sábado, 20 de abril de 2013

Eric e o pedinte. Um pedinte do caraças.


Todos os dias voltávamos de Lisboa para Sintra.


Eric meu filho, Vahine minha filha, Sandra minha mulher e eu. Invariavelmente tomávamos o mesmo
comboio (trem) no mesmo horário. Preferíamos não usar o Mini por conta dos
longos engarrafamentos na A9, a CREL - circular regional exterior de Lisboa.


De tanto viajar no mesmo comboio com o tempo se
conhece algumas pessoas que frequentam o mesmo horário. Normal.





Havia uma figura, um pedinte. Um homem alto, magro,
relativamente bem vestido, de aparência saudável. Saudável mesmo.


Ele sempre estava lá, uma presença tão certa quanto a do
pica (fiscal que pica os bilhetes). Ele passava de uma carruagem (vagão) para
outra abria a porta e recitava sempre a mesma cantilena. A voz baixa. O 
rosto triste. Muito triste,


- Tenho fommm... (fome).


As pessoas já acostumadas nem lhe davam atenção. Ele
continuava,
 quase choroso,


- Tenho as diabetes, tenho ossos fracos, cá tenho a tensão alta, não tenho o baço, já tirei partes dos
intestinos, um rim não funciona, tive ataques do coração, sou hemofílico, tenho
cancro (câncer) no estômago e na pelll (pele), só um pulmão está a funcionar.





Dava vontade de rir. O homem era uma enciclopédia ambulante de
doenças graves. Gravíssimas. Ele continuava,


- Não posso trabalhar. Minha mulher me abandonou. Lá em casa, a esperar pelo pão, tenho
putos e raparigas (meninos e meninas).


Aí é que dava mesmo vontade de rir, mas nos controlávamos.
Até que um dia ele acrescentou mais uma doença,


- Tenho Sida (Aids).





Aí o Eric não aguentou e disse em bom brasileiro (português
falado no Brasil),


- Putaqueôpariu! E ainda estás vivo?


A portuguesada sempre muito formal começou a rir
disfarçadamente. Até o pica riu,


- Esses brasilairos...

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