casamentos eles mesmo providenciariam um amante para suas mulheres.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Pobre Diabo


Quase não assisto televisão. Mas estava agora trocando um DVD e sem querer acessei um canal para mim completamente desconhecido.


A coisa aconteceu no exato momento em que um senhor de paletó e gravata dizia esta pérola impensável, inacreditável:


- Assine agora a Nossa Rede (acho que foi isso). Pegue seu cartão de crédito e ligue agora. Não perca nossa programação. Tem gente que já teve curas, outras conseguiram milagres depois de assinar a Nossa Rede. Este é o melhor conselho que este missionário pode lhes dar: assine já, não deixe que o demônio lhe impeça. Pegue seu cartão de crédito e afaste o demônio!





Não acreditei.


Não sabia que dava para expulsar o demônio com um simples cartão de crédito!


De qual bandeira? Acho que todas. Credicard, Visa, Mastercard, sei lá. Em quantas prestações? Bem, acredito é um detalhe para se tratar com a atendente, tipo assim:


- Senhorita dá para expulsar o demônio em quantas prestações?


- Depende. O senhor (senhor minúsculo, please) pode escolher em seis vezes sem juros ou em duas vezes com desconto.





Isso não é mais uma simples desmoralização da religião. Isso é o ridículo final.

É a decadência definitiva de um dos mais poderosos e significativos símbolos, ícones, figuras, arquétipos que acompanham a História, as angústias, os medos, os pesadelos do Homem.


Sinceramente senti pena. Pobre diabo.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Humor alemão


Sempre perco o amigo, mas não perco a piada.


Humor é necessariamente, psicanaliticamente, desrepressor. Não existe humor a favor, todo humor é contra. Todo humor é politicamente incorreto, se não, não tem graça. Isso é de uma obviedade que só não é ululante por que o Nelson não anda mais por aqui.





Claro que o supra-sumo do humor, seu melhor e mais perfeito destilado não é sequer o humor-negro inglês, é sem dúvida o auto-depreciativo judaico e o sarcástico alemão.


Melhor ainda a sublime mistura dos dois. Destas duas raças tão próximas. Não brinco, pense se existe algo mais próximo de um alemão que um judeu. Estão sempre juntos para o bem e para o mal, inventando desde uma língua até processos industriais especiais.





Bem, tudo isso para dizer que nunca me diverti tanto quanto morei na Alemanha. Depois de ganhar intimidade com amigos e colegas ouvi as mais terríveis e impensáveis piadas de judeu, polonês, nazistas, comunistas e naturalmente as auto-depreciativas de alemães.


Algumas delas dói só de pensar e não sou nem louco de publicá-las aqui. Mas há uma delas que é real, essa posso contar, já que é pessoal.





Minha mãe morreu em minha casa na Alemanha. Sem conhecer bem os procedimentos legais e práticos pedi ajuda a um amigo e colega de trabalho.


- Horst minha mãe morreu e preciso tomar as providências.


- Você prefere cremar ou enterrar? Cremar é mais simples e mais barato.


- Vou preferir cremar, afinal vocês tem uma larga experiência.


- Somos ótimos nisso. A propósito Ivan, você faz questão de guardar as cinzas?


- Por quê?


- Por se não quiser guardá-las, você poderá economizar bastante. A cidade tem um excelente sistema waste-to-energy. 


- É verdade. Basta comprar um saco marrom.





Nos abraçamos de tanto rir, quase caímos no chão. Nossa secretaria apareceu para ver o que estava acontecendo na sala.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Projeto Novo Recife


Eu comentava com o Léo Falcão o absurdo do Projeto Novo Recife que pretende fazer uma intervenção urbana no Cais José Estelita.


O projeto prevê a construção de cerca de 12 torres habitacionais, de quase 40 andares cada, numa área enorme de mais de 100 mil metros quadrados à beira do rio Capibaribe.


O PNR é por qualquer ótica irracional, ideologias à parte.





Fazendo um raciocínio absolutamente amoral, sem ética alguma, apenas econômico: todo dinheiro gerado, seja da droga, da corrupção, de qualquer crime movimenta a Economia, cria riqueza, emprego e renda, pois idealmente continua circulando dentro de um sistema fechado.


Há variações mínimas do dinheiro do crime aplicado no mercado interno devido a remessas para o exterior. Elas são muito menores que as remetidas pelas transnacionais e mesmo a parcela que é remetida ilegalmente para o exterior acaba retornando devidamente washed.


Em termos estritamente econômicos o crime não apenas compensa como também é saudável para a economia por sua agilidade e informalidade financeira. O livre mercado se exerce magnificamente no crime organizado, mas isso já é outra história.





No caso do PNR analisando o único argumento razoável que justificaria o empreendimento - por gerar riqueza, emprego e renda - ele se sustenta apenas no modelo acima.


Mas mesmo e ainda assim o PNR não se justifica.


Os custos ambientais no longo prazo, os custos distribuídos de aumento de consumo de combustível per capita, as horas produtivas dispendidas em engarrafamentos, o aumento do consumo de eletricidade na cidade para manter a refrigeração necessária pelo aumento da temperatura criada pela barreira de concreto, todos estes custos ultrapassam em muito a riqueza, a renda e o emprego gerados pelo empreendimento.


Não deve ser difícil fazer esta conta.





Detalhe: esta conta será rateada democraticamente pelos contribuintes.


Pior: a situação leva, a longo prazo, a um aumento das despesas do município sem uma receita comparável o que significará uma piora nos serviços prestados a todos os contribuintes.


Resumo: é ele o contribuinte quem vai pagar a conta no longo prazo. Tanto financeiramente quanto em qualidade de vida.


Novamente: a riqueza gerada no curto prazo pelo empreendimento não justifica os prejuízos no médio e longo prazo. Nem mesmo para os empreendedores que se tornarão passíveis de processos legais.




OK, o terreno tem dono. Foi comprado legalmente. O dono faz o que quiser.



Será?

Nem tudo que é legal é legítimo. O leilão levou em consideração o futuro uso de um bem destas proporções?

O dono faz o que quiser com o que é seu.

Você faz o que quer com o controle remoto de sua televisão?





Às vezes as soluções mais simples e óbvias estão tão perto do nariz que não as vemos.


O Tube por exemplo. O Underground, o metrô de Londres.


Ele tem mais de um século, quando começou era movido por trens à vapor queimando lenha!


A grande importância histórica do tube é que ele foi usado como elemento fundamental na expansão de Londres. Quando se detectava uma necessidade habitacional as linhas do tube eram estendidas numa determinada direção.


Isso é hoje divulgado com orgulho pela London Underground que se sente parte do planejamento sustentado de Londres. Há mais de cem anos.


Os estate developers e building contractors naturalmente participavam do planejamento e novos bairros eram planejados, construídos e ocupados.


Todo mundo ganhava dinheiro, muito dinheiro, sem criar um caos urbano.





Recife tem uma saída óbvia e fácil que é a rodovia 232.

Ela poderia ser ocupada nas duas margens por condomínios horizontais com ótima qualidade de vida, e servidos por um trem metropolitano rápido de superfície. As construtoras ganhariam muito mais do que com apenas uma dezena de prédios. Há soluções capitalistas, sustentáveis e racionais.





Recife está perigosamente atingindo um ponto de não retorno urbanístico que não pode nem deve ser tolerado por quem ama (*) a cidade e por quem quer continuar gerando riqueza nela.


Dentro do livre mercado, mas com um mínimo de racionalidade e visão de longo prazo.

Hello Adam, cadê a mão invisível para dar umas palmadas nestes aprendizes?



(*) ou gosta, ou curte, ou convive, ou suporta, ou tem tesão, sei lá, relacionamentos são complicados.