domingo, 26 de agosto de 2012

Beta e Jorge


Beta e Jorge. As pessoas do nordeste do Brasil são conhecidas por sua hospitalidade e solidariedade. São duas características com raízes sociológicas interessantes.


Mas aqui há uma história privada que tem mais a ver com o caráter pessoal do que com qualquer característica regional. É de longe a maior manifestação de solidariedade que conheço, principalmente por conta da relação entre os envolvidos.





Beta e Jorge. Ela é uma executiva e sócia de uma empresa que já foi considerada algumas vezes como a melhor do país. Ele apesar de engenheiro é funcionário do banco central brasileiro, culto, inteligente, excelente humor. Ambos de famílias tradicionais, ambos simpaticíssimos, ambos dos mais agradáveis anfitriões que conheço.





Os dois viajam ao máximo, têm filhos morando no exterior, adoram fazer turismo.


Um dia ele recebe um telefonema. Era um homem que ele tinha conhecido rapidamente em Londres numa de suas viagens, há mais de quinze anos. Coisa rápida, ocasional, eventual.


No telefonema eles trocam palavras simpáticas, falam de assuntos genéricos, como não podia mesmo deixar de ser para quem tinha se conhecido rapidamente numas férias há tanto tempo atrás. Mas o homem tinha uma história surpreendente e um pedido inusitado.


Ele estava na fila de espera para fazer um transplante. Por morar no Rio a fila era longa, as doações eram raras, a espera prevista para alguns anos, mais tempo do que seu organismo poderia suportar. Ele estava no limite.





O homem tinha um detalhe para contar e um pedido a fazer.


O detalhe é que ele havia descoberto que a espera para transplantes em Recife era muito menor do que no Rio e já havia se inscrito na fila de espera. Ele acreditava que faltava pouco tempo para ser chamado. Mas pela própria natureza das cirurgias de transplante ele precisava se mudar de cidade para esperar pelo momento exato e urgente entre a retirada do órgão do doador e a cirurgia do transplante. 


O problema era que ele não tinha onde ficar em Recife para esperar pelo momento de ser chamado. Momento incerto, naturalmente sem previsão, que poderia demorar bastante. Mas ele precisava estar próximo do hospital onde seria feita o transplante.


Jorge não esperou pelo pedido, antes do homem completar ele concordou imediatamente.





O homem veio. O homem se mudou para a casa de Beta e Jorge.


As semanas se passavam lentamente. O humor de Jorge foi fundamental na situação angustiante e bizarra de esperar que alguém morresse, fosse doador e compatível. Durante esta longa espera a namorada do homem veio visitá-lo e naturalmente se hospedou na casa de Beta e Jorge.


Como o homem não podia sair de casa, à espera de um amigável defunto, o casal não apenas o mantinha em excelentes condições físicas, mas naturalmente entretinha aquela figura permanente, onipresente na casa. Um desconhecido, um hóspede sem tempo previsível de permanência, à espera de um defunto solidário.


Imagino que esta convivência permanente, os diálogos, esta espera, o bizarro e o non-sense de toda essa situação dariam um filme excelente. Mas não era um filme, estava acontecendo em Casa Forte.





Um belo dia chega a alegre notícia da morte de um doador. Como tudo estava preparado foi rápido chegar ao hospital. Começava a segunda etapa. A vida do homem dependia dos médicos. Correu tudo bem, o transplante foi um sucesso.


Agora começava a terceira etapa: torcer pela não rejeição do órgão transplantado. Os amigos de Beta e Jorge visitavam o homem no hospital. Os dias se passaram, não houve rejeição.


Faltava a quarta e última etapa. A convalescência.


O homem voltou naturalmente para a casa de Beta e Jorge. O casal fez algumas reuniões com amigos para comemorar o sucesso do transplante. Algumas semanas se passaram, mais alguns parentes do homem vieram se hospedar na casa do casal.


A convalescência terminou, muitos exames foram feitos, a vida do homem estava salva.





Neste ponto a história que já ficou divertida acabou tirando o foco da questão principal. Solidariedade.


Um casal hospeda um desconhecido por meses em sua intimidade, cuida dele, lhe insere em seu círculo de amizades, luta por ele e salva sua vida.


Uma honra ter Beta e Jorge como amigos.

sábado, 18 de agosto de 2012

Uma terra, um pássaro, uma menina


Três fados, três destinos. Uma terra, um pássaro, uma menina.


Portugal.


Uma terra no limite das terras, uma terra no fim das terras. Para além, nada mais. Só o horizonte, a imensidão do mar, os azuis. O desconhecido, o medo, a esperança. Na razão desta terra, deste povo, um destino. O fado de seguir adiante, de se aventurar, de descobrir, de talvez nunca voltar. Subir aos barcos, se lançar ao mar, se levar ao vento. Sentir saudade.


Uma Gaivota.


Não há pássaro que melhor represente esta terra. Vivendo nos limites da terra e do mar, ora ao mar, ora à terra. Branca como as velas dos barcos, velejando nas brisas, se levando ao vento, ora só, ora acompanhada. Tirando do mar e dos ventos seu viver.


Vahine.


Uma menina de mar e de vento. No sangue a rebeldia do avô Zarco, primeiro navegador de Sagres, descobridor da Madeira. Na identidade o nome de um barco. Na alma a poesia dos ventos, no sangue o gosto pela liberdade. Na vida uma saudade. Uma menina feita no além-mar de uma terra, nascida no além-mar da outra. Ligando nas duas o sonho do Infante.


Três fados, três destinos. Todos iguais. No mar, nos ventos, nas saudades.





Quinta-feira, 10 de Março de 2011.


A menina estuda Animação, cinema de animação. São 13:00hs, ela sai da escola próxima ao Mercado da Ribeira em Lisboa. Caminha em direção ao Cais do Sodré. Quando atravessa a avenida 24 de Julho ela nota um bando de gaivotas voando baixo, em círculos, logo acima da rua. Abaixo no chão, uma gaivota agonizante. Atropelada por um carro.


O sangue lhe regela. A menina corre para a gaivota, o trânsito para. Ela vê a gaivota caída. Um grupo de jovens ao redor grita:


- Está viva.


A menina se lembra de ter visto próximo à sua escola uma casa com uma placa: Associação Protetora dos Animais. Corre desabalada para lá. Parte do grupo a segue. Quando lá chegam já encontram um senhor que tinha se antecipado, chegado antes. Vendo os jovens a chegar o senhor olha espantado para o grupo.


- Estamos juntos pela mesma causa, diz a menina.





A menina explica a situação para a funcionária que estava a atender na clínica. Que fossem até lá, que socorressem a gaivota caída na rua. Mas ela nota que algo de mal se passa. O senhor esta nervoso. A funcionária diz,


- Não há cá nenhum veterinário.


- Como não? diz a menina, estamos numa clínica, numa Associação Protetora dos Animais, pois não? Faça alguma coisa, a gaivota está lá na rua a morrer.


A funcionária responde,


- Estou só, não posso lá ir. Não há cá veterinários e daqui não posso sair, chamem os bombeiros. O senhor se irrita. O grupo grita.


- Faça alguma coisa ela está a morrer, diz a menina.


- E não a tragam para cá, é a resposta da mulher.


O grupo se exalta, xingam a funcionária. O senhor exige o livro de reclamações.


- Quero seu nome, diga lá seu nome.


- Não há livro de reclamações, nem direi meu nome.


O senhor se irrita ainda mais, o grupo se exalta, a gritaria aumenta.





Imediatamente a menina sai da clínica e corre para o local onde estava a gaivota. Parte do grupo a acompanha, todos correm pelas ruas. Chegam ao local.


- Vamos leva-la para lá, já!


A menina olha em volta, descobre uma caixa de cartão vazia.


- Cuidado, a asa parece partida.


Com a gaivota na caixa correm e voltam todos para a clínica. No trajeto enquanto correm a levar a gaivota, a menina saca do telemóvel, liga para os bombeiros, fala com eles, explica a situação. Eles dizem que,


- Não podemos ir busca-la, tragam-na para cá.


- Não podemos, somos jovens, não temos carros.





Chegam de volta à clínica, o tumulto havia aumentado. O grupo de jovens, o senhor e a funcionária discutem. A menina coloca a caixa com a gaivota na frente da funcionária


- Já cá estamos. A gaivota está aqui, pelo amor de deus cuidem dela.


- Saiam todos que vou fechar a clínica, está na hora do meu almoço.


A confusão aumenta ainda mais, os xingamentos pioram,


- Peixeira.


No meio da confusão um amigo gay da menina em bico de pés grita seu mais pesado calão:


- Ordinária. Sua ordinária!


Os colegas riem da ferocidade do garoto. A funcionária já está histérica, gritando com todos. Neste momento o senhor passa-se dos carretes, grita com ela,


- És mesmo uma varina, não passas de uma varina. Vai-te à Madragoa.


Um dos rapazes se exalta,


- A gaivota está a deitar sangue, não me ponhas panos mansos. Não fazem um corno!


Outro passa dos limites,


- Cabrona, granda cabrona é mesmo o que és.


Ainda a falar ao telemóvel a menina pede aos bombeiros,


- Nos ajudem, por favor.


- Não podemos, vocês têm de levá-la para tratar à Monsanto.


- Não temos como lá ir. Passem-me para a Guarda Nacional!




Transferências de ligações são feitas entre departamentos. A menina sempre, sempre, sempre, sempre repetindo as mesmas explicações. A ansiedade aumenta. Finalmente a ligação é transferida para a Guarda Nacional Republicana, equivalente à Policia Federal brasileira. O tempo passava, a menina suava, a gaivota sangrava. Já muito ansiosa ela mais uma vez explica a situação, agora para a GNR,


- Por favor venham já.


- Mas você terá de se responsabilizar, precisamos de seu nome, seus detalhes.


- Não me importa, mas venham logo, ela está a morrer.


- Estamos a caminho.


A menina relaxa um pouco, afinal acima da GNR só mesmo apelando para as Forças Armadas.





Atraída pelo tumulto chega a polícia. Um policia da PSP, a policia de segurança pública, entra na clínica. O tumulto diminui um pouco. O policia entra, olha tudo ao redor, se aproxima da caixa onde está a gaivota. Abaixa-se até ela e tenta fazer uma festinha na cabecinha da ave. Ao tocá-la ele se assusta e se afasta. Todos correm para ele, lhe cercam e exigem que faça alguma coisa. Atordoado com tamanho tumulto ele diz alto a todos.


- Não posso fazer nada, não é meu departamento. E além de tudo ainda não estou a serviço, estou a caminho da esquadra.


E vai-se embora.





A indignação aumenta. A funcionária aproveita a confusão em torno do policia e enquanto o grupo estava distraído ela entra em uma outra sala. A menina nota o movimento e a segue. Quando a porta da outra sala se abre, a menina vê lá dentro uma outra mulher.


- Ó pá, mas quem é a senhora?


- Sou a doutora veterinária.


A menina não acredita.


- A senhora se esconde! Que absurdo. A senhora precisa atender a gaivota já, ela está a morrer.


- Não percebo nada de pássaros exóticos.


- Exóticos? Como exóticos? Lisboa está cheia delas.


- Não posso fazer nada, não sei o que fazer.


- Mas afinal cá não estamos numa Sociedade Protetora dos Animais?


- Isto aqui é uma clínica particular. Este nome, que tem mais de cem anos, é apenas uma tradição antiga. Sabias que é muito difícil mudar o nome de um estabelecimento comercial? Mas cobramos preços mais baratos.





A menina vai direto ao ponto.


- Não importa, faça alguma coisa, a senhora precisa atender a gaivota, ela está a morrer.


- Não sou obrigada a atende-la.


A menina se revolta, aumenta o tom de voz,


- Cá temos um absurdo, pois não? A senhora não respeita a vida? É inacreditável, a senhora não fez sequer um juramento ao se formar?


- Não fiz juramento algum.


- Como não? Minha mãe é dentista e fez. Coloque-a ao menos ao soro, pelo amor de deus.


- Saiam vocês todos daqui senão ligo para a esquadra, vou chamar a polícia.


- Não se preocupe minha boa senhora que cá já chamei a Guarda Nacional.





Intimidada a veterinária vai para o salão de entrada. O grupo se surpreende com a chegada dela.


- Quem é esta? Perguntam-se todos.


- É a veterinária!


Gritos, balbúrdia.


- Escondias-tes ó minha granda estúpida?


A veterinária se aproxima da caixa onde estava a gaivota, olha para ela e resolve levá-la para sua sala.


Se dirige para a gaivota, mas ao tomar a caixa nas mãos deixa-a cair ao chão. Silêncio mortal, todos olham pasmos. A caixa cai, a gaivota rola ao assoalho. A ave caída começa a sangrar pelo bico. Hemorragia interna. O grupo enlouquece. Gritam, avançam para a veterinária. Querem esganá-la. Entre xingamentos pesados, entre imensas palavras de calão se ouvem os gritos daquele garoto:


- Assassina! Ordinária. Sua ordinária. Não vales um cú!


A menina mais preocupada com a gaivota do que em agredir a veterinária tenta acalmar os colegas,


- Calma, calma, nosso problema não é a doutora. É a gaivota. Deixem-na fazer alguma coisa.


- Depois matamos esta assassina, responde o grupo.





A menina toma a gaivota e a leva cuidadosamente para a sala de atendimento seguindo a veterinária. Com a gaivota nas mãos ela sente entre seus dedos o coraçãozinho da ave já aos pulos. A veterinária deita a ave numa mesa e coloca-lhe um tubo de soro no bico. O sangue já se escorre pelos cantos.


- Por que então não lhe dás um calmante? Ela já tem o coração aos pulos, deve de estar muito nervosa.


- Já lhe disse que não percebo nada de aves exóticas.


- Exótica é a senhora que nunca olhou para os céus de Lisboa.





Ouvem-se batidas fortes na porta da clínica. O grupo silencia, correm para as janelas. A GNR chegara.


A menina corre para atender. Ela mesma abre a porta.

- Quem é a senhora Vahine? Pergunta um oficial.


- Sou eu mesma.


- Viemos buscar a gaivota. Vamos leva-la para o Centro de Recuperação de Animais Silvestres em Monsanto.


- Ótimo aviem-se, despachem-se por favor!


Os homens da GNR colocam a gaivota numa caixa transportadora e saem com a ave. O oficial diz à menina,


- Tenho pena, mas pelo estado da gaivota talvez ela não tenha sobrevida. Mas ela lá ficará e depois poderemos acompanhar o tratamento.

E saem rapidamente. A clínica aos poucos se acalma, se esvazia, as pessoas se dispersam. O senhor se aproxima da menina.


- Trabalho na Câmara de Lisboa, vou processar esta veterinária, vou mover-lhe um processo para lhe cassar a licença. A menina ouve calada, o pensamento distante, quase chorando. O que será da gaivota? O homem continua:


- Olhe minha menina, o que acabamos de ver é o espelho deste país, de nossos políticos, de nossos governantes. Um descaso total, uma irresponsabilidade total. Uma calamidade.





Triste, tensa, sentindo uma solidão amarga, a segurar o choro, a menina se afasta lentamente da clínica, deixando aos poucos para trás o lugar daquele pesadelo. Caminha para o Cais do Sodré para tomar o comboio para o Estoril, para voltar a casa. No caminho ela passa pelo local da avenida onde começara aquele dia. A pequena mancha de sangue já está escura, outros carros passam por cima. Umas penas brancas e pequeninas estão grudadas ao chão.


A menina entra na estação, procura a plataforma de embarque. Parada na plataforma, o olhar se perde nos trilhos do comboio que esta para chegar. Enquanto espera ela sente raiva. Uma tristeza salgada a tingir a alma, o céu a escurecer, a saudade de alguma coisa a acalmar o peito. Fado.


O comboio chega, ela entra, senta numa cadeira ao lado de uma janela para estar ao mar no trajecto. O comboio arranca, barulho de rodas nos trilhos, paisagem a passar, mar ao lado, horizonte ao longe. No céu não há mais gaivotas, só umas poucas velas de barcos.

Ela encosta o nariz no vidro da janela, o vidro embaça com sua respiração ainda tensa, ela esconde o rosto e soluça baixinho. De pena, de raiva. Muita raiva. Como estará a gaivota?



O comboio chega ao Estoril, a menina salta, caminha para casa, a alma vazia, os passos a lhe levar, o choro seco. Entra em casa, vai direto ao quarto. Uma noite imensa lhe espera. Imagens, tumulto, sangue de vida tão fugaz, tudo a lhe preencher as horas lentas até um novo dia. Sono entrecortado aos pesadelos. Um novo dia mudará tudo? E se meu pai que esta lá do outro lado deste oceano estivesse cá, teria sido diferente?  Não sei, mas pelo menos eu teria seu colo para voltar.

O dia clareia, leva a insônia. Chega vazio, indiferente, já cansado.





A menina decide procurar uma antiga professora de Integração Social. Uma ativista, especialista em direitos dos animais. Telefona-lhe, marcam e se encontram. Conta-lhe tudo, cada detalhe, cada absurdo, cada dor. Esvazia a revolta, divide a indignação. A professora ouve emocionada, calada. Compartilha a mesma dor, a mesma indignação. Mas no fundo sorri consolada. Ao fim da história, com um brilho nos olhos ela olha para a menina. Com esperança, com um carinho imenso lhe diz,


- Esta juventude ainda não esta perdida.


E se abraçam.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Uma aposta no Bóson de Higgs


Janet Conrad, física do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT),
apostou 10 moedas de chocolate Nobel com seu colega Frank Wilczek, prêmio Nobel
de Física em 2004, alegando que o Modelo Padrão do bóson de Higgs não existe.
Em 4 de julho, ela percebeu que teria que pagar pela aposta.





A recompensa, no entanto, acabou por se mostrar quase tão complicada
quanto as que alguns dos físicos que estudam os chamados diagramas de Feynman
usam para descrever as interações nas quais partículas como o bóson de Higgs
são criados e destruídos. Ou tão complicada quanto uma transação clandestina de
drogas. As moedas, estampadas com o selo Nobel, são vendidas apenas no Museu
Nobel.


Então, logo após o anúncio de 4 de julho, ela pediu que Chad Finley,
amigo e físico da Universidade de Estocolmo, fosse ao museu, onde ele comprou
os chocolates por cerca de 15 dólares. Finley, por sua vez, poderia ter enviado
a encomenda para os Estados Unidos, mas ficou preocupado com a possibilidade de
os chocolates derreterem e, em vez disso, passou-os para Szabolcs Marka, físico
da Universidade Columbia que estava na Suécia na época.





Marka os levou até Nova York e os passou para Matt Toups, pesquisador
de pós-doutorado que trabalha com Conrad e estava indo para o Fermilab, em
Illinois, onde Conrad estava trabalhando. Os dois embrulharam os bombons em
espuma de plástico para que não derretessem durante o trajeto de ônibus até o
Aeroporto La Guardia.


Conrad recebeu os chocolates logo antes de uma falha elétrica fazer a
temperatura dos escritórios do Fermilab subirem até o ponto de fusão do
chocolate. Por isso, levou o pacote para casa, em Cambridge, Massachusetts,
deixando-os com sua irmã enquanto participava de uma conferência de Física na
Virgínia e, em seguida, voltava para o Fermilab. "Eu não tenho visto os
chocolates, já que eles estão cuidadosamente embalados em espuma de plástico,
mas tenho certeza de que eles estão em excelente forma!", contou por
e-mail.





Wilczek, que está em New Hampshire, não viu os chocolates também, mas
contou que eles foram entregues em seu escritório.


Se as medições subsequentes determinarem que a partícula tem a rotação
errada e não é o bóson de Higgs, Wilczek concordou em pagar mil moedas a
Conrad, mas acha isso pouco provável.


"Vamos fazer algum tipo de
festa quando chegarmos ao ponto culminante da aposta; estamos arrumando os
detalhes", escreveu ele, acrescentando: "Vou comer um chocolate e
distribuir o resto".







The New York Times em IG.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Santa Inquisição


No período da Inquisição a humanidade, mais especificamente o Santo Ofício da Igreja Católica, produziu algumas das mais delirantes situações da história. Algumas delas do mais puro e refinado humor negro.










Havia uma grande cachoeira que a Santa Inquisição utilizava em suas operações contra as bruxas. Identificada uma mulher suspeita de bruxaria ela era amarrada e, seguida por uma grande multidão, era levada por um grupo de padres para o alto da cachoeira. Atirada lá do alto a suspeita despencava por dezenas de metros em meio às águas e às pedras.




Lá em baixo uma parte da multidão e alguns padres esperavam. Se a suspeita morresse da queda era uma evidência de que ela não tinha poderes, portanto não era bruxa. Era então absolvida, lamentada e lhe davam um piedoso enterro cristão. Se ela resistisse à queda e não morresse estavam comprovados seus poderes. Era mesmo uma bruxa. Era condenada e queimada na fogueira.










Outra prática repleta da mais sincera caridade era exercida por alguns padres que acompanhavam os hereges à fogueira. Eles insistiam até o último momento para que o condenado, antes de ser queimado, admitisse suas culpas. Que se arrependesse para alcançar a Salvação.




Este último ritual era realizado pelos padres com o herege já próximo à fogueira, ao lado do carrasco. Eles insistiam em dar uma última chance ao herege de salvar a pobre alma.




- Arrepende-te, arrepende-te!


Depois de muita insistência, se o condenado não admitisse a culpa atiravam-no ferozmente à fogueira. Mas se ele finalmente se arrependesse, os padres piedosamente ordenavam ao carrasco:




- Estrangulem-no! Rápido, antes que ele se arrependa de ter se arrependido.


Decapitavam e jogavam a cabeça com o restante do herege na fogueira.



terça-feira, 14 de agosto de 2012

Eric


Dia dos Pais. Eric meu filho mais velho me liga no sábado marcando para almoçarmos no domingo. Algumas horas mais tarde ele liga de novo, dizendo que em 10 minutos estará chegando em minha casa para me mostrar algo. Ele chega, diz que veio entregar meu presente. Fico muito feliz, ele me dá uma caixa que não consigo adivinhar o que possa conter. Abro e vejo um destes micro equipamentos de som high-tech super portáteis. Agradeço e ele começa a me explicar o funcionamento. O som é fantástico.





Mas esse ainda não era, pelo menos para mim, o verdadeiro presente.


Havia algo mais, e muitas vezes menor. Num minúsculo cartão de memória ele tinha escolhido e gravado mais de 300 músicas. Um trabalho carinhoso que deve ter lhe tomado muito tempo, paciência e dedicação. Era exatamente tudo quanto eu mais gosto de ouvir. Pop dos 60: Credence Clearwater Revival, Bo Didley, Wilson Picket, The Animals, The Human Beinz, Richie Havens, Otis Reading, Cream, Peter, Paul and Mary. Jazz: Art Blakey, Miles Davis, Wes Montgomery, Herbie Hancock, Dave Brubeck, Ella Fitzgerald, Oscar Peterson, Billie Holiday. E mais George Benson, Eric Clapton, Nina Simone, Ray Charles, Frank Sinatra, Jimmy Smith e Simon & Garfunkel.


Literalmente impossível ser mais preciso. Abracei-o longamente, pelo carinho, pelo enorme trabalho e por me conhecer tão bem.





Nunca consegui ter uma relação de pai e filho com o Eric. Para desespero da mãe dele e de suas namoradas fomos sempre muito amigos, essencialmente amigos. Desde o divórcio ele viveu comigo. Nos dez anos entre a separação e meu segundo casamento levei uma vida mais que alegre, namorando non-stop, passeando, viajando, velejando. Eric me acompanhava em quase tudo.

Minhas namoradas adoravam o garoto que era realmente muito bonito. Eric chamava a atenção, com seus cabelos loiros escorridos, uns olhos grandes e lânguidos e um jeito muito carinhoso. Uma mais atrevida me pediu para fazer um igualzinho nela.





Eric morou comigo não apenas no Brasil, mas em Portugal, Inglaterra e Alemanha.

Quando casei pela segunda vez e me mudei para Portugal ao fim de dois meses minha mulher diz que já não aguentava mais me ver chorar de saudade, que trouxesse o Eric logo para morar conosco. Ele veio e passamos grandes momentos em Lisboa e Sintra. Na verdade Eric sempre esteve por perto nos meus piores e melhores momentos.





Eu estava iniciando um pouso de asa delta, sobrevoando a areia, Eric correndo ao lado. Subitamente uma tesoura de vento atinge a asa, ela toma altitude, sobe, estola e cai de ponta. Eric assistindo tudo a metros de distancia. Quebrei duas costelas, esmigalhou-se o osso Radio do braço esquerdo, o braço direito desencaixou-se do ombro, fraturam-se a primeira vértebra lombar na base da coluna e a segunda cervical no pescoço. Eric correndo ao lado da asa assistiu a tudo. Tive de pedir para ele parar de chorar e me ajudar. Naquele dia São Pedro já tinha encerrado os trabalhos e eu fui para um pronto-socorro e para duas cirurgias.





Eric é louco por motos, aviões e carros esporte.

Estávamos na Alemanha e ele chegando do Brasil. Fui buscá-lo no aeroporto que ficava a uns 300 quilômetros de nossa casa com uma surpresa para ele. Eric aparece no desembarque muito excitado contando que por uma incrível coincidência tinha feito a viagem num MD-11 pilotado pelo tio dele, Marco Cerdeira. Voara na cabine com o tio comandante lhe explicando tudo sobre o avião e o voo.


Fomos para o estacionamento, ele me perguntando onde estava o Jaguar. Disse-lhe que tinha vindo em outro carro que estava mais adiante. Fomos andando entre os carros, ele a todo o momento se surpreendendo com as “maquinas” estacionadas. Nisso ele para absolutamente encantado diante de um Porsche Carrera S, ajuste da suspensão e rodas do Turbo. O garoto babava na maquina. Eu sorri e lhe entreguei a chave – Tome, dirija você. Ele não conseguia acreditar e prudentemente me pediu que eu próprio levasse o carro. – Ok, mas na Autobahn você pilota.





Não tive nenhuma prudência: 240 km/h. Nevava uma das maiores nevascas daquele inverno. Tudo absolutamente branco no céu e na estrada. Eric coitado estava tenso, acabara de chegar de uma longa viagem intercontinental e estava agora voando baixo num inferno branco. Semanas depois descobrimos juntos, na prática, a resposta a uma das questões do Porsche. Algumas pessoas dizem que ele sai excessivamente de traseira, outras dizem que ele também solta a dianteira. Alegremente descobrimos que ambas têm razão, é só provocá-lo. E nós o provocamos, e como.





Eric fez uma grande amizade com nosso vizinho Jochen Nevries.

Nevries é caçador esportivo e detêm a concessão legal da demarcação de caça na região da Alemanha onde vivíamos. Ele é a pessoa que libera a compra de armas e munições, emite as autorizações de caça e determina as cotas de animais que os caçadores podem a abater.


Não é minha praia. Eric aprendeu a gostar. Ele e Jochen se dedicavam não apenas às caçadas, mas também à construção dos postos de espera que são pequenos abrigos-observatórios de madeira no alto de um poste onde o caçador fica à espera da presa. Um deles foi batizado com uma placa: Eric.





Eric depois me contava os detalhes fascinantes de uma caçada noturna no inverno. O planalto central europeu imenso, completamente nevado, branco e sem rastros, o frio congelante de 26 graus negativos, uma bebida quente e forte, o silencio profundo de um campo nevado, o céu de um azul escuro quase negro, a claridade da lua cheia se refletindo na neve imensa, plana, prateada. Súbito aparece um javali na pradaria enorme. Segue-se o ruído seco do tiro. O javali é atingido. O javali corre, deixando um rastro vermelho intenso, riscando a imensidão branca. Após algum tempo ele cai. Tudo silencioso, frio, prateado. Uma longa linha vermelha risca o branco.





Hoje Eric é pai de uma linda menina e deu-lhe o nome de Erika.

Fiquei feliz que ele tivesse escolhido para a filha o mesmo nome que escolhi para ele. Mas apesar dele demonstrar que gostou da minha escolha ao mesmo tempo parece insinuar que eu não soube grafar o nome corretamente.


Obrigado Fofão pelo maravilhoso Dia dos Pais.

Tragédia na Cultura Brasileira


A tragédia de ontem, segunda-feira 13.08.12, no apartamento de Jean Boghici chama a atenção para o descaso com a Arte no Brasil. O incêndio na cobertura do colecionador pode ter destruido obras de Di Cavalcanti, Alberto Burri, Milton Dacosta, Cícero Dias, Carlos Vergara, Guignard, Antonio Dias, Vicente do Rêgo Monteiro, Tarsila do Amaral e Victor Brecheret, além de mobiliários de Joaquim Tenrreiro e Sergio Rodrigues. Dos estrangeiros há Lucio Fontana, Modigliani, móbiles de Calder e obras de Rodin. O prejuízo para a arte brasileira é incalculável.





Jean, um dos maiores marchands do Brasil, movimenta a arte brasileira há muitas décadas. O acervo, um dos maiores do país, vinha sendo construído há mais de 60 anos. Leonel Kaz diz que a arte brasileira poderá sofrer um golpe tão grande ou maior do que o incêndio do MAM nos anos 70.


Coleções particulares são propriedade privada e têm de ser respeitadas como tal. Mas coleções deste porte não podem ser esquecidas pelo Estado pelo patrimônio cultural que representam. É do interesse público que elas sejam protegidas. Ou se dando incentivos para que elas sejam doadas ou protegendo-as em um museu ou oferecendo os recursos para sua segurança física e patrimonial. Não é impossível para os órgãos de cultura dos estados identificá-las e protegê-las.





O mesmo acontece com grandes bibliotecas privadas que muitas vezes ficam à mercê da falta de recursos de seus proprietários para cuidar delas. É do interesse comum que elas sejam catalogadas, preservadas e protegidas da deterioração, de acidentes ou de situações absurdas.


Conheço um caso criminoso.

Um dos maiores nomes da literatura brasileira, membro da Academia Brasileira de Letras teve sua biblioteca jogada no lixo por sua viúva que após a morte do marido decidiu se livrar do que para ela não passava de um transtorno na casa.

sábado, 11 de agosto de 2012

Um Veleiro chamado Vahine


Mulher, em maori, o Vahine era um pequeno veleiro.


Na cabine interna havia uma cama dupla em V na proa e duas camas normais em cada lateral, no centro em baixo da escada de acesso havia uma grande geladeira e um fogão. Na parte de fora havia um enorme cockpit onde se sentavam seis pessoas. Às vezes mais. Um veleiro simpático e suficiente para se navegar e se divertir na Bahia de Todos os Santos, em Salvador.






Vahine significa mulher em maori, a língua dos nativos das ilhas do Pacífico Sul. Paul Gauguin, o impressionista francês, em seus anos no Tahiti achou que tinha descoberto um paraíso intocado pela civilização. Lá ele pintou muitas obras-primas e muitas "vahines" fazem parte desta fase. Gosto muito destas pinturas e por isso escolhi o nome de Vahine para este veleiro.

Foi um caso de amor à primeira vista. Com a experiência que tinha ganhado em veleiros de amigos e em regatas comecei a navega-lo sem restrições. Na maior parte das vezes sozinho. Foi das melhores coisas e experiências que já tive.






Aconteceu de tudo um pouco. Na primeira vez que o velejei, sai numa sexta-feira direto do trabalho, com um monte de compras, comidas e bebidas para um fim de semana. Saí sozinho e à noite. Antes de me fazer ao mar perguntei a um dos marinheiros dos barcos que ficavam próximos de onde o Vahine ficava apoitado.


- Vou para a ilha de Itaparica, como faço para chegar lá?


- Vá na direção daquelas luzes mais fortes. São as luzes da atracação dos ferry boats lá na ilha. Cuidado para eles não passarem por cima de você.


- Ok, obrigado.


Armei a vela grande (do mastro) e a genoa (de proa), cacei e recolhi os cabos de atracação e comecei gentilmente a navegar com meu novo amigo. A brisa suave da noite, o colorido e as luzes da cidade que se distanciavam e um grande céu estrelado eram meu ambiente. À frente a escuridão de um mar tranqüilo e conhecido. O objetivo, uma luzes amigas.






O Vahine estreava nossa amizade com um balanço suave, umas velas brancas cheias de vento, um suave murmurar na água, uma velocidade agradável. Não sei qual dos dois estava mais feliz. Vahine por estar tão bem em seu elemento, roçando seu casco branquinho em águas tão agradáveis, ou se eu por ser seu convidado nesta festa. Felizes estávamos os dois com certeza. Eu sabia que era o começo de uma grande amizade e resolvi brinda-la com um uísque. Ao fim de pouco mais de duas horas chegávamos na ilha.


Os ferry boats vistos de tão baixo eram enormes e assustadores. Naveguei entre eles e outros barcos. Procurei um lugar para ficar, soltei ferros e ancorei.


Recolhi as velas, organizei tudo no cockpit e fui preparar alguma coisa quente para comer. Jantei no cockpit, coloquei algumas músicas, tomei mais alguns uísques e fiquei desfrutando aquele ambiente, aquela primeira velejada deliciosa, aquela sensação gostosa de que está tudo funcionando bem. Depois dos uísques fui dormir minha primeira noite no Vahine.






Acordei numa manhã esplêndida, exageradamente azul e brilhante. 


O casco branco do Vahine refletia em meus olhos uma festa de luz e de cores da ilha que agora eu podia ver melhor. Há poucas coisas mais agradáveis do que chegar à noite de veleiro e amanhecer em um lugar bonito. A surpresa do inesperado, a sensação de estar envolvido pela beleza de um lugar ou de detalhes até então desconhecidos é inesquecível. Por isso há tanta gente que passa anos velejando mundo afora.


Sorrindo respirei fundo muitas vezes antes de voltar à cabine, tomar o café da manhã e me preparar para continuar a velejada. Recolhi a ancora, levantei as velas, apontei ao largo e comecei a contornar a ilha. Olhando praia por praia, vila por vila. Praias que apontavam, surgiam, ficavam próximas e passavam enquanto o Vahine me levava num passeio sem fim. Bastava cuidar das velas, manter o rumo e desfrutar da paisagem. Navegar é preciso. Viver mais ainda.




Essa amizade teve momentos apaixonantes.


O Vahine cada vez me entendia melhor e eu a ele. Conhecíamos nossas limitações e não exigíamos do outro o que não éramos capazes de fazer. E assim, cada vez nos entendendo melhor, passamos dias maravilhosos, passeios de profundo encantamento. Situações de beleza emocionante.

Como numa noite de céu absolutamente claro e lua cheia. Nosso rumo por acaso nos colocou numa rota exatamente em cima do reflexo da lua nas águas do mar.


Tudo escuro, o mar muito calmo, com pequeninas ondas formadas pela brisa que nos carregava.


Ao nosso lado pequenos peixes prateados saltavam e mergulhavam no mar. Um silêncio absoluto onde só se ouvia o barulho das velas recebendo a brisa. No céu estrelado, uma lua redonda, clara, enorme, começava a se aproximar do horizonte. Embaixo de tudo isso um rastro prateado no mar. Uma estrada enorme, prateada, luminosa. Um rastro infinito, muito largo, uma estrada de luz em direção ao horizonte. Neste cenário de paraíso o Vahine alegremente navegando me conduzia por essa estrada de luz prateada.






Este amigo também me acompanhou em situações difíceis. E como bom e verdadeiro amigo não me deixou só. Nem por um segundo. Sempre ao meu lado compartilhando meus medos e ansiedades.


Como uma vez em que o mastro se partiu com convidados à bordo. Sem pânico e na verdade com muito bom humor, conseguimos restabelecer alguma potência nas velas e voltar para casa.


Ou em uma outra situação, desta vez velejando sozinho, em que uma das ferragens do leme se partiu e ficamos sem ele. Sem leme no meio do mar.


O Vahine nunca se atrapalhava nestas situações, nem me deixava tenso por conta delas. Depois de colocar no mastro o sinal de pedido de socorro, que no mar é coisa seríssima, fomos rebocados por uma lancha. Quando a lancha se aproximou o marinheiro perguntou se queríamos voltar ou seguir em frente. O Vahine jamais voltaria assim para casa, desanimado, com um passeio estragado. Fomos em frente. Ficamos em uma ilha, Ilha de Maré, lá conseguimos um mecânico que improvisou uma peça de reposição. Ficou tão bem feito que o pino novo ficou melhor do que o original.






Nos entendíamos tão bem que muitas vezes o Vahine velejava sozinho, sem que eu precisasse ficar ao leme ou segurar os cabos das velas. Como em uma manhã absolutamente azul, em que depois de regular as velas e fixar o leme ele me deixou ficar lá na proa, vendo seu casco abrir caminho no mar. Me permitiu por alguns bons e longos minutos ouvir um enorme solo de jazz, tomando um uísque e comendo umas coisinhas. Difícil encontrar amigo melhor.


O Vahine me levou por grandes velejadas, mesmo as que foram interrompidas por alguma calmaria, molhadas demais por alguma chuva ou barulhentas demais por causa de algum vizinho de porto.


Algumas foram solitárias, outras bem acompanhadas e algumas muito amorosas. O Vahine sempre muito discreto dessas nunca comentou nada. Sempre bom amigo, às vezes irmão, quase sempre um terapeuta. Eventualmente foi um confidente. Lá no meio do mar ninguém se espantaria se nos ouvisse conversando.


O que mais me marcou na minha amizade com o Vahine foi o que aprendi com ele. Não apenas nas lições de poesia e beleza que ele me conduziu, mas principalmente na mais dura e importante lição de minha vida.






Final de Dezembro. Tínhamos velejado para Itaparica e ficado apoitado em frente da casa de um amigo. Passamos o dia 31 juntos com ele, amigos e família, aproveitando o último dia do ano. Depois do almoço me despedi avisando que estava voltando para Salvador.


- Por que não fica e rompe o ano conosco?


- Prometi a minha mãe e a meu filho que passaria com eles.


- Então dê um abraço nos dois.


E parti. A tarde estava muito agradável e apesar do vento contra em cerca de no máximo três horas estaríamos na Enseada da Ribeira. Isso por um cálculo para lá de pessimista que era a margem que eu tinha para chegar bem e me preparar para a festa de Réveillon. A velejada de volta estava agradável apesar do contravento. Eu fazia bordos longos para aproveitar melhor o través, velejando mais confortavelmente. A velejada prometia ser mais uma daquelas que o Vahine sempre fazia. Ele conheci muito bem o caminho.






Mas eis que de repente o vento da cabeça de uma  frente-fria começa a soprar. O céu começa a ficar escuro, nuvens pesadas se aproximam. Começa a se formar um tempo pesado. Mudou tudo. Mudou completamente. O vento agora estava forte. Folguei as velas para não forçar o equipamento, mesmo por que com potencia demais no través qualquer barco atrasa mais que adianta.


O vento aumentava, e aumentava muito. A força da cabeça da frente estava anunciando ventos muito fortes. Conferi nossa posição, estávamos a meio caminho. Tanto fazia continuar como voltar. Eu sabia que o Vahine entenderia minha prudência se eu decidisse voltar atrás, mas não fazia diferença. Estávamos no meio do caminho e o vento seria difícil em qualquer das duas situações. Não havia uma posição mais favorável que a outra. Melhor então era continuar.






O maior problema é que estávamos sem velas adequadas. As velas que tínhamos eram velas leves para vento fracos e médios. A solução era velejar com as velas mais folgadas e fazer bordos maiores. Mas o vento começou a aumentar ainda mais. As rajadas faziam o Vahine adernar com violência e faziam o mar lavar o convés  A água rompia pela proa, passava pela cabine e descia pelo cockpit. A situação estava ficando preocupante. Nesta altura as velas já estavam completamente inadequadas para a situação. O céu que estava escuro ficou fechado. Com toda a força do vento o Vahine velejava com dificuldade em bordos imensos que não estavam nos levando muito adiante. Ele se ressentia da força do vento e agora das ondas que se formavam na proa. As ondas ficavam cada vez maiores e difíceis de ultrapassar. Nestas subidas de onda o Vahine perdia muita velocidade e quase parava. Ao recuperar o rumo e a velocidade as velas batiam muito e os estais, cabos de sustentação do mastro, rangiam e batiam um bocado. O Vahine estava sofrendo muito naquela situação que eu o tinha colocado.






Eu já estava completamente molhado pelas ondas que batiam e me equilibrava o melhor que podia no cockpit. E esperava que o Vahine pudesse aguentar toda aquele esforço. Começou a chover. A água da chuva me trouxe algum conforto me lavando de todo aquele sal na roupa e no corpo. Mas não por muito tempo, pois logo eu estava absolutamente encharcado. A chuva era muito forte, o dia escurecia, nosso objetivo ainda estava distante. Escureceu completamente já não se enxergava nada. A chuva cobria tudo apenas o vago clarão da cidade se avistava ao longe. O vento piorou, as ondas ficaram maiores, a chuva estava pesada. Já era noite.

Agora o Vahine estava no meio de uma tempestade e sem equipamento. Não tínhamos uma storm jib, vela de tempestade, para substituir as de proa nem sistema de redução na vela do mastro. Estávamos velejando em uma tempestade com velas para vento fraco e médio.


O risco para o Vahine era muito alto, as velas podiam se rasgar ou os cabos de sustentação do mastro não suportarem a pressão. E se suportassem a pressão poderiam partir o mastro ao transferir potencia para ele. As opções críticas eram velas rasgadas, estaiamento partido ou mastro quebrado. Supondo que o leme resistisse a tantas pressões.






O tempo piorara. O vento estava instável, as rajadas tinham deixado o mar com ondas vindo de todas as direções. As ondas desencontradas deixavam ainda mais difícil para o Vahine manter um rumo. O vento instável não deixava as velas manterem um potencia constante. O Vahine estava numa situação muito perigosa. Nosso rumo estava difícil de manter, os bordos estavam cada vez mais longos e o objetivo distante. O Vahine parecia resistir a tudo isso.

E eu? Eu estava com medo. Muito medo. Sabia que os riscos para o equipamento naquela tempestade eram altíssimos e a probabilidade de quebra iminente. A qualquer momento algo poderia se partir e se qualquer coisa se rompesse, fossem as velas, o mastro, o estaiamento ou mesmo o leme, a conseqüência inevitável seria o naufrágio.


Fazia horas que estávamos nessa situação, eu estava tenso, cansado. O mais esmagador numa situação como essa é que você não pode desistir. Não dá para parar o jogo. E pior, não tem a quem pedir ajuda. Você está sozinho e tem de se manter sob controle. Não dá para desesperar, não dá para fugir. Sem alternativa. Você tem de enfrentar a situação, tem de ter calma e tem de vencer. Você não tem a opção de perder, só a de ganhar. Sem alternativa, sem chance. Você tem de ir em frente e vencer.






Já era noite escura. Os bordos eram longos e desanimadores, eu passava na frente dos mesmos marcos referenciais muitas vezes conseguindo ganhar muito pouca altura. A cidade, o objetivo, parecia fugir das minhas mãos e cada bordo me jogava de novo mar adentro. O bordo seguinte me aproximava um pouco mais do objetivo, mas muito devagar. Apesar da sede beber água era um sacrifício, por conta do subir e descer nas ondas; um malabarismo para beber mais do que perder a água que se derramava das garrafas. Por conta da sede, de um pouco de fome e do grande cansaço comecei a ouvir algo absolutamente fascinante. Coisas que náufragos e marinheiros contam. Assobios de sereias, choros de crianças, vozes de mortos. O mar desencontrado, as ondas em várias direções criam vales, caminhos e túneis por onde o vento passa em vários sentidos e em várias velocidades. O resultado são sopros, assobios e sons semelhantes a choros, gemidos e sussurros, nos mais diversos tons, alturas e durações.


Fascinante vivenciar o que fez tremer tantos náufragos e marinheiros. Dá para entender por que eles se amedrontavam.




Mesmo com todas as ondas, chuva, vento forte e neste ambiente de medo e ansiedade, continuamos em direção ao nosso objetivo. Eu agradecia a resistência de meu amigo e sabia que ele esperava o mesmo de mim. Aos poucos a tempestade foi diminuindo e já se via melhor as luzes da cidade. A chuva acabou mas o vento continuava forte. O Vahine já conseguia navegar melhor e corajosamente aguentava um esforço para o qual não estava preparado.


O tempo melhorou e em mais algumas horas o Vahine estava em um bom rumo, bastante paralelo à cidade e na direção da entrada da enseada da Ribeira. Minhas mãos estavam quase feridas de segurar o leme e de tanto soltar e apertar os cabos das velas. Mas finalmente estávamos indo no que parecia ser o último dos bordos em direção ao nosso porto.


Quando estávamos quase chegando à boca de entrada da enseada da Ribeira comecei a ouvir os estrondos e as luzes de fogos de artifício. Já era meia noite. Os fogos pipocavam por toda a cidade, o céu se iluminava de cores e festa. Estávamos neste momento entrando na enseada da Ribeira. A cidade comemorava a chegada do Ano Novo. Comentei com o Vahine:


- Não precisava tanto, é muito exagero só por que estamos chegando.






A cidade comemorava a chegada do Ano Novo e eu comemorei nossa chegada com um enorme palavrão que só o Vahine ouviu. Juntos acabáramos de enfrentar dez horas e meia de tempestade. Ele chegara inteiro. Ele me trouxera inteiro de volta. Beije-lhe o casco branco, salgado, cansado.


No dia seguinte li nos jornais que alguns barcos tinham naufragado e algumas pessoas tinham morrido. Nunca em toda a minha vida alguém havia me ensinado tão completamente o valor da perseverança. Nunca ninguém havia me feito compreender tão bem que não se pode desesperar, não se pode desistir, que as dificuldades existem para serem enfrentadas, que o medo é para ser dominado, que o cansaço é para ser esquecido.

Nunca eu tinha sentido tão de perto que desistir é morrer e que a melhor alternativa é vencer.



Tudo isso o Vahine me ensinou. Alguns anos depois, quando uma linda menina nasceu para ser minha filha eu lhe dei o nome de Mulher. Em Maori.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Márcia. Garota do Leblon.


Márcia. Conheci a Márcia no curso secundário. Tínhamos 16 anos. Eu estava me transferindo do Colégio Pedro II do Botafogo para o Colégio Rio de Janeiro em Ipanema, que ficava na mesma Rua Nascimento Silva onde eu morava. Ela estudava lá.





Quando entrei pela primeira vez na sala a primeira coisa que vi foi aquela menina. Quase da minha altura, um rosto bonito, um corpo lindo, de minisaia. Os hormônios ferveram. Ela morava no Leblon. Nas saídas da escola, que era próxima do Jardim de Alah, eu passei a acompanhá-la para casa. Conversávamos muito, mas nada além. Depois de algumas semanas antes de irmos para casa passávamos numa pizzaria e tomávamos umas Pepsis.





Apaixonamo-nos. Intensamente.


Nesta época um amigo de um primo, bem mais velho que eu, se tornou também meu amigo. O Mauro morava sozinho num apartamento enorme na esquina da Montenegro com a Nascimento, bem ao lado da Helô. Eu estava sempre por lá ouvindo a coleção de jazz dele. Ele trabalhava na TV Globo e passava o dia inteiro fora de casa. Ele conheceu a Márcia, notou nossa paixão e me ofereceu a chave do apartamento.





Márcia era muito bonita.


Quando fomos à praia pela primeira vez notei o problema que tinha nas mãos. Bronzeada, com um biquíni cenoura, todos literalmente no Leblon ficavam de olho nela. Na época havia a rivalidade dos garotos do Leblon com os de Ipanema o que às vezes não terminava muito bem. Propus que passássemos a ir à praia na minha praia. Não adiantou. Os garotos de Ipanema da minha turma não tiravam o olho dela. Resolvemos que cada um iria para sua própria praia e pronto.





Na época a Helô era objeto de desejo de todos, a música tinha explodido e Ipanema por todos os motivos estava na moda. Nesta época foi filmado o Garota de Ipanema com a Márcia Rodrigues, que estudava na nossa escola. Depois do sucesso nos cinemas nossa escola ficou conhecida como a escola das Márcias. Uma delas era a minha namorada.


A chave do apartamento do meu amigo, disponível, ali tão próximo, na mesma rua da escola, coçava no bolso. Aconteceu.

A partir daí não havia horário de recreio, aula vaga ou saída da escola que não aproveitássemos para ouvir jazz. Tínhamos os dois, aulas particulares de inglês. Começamos a faltá-las e falsificar a assinatura de presença. Preferíamos ir para o apartamento e treinar nosso Yes.





Depois casamos, tivemos dois filhos, separamos, casamos novamente, separamos novamente. Hoje somos muito amigos, dividimos generosamente nossos problemas, reclamamos dos filhos e de nossos respectivos namorados e namoradas.


Viramos dois irmãos. Não se rasga uma história de vida.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Aniversário de 80 anos das Autobahnen


Hoje, 5 de Agosto de 2012, as Autobahnen completam 80 anos.


As estradas alemãs são muito mais que auto-estradas perfeitas, elas fazem parte inseparável da cultura do país, tanto quanto samba, carnaval e futebol no Brasil. Quando a Comunidade Européia, que regula até o tamanho das laranjas e batatas, quis limitar a velocidade nas estradas alemãs eles disseram que era mais fácil saírem da Comunidade do que aceitar qualquer limitação de velocidade.


Certíssimos.





A rede das estradas foi criada de forma a cruzar estrategicamente o país, tornando possível não apenas a movimentação racional de cargas e veículos, mas também o rápido acesso militar aos pontos vitais nas fronteiras. Elas têm uma profundidade enorme de camadas superpostas de concreto, borracha e asfalto com capacidade de suportar as toneladas dos tanques e funcionar como aeroportos.

A Autobahn é um componente político, econômico e militar essencial da Alemanha. 





A Autobahn mais que tudo isso é parte essencial da psique nacional. E vicia. Cria dependência mesmo.


Quando mudamos para lá minha mulher olhava horrorizada para o velocímetro reclamando que estávamos a mais de 160 km/h. Meses depois ela própria já estava a 200 km/h. Se você fica mais de duas semanas sem usar começa a procurar motivos para fazer alguma viagem.

Assim como se vai à praia as pessoas vão aos sábados para as Autobahnen pelo prazer de andar o mais rápido possível. Nos finais de semana muitas vezes você é ultrapassado por quatro ou cinco Porsches de amigos que saíram para dar umas voltas a mais de 250 km/h.


Mas preste atenção no retrovisor por que pode estar crescendo um ponto vermelhinho ao longe. Passou. À vezes não dá nem para saber se foi uma Ferrie ou um Lambo.





As Autobahnen têm uma camada de borracha para torná-las mais silenciosas. Você sente perfeitamente quando cruza a fronteira, vindo da França, por exemplo, que o carro ficou mais suave, que os pneus estão mais silenciosos. Por isso os alemães se ressentem com o ritual dos muçulmanos, pois é muito difícil aceitar que se pague altos impostos para ter ruas silenciosas e os muezins fiquem berrando de manhã cedo chamando os fiéis para orar.


Trajetos de menos de 400 km são mais rápidos de percorrer de carro que de avião. Um amigo que ia junto com um colega de escritório para uma reunião de negócios em uma cidade próxima se atrasou para o embarque no aeroporto. Foi direto de carro para a cidade de destino e chegou a tempo de buscar o colega no desembarque do aeroporto.





Disciplina conta muito. Ninguém usa a terceira, a quarta ou a quinta pista a não ser para ultrapassar, ela está sempre livre. E, novamente, preste atenção no retrovisor: só se dá um toque no pisca, uma única vez, e se ultrapassa.


Sangue frio conta mais ainda: vi um caminhão pegando fogo a 140 km/h. Parar por quê? Melhor encontrar um lugar mais espaçoso para parar.


Vi a roda de um trailer de dois eixos se soltar: a roda quicava no asfalto, subia e descia. Ninguém perdeu a calma, cada vez que ela descia o carro que iria ser atingido desviava um pouco, ela batia no chão subia novamente e o carro retornava a sua posição. Todos fizeram esse balé até que a roda parou em algum lugar. Não houve acidentes.





A situação de maior sangue frio e autocontrole coletivo que já vivi foi numa estrada secundária em construção no lado oriental.


Era noite. Só um dos lados da Autobahn estava pronto e era usado em via dupla. Quatro filas de carros ocupando o lugar normal de duas. Uma fileira de pequenos postes com luzes vermelhas no topo, no meio do asfalto, separava apenas por um palmo o fluxo entre os que iam e os que vinham. 


Em plena noite a estrada estava completamente cheia, duas filas indo e duas filas vindo, todos a mais de 140 km/h e colados uns nos outros. A velocidade de cruzamento entre os que iam e os que vinham às vezes passava dos 300 km/h. Os carros se cruzando a centímetros uns dos outros a quase um terço da velocidade do som.

As luzes vermelhas na janela passando estroboscopicamente a mais de 140 km/h. O facho dos faróis dos carros contrários a mais de 280 km/h. Durante mais de uma hora não dava para mover o volante um milímetro na direção errada. Não dá para mudar de pista, não dá para parar, não dá para deixar de ultrapassar, não dá para errar.


Numa ultrapassagem minha mulher teve de abrir a janela dela para fechar o retrovisor do nosso carro e o retrovisor do carro ao lado para que se pudesse ultrapassa-lo a mais de 150 km/h. Você acha que é impossível sair vivo, mas sai, todos saem. E quer saber? Uma semana depois você vai querer mais.




Viciei-me em Autobahn. Muitas vezes saía do trabalho e antes de ir para casa ia para a estrada, rodava uns oitenta quilômetros em máxima e depois voltava.


No meio de um fim de semana prolongado de Páscoa aproveitei o intervalo em que as estradas estavam vazias para me divertir a 275 km/h. Foi o meu máximo, as pernas quase tremiam quando parei para reabastecer. Ouvindo jazz, à noite, 230 km/h nas curvas e tudo que o carro dava nas retas.


Brinquei de tentar fazer escorregar a traseira nas curvas dando pequenos toques no volante para provocar uma leve derrapagem. Ainda bem que não aconteceu, pois com certeza eu não teria como controlar uma derrapagem a 220 km/h.


Mas foi bom, melhor que sexo.