segunda-feira, 1 de abril de 2013

Os Brutos Também Amam


Aconteceu nesta quinta-feira.


Um ladrão havia trocado tiros com a polícia em Salvador e foi morto no tiroteio.


Instituto Médico Legal, atestado de óbito. Corpo entregue à família, velório no Campo Santo.






A policia imaginando, corretamente, que no velório poderia aparecer algum coleguinha de profissão do larápio também compareceu. Ficou a espera que algum suspeito chegasse. Dito e certo.


A certa altura aparece no velório um procurado pela Lei. Chegou de mansinho na sala para se despedir do colega. Aproximou-se do caixão.


Identificado pela polícia recebeu ordem de prisão no ato, na frente de todos. Começa a confusão. O larápio corre para o caixão,


- Socorro Nenéo, eles querem me prender.


O defunto parado estava, parado ficou. O ingrato não moveu uma palha para ajudar o bróder.


- Nenéo não deixa eles me levarem!






A policia tenta segurar o rapaz. Ele se agarra ao corpo do amigo. Puxa de lá, puxa de cá.


- Nenéo não deixa eles me levarem Nenéo. Nenéo me ajuda.


E Nenéo nem se tocava, quietinho. Não queria nem saber de nada daquela confusão. De prega, deitado de bôa.


Os presentes no velório já começavam a rir. A policia segura o rapaz. O rapaz não larga o amigo.


Puxa de lá puxa de cá, o caixão começa a balançar. As velas começam a cair, as flores já estão pelo chão, a família tenta consertar a bagunça.


Um crucifixo enorme que estava em um pedestal na cabeceira do defunto cai fazendo um barulhão. Quase atinge a cabeça de uma senhora de idade. Ela começa a se benzer.


- Valei-me Iansã, qui confusão da porra!






Os presentes viraram plateia. A plateia começa a rir.


- Nenéo não me deixa, Nenéo me ajuda, Nenéo não deixa eles me levarem.


A policia agarrada ao rapaz. Puxa de lá puxa de cá. Cai o caixão. Nenéo rola pelo chão, o amigo abraçado rola junto.


- Nenéo não deixa eles me levarem.


As salas dos outros velórios se esvaziam. A sala de Nenéo se enche de gente. O defunto no chão, o amigo abraçado, a policia em cima. O povo rindo de se acabar.


- Solta o Nenéo, discarado.


- Deixa Nenéo em paz, vagabundo.


A policia tenta acalmar os ânimos, tenta esvaziar a sala. Empurram os curiosos para fora, cassetete na mão.

- Se adiante, se adiante, aqui num tem nada pra ninguém.

A família se desespera. O padre se retira, carregando o enorme crucifixo nas costas.

- Deus é mais!

 O bróder não larga Nenéo. Os dois abraçados ali no chão.






Situação dominada. O colega algemado.


Os amigos ajudam a policia a recolocar o caixão no lugar. Uma servente do cemitério varre as flores espalhadas pela sala. O defunto ainda no chão. A servente dá umas vassouradas nas pernas de Nenéo para limpar umas folhas.


Família e amigos recolocam Nenéo dentro do caixão.


- Eita sacana pesado!




A policia retira o amigo algemado da sala. O povo vaia, assobia, grita.


- Discarado!

- Deixa o defunto em paz, filadaputa.


O rapaz sai cabisbaixo, algemado, chorando. Sai do velório arrastado pela policia. De repente ele para, olha para trás, olha o amigo pela última vez e soluça choroso,


- Nenéo eles estão me levando Nenéo.

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