domingo, 31 de março de 2013

O Humor de meu tio Ferro.


Meu tio tinha muitos aspectos divertidos.


Colecionava relógios, centenas de bonés, dezenas de sapatos, canivetes, ferramentas, facas, celulares,
discos de vinil, CDs, DVDs, revistas. Havia aparelhos de som de todos os tamanhos e outros eletrônicos que ele
nunca se desfazia mesmo tendo décadas. Ferro ocupava sozinho um apartamento de 160 m2
onde cabia mais nada.





Havia uma televisão em cada cômodo. De manhã após o café ele assistia na sala os primeiros noticiários e lia os dois ou três jornais do dia. Depois passava para o escritório, assistia mais noticiários e filmes, lia várias revistas e livros.


Ele também tinha armas, muitas armas. Ferro chegou a ter um
arsenal que dava para fomentar uma rebelião, inclusive raridades alemãs e
tchecas da segunda guerra mundial. Todas funcionando.


Médico sanitarista, autoridade internacional em Malária, pai
de duas médicas, ele detestava ir a médicos,


- Não curam nada, são uns enrolões, só sabem pedir exames.


- Enrolões com um erre ou com dois erres?


- Com um erre só é claro. Só se usa dois erres entre duas vogais!



Ferro era meio filósofo, entendia um bocado da alma humana.

Quando ele estudava Medicina fez
estágio no Hospital da Tamarineira, um hospital psiquiátrico. Na época havia pouco
tratamento ambulatorial e muitas internações. Centenas de pacientes viviam internos
nos hospitais psiquiátricos, alguns por anos a fio muitas vezes esquecidos pelas famílias.


Sendo estagiário residente Ferro dormia na Tamarineira alguns
dias por semana.




Certa vez ao chegar no quarto ele encontrou um paciente que,
sabe-se lá como nem por que, tinha entrado no quarto. O paciente estava deitado na cama de
Ferro. Bem acomodado o cara não pretendia nem sair do quarto nem muito menos da
cama.


Ferro não se incomodou, deitou na cama ao lado.
Conversaram a noite inteira. Ficaram amigos.


Contando-me essa estória ao final ele me olha com um jeito
irônico,


- Ele era mais normal do que muita gente que eu conheço.

sábado, 30 de março de 2013

Calígula e Gustavo.


Gustavo é filho de Marcia minha ex-mulher, grande amiga.


Baiano, tipicamente baiano, o garoto é uma figura. Como
quase todo adolescente ele não era muito chegado aos livros, preferia namoradas, games, futebol
e surf.





A Marcia se irritava. Reclamava das notas, controlava a
mesada, ameaçava. Passou a controlar seus estudos, tomar suas lições, fiscalizar
os deveres de casa, estudar junto. O garoto era meio que relapso, mas ganhava a
mãe na simpatia. Coisa que nunca lhe faltou.





Um dia ela estava lhe tomando lições de História Romana.


- Fale sobre Calígula.


- Hi mãe, esse aí foi um miserável.


- Menino! É assim que você vai escrever na prova. Um
miserável? Você vai é levar um zero. Vá estudar direito.


Gustavo sem muita vontade pegou no livro de História
novamente. Abriu as páginas, procurou o imperador romano, leu tudo novamente. Leu com mais atenção. Marcia observava. Depois de algum tempo de espera ela pergunta,


- Então, já estudou direito?


- Já mãe.





Marcia lhe toma o livro e volta a perguntar,


- Vamos lá Gustavo. Fale sobre Calígula.


O garoto muito sério responde sem hesitar,


- Mãinha, esse cara era um desalmado.


Gustavo quase apanha.



Algum tempo depois, num domingo, Marcia estava em casa. Todos os filhos e o neto tinham almoçado a fantástica lasanha que ela, descendente de italianos, sabe fazer como ninguém.

Depois do almoço, naquela pasmaceira de tarde de domingo ela decide que assistir um filme seria ideal para manter os filhos adolescentes e o neto distraídos. Chama Gustavo.

- Meu filho, vá até a video-locadora e alugue um DVD para nós.

- Qual filme mãinha?

- Sei lá, qualquer um. Tem de ser um filme que dê para todos assistirem. Peça um musical, um desenho animado, um filme de História.

- Beleza.

E lá se foi o garoto para a locadora, a Video-Hobby que ficava próxima, logo depois da esquina.



Lá chegando Gustavo fez exatamente o que a mãe mandara. Procurou, achou, alugou um filme de História e voltou para casa. A mãe reuniu os filhos, a filha, o namorado da filha, o netinho e colocou o filme.

No começo tudo bem.

Depois começaram umas cenas estranhas. Muito estranhas. As crianças estavam surpresas. Marcia estava horrorizada. Olhava para Gustavo com um olhar faiscante. Queria matá-lo.

- Menino que filme terrível é esse?!

- Sei não mãinha. É filme de História.

- De História? Como é que você me trás um absurdo desses para seus irmãos verem? Você não respeita sua mãe seu degenerado?



Era Calígula de novo.

O filme escrito por Gore Vidal, do Bob Guccione, com Peter O'Toole. Um dos maiores clássicos pornográficos do cinema. Cenas depravadíssimas, de fazer corar a  Cicciolina.

As crianças estavam fazendo perguntas complicadas de responder.

- Mãinha o que é aquilo?

Marcia estava furiosa. Gustavo saiu correndo da sala.

Malhão, um Lobisomem Urbano.


O Bairro do Aleixo no Porto, Portugal, foi implodido por
iniciativa do Estado. O bairro que tinha torres de 13 andares, uma anormalidade
arquitetônica, se tornou foco de problemas sociais e tráfico de drogas.




A implosão da torre no. 5 durou cinco segundos e aconteceu na
sexta-feira 16.12.11 às 11:45hs. 
Apesar de ter sido um previsível sucesso
técnico a explosão continua a causar polêmica entre os moradores e o poder público. A construção
de um condomínio de luxo no local esta cercada de pouca transparência. 
Mas o que todos querem realmente saber é o futuro destino
do Malhão.




Malhão é uma figura misteriosa do bairro. Uns dizem que ele existe, outros
que ele é um mito. Há muitas versões contraditórias. Ninguém sabe onde está a
verdade. 


Malhão é uma figura de assombração.


A versão mais aceita é a de que ele se esconde nas
escadas dos prédios à espera dos clientes. Dos drogados. 
Malhão se disfarça com bigodes, perucas e óculos escuros. Um
dia pode ser homem outro dia pode ser mulher. Um lobisomem urbano, andrógino.


Dizem
que ele não é afetado pela lua cheia. Nunca dorme, raramente come. Quem
se aproxima dele só o reconhece pelas luvas verdes impecavelmente limpas. Ele
estende a mão, dá um pacote e recebe uma nota ou um monte de moedas.


Malhão está sempre mais ativo nos dias quentes de verão. Nos
dias frios ele hiberna e se prepara. 




Todas as noites se ouvem vozes no Aleixo a chamar por ele.
Pessoas desesperadas correm gritando, implorando com a voz rouca,


- Malhão, Malhão, oh Malhão...

Malhão virou uma lenda nacional. Virou um mito, virou versos, virou música. Até na distante Lisboa as pessoas cantavam no Bairro Alto, cantavam nas festas do Avante, sem saber o porquê,

- Oh Mamão! Oh Malhão!

Pouca gente sabia quem era o Malhão.




Malhão nunca aparece quando é preciso.

Malhão não responde
a ninguém. Quem será o Malhão? Uma fantasia de drogados ou um traficante
esperto que soube construir uma aura mitológica? A implosão do Bairro do Aleixo
deve ajudar a resolver o mistério. 
Ou talvez não.

Talvez o Malhão passe a uivar, pairando com sua longa capa e luvas verdes por sobre as ruínas do Aleixo nas noites de lua
cheia.


Desta vez será ele a pedir por socorro, a clamar por suas
vítimas, a implorar por elas, seu alimento.





Duas retroescavadoras que trabalhavam na remoção dos
destroços da torre 5 foram incendiadas por desconhecidos, disse uma fonte da Policia
de Segurança Pública.


De acordo com informações do oficial de dia do Comando
Metropolitano da PSP do Porto, “as cabines das máquinas ficaram completamente
destruídas pelas chamas. Não há, até ao momento, testemunhas do que se passou
ou, se as há, ninguém quis falar”.


Na verdade todo mundo sabe que foi o Malhão.


Alguns até se aproximaram dele quando ele chegou de
madrugada com dois galões de gasóleo.


- Por que gasóleo?



- Queima mais devagar. Saiam daqui.





Malhão cresceu nas torres.


Aprendeu a se esconder, desenvolveu hábitos de ermitão, passou a gostar de luvas verdes. No começo uivou para a lua, depois se fez seu companheiro, se enamorou por dela.



Até que a lua, numa noite quando já estava bem cheia, lhe revelou que ele era um lobisomem urbano e sem sexo. Era verdade. Malhão não tinha sexo, não precisava.


A lua só lhe visitava uma vez por mês. Ele a esperava com a garrafa de bagaceira para longas conversas. Foi ela quem lhe deu as luvas verdes,




- Cuide delas como se cuidasse de mim.






As luvas verdes impecáveis do Malhão agora estavam sujas.

O rosto estava suado apesar da chuva e do frio. Um rosto tenso, indignado,
sofrido, chorado. Tinha bebido meia garrafa de bagaceira. Tinha se mijado nas
calças.


Malhão olhava para os destroços da torre, a roupa ainda cinzenta da
poeira da explosão. Não derramara uma lagrima. Engolira em seco vendo seu
pequeno império a se desmoronar em 15 longos segundos.




Malhão não sabia com quem lutar.


Logo ele que lutara a vida inteira para sobreviver desde que os
pais morreram em Angola. Desde que a vizinha que o trouxe para Lisboa o
abandonara dentro de um trem.


Criança, dormira os primeiros dias pelas estações
à procura da mulher. 
Depois teve a certeza de que fora abandonado.

Depois a fome o fez
roubar. Depois o roubo lhe fez fugir. Depois a fuga lhe pôs a vagar nas escadas
das torres do Aleixo.





Malhão não tinha vícios, vivia dos vícios dos outros.

Não tinha dores, já tinha vivido todas.

Também não tinha saudades. Malhão não
sabia quem era.


Mas quando viu a torre a se desabar, seu coração se rasgou.

Malhão voltou
a odiar.


Começou com fogo e vai terminar com sangue.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Meu Pai.


Meu pai. Aguinaldo.


Foi das pessoas mais apaixonadas pela vida que jamais conheci.
Alegre, bem humorado, irônico, extremamente sociável. Louco por mulheres. Minha
mãe apaixonada por ele acabou se conformando. Se tornaram amigos.





Não apenas era apaixonado pela vida, ele colocava todas suas
energias no que fazia.


Foi comunista na juventude, se dedicou fervorosamente,
foi eleito o vereador mais votado de uma capital. Depois ao perder o mandato na
época de Dutra passou a viver na ilegalidade. Papai e mamãe mudavam de casa
constantemente, fugindo da polícia política da ditadura.


Nasci neste período clandestino. Para nos proteger meu pai nos escondeu a mim e a minha mãe num pequeno hotel em Itatiaia, próximo de Agulhas Negras. Em pleno inverno, as borboletas amanheciam coladas no lado de fora do vidro das janelas. Colorindo meu primeiro quarto.


Quando ele deixou o partido comunista se tornou advogado e
administrador. Participou da fundação da holding da maior empresa de engenharia do país, hoje uma multinacional. Ficou rico.





Papai era pragmático, quase cínico no seu conhecimento da
alma humana.


Tinha a rara capacidade de reconhecer um caráter em questão
de minutos. Muitas vezes, trabalhando com ele, ouvi diagnósticos que duvidei,
mas que logo depois se comprovavam.


Ele foi da primeira turma de MBA do Brasil, fundado pela
Harvard University na Fundação Getúlio Vargas. Os alunos desta primeira turma, convidados
a participar, foram selecionados entre os mais importantes executivos do país.


O curso era dado aos fins de semana em São Paulo, os executivos
precisavam ir de avião, ficar dois dias e voltar. Isso no final da década de 50
quando viajar de avião, apenas uma vez, era um privilégio para poucos. Eles viajavam todas as
semanas.





Lembro que numas férias chegamos atrasados ao aeroporto.


O avião já não estava no pátio. Já estava taxiando em direção à cabeceira da pista, já se preparava para decolar. Tínhamos perdido o voo. Papai resolveu rápido a questão. O avião retornou, voltou da pista para podermos embarcar. 


Ele tinha um grupo de amigos, juízes, empresários, que
frequentavam uma barraca de praia. Lá ficavam os sábados inteiros
comendo, bebendo. Um dia um deles fez algo desagradável, o barraqueiro
chamou-lhes atenção. Papai sorriu e ali mesmo comprou a barraca. O
barraqueiro passou de dono a empregado. 
Desde então a barraca só recebia os amigos e principalmente
as amigas deles.





Papai era um gênio administrativo.


Chegou a ter e dirigir cinco empresas ao mesmo tempo
trabalhando apenas no período da manhã. O resto do dia ele lia, fazia ioga, meditação, ginástica, curtia os muitos hobbies, se divertia com os amigos e amigas. Passava fins-de-semana na Califórnia meditando em um mosteiro budista.


Tinha habilitação naval de Capitão para navegação oceânica. Sempre teve uma lancha, um veleiro e uma escuna ao mesmo tempo. A escuna enorme só tinha uma única cabine. Imensa, cama
redonda, espelhos, bar nas laterais. 
Um luxo para o amor.





Ele teve uma fazenda enorme. A fazenda era tão grande que tinha três pistas de pouso e dois aviões. Um dos pilotos era um militar reformado da Aeronáutica.

Um dia papai soube que uma família havia invadido e se instalado na fazenda. Foi até eles desarmado. Aproximou-se da barraca. Um homem aparece armado com uma carabina, aponta-lhe. Papai caminha até ele. O homem grita, ameaça atirar, papai continua a andar em sua direção. O homem engatilha a arma. Papai se aproxima, toma-lhe a arma, da-lhe uma surra com a coronha da carabina.

Adorava música e literatura. Gostava de Noel, Bach, Beethoven e Chopin. Infelizmente fazia concessões a Tchaikovsky em seus momentos mais mundanos. Lia muito, tinha tudo de Eça, Pessoa, Machado, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha. Me ensinou a ler.



Sempre teve dois carros ao mesmo tempo, um sedã e um esporte. Dirigia como ninguém, sempre extremamente rápido. Um louco.

Teve um filho fora do casamento. Quando lhe perguntaram com quem o tal filho se parecia respondeu,

- Como todo filho-da-puta se parece com o pai.

Um canalha, um sábio.

Refinado, seus sapatos eram feitos na Itália por um artesão que tinha o molde de seus pés. Seus ternos eram todos ingleses marcados com seu nome, etiquetados em seda com sua própria assinatura. As camisas vinham da Savile Row. Tinha uma coleção imensa de gravatas. Um Patek Philippe para cada ocasião. Tinha modos impecáveis à mesa. Mesmo quando eu já tinha quase trinta anos, já casado, com filhos, ele ainda me corrigia com o olhar detalhes mínimos de etiqueta à mesa. Um gentleman.



Raramente passava o Natal em família. Ele participava de um grupo de voluntários que visitava as prisões levando presentes e comidas natalinas para os detentos.

Quando ele teve um acidente de carro gravíssimo precisou
ficar em casa engessado durante semanas, praticamente imobilizado numa cama metálica hospitalar que colocamos em seu quarto. Poucos dias se passaram até começarem
as visitas de amigos. Muitas visitas, o dia inteiro. Nossa casa parecia um clube.
Em meio a tanta agitação minha mãe lhe pergunta,


- Mas Aguinaldo parece que você só tem amigas, não tens amigos?!


Ele riu.




Em plena Quarta-Feira de Cinzas toca a campainha de nossa casa.

Fui até a porta, olhei pelo visor. Era meu pai. Tanto eu como minha mãe achamos estranho que ele estivesse a tocar a campainha da própria casa. Abri-lhe a porta.


- Aguinaldo você está sem os sapatos! Disse minha mãe.


Ele olhou surpreso para os pés e riu.


- Sorte minha. Onde eu estava teve gente que não achou as próprias calças.


Apaixonada ela lhe perdoava tudo.



Quando minha mãe morreu em minha casa na Alemanha papai e mamãe já estavam separados há alguns anos. Três anos após o divórcio ele tinha se casado com uma mulher quarenta anos mais jovem.



Telefonei para o Brasil, avisei primeiramente
às irmãs dela e a um de meus irmãos. Quando estou me preparando para ligar para
papai, meu telefone toca. Era ele.


Ele já sabia, uma das irmãs de minha mãe acabara de lhe
avisar. Pedi-lhe desculpas por não ter sido eu a lhe transmitir a notícia. 
Ele chorava, soluçava como uma criança. Balbuciava dizendo
que ela tinha sido a mulher mais importante de sua vida. 
Era verdade, todos
sabíamos o quanto ele a respeitava e admirava.





Fui seu filho predileto.


Isso não só marcou meus irmãos até hoje, como também a mim.
Quando ele morreu morávamos em cidades diferentes. Soube de sua morte de
maneira cruel.


Eu estava numa festa de comemoração pela inauguração de um
monumento em homenagem a um tio. Em meio à festa se aproxima de mim uma pessoa
de caráter digamos assim maléfico. Ela se aproxima sorridente, puxa conversa,
pergunta por meu pai que era seu amigo e me pergunta,


- Há quanto tempo não falas com ele?


- Cerca de umas duas semanas, por quê?


- Ele está morto e enterrado.




Disse esta enormidade e saiu.


Deixou-me só. Eu e a notícia. Eu e a morte de um pai adorado. Fiquei
ali no meio da festa com um copo de uísque numa mão e o pai morto na outra. Uma
prima, grande amiga, se aproximou,


- Estás branco, estás pálido! O que tens?


- Nada, está tudo bem.


- A cerimonia está terminando. Combinamos, um grupo mais
íntimo, ir jantar e continuar a festa. Vamos?


- Claro, vamos sim.





E fomos, umas dez pessoas.


Ficamos num restaurante, uma mesa grande, jantamos,
continuamos a beber, conversar, rir, nos divertir. Ninguém percebeu nada em mim. Eu
também ria, conversava, me divertia.


Eis que a prima me pergunta,


- O que houve na festa? Notei que uma mulher se aproximou,
disse-te algo e saiu. O que houve?


- Deu-me uma notícia. Disse que meu pai estava morto.


Deixei para chorar em casa. Meu pai jamais aceitaria
estragar uma festa.



quarta-feira, 27 de março de 2013

Ídiche Mama



No aniversário do filho a mama lhe dá duas gravatas de presente. No dia seguinte ao se vestir para trabalhar o filho atento aos presentes que recebera escolhe uma das duas. A mãe espera para ver qual gravata o filho estaria usando. Ao ver a gravata ela diz chorosa:




- Você não gostou da outra.










Estas histórias de mãe judia são interessantes por que refletem a ideologia da mãe ocidental.

Como todo comportamento é fruto de um contexto histórico, social, religioso e político estas piadas não fariam o menor sentido para um índio americano, um negro zulu ou um esquimó. Nem mesmo para um japonês ou chinês. A ídiche mama é produto da cultura européia.

A mãe judia, esta mulher castradora e centralizadora que faz do sofrimento pessoal sua bandeira, do sacrifício familiar seu objetivo e sua realização é uma mulher ocidental, européia e burguesa.






A mãe judia é mãe da Psicanálise. Não dá para aplicar a maioria dos conceitos e descobertas freudianos fora deste contexto. É difícil botar um oriental, um índio ou um africano deitado no divã. Lacan dizia meio na brincadeira que japonês não tem inconsciente (*).




Há uma cantiga de roda chamada Terezinha de Jesus:




Terezinha de Jesus de uma queda foi ao chão




Acudiram três cavalheiros, todos três chapéu na mão.




O primeiro foi seu pai




O segundo seu irmão




O terceiro foi aquele 




Que a Tereza deu a mão.






Estas são as três figuras masculinas que estruturam a vida de uma mulher.

O pai, o amigo/irmão e por fim o que ela escolhe para ser efetivamente o seu homem. Idealmente ela só estaria pronta para escolhe-lo quando se resolvesse saudavelmente a relação paterna. Idealmente só então ela poderia escolher seu homem, formar um novo casal, uma nova família e reproduzir a mesma história. Estes seriam sucessivamente os homens de uma mulher: o pai, o amigo/irmão e finalmente seu companheiro.










Algumas mulheres tiveram no primeiro homem um pai tirano que não representava a lei, mas que acreditava ser a própria Lei. Fazendo-a e aplicando-a. Uma situação assim não estrutura saudavelmente a relação com o pai e pode resultar numa persona feminina equivocada.

Sem ter passado de forma saudável pela primeira figura ela vive mal até encontrar a terceira. Note que nenhuma figura substitui completamente a outra, se não Terezinha teria dado a mão para qualquer um dos três.

Resolvendo ou não o Lugar Paterno, mais tarde ao se tornar mãe ela pode agregar para si um quarto homem, em geral neuroticamente substitutivo: o filho. Ele passa a ser sua última aposta masculina. Freud diz que para uma mulher um filho é a desejada e verdadeira posse do falo. Equivocada, mas é.










O filho encontra a mãe chorando num canto da sala.




- Mãe o que aconteceu? Por que estás chorando?




- Por sua causa, você só me traz preocupações.




- Mas eu não sou obediente e amoroso com a senhora?




- Sim.




- Faço exercícios, me alimento bem, não falto ao trabalho, sou respeitado, honesto, ganho bem e namoro uma moça que a senhora aprovou.




- Sim é verdade.




- Então por que estás chorando?




- Isso não vai durar para sempre!


Mães judias, que delícia, eu também tive a minha.


Até aos 16 anos ela não abria mão de me calçar as meias, antes de eu calçar meus sapatos.







* a quem interessar possa: como a escrita japonesa é feita de símbolos únicos, não há palavras escritas que sirvam de suporte
ao objeto e para dar um corpo específico ao inconsciente para que este tente recuperar
o que a fala sacrificou ao gozo fálico, dos objetos. Ufa!





Interlaken




No começo da primavera estávamos passeando, meio que em lua-de-mel, pelos Alpes. Havíamos saído de Axams na Áustria, uma vila linda sede de alguns jogos olímpicos de inverno, que fica logo acima de Innsbruck. Estávamos indo em direção a Lausanne na Suíça.



Aproveitando o tempo excelente baixei a capota do Jaguar.

Passear com o rosto ao vento por aquelas estradas na primavera alpina é uma experiência difícil de repetir em outro lugar. Mais difícil ainda de descrever. Tudo lhe envolve.


O perfume dos bosques, o verde das encostas, a majestade das montanhas, os picos altos ainda com neve, o azul limpo e magnífico, o ar puríssimo, as estradinhas cheias de curvas.


A paisagem é indecentemente linda. Depois de cada curva há sempre uma nova surpresa.






A certa altura da estrada, distante de Innsbruck e já mais próximo de Lausanne se vê Interlaken de cima. Interlaken – "entre lagos" – fica entre os lagos Thuner See e Brienzer See. Bem no centro da Suíça no Cantão de Bernese Oberland. A vila está no meio de um vale, cercada de montanhas e pelos picos Eiger, Mönch e Jungfrau. Difícil encontrar maior beleza numa região que já é idílica. Chegando num ponto ideal de observar encostei o carro em um recuo florido da estrada para desfrutar da paisagem.



Não podia estar mais deslumbrante.

Parado no meio daquele pequeno jardim colorido se via de muito alto a vila pequena no meio dos dois lagos. Nas margens dos lagos varias pequenas vilas ou pequenos conjuntos de chalés com chaminés. Nas encostas das montanhas mais chalés compunham a paisagem, de alguns deles subia fumaça das chaminés das cozinhas.

Aqui e ali a fumaça subia uniforme em formas onduladas. Acabavam se dissipando bem abaixo dos picos brancos das montanhas. Sendo primavera, nas montanhas ainda  havia neve descendo dos picos se espalhando muito brancas sobre o verde das encostas.






Nos dois lagos há barcos de vários tamanhos. Barcos à vela cruzando lentamente em várias direções, alguns com velas coloridas. Lanchas rápidas deixando rastros prateados na água. Havia um pequeno navio de turismo, pintado de branco, as chaminés pintadas de vermelho com a cruz branca suíça. Das chaminés do navio uma fumaça branca subia ainda mais alto e mais grossa que a dos chalés.






Montanhas verdes, muito altas, repletas de pinheiros. Mais ao alto picos brancos de neve. Uma exuberante combinação de cores e texturas. Superfícies sólidas, superfícies liquidas, superfícies em movimento. Há horizontes azuis, verdes e brancos se superpondo, uns mais definidos, outros mais opacos, há cores, há detalhes.  A paisagem hipnotiza, entontece. O olhar descansa, a alma sorri, o coração se enternece.

Enquanto estou me deixando inebriar na paisagem ouço a voz de minha mulher:


- Você não está excitado com esta paisagem está?


Estava. Estava mesmo, e nem havia notado.






Tempos depois contei esta estória a um psicanalista amigo meu. Ele riu muito e placidamente me explicou:


- As experiências estéticas e eróticas são ambas da mesma ordem.


Ufa! Que alívio.

terça-feira, 26 de março de 2013

Do Rio a São Paulo em 15 segundos


A NCC 1701
Enterprise em Star Trek usa cristais de dilítio como combustível para alimentar
os motores de dobra Warp.


Neste momento o
Charger-1 Gerador de Energia de Pulso, um über motor espacial, está em
desenvolvimento na UAH - Universidade de Alabama-Huntsville - em colaboração
com a Boeing, a NASA e o Laboratório Nacional de Oak Ridge.


Combustível? Cristais de Dilítio.





Felizmente não
será necessário ir buscar dilítio nas minas de Rura Penthe no setor cinco,
quadrante Beta, do Império Klingon. Dá para produzi-lo por aqui mesmo sem
incomodar o Kirk e o Spock.


Ele será feito aqui na Terra numa combinação de deutério com lítio-6, em estrutura cristalina, dai o nome dilítio. O
Charger-1, que assim como na Enterprise também é um reator de fusão, deverá ser
construído no espaço. A nave será construída na atmosfera terrestre como foi a Estação
Espacial Internacional.





O funcionamento do
motor é simples. Uma corrente elétrica passa através de fios super finos de
lítio em pulsos de 100 nanossegundos. O fios se vaporizam em plasma que é
recolhido pelo núcleo dos cristais de dilítio induzindo uma reação de
fusão.


A fusão gera três
terawatts de potência que é forçada para fora da traseira da nave utilizando um
bico magnético que também está sendo desenvolvido pela equipe da UAH. O motor
levará a nave a mais de 100.000 Km/h.


Dá para chegar em Marte em três
meses, na Lua em menos de quatro horas.





O Charger-1 não é
ficção científica, está em desenvolvimento neste exato momento no Alabama.


Com ele, se não
fossem as péssimas condições de Congonhas e do Santos Dumont, daria para ir do
Rio a São Paulo em menos de 15 segundos.




Veja mais na revista Txchnologist da General Eletric em

www.txchnologist.com/post/32463368168/channeling-star-trek-researchers-to-begin-fusion



segunda-feira, 25 de março de 2013

Bacalhau à Chico Ferro.


Sábado de manhã em Boa Viagem, Recife. Céu azul, temperatura agradável, um dia lindo pra
vadiar. Fomos eu e meu tio pro Bar Garagem.




Entre petiscos e caldinhos tomamos nove garrafas de cerveja, eu e
Ferro. Ele gostava de Brahma eu de Heineken. Chegou a hora do almoço, voltamos
pra casa dele.


Cozinhei um bacalhau crescido do Porto em uma
garrafa inteira de azeite Gallo premium, extra virgem. Azeite novo, feito com as primeiras azeitonas da safra, prensado a frio, apenas 0,3
 graus de acidez. Garrafa sem rótulo, embalada em caixa rígida individual também sem rótulo, apenas com uma gravatinha numerada no gargalo da garrafa com o número da unidade. Uma benção
dourada produzida apenas uma vez por ano. 
Este Gallo eu havia trazido de Portugal para ele. Ferro era connaisseur de azeites:

- Portugueses e espanhóis são mais leves, gregos e italianos mais picantes.

 Quando comecei a cozinhar ele me olhou espantado:


- Você vai usar esse azeite raro para cozinhar? O meu presente? 





Demolhado e delicadamente seco numa toalha, fritei as enormes postas do bacalhau numa panela com um pouco do azeite e duas cabeças de alho picado. Quando já estava quase dourando acrescentei uma cebola fatiada e esperei elas amolecerem. Então despejei todo o restante do azeite, toda a garrafa, para horror de Ferro.

- A garrafa inteira?


- Calma Ferro, vale a pena, você vai adorar.



Acrescentei três batatas com casca cortadas em quatro, um pimentão verde fatiado à juliana e um tomate cortado em meias-luas. O azeite se mistura ao suco do bacalhau e dos legumes e forma um molho espesso. Na metade do tempo de cozimento coloquei tudo com muito cuidado numa forma, ralei um pouco de pimenta preta por cima e levei ao forno para
gratinar. 
Servi-o decorado com salsinha picada.





Ferro abriu um Periquita, começamos a degustar o bacalhau e
apreciar o vinho. Ao meio da refeição ele abriu um Dão. Quando
terminamos ele serviu um Porto. Continuamos a conversar, saímos da mesa, fiz um café forte, fomos
para o escritório. Ele propôs um Dimple 18 anos, abriu uma garrafa cheia. 
Brindamos.





Ferro tinha mais de oitenta anos, eu mal chegara aos
cinquenta. Depois de duas doses, já meio tonto, fui tirar um cochilo. Ferro ficou assistindo
Gilda com a Rita Hayworth. Acordei algum tempo depois e vi Ferro ao longe no
corredor me olhando, comentando com a empregada:


- Esse aí é fraco, não aguenta nada.





Levantei fui para o escritório, Gilda já tinha
terminado. Ferro estava lendo jornais, ouvindo uns fados da Amália, o Dimple quase na
metade, ele sóbrio. 
Sentei ao lado no imenso sofá. Comentamos longamente os fados. Depois ele pediu para colocar Falcão Maltez com o Bogart.


Saudades, Ferro. Para quem vou cozinhar agora seu bacalhau?

Não ria aí de cima. Sei que estás tomando um Dimple 30 anos.


sábado, 23 de março de 2013

Um Casal de Franceses


Minha filha
Vahine que estuda Cinema de Animação foi escolhida pelo programa Leonardo da Vinci da
União Europeia. Ganhou uma bolsa em que ela poderia escolher qualquer país da UE para fazer um estágio profissionalizante.





Ela escolheu a
França e foi para Bordeaux, depois Angoulême, a capital mundial da Animação e das Histórias em Quadrinhos. Lá ela estagiou no estúdio Poisson
Rouge, um dos melhores da Europa, de ex-diretores da Disney. 
Mas antes do estágio propriamente dito começar ela teve de se submeter a uma via-crucis cansativa, desgastante. Coagida pelo Estado francês.



Minha pobre filhota, coitadinha, durante um mês inteiro teve de se submeter a várias aulas, provas e degustações de vinhos e queijos. Precisou frequentar um curso de francês para dar uma reciclada na fluência da língua. Exausta ela teve de visitar castelos, igrejas, teatros, palácios e museus da região. E durante tudo isso os franceses insistiam nas tais degustações. Nos finais de semana o sufoco continuava. Exposições, cinema, teatro. Visitas a feiras típicas com comidinhas e dezenas de queijos. Finalmente depois de um mês a maratona chegou ao fim. Ufa!



Lá ela se hospedou na residência de um casal.


Ele um
engenheiro aeronáutico da Aerospatiale, especialista em combustíveis líquidos de
foguetes. Ela uma psicanalista. Um casal culto, bem sucedido, sofisticado e
gentil.


O casal vivia numa bela casa, bem decorada. Tinham hábitos requintados. Obras de arte, muitos livros, filmes e discos. Todos os dias
no jantar o casal abria garrafas de vinho que normalmente só se toma em
degustações. Vinhos caros, caríssimos. A filhota ficou encantada com tanta
finesse, com tanta joie de vivre.




Cultos e civilizadíssimos os dois, o casal tinha uma característica inimaginável em terras selvagens. Apesar da
excelente condição financeira eles não tinham carro. 
Os dois andavam de
bicicleta.



sexta-feira, 22 de março de 2013

A Invisibilidade ao Alcance de Todos


Há mais de um ano a revista científica Nature publicou em 04.01.12 um instigante trabalho de pesquisadores da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Moti Fridman e equipe criaram um buraco no tempo que torna qualquer objeto invisível e indetectável por aparelhos.



Este tipo de trabalho já está sendo desenvolvido em vários laboratórios há vários anos pelo mundo afora. No inicio de 2010, depois de cinco anos de pesquisa Nicholas Stenger e mais dois colegas do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha conseguiram produzir os metamateriais que precisavam para criar uma capa de invisibilidade. 




Metamateriais são materiais compostos que não existem em estado natural. Normal. Nada de mais nisso. S
eu próprio corpo deve ter qualquer coisa artificial, nem que seja nos dentes. Se seu corpo não tem o da gata ao lado tem, pelo menos alguns mililitros. Plásticos, revestimentos e a maioria dos materiais que você está usando agora são totalmente artificiais. 


Look around. Tem muito pouca coisa ainda natural ao seu redor. O Chester que você acabou de comer na ceia de Natal não estava na Arca de Noé. Foi criado pela Perdigão. 


Os metamateriais criados na Alemanha são capazes de modificar o deslocamento da luz visível de forma que qualquer objeto colocado por baixo deste fluxo de luz fica invisível. 


A equipe do ITK desenvolveu a partir deles uma estrutura microscópica tridimensional, uma capa que torna invisível o que estiver dentro dela, inclusive a própria capa. 


Pesquisadores do Imperial College de Londres foram ainda mais longe. 




Em 16 de Novembro de 2010 Martin McCall publicou no Journal of Optics um trabalho desenvolvido para manipular a luz e ocultar uma ação completa. No tempo e no espaço. 


Brrrr...


Eles já haviam demonstrado que metamateriais cuja superfície nanométrica interfere com a luz são capazes de desvia-la ao redor de um objeto, tornando-o invisível. Agora o esforço é para fazer a luz desaparecer em um vácuo espaço-temporal por meio destes metamateriais. 


Algumas fibras ópticas de silício são capazes de produzir este efeito. São fibras parecidas com as que estão na sua casa ligadas a seu provedor de internet. 


Manipula-se a variação do índice de refração e a velocidade da propagação da luz nas fibras. Normalmente, a luz perde velocidade quando penetra em um material. É possível então manipular os raios luminosos de forma que alguns acelerem enquanto outros são retardados. 


Para qualquer pessoa que esteja observando, a luz acelerada chegaria antes do ato e a parte mais lenta chegaria depois da ação. Ao dividir e recompor a luz a ação fica literalmente invisível a qualquer observador. Há uma aplicação prática imediata para esse conhecimento. Além de servir para você sumir por aí esta manipulação com feixes de luz vai acelerar tremendamente a velocidade de processamento dos computadores. 





Mas o trabalho revelado hoje pelo pessoal da Cornell é tremendamente perturbador. 


Manipulando frequências da luz eles fizeram com que objetos sumissem no tempo e no espaço. 


O buraco no tempo existiu por apenas 40 trilionésimos de segundo, mas abre grandes possibilidades práticas. O método permite manipular sinais ópticos em tempo real, criar buracos no tempo e rearranjar pacotes de dados sem interferir na informação que está sendo carregada por eles. 


Na prática é fazer os computadores trabalharem com alta taxa de processamento em velocidades acima da luz. 






A técnica é parecida com a onda de Alcubierre. Aquele modelo matemático para se viajar FTL,  faster-than-light,  acima da velocidade da luz, em Warp a velocidade de dobra da Star Trek. 


Manipula-se a velocidade da parte da frente e a de trás de uma onda de luz. Acelerando a parte da frente e freiando a parte de trás, invertendo o modelo Alcubierre. Como na parte de trás não há luz visível qualquer evento que acontece no buraco criado entre a parte mais rápida e a mais lenta fica invisível. Juntando as duas técnicas você viaja acima da velocidade da luz, chega antes, e quando freia ninguém lhe vê. Excelente para quem chega sempre atrasado aos encontros e reuniões.




Mas há um pequeno detalhe.

Seu chefe ou sua namorada poderiam notar a existência do buraco e concluir que a luz havia sido manipulada. E aí quem iria mesmo para o buraco era seu emprego ou seu namoro.

Para resolver a situação a equipe desacelerou a luz que havia sido acelerada e vice-versa. Assim o próprio buraco fica indetectável e para quem o observa o feixe de luz permanece uniforme.

Yeess! You can.



O
 próximo passo da equipe é criar um sistema capaz de unir dois buracos, um no espaço e outro no tempo. Com isso o próprio evento deixa não apenas de ser visto. Além de ficar invisível ele também desaparece do tempo de quem o observa. Some mesmo.

Nossa realidade está ficando cada dia muito mais interessante do que qualquer ficção científica que você já viu. Aliás você está vendo alguma coisa?

Tiborna


Tiborna pode ser um doce, um bacalhau,
uma maneira de comer o pão. Tiborna também é um ritual português. O doce é de
Nova Viçosa, o bacalhau do Entre-Douro-e-Minho, a maneira de comer o pão do
Alentejo e Olivença. O ritual, alentejano.





No início da colheita das oliveiras, entre Outubro
e Janeiro, é tirado o melhore azeite feito de azeitonas prensadas a
frio. Até hoje a tradição da Tiborna permanece lembrando um antigo ritual quando os lagareiros no fim do dia se juntavam em volta da mesa com a família e os amigos.


Celebrando o azeite recém extraído se assava o pão. Saído do forno ele é partido aos pedaços e mergulhado no azeite novo. Tempera-se com
alho, flor de sal ou com açúcar e canela. Acompanha-se com um tinto, naturalmente
da região, dali mesmo do Alentejo.


Ora um gole, ora o pão, o tempo passa, o vinho
alegra, o pão e o azeite alimentam. Chega a saudade dos que precisaram deixar a
terrinha. Chega o fado.





Tive bons amigos alentejanos, gente simples,
hospitaleira, festeira.


Quando não queríamos nos dar ao trabalho de acender o
lume para assar umas febras, deixávamos o porco para outro dia. Abríamos uma
garrafa de azeite, picávamos uns alhos, deitávamos tudo numa terrina. Noutra eu ajuntava ao azeite uns orégãos, às vezes uns coentros, um pouco de sal e pimenta
preta ralada. 
Às vezes havia também uns queijos d’Évora, às vezes uns
Saloios regionais. Mas o importante mesmo era o azeite novo, a tiborna.





- Então pá, vamos aos copos? E abríamos um vinho.


- Então pá, venha de lá esta tiborna. E vinha o azeite e o pão que mergulhávamos nele.

Tomávamos uns golos, metíamos conversa
até as horas. 
Um ritual difícil de parar. Mais vinho, mais
azeite, mais fados.


Dividíamos o pão e o vinho. Uma santa ceia.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Maria


Maria é uma faxineira, uma cleaner, une femme de ménage, uma diarista.

Uma mulher-a-dias, como preferem os portugueses, que trabalha onde moro. Jovem na faixa
dos 30 anos, tem dois filhos. Incansável ela faz faxina o dia inteiro, todos os
dias.





Maria apesar de baiana não tem nem o tipo físico nem étnico das
baianas de Salvador. Sendo do interior ela tem o tipo sertanejo. Não é bonita nem feia de
rosto, mas tem um corpo literalmente escultural, um assombro, um pecado
ambulante.


Branca, alta, magra, pernas longas e torneadas, ela tem aqueles excessos brasileiros
em alguns lugares e uma cintura de pilão como preferia o Luiz Gonzaga. Uma mulher, um banquete para duzentos talheres. Um jeito humilde, quase infantil. Rosto de
menina sapeca, um sorriso largo e permanente. Um andar  suavemente provocador. 





Extremamente alegre Maria leva a vida com prazer, na brincadeira como ela
mesma diz. 
Uma vida duríssima por sinal. Trabalha 9 horas por dia
fazendo faxinas e depois de tudo ainda lava e passa roupa fazendo um extra em casa.
Depois de tudo ela ainda tem de cuidar da própria casa, fazendo tudo isso
novamente. Cozinha, faz compras, cuida do marido e dos filhos.


Maria faz tudo isso numa alegria contagiante, ofensiva, inaceitável, incompreensível.





Maria apesar dos 30 e poucos anos é casada com um homem de
63.


Hoje lhe perguntei como ela consegue aguentar uma vida tão
dura, se manter tão alegre e feliz, ter tanta vitalidade. Ela riu aquele sorriso maravilhoso e
 explicou a
fórmula:


- Meu marido me procura todo dia. De manhã e de noite.


Maria desempenha alegremente os três turnos. Aja alegria.

terça-feira, 19 de março de 2013

Holandeses


O aeroporto Schiphol de Amsterdam tem algo interessante, típico
da criatividade, da irreverencia holandesa, que funciona e muito bem. Holandês
é essencialmente um animal prático.





Os banheiros masculinos do Schiphol têm mictórios que viraram
atração, case de design, imitados. Branco, 
de cerâmica, de formato igualzinho a um mictório
masculino comum, presos na parede da mesma forma, aparentemente sem nada de
especial. A não ser por um pequeno, mínimo detalhe. Na bacia branca fica pintada na parte mais baixa, no lado esquerdo, uma pequena mosca
preta.





Resultado. O usuário dirige o jato de urina
sobre ela, tentando tirá-la dali. A mosca naturalmente permanece onde está. Diverte quem usa e faz o jato ser eficazmente direcionado diminuindo a sujeira natural deste tipo de lugar. Mais
higiene, menos interrupções para limpeza, menos custos.


Funciona tão bem que quando a administração do
Schiphol venceu uma concorrência de reforma no aeroporto de Nova Iorque os
americanos pediram mictórios iguais, com mosquinha e tudo. A
 ideia já foi muito imitada e eu já vi em
Lisboa uma pequena trave de futebol com uma bolinha pendurada, dentro do
mictório desafiando a pontaria de quem usa.





Outra ideia fantástica é um painel enorme de vídeo que fica
na Centraal Station, a estação central de trens da cidade. Além do
bicicletário assustadoramente grande do lado de fora a estação há algo divertido
do lado de dentro. 
Abre parênteses.


Aquelas milhares de bicicletas são na
virtual totalidade todas pretas e do mesmo modelo. Sempre me intrigou como os donos
fazem para reconhece-las, para acha-las naquele mar de rodas. Depois me explicaram que são elas que
reconhecem os donos. 
Fecha parênteses.





Voltando ao enorme painel de vídeo dentro da Centraal.


Há poucas coisas mais chatas do que ficar parado
numa plataforma de trem ou de metrô esperando o vagão chegar, olhando para a
parede em frente que tem no máximo alguns anúncios que você já está
cansado de ler. Então surgiu uma ideia divertida.


No painel passa ininterruptamente a seguinte cena: um close enorme no rosto
de uma pessoa embaixo de um chuveiro.


A pessoa não usa as mãos, só se vê o rosto e a água descendo do chuveiro. A água escorre pelo rosto da pessoa que pisca um olho, pisca
o outro, fecha os olhos, olha para baixo, olha para cima, se incomoda, sopra, fecha e abre a boca. A água
não para de jorrar do chuveiro. O vídeo é exibido em loop, não para nunca. 
É
impossível deixar de olhar. 


As pessoas acabam ficando quietas na mesma posição, o
que aumenta a capacidade da plataforma, e não se estressam com a espera.




Você não se distrai com outras
coisas. A não ser que a Famke Janssen apareça inesperadamente. Mas aí já é caso de
chamar uma ambulância, um cardiologista.



segunda-feira, 18 de março de 2013

Como aprender Inglês em duas lições.


Apesar de ser fluente em inglês há duas palavras, uma palavra e um tempo de verbo, que aprendi de forma inesquecível.





Eu morava em Barons Court em Londres e trabalhava em West Drayton. Super fácil de chegar ao trabalho, mas exigia disciplina. Tomava a Distric Line do tube até Ealing Broadway e lá trocava para um trem destino Oxford. O horário de chegada do tube tinha apenas um minuto de diferença para o da partida do trem de Oxford que parava em West Drayton.


Sem problemas, evidentemente os dois horários funcionavam com pontualidade típica e as duas plataformas não ficavam distantes. Mas era preciso atenção e rapidez, pois caso perdesse o trem o problema seria grave pois o Oxford seguinte que parava em West Drayton só passaria umas duas horas depois.





A coisa funcionava bem, sem falhas, nunca me atrasei no trabalho. Até que um dia, esperando na plataforma, o tempo passava e o trem não chegava. Preocupado perguntei a um funcionário que estava na plataforma se o trem estava atrasado. Ele me olhou como se eu tivesse acabado de ofender a Rainha, quase chamou um bobby,


- Delayed? It´s gone!


Duvidei do meu inglês, aquela tragédia não podia estar acontecendo! Perguntei de novo, ele respondeu já meio bravo,


- Gone, gone, it´s gone!


Jamais esquecerei como conjugar o verbo To Go.





Uma outra vez eu estava no tube num horário de rush. O vagão estava absolutamente lotado. Eis que de repente alguém alivia silenciosamente a pressão dos intestinos, daquela forma que o Eça de Queirós chama muito apropriadamente de flatulência grosseira. O ar ficou irrespirável. Ninguém moveu um músculo do rosto. O cruel responsável permanecia anônimo. Ao meu lado e junto à porta, estava um senhor tipicamente inglês, de paletó, colete, gravata e sobretudo, elegantézimo, com ar nobre. Ele apenas moveu a cabeça olhando em volta indignado.





Quando o vagão parou em Knightsbridge, ele saltou, deu dois passos na plataforma, parou, deu meia volta, virou-se em direção ao trem que ainda estava com as portas abertas, olhou para nós e, stif upper lips, atirou:


- Bastards!

KEN


Sou administrador de empresas. Uma das pessoas de maior
capacidade organizacional, uso de métodos, tempos e movimentos que já conheci
foi o Ken.


Ken não era administrador era Chef. Trabalhei com ele na
cozinha industrial do LATCC – London Air Trafic Control Center. Com uma pequena
equipe de três pessoas ela preparava e servia cerca de 750 refeições diárias.





Ken era brilhante. Chegava de manhã dava uma
olhada rápida no estoque, ia para o escritório e em minutos fazia os diversos
cardápios do dia com o que havia disponível. Café da manhã, almoço e jantar.
Chamava a equipe distribuía as tarefas, atualizava o estoque e fazia os pedidos
para os fornecedores. Tudo isso sem computador. Depois abria uma garrafa de
vinho e partia para o fogão.




Ken era magro, muito alto, quase dois metros, louro de olhos
azuis, porte atlético, tinha uns quarenta anos. Ken era acima de tudo muito alegre,
divertido, cantava o tempo todo, contava piadas imundas e estava sempre passando
a mão nas senhoras do LATCC que naturalmente se faziam de horrorizadas.
Ken era adorado por todos. Cozinhava muitíssimo bem, detestava comida inglesa,


- Comida de bárbaros.





O LATCC é uma instalação mista militar e civil que controla
o tráfego aéreo de todos os aeroportos de Londres. Como a base é de segurança nacional
de vez em quando havia uns alarmes de treinamento tanto de ataque aéreo quanto
de ataque nuclear. As sirenes disparavam, os militares apareciam, uma confusão
enorme. Todo mundo tinha de pegar seus equipamentos, cumprir procedimentos e
correr para os abrigos. Menos Ken. Nem ele nem a equipe.


Os militares ficavam bravos, a administração se aborrecia.
Ele respondia,


- Vocês querem que o almoço atrase? Se os krauts ou os commies
aparecerem não vai sobrar nada dessa goddamn fuking shit, little bastards.




Ficamos amigos.

Ken sabia que eu adoro Honey Ham e escondeu um enorme no fridge-hall da cozinha. De vez em quando eu ia lá, sorrateiramente como quem rouba, entrava na sala refrigerada, cortava umas fatias enormes, colocava num prato e gratinava com matured cheddar ralado.

Absolutamente divino, eu desgustava de olhos fechados. Como dizia o Eça à respeito dos vinhos de Colares por eles um filho mata um pai. Levei um mês para estraçalhar o Ham. Morro de saudades até hoje.



Anos depois, morando em Sintra, encomendei um destes honey glazed hams artesanais ao butcher de minha amiga Roberta, a Bobbie, lá em Maidenhead. James criava porcos selecionados, alimentava-os com carinho, e depois de abatê-los levava semanas religiosamente preparando e defumando os pernis dianteiros.

Todos os dias eu ia ansioso lá na butchery, como um pai acompanhando a gestação de um filho docemente esperado, saber do estado do processo.

Quando finalmente meu Ham ficou pronto eu o provei trêmulo, desesperadamente, ali mesmo no balcão. James sorria vitorioso, very proud da obra de arte. Minha pobre alma flutuou, meus olhos marejaram. Beijei as mãos abençoadas do James. Tive vontade de rasgar meu passaporte, de cantar God Save The Queen, de encomendar minha última morada nas Chilterns da divina Ilha.

Escondi-o, guardei-o como um tesouro. Durante o dia aproveitava da ausência de minha família ou degustava-o na calada da noite. Escondi-o de minha mulher, soneguei-o aos meus próprios filhos. Menti, pequei. Mas isso já é outra estória.



Voltando ao LATCC.

Ken também sabia que eu era louco por culinária. Um dia ele me chama, eu entro no escritório da cozinha e sento em frente a ele. Ele abre uma gaveta, tira dela um pequeno e surrado livro marrom e me entrega.

- É seu.

- O que é isso?

- Um manual profissional de cozinha  e receitas que minha mãe me deu quando entrei pra faculdade.

- Sorry Ken, mas não posso aceitar.

- You deserve it.

- Mesmo assim não posso.

- Então você, my dear sun of bitch, acha que eu ainda preciso dele?

- Corse not.




Certa vez entrei no banheiro e encontrei o Ken trocando de
roupa. O cara tinhas tatuagens da cabeça aos pés. Achei engraçado, perguntei se ele
era completamente tatuado. Ele soltou uma gargalhada,


- Yeah! Tenho uma pequena tatuagem que cresce, quer ver?

- No, thanks!


Ken vivia cheio de namoradas, cada uma mais complicada que a outra, todas elas lindas. Um dia estávamos conversando sobre mulheres ele me dizendo que preferia as holandesas, que elas eram as mulheres mais sexies da
Europa, mais bonitas até que as dinamarquesas. Concordei que elas eram realmente muito
bonitas. Mas ele lamentou,


- Pena que não posso voltar à Holanda.


- Por que?


- Por que assaltei um banco em Amsterdam.


- Você o quê??


- Foi só de brincadeira, com um revolver de plástico, mas a
polícia não gostou, me prendeu e carimbou meu passaporte.


Até hoje não sei se essa estória foi mais uma joke da figura.





Apesar de working-class o Ken tinha uma Maserati preta, novinha,
caríssima, placa inglesa. Como ele só usava transporte público e só aparecia
com a maquina poucas vezes, sempre às sextas-feiras, fiquei curioso. Perguntei por que, se era para sair com as meninas nas baladas.


- Não. Com as grrllsss eu uso outro carro, não quero atrair interesseiras. Só uso a Maserati para visitar minha mãe.


- Sorry?


- É que ela mora longe, no interior, lá no Norte. Eu só vou lá quando tenho dinheiro para pagar as multas.

domingo, 17 de março de 2013

Queijos


Nenhuma casa pode ser considerada minimamente civilizada se não abrigar pelo menos nove tipos de queijos, sendo o Camembert, o Emmental, o Gouda, o Parmesan, o Boursin e o Roquefort essenciais. Os outros dependem de preferências pessoais, regionais, sentimentais, patrióticas, amorosas, religiosas. O mínimo ideal são onze.






Não confie em ninguém que não saiba explicar com sinceridade pelo menos doze deles. 


Estas escolhas refletem, mais e melhor que as escolhas políticas ou religiosas, o carácter dos indivíduos. Antes de se enamorar, fazer negócios ou votar em alguém investigue quais os queijos que orientam sua vida. 





Se um dia, abençoado com certeza, você encontrar alguém que compartilhe pelo menos uns treze entregue-se sem restrições. 


Abra seu coração, abra sua conta bancária, abandone seu psicanalista, dê a senha do cartão de crédito, compartilhe seu e-mail, cancele suas assinaturas, saia do facebook, não volte para a balada. Compre outro travesseiro, não feche mais a porta do banheiro. Você será feliz para sempre.

Você encontrou a alma gêmea em que poderá confiar por toda a eternidade.


A Boa Nova em Japonês.


Este domingo fui assistir um culto, uma missa, numa igreja luterana, próximo daqui de casa. Na Liberdade em Sampa. Uma igreja pertencente a IECLB que tem protocolos de comunhão com a minha igreja a IELB, ambas luteranas. Enfim, sem entrar em detalhes técnicos, uma igreja que posso frequentar e onde me sentir familiar.





A diferença é que esta igreja específica é de uma comunidade de japoneses na Liberdade em São Paulo, e aos domingos pela manhã o culto é falado em japonês. Mas foi exatamente por isso que fui, por pura curiosidade estética. Como seria um culto cristão, de origem alemã, numa comunidade de japoneses?





Não notei grandes diferenças, o ambiente era muito familiar. Na igreja os símbolos, a disposição do altar, as cores dos paramentos eram rigorosamente iguais, como alias não poderia deixar de ser. Havia até mesmo uma foto de Lutero ao lado da estante na entrada, onde normalmente estão as bíblias e os hinários que ficam à disposição dos membros.





Na congregação havia sinais prosaicamente familiares do que estou acostumado. Pessoas chegando atrasadas, se atrapalhando no uso do hinário, leitores gaguejando ao fazer as leituras dos textos. Notei que dois adolescentes, visivelmente filhos do pastor, estavam displicentes e distraídos. Mais sintomático ainda era quem tocava o órgão era a mulher do pastor. Não havia dúvidas, eu estava realmente numa igreja luterana. Senti-me em casa.





Foi fácil acompanhar a liturgia. Como na minha igreja, havia um folheto com a ordem do culto com as abreviações dos textos bíblicos e os números dos hinos. Foi só seguir no equivalente em português. Claro que eu lia e acompanhava baixinho em português para não interferir com meus anfitriões. O Pai-Nosso me pareceu ligeiramente maior nas frases centrais. Fiz grandes progressos na língua japonesa, aprendi algumas palavras novas: Páscoa, Paróquia e Amém. Preciso agora descobrir a tradução.





Um detalhe típico da delicadeza japonesa: as cestinhas de vime, que são passadas durante o culto para recolhimento das ofertas em dinheiro, são fechadas na parte de cima por um tecido e têm uma pequena abertura com elástico. Você não vê o quanto seus vizinhos colocaram. Super delicado. Lembrei de Mateus 6,4.





Quando entrei na igreja tinha a expectativa de uma experiência estética, de participar e ouvir em outra cultura, em outra língua, uma liturgia que me é muito familiar.

Quando saí da igreja havia passado por uma experiência muito maior. Tinha sentido de forma prática e direta a fé na Graça em uma cultura completamente diversa. Lembrei de Marcos 16,15.

Thanks Sampa.

sábado, 16 de março de 2013

O Spa de Hürth-Hermülheim


Certa vez na Alemanha eu tinha ido a uma reunião de trabalho em Mönchengladbach. Quando a reunião terminou eu estava cansado. Para casa eram pouco mais de 700 quilômetros, o que mesmo correndo seriam umas cinco horas de viagem. Mesmo assim fui para a estrada, daria para chegar em casa por volta da meia-noite.





Depois de rodar uns 60 quilômetros senti que estava cansado demais para dirigir com segurança e decidi procurar um hotel para passar a noite. Estava nas proximidades de Hürth-Hermülheim, entrei na cidadezinha e parei no primeiro hotel que encontrei. Quando entrei achei o hotel muito estranho. Tudo na recepção era vermelho, absolutamente tudo. Até a recepcionista estava vestida de vermelho.







Ela notou minha estranheza e sorriu. Eu também sorri e antes de perguntar se havia vagas perguntei por que tudo ali era vermelho. Ela apontou para uma bandeira da Ferrari. Prestando atenção notei que a decoração só tinha motivos Ferrari. Havia fotos, miniaturas, flâmulas, catálogos, revistas. Fiquei intrigado de ver isso não na Itália mas na Alemanha. Perguntei o motivo de tamanha fascinação, o dono era um tifosi? Ela sorri e pergunta:


- Não sabe quem nasceu aqui?


- Não, quem?


- O Schumi.


Levei alguns segundos para relacionar que sendo o Michael Schumaker piloto da Ferrari fazia algum sentido todo aquele orgoglio rosso, a decoração tinha a ver mais com ele do que com o Commentatore.





Enfim não havia vaga, o hotel estava cheio. Mas a menina me vendo de paletó e gravata, naquele horário, com
cara de cansado, resolveu ajudar. Depois dela fazer varias ligações para
outros hotéis, todas infrutíferas, notando minha cara de desespero, ela pergunta se eu me importava de me hospedar num spa. Disse que não,
que só queria jantar,
tomar um banho e dormir. 


Resolvido. Ela ligou para o tal spa, fez reserva e me deu um
mapinha. Agradeci muito e ela disse que na próxima
vez eu ligasse antes, que ela teria prazer de me reservar um quarto sehr rot. Rimos e nos despedimos.





Fui para o spa. A Alemanha
é repleta de spas de todos os tipos. Pela legislação trabalhista
alemã há uma quantidade fixa e bastante razoável de dias permitidos para se
usar como licença médica sem justificativa. Os alemães juntam todos estes
dias e tiram férias adicionais em um dos muitos spas do país que se
multiplicaram por conta disso.


Cheguei, estacionei e fui direto para a recepção. O recepcionista já me esperava, os procedimentos foram rápidos, perguntei se o restaurante do hotel ainda estava
funcionando, ele disse que sim, perguntei onde ficava pois estava faminto e iria imediatamente para lá. Ele me olha espantado,


– O senhor vai assim?


 –
Assim como?


– De paletó e gravata.


– Sim, algum problema?


– Não, o senhor é quem sabe.


Saí da recepção, abri uma porta imensa e
entrei diretamente no spa. Havia muitas pessoas, homens, mulheres, velhos e
crianças. Tomei um susto enorme.




Todos me olhavam espantadíssimos. Homens, mulheres e crianças
estavam todos absolutamente nus. Não havia nenhuma pessoa minimamente vestida. Era
um spa de nudismo.


Fui direto para o restaurante, sentei-me e fui atendido por uma eva-garçonete que estava tão espantada
quanto eu. Afinal eu não estava vestido, digo despido, de
acordo.


Pensei em tirar a roupa ali mesmo, perguntei se poderia fazê-lo, ela disse que sim, que eu ficasse à vontade
e me perguntou se queria ajuda. Pensei duas vezes. Como iria explicar
para minha mulher que eu tinha jantado depois de uma garçonete bonita ter me
ajudado a fazer um striptease?





Preferi enfrentar os olhares de reprovação
dos outros hóspedes. Nunca me senti tão desconfortável em um restaurante.